30 outubro 2006

Socialismos

José Sócrates está feliz com os 97,2% de votação na sua pessoa. Eu não ficaria tanto. Uma eleição ganha à partida não me parece motivo de regozijo. Um congresso que se anuncia um coro de sim senhores ao seu governo, ainda me parece menos satisfatório.

Onde estão os democratas socialistas que não gostam das medidas do governo? Apenas ouvi dizer que Correia de Campos vai propor uma discussão sectorial sobre política de saúde.

E os outros sectores, estão todos satisfeitos?

Não há debate interno nem externo. Mas a responsabilidade é de todos. E muito particularmente dos militantes socialistas.

Anacronismos

Há dias em que o optimismo é um exercício totalmente impossível.

Continuamos a ouvir manifestações contra as aulas de substituição (medida que alguns professores boicotam ao “entreter” alunos com jogos e outras inutilidades, em vez de desenvolverem o tão falado trabalho educativo), promessas de luta a medidas que pretendem colocar os professores nas escolas, o seu local de trabalho, em tempo de férias lectivas (Natal, Carnaval, Páscoa e Verão), para desenvolverem trabalho que não seja apenas o de leccionar.

Ouvimos clamar contra o novo estatuto da carreira docente, pela impossibilidade de todos os professores, maus, bons ou assim-assim, chegarem ao topo da carreira e pela necessidade (oh, horror!) de avaliações para progressão.

A Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública convocou uma greve de 2 dias porque (...) O Governo não pode continuar a atacar impunemente as condições de vida e de trabalho e a dignidade dos trabalhadores, para favorecer os grandes grupos económico-financeiros! (…) Para que isto assim seja, o Governo PS/Sócrates tem que tirar poder de compra aos trabalhadores e aos reformados, tem de acabar com direitos sociais, degradar a Segurança Social e os Serviços Públicos e entregar as partes rentáveis ao grande capital, tal como exigiu a irmandade do Compromisso do Beato, em propostas que a CGTP não hesitou em classificar de terroristas. (…) Os objectivos nefastos do Governo manifestam-se em todas as áreas da Administração Pública (…) Na Justiça, com um ataque aos Tribunais e às independência das Magistraturas e dificultando, quando não impossibilitando, a acesso à justiça aos mais desfavorecidos; (…) Nas Autarquias Locais, com a limitação ou a retirada de autonomia do poder local democrático.(...) (destaques meus).

Os sindicatos, ao contrário do que é a sua obrigação, transformam num ridículo absoluto as verdadeiras e justificadas apreensões de quem trabalha.

Não é deste sindicalismo que necessitamos.

29 outubro 2006

Renascer


Se eu conhecesse
as partículas sensoriais do saber,
as minúsculas moléculas da emoção,
jogaria com os olhos
nos tabuleiros do poder,
para sobreviver.
Sem medo e sem vontade
por já antever a claridade,
nem o tumulto do espanto
de mim desdenharia.

Se eu refundasse
as infinitas certezas da dor,
desfaria um a um
os bagos da memória,
para que na eterna ansiedade
de querer,
provasse um instante
de saciedade.


(pintura de Tara McKiernan Kovach: reborn)

28 outubro 2006

Eu te amo

Eu te amo



Ah, se já perdemos a noção da hora

Se juntos já jogamos tudo fora

Me conta agora como hei de partir



Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios

Rompi com o mundo, queimei meus navios

Me diz pra onde é que inda posso ir



Se nós nas travessuras das noites eternas

Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir



Se entornaste a nossa sorte pelo chão

Se na bagunça do teu coração

Meu sangue errou de veia e se perdeu



Como, se na desordem do armário embutido

Meu paletó enlaça o teu vestido

E o meu sapato inda pisa no teu



Como, se nos amamos feito dois pagãos

Teus seios inda estão nas minhas mãos

Me explica com que cara eu vou sair



Não, acho que estás te fazendo de tonta

Te dei meus olhos pra tomares conta

Agora conta como hei de partir.







É para todas as semanas, de todos os amantes.



(letra de Chico Buarque; música de Tom Jobim (obrigada pela correcção!): tema do filme "Eu te amo", de Arnaldo Jabor)


 

Projecto





Na reprodução humana um zigoto é uma célula resultante da união entre dois gâmetas: um óvulo (feminino) e um espermatozóide (masculino). Esta célula (ovo ou zigoto) após várias divisões celulares, resulta num embrião, estádio em que o corpo formado é pluricelular e se diferencia nos vários tecidos e órgãos necessários a um novo indivíduo. Este período, a embriogénese, dura 8 semanas, contadas a partir do momento da fecundação (união física do óvulo com o espermatozóide)*.

A seguir a esta fase, inicia-se um período de desenvolvimento intra-uterino (cerca de 30 semanas) em que o novo indivíduo, o feto, cresce e matura os tecidos e os órgãos, até que os mesmos assegurem a sua sobrevivência de uma forma autónoma, fora do útero materno.

O ovo é uma célula que transporta em si uma informação genética e um potencial de desenvolvimento único e irrepetível, que pode resultar num ser humano, caso todas as outras etapas sigam o seu curso e não sejam alteradas. Assim, é um projecto, ainda não concretizado, de um ser humano, da mesma forma que qualquer outra célula de um indivíduo, também pluripotencial e com a totalidade da informação genética, pode ser considerada um projecto de ser humano, neste caso idêntico (geneticamente) ao indivíduo dador da célula.

Se reduzirmos a argumentação do início da vida ao absurdo, chegaremos rapidamente à conclusão de que qualquer operação cirúrgica ou, mais prosaicamente, o simples acto de cuspir, ao inutilizar (ou matar) vários milhares de células pluripotenciais, é um homicídio, mesmo que involuntário.

Mais do que a evidência científica de quando se deve considerar o início de uma vida humana, se na sua concepção, se durante a embriogénese, o que cada um de nós deve resolver consigo próprio, é se um projecto de vida, único e irrepetível, deve ser levado até ao fim.

Essa responsabilidade pode ser partilhada mas, em última análise, é sempre individual e intransmissível, como individual e intransmissível é, até aos dias de hoje, a experiência da gestação e do parto.

Por isso a despenalização da interrupção voluntária da gravidez é a aceitação de que cada um de nós, com a sua genética, com o seu corpo, com a sua educação, com a sua cultura, com o seu ambiente amoroso, familiar e social, deve assumir essa responsabilidade que, como em todas as circunstâncias em que algo de seminal se trata, é total e dolorosamente solitária.

*Como, na maior parte dos casos, não é possível saber com segurança, a data exacta da fecundação, o tempo de gestação é contado a partir da data da última menstruação, o que resulta num aumento de 2 semanas – a ovulação dá-se mais ou menos 2 semanas depois do início da menstruação.

Relacionamentos

Os relacionamentos humanos são habitualmente pautados pela constância, fidelidade e lealdade. Biologicamente, o equilíbrio é sempre o objectivo, e a manutenção de um estado basal de felicidade, controlado e alimentado pelas substâncias químicas que nos regulam, é condição necessária para uma expressão benigna de emoções.

Por isso os seres humanos tendem a manter as relações, seja com os membros da família, com os companheiros amorosos, colegas de trabalho, seja com entidades mais vagas e de contornos mais difíceis de definir como empresas ou o seu país.

Mesmo que ao longo do tempo a relação sofra revezes, todos tentam, por acção mas mais por omissão, regressar ao equilíbrio desejado. O problema é a existência de memória e de imaginação.

Quando os acontecimentos são repetidos, quando o desequilíbrio é sempre num determinado sentido, há uma exaustão das hormonas da felicidade, que reduzem a tolerância à agressão e reduzem a capacidade de imaginar soluções alternativas.

Se neste quadro de fundo, houver uma súbita lesão somativa, mesmo que, em absoluto, ela seja negligenciável, pode resultar na aniquilação da relação, da qual só se sai em rotura.

As últimas sondagens, como afirma Tiago Barbosa Ribeiro no seu post, não me parecem reflectir ainda o tal desequilíbrio resultante de agressões constantes e repetitivas, a que o corpo do país tem sido submetido durante esta governação.

Mas é bom que o governo cuide da sua relação com o povo. Porque pode suceder que, quando se der conta, as glândulas já não tenham nada para segregar e qualquer pequena traição redunde em divórcio litigioso.

25 outubro 2006

Janelas

Caminho devagar
sustendo a respiração
sustendo o corpo
nos ruídos das pedras.
O dia já não espera
e a noite enlutada
chora gota a gota
as letras do teu nome
uma senha de luz e de cor
que tarda em madrugar.

Caminho devagar
e paro a todas as portas
que se erguem
blindadas e surdas
aos meus passos.
E a noite arrepiada
sacode o teu nome
como senha para abrir
as janelas que me faltam.


(pintura de Toni Carlton: windows of time)

24 outubro 2006

Vou




Vou

Vou
quase até onde não sei
e paro
fim donde comecei.

(poema de José Craveirinha)

Credores e devedores



É verdade que os bancos, apesar do aumento da percentagem de crédito malparado, continuam a ter lucros fantásticos e que, se investem o que investem em publicidade ao crédito, para férias, para telemóveis, televisores, sofás, computadores, automóveis e casa, é porque o que perdem é irrisório em relação ao que ganham.

É verdade que a violência, seja ela de que tipo for, que algumas empresas de cobranças difíceis utilizam para “incentivar” a liquidação de dívidas, à banca ou a outros agentes que emprestam dinheiro a juros, é totalmente inaceitável.

Mas também me parece estranho que quem contrai empréstimos e deixa de os pagar não recorra a todos os meios possíveis e a todas as ajudas existentes para pagar as suas dívidas. Dá-me a sensação de que se reteve a mensagem de que não faz mal gastar mais dinheiro do que o que se tem, de que é obrigatório consumir determinado tipo de coisas, de que não é necessário estabelecer prioridades, pois pode sempre pagar-se a partir do próximo ano, sem juros, ou ter à disposição imediata 3000€, para não ter que se optar entre a mobília nova e as férias na Tailândia.

Na verdade, quando falamos de Estado, esquecemos que o Estado é uma entidade colectiva, formada por todos os cidadãos.

(o anúncio do Joe Berardo é absolutamente repugnante!)

Questionemos

Escapam-me a relevância de alguns temas que escolhidos como para notícia desenvolvida e com direito a muitas páginas de jornais.

No Público de Domingo vinha um extenso trabalho jornalístico, de Kathleen Gomes (Foram ustedes que falaram em unión? – link não disponível) sobre o facto de um grande número de espanhóis (cerca de 40%) e de um menor número de portugueses (cerca de 25%) suspirarem pela união dos dois países.

Sugiro humildemente que o próximo tema a tratar seja a discussão do regime político: monarquia ou república? Parece-me tão importante como a inclusão de Portugal em Espanha.

22 outubro 2006

Aos amigos

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

(poema de Herberto Hélder; pintura de Jo Derbyshire: fire)

21 outubro 2006

"As mulheres da minha vida"


Fui ver a peça As mulheres da minha vida, de Neil Simon, encenada por Daniel Filho e protagonizada por António Fagundes.

É uma peça sobre a relação entre um homem, escritor de sucesso, e as mulheres da sua vida, mãe, irmã, esposas, filha e psicanalista, sobre a dificuldade da intimidade e a incapacidade de se expor emocionalmente, sobre a realidade do imaginário e a ficção da vida real.

Os actores cumpriram, mas não entusiasmaram. O som não estava grande coisa, o cenário era frio, pouco envolvente. Não fiquei particularmente agradada.

Oposição

À falta de uma oposição política credível, com as declarações de Marques Mendes a merecerem um sorriso de comiseração, temos a oposição liderada por jornais/jornalistas, como se pode apreciar pelas páginas do Público, sobre a Semana horribilis de Sócrates antecipa maior contestação ao Governo.

Desde o início da governação socialista que se vem vaticinando a perda do estado de graça, que se vem predizendo as grandes dificuldades de um governo que queira atacar os problemas do país, que se vem estruturando a quebra das intenções de voto no PS, no governo e em Sócrates.

Esses profetas têm vindo a refazer as profecias, à medida que o tempo vai passando, por um lado em coro com os que criticam o não apertar o cinto a sério, por outro com os que criticam o apertar o cinto demais.

Há ministros que ciclicamente sofrem as atenções da imprensa, como Manuel Pinho, Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues, para não falar de Freitas do Amaral. Desta vez é António Costa que, segundo a mesma notícia do Público, se afunda no Prós e Contras, nos dez episódios que abalaram a máquina do governo, depois de ter escapado aos incêndios do país, no Verão.

É verdade que tem havido uma modorra geral em volta das alternativas às medidas do governo, primeiro porque não deve ser fácil encontrá-las, segundo porque Sócrates está a desertificar a discussão na área socialista, terceiro porque a oposição, à esquerda e à direita, está agonizante, quarto porque o discurso da crise se colou às almas das pessoas.

Assim assiste-se à necessidade de criar factos políticos, para que alguma coisa se mexa neste lamaçal invernoso. Está prestes a inventar-se uma crise governamental, já começaram a correr rumores de uma provável remodelação.

A semana correu bastante mal para o governo, muito por responsabilidade de alguns ministros, e vai haver semanas a correr pior. Todos esperávamos a contestação social, com a entrada do Outono. É natural que as pessoas protestem, é natural e desejável que os jornalistas confrontem os ministros com as suas insuficiências e com as suas incongruências.

Mas martelar na opinião pública interpretações extraordinariamente exageradas e mesmo abusivas, para induzir extrapolações e criar instabilidade, não me parece um papel consentâneo com a ética que esperamos, pelo menos em jornais que se querem de referência.

Lá fora

Lá fora as pedras alagadas
lembram a solidão.
Tempestades de granito
a que habituamos os olhos
tendo as mãos isoladas.

Atrás das portas trancadas
esperam silenciosas
as almas resistentes.
As outras desistentes
voaram.

(quadro de Katarzyna Gajewska: loneliness)

Toque a reunir III

E agora é um pacto para a saúde, patrocinado pelo Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, mas já com o beneplácito do Bastonário da Ordem dos Médicos, a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, o Presidente do Observatório Português de Sistemas de Saúde, profissionais dos diversos sectores e políticos do PSD e até do PS.

Não sei muito bem porque é que repentinamente todos começaram a querer pactos para todas as áreas. Não percebo porque é que votamos em partidos diferentes, com políticas diferentes, para depois fazerem pactos e, nas próximas eleições, não termos a quem responsabilizar pelas escolhas entretanto feitas.

Na saúde, se calhar mais do que noutras áreas, como disse Maria de Belém Roseira, uma coisa são os objectivos, que até podem ser semelhantes para muitas forças políticas, outra muito diferente é a forma de se atingir esses objectivos.

E também desconfio sempre muito das súbitas prédicas a favor dos argumentos técnicos e científicos, em desfavor dos argumentos políticos.

A orientação da política de saúde é um dos deveres dos políticos eleitos. Não foi aos médicos, enfermeiros e farmacêuticos que os cidadãos deram um mandato para definirem a política de saúde. Todos os representantes das Ordens profissionais são parceiros, que devem ser ouvidos e cujas opiniões devem pesar nas decisões ministeriais.

Mas é ao governo, apoiado em partidos políticos, com uma determinada ideologia, que compete orientar e gerir a melhor forma de prestar cuidados de saúde às populações. O PS foi eleito, com maioria absoluta, é o PS que tem a responsabilidade de governar e é o PS que eu quero julgar, nas próximas eleições.

Por princípio sou avessa a pactos de regime. Neste caso particular, sou totalmente contra.

Referendemos

Percebo e até concordo com a posição do PCP no que diz respeito à capacidade da Assembleia da República legislar sobre a interrupção voluntária da gravidez (ivg). Não concordo, no entanto, que houvesse espaço político para se dispensar um novo referendo.

António Guterres “amarrou” o partido à sua escolha, desde o momento em que fez depender uma alteração legislativa de uma consulta referendária. José Sócrates não quis dar razão ao PCP e prometeu promover o novo referendo, tendo-se inclusivamente comprometido, politicamente, a fazer campanha pelo “sim”.

aqui referi que o PS não deveria aceitar o resultado do referendo, caso houvesse uma afluência às urnas inferior a 50%, ao contrário do que António Costa já anunciou, não colocando a hipótese de vencer o “não”.

O PCP votou contra a proposta de referendo, evidenciando uma postura coerente. Mas será que no altar dessa coerência está disposto a perigar o resultado do “sim”? Será que vai fazer campanha pelo “não” ou, simplesmente, abster-se de fazer campanha?

Tenho ouvido e lido várias opiniões de pessoas que pensam que esta questão deve ser resolvida na Assembleia e ponderam a hipótese de não votar. Há mesmo homens que defendem que a ivg é uma questão de mulheres, e que não tem sentido os homens pronunciarem-se a favor ou contra.

Independentemente da nossa opinião sobre quem tem mandato para alterar a lei, a Assembleia ou todos nós, faltar ao referendo é dar a possibilidade aos defensores do “não” de manterem o status quo. Quem é a favor da despenalização da ivg deve ter a iniciativa.

Para além disso, sejamos homens ou mulheres, este é um problema que toca à sociedade e não a metade dela. A decisão de punir quem interrompe uma gravidez é da sociedade, não de metade dela.

20 outubro 2006

Quadratura do Círculo



Gosto de assistir à Quadratura do Círculo. Habitualmente as posições do representante do PS eram sempre as mais parciais, e falo de José Magalhães e de Jorge Coelho, sendo as suas opiniões não mais que uma caixa de ressonância do governo.

Sempre considerei Pacheco Pereira um político preparado, com honestidade intelectual, apesar de não concordar muitas vezes com ele. Mas de há uns tempos a esta parte, talvez desde a campanha para as eleições presidenciais, Pacheco Pereira, sempre que intervém num debate, seja sobre o Iraque, o terrorismo islâmico ou o anti-americanismo, seja sobre Sócrates e o governo socialista, tem sido de um sectarismo que toca as raias do incrível.

Quando fez a apreciação ácerca do programa Prós & Contras, sobre a lei das finanças locais, perguntei-me se teria visto o mesmo programa que ele, de tal forma a minha opinião era o oposto da dele!

Quanto às políticas do governo, tão depressa o governo está apenas a fingir que faz reformas e a empobrecer-nos a todos, como devia olhar para as manifestações e para as greves, como tinha muitas soluções alternativas, por exemplo, à reforma da segurança social.

Pacheco Pereira está a perder a capacidade de se fazer ouvir, o que é uma pena. Até Jorge Coelho começa a fazer figura de sensato!

18 outubro 2006

Viver português

A somar a todas as excelentes notícias dos últimos dias, fiquei hoje a saber que a culpa do aumento da electricidade é minha, partilhada com os restantes consumidores, visto que não estávamos a pagar o suficiente. Sem que me tivesse dado conta, entrei em dívida para com a EDP, eu e os restantes caloteiros que se apelidam de consumidores!

Até posso compreender a crise, o aumento do preço do petróleo, a inflação, os congelamentos vários do nosso poder de compra, a chuva e o vento, as estradas esburacadas, as filas de trânsito, este viver português.

Mas há que ter o mínimo de respeito pelos pagadores/consumidores. O Sr. Secretário de Estado estava a praticar um pouquinho de humor?

A mim, ignorante confessa de assuntos económicos e totalmente incapaz de fazer fortuna, nem no euromilhões, porque me esqueço sempre de jogar, e é tanto dinheiro que até mete medo, sempre me escaparam as razões pelas quais o negócio da banca não paga impostos semelhantes aos das outras empresas.

Se ano após ano os lucros da banca aumentam, porque é que têm sido poupados à solidariedade orçamental? Qual a armadura invisível contra o ataque do fisco? Será que estas notícias são em sentido contrário, que finalmente a banca começa a pagar a sua partilha de esforço de consolidação do défice?

E agora, depois da guerra das SCUTS, afinal os nossos vizinhos do norte vão passar a pagá-las?

Explique, Sr. Engenheiro, explique, com desenhos, se possível, todos estes contorcionismos, como consegue virar a cabeça sem que entorte o nariz!

17 outubro 2006

Consciências

Ainda relativamente à lei de despenalização do aborto, actual e futura, li algures que, nos hospitais públicos, os médicos têm o direito de serem objectores de consciência e de se recusarem a praticar o que eles consideram inaceitável. Parece-me bem.

Mas também me parece que os hospitais públicos sejam obrigados a terem serviços de ginecologia e obstetrícia com profissionais que assegurem o cumprimento da lei. Ou seja, os serviços públicos são obrigados a integrar nos seus quadros médicos que não sejam objectores de consciência relativamente à prática de aborto. Dentro dos limites da lei, obviamente.

Crise

Em Portugal tudo se adia até ao último minuto, até não ser já mais possível adiar mais.

Adiam-se as horas de estudo, adia-se o pagamento das contas, adia-se o começo das reuniões, adia-se o princípio e o fim das obras, adia-se a hora do despertar.

Por isso somos tão bons, nós, portugueses, na hora H. Fazemos das fraquezas forças, improvisamos, inventamos, imaginamos e concretizamos, com excelentes resultados, quantas vezes diferentes do que prevíamos. Obviamente apenas naquilo que se não pode adiar mais.

Com a crise é a mesma coisa. Desde há muitos anos que estamos em crise, que não saímos da crise, que a crise é cada vez maior, ai meu Deus que temos que poupar, que gastamos mais do que produzimos, que não temos chefias, que não temos organização, que agora é que é, que Bruxelas nos castiga, que já não há mais oportunidades, que isto é que vai ser um horror, que temos que apertar o cinto, agora é que vão ser elas!

Pois o dia chegou! Desde manhã que ouvimos na rádio e lemos nos jornais, que o Orçamento de Estado vai ser um horror, que vamos ter aumento de impostos, para os pensionistas e para os deficientes, que vamos pagar mais nos medicamentos, para além das taxas moderadoras e de utilização, que vai aumentar a electricidade, que vão diminuir os salários e as reformas, que há uma greve de professores sem precedentes, e que amanhã vai continuar a greve sem precedentes, que somos feios, gordos, pobres, ignorantes, endividados, preguiçosos e eu sei lá que mais.

Está, portanto, tudo a postos para tirarmos algum coelho do chapéu, termos alguma ideia luminosa de equilibrista. E que seja depressa, porque já estamos mesmo no último segundo possível…

16 outubro 2006

Raízes

Tantos fios que nos prendem
sedosos finos transparentes
como raízes profundas
rendidas à terra como dedos
como longos cabelos resistentes.

(pintura de Rom Lammar: roots)

O vírus da ignorância

A ignorância é perigosa, e ainda por cima é muito atrevida.

A vacinação contra a gripe (vírus Orthomyxoviridae – A-H2N1 e A-H3N2) que, habitualmente afecta as populações na época do Outono/Inverno, NÃO protege contra a gripe das aves (vírus Orthomyxoviridae – A-H5N1). A gripe pode afectar muitas pessoas, mas são os idosos, as crianças e os doentes com doenças crónicas e debilitantes que poderão ser mais afectados, e é nesses grupos populacionais que está indicada a vacinação.

Portanto, a corrida à vacinação, como algumas empresas estão a fazer, é totalmente ineficaz no caso de se verificar uma pandemia pelo vírus da gripe das aves. Entretanto, estão a ser gastos os stocks de vacinas LIMITADOS a cada país, em pessoas saudáveis que NÃO têm qualquer razão para a fazer.

A isto se chama medo, ignorância e falta de civismo.

A Bíblia

A Bíblia é um livro fundamental para compreender a nossa cultura, independentemente de sermos ou não crentes. Histórias, lendas, mitos ou a palavra de Deus, são páginas de servidão e louvor, de escravidão e libertação, de mal e de bem, de patriarcas e matriarcas, de mulheres submissas e heroínas, de grandes líderes e homens de leis, de sábios, de erotismo e ódio. Estão lá os nossos temores e as nossas redenções, a história do povo escolhido, com que todos nos misturamos e identificamos, do Messias, dos sacrifícios, dos mártires, dos anjos e dos demónios que os assistem.

O Círculo de Leitores e a Assírio & Alvim editaram uma versão da Bíblia, baseada na tradução efectuada por João Ferreira Annes d’Almeida (séc. XVII), que terá sido o primeiro a traduzir os textos bíblicos para o português, pelo menos o Novo Testamento e o Antigo, até ao livro de Ezequiel. José Tolentino Mendonça é o Teólogo que introduz o texto e Ilda David a artista que o ilustra.

Estou muito curiosa quanto ao resultado.


[Ilda David: exposição com José Tolentino Mendonça (poemas): tábuas de pedra]

14 outubro 2006

Imensidão


A imensidão da espera
quando aguardo
que me esperes,
que me guardes
quando queres
que te queira.

Nessa lentidão demora
a nossa hora.

(Pintura de Sara Nadeau: waiting)

Pedido de esclarecimento

Gostaria que António Costa esclarecesse: Se o resultado for pelo "não" mas não for vinculativo [participação eleitoral abaixo dos 50 por cento], o PS legislará à mesma?

É que, mais uma vez, o PS só está a equacionar a hipótese do resultado do referendo ser favorável à despenalização do aborto, mesmo que a afluência seja inferior a 50%. E se o resultado for o mesmo que no último referendo? Que fará o PS? Vai manter tudo como está?

Gostaria que o PS assumisse uma posição clara.

Na minha opinião, não se deve aceitar o resultado do referendo como vinculativo, qualquer que ele seja, se houver uma participação inferior a 50%. Isso significará que os cidadãos não se interessam pelo assunto, ou acham que é a assembleia que o deve resolver.

Cinema

Na Fundação Calouste Gulbenkian vai iniciar-se, a 4 de Novembro, o ciclo de cinema: Como o cinema era belo – 50 filmes clássicos, com How green was my valley, de John Ford.

Lembro-me de ter visto na Gulbenkian, noutro ciclo de cinema, The birds, do Alfred Hitchcock, e Alien, de Ridley Scott. A sala totalmente às escuras, o som a um nível suportável e o medo…

A bilheteira só abre a 20 deste mês. Já estou na fila on-line...

(Imagem do filme The River, de Jean Renoir, 1951)

A Paz

Ouvimos, com muita frequência, intelectuais, políticos, sociólogos, economistas, cientistas, falarem da sociedade civil e do papel indispensável que têm na intervenção cívica.

Ouvimos, com muita frequência, admoestações a quem tenta remar contra a corrente, a quem tem idealismo e perseverança, com a famosa frase: não podemos mudar o mundo.

Ouvimos, com muita frequência, falar da inevitabilidade do mercado e das suas regras, da inevitabilidade da deslocalização do trabalho para países onde a pobreza é tal que qualquer migalha distribuída às populações (que continuam a ser exploradas em prol do aumento da riqueza dos impérios empresariais, ou dos impérios bancários, que se fundem e refundem até restar um ou dois milionários) é louvada e disputada pelos seus governantes.

Ouvimos, com muita frequência, piedosas prédicas a favor da caridade, habitualmente associada a uma qualquer fé, mais da cristã na nossa Europa desenvolvida, que exorta os bons cidadãos a dar aos que menos têm, impondo-lhes imediatamente uma dívida de gratidão, da qual ficam eternamente dependentes.

Muhammad Yunus demonstrou que quem tem do dinheiro uma noção utilitária de distribuição a quem dele precisa, que a erradicação da pobreza está nas mãos de todos e de cada um, que a dignidade do ser humano está dependente do tratamento igualitário, não olhando às posses, à cor e à religião, que a inteligência, força, vontade, idealismo e realização pessoal podem estar na modificação de pequenos factores que façam, de facto, a diferença, que a paz se conquista todos os dias, que é possível mudar o mundo.

12 outubro 2006

Floresta negra


Não sei como aqui cheguei, por caminhos direitos, claros, desimpedidos, não sei como desemboquei neste labirinto.

À volta árvores enormes e sussurrantes, fios de luz filtrada, como o ar que asfixia, como a água que falta.

Avanço por tortos, escuros e silenciosos corredores. Não sei onde vou chegar, se há algum lugar aonde ir.

Vou caminhando até me habituar a ver para lá do medo.

Mãos

Quero-te
à mão de semear
e de colher
de dar
e de receber
de largar
e de prender
sem querer saber
qual das mãos escolher.

Quero-te
à mão
mas não quero
que à mão
venhas comer
mesmo sabendo-te
incapaz de morder.

(poema de Pedro Neves; pintura de Deidre Scherer: two hands joined)

O Governo

Era esperada esta contestação social ao governo. Apesar do que muitos dizem, o governo iniciou várias reformas, que são duras para muitas pessoas.

Reformas pedidas há muito tempo por todas as forças políticas, inclusivamente as que mais anos estiveram no poder e nunca as efectuaram. Reformas sentidas como necessárias por inúmeros sectores da sociedade. Reformas absolutamente inadiáveis, segundo os critérios da União Europeia.

O que mais custa é reformar as atitudes, as mentalidades, a cultura. A administração pública, a saúde, a educação, a justiça, tudo o que enforma a nossa relação com o estado e a nossa identidade enquanto sociedade, estão em profunda crise. O mundo mudou e com ele nós também temos que mudar.

Mas é muito mais fácil falar nas reformas do fazê-las, e muito mais difícil é “sofrê-las”.

Apesar de tudo com que não concordo, a minha avaliação deste governo é positiva, e penso mesmo que é o melhor governo que tivemos em anos e anos de governação.

Mas Sócrates deve estar atento. Sou a favor da autoridade de um estado democrático, mas contra o autoritarismo de quem se julga acima de críticas.

O governo não deve recuar na sua actuação, mas deve ter a humildade de perceber que os tempos são difíceis para muitos, e que serão ainda mais difíceis para muitos mais. Deve explicar à exaustão porque tem tomado determinadas medidas, assumir, responsabilizar-se e recuar, quando perceber que se enganou.

11 outubro 2006

Barro

Nem sempre as mãos abarcam
o barro
que todos os dias
moldamos esforçados,
nem sempre alheados
do mundo
com que nos atam
os dedos,
em contínua redenção.

Nem sempre o barro e o mundo
sobram das mãos,
em perpétua sujeição.


(pintura de Lena Emmertz: compact living)

Acordo com o MIT

Não sei, e gostaria de saber, se o acordo celebrado com o MIT é muito diferente do que se tinha apostado. Não sei, mas gostaria de saber, se alguma coisa correu mal.

Mas independentemente de tudo isso, parece-me muito importante que haja protocolos de trabalho que envolvam o MIT e várias universidades, institutos, laboratórios e empresas.

O impacto que tudo isso terá na nossa economia será tanto maior quanto mais as empresas souberem valorizar e inovar, quanto maior importância atribuírem à investigação tecnológica, quanto mais arriscarem, o que não tem sido hábito por estas bandas. Mas nunca é tarde para começar!

Taxados

Não concordo com as taxas de utilização, como agora Correia de Campos lhes chama, para internamentos e cirurgias do ambulatório. Não são os doentes que decidem se devem ser operados ou internados, muito menos o tempo de internamento de que necessitam.

Se é necessário aumentar o orçamento para a saúde, seja através de impostos, seja como for, que o ministro e o governo o assumam, que o expliquem e que digam como. Se o montante resultante das taxas é assim tão irrisório, não há justificação para as criar.

Já passaram quase 2 anos desde a posse do governo. A pasta da saúde é muito complicada e não há dúvida de que a despesa tem subido exponencialmente. Mas há outras maneiras de racionalizar os gastos. A reorganização dos cuidados de saúde primários, a junção de recursos e a optimização dos mesmos, como no exemplo das maternidades, a reestruturação das urgências hospitalares, o alargamento dos horários de atendimento das 8:00 às 20:00, a elaboração de protocolos de procedimentos diagnósticos e terapêuticos, a implementação das unidoses e do receituário por denominação comum internacional (princípio activo), com comparticipação do componente tipo, a liberalização das farmácias, etc.

Ouvem-se rumores de aberturas de várias unidades hospitalares privadas, não se sabendo muito bem quem são os médicos e enfermeiros que lá irão trabalhar, ou quem fica nos serviços públicos. Será essa a ideia? Esvaziar os hospitais públicos?

Tenho tentado perceber uma orientação nesta política de saúde. Começo a desesperar. Será que existe, Sr. Ministro, ou está só a fazer de conta?

09 outubro 2006

Dilúvio


No sé si por maldad o por olvido
no fui llamada al arca. El fin del mundo
duró cuarenta días y cuarenta
noches. Pero alguien hizo con sus manos
la dulce balsa que evitó mi muerte.


(poema de Amalia Bautista: gravura de Gustave Doré: dilúvio)

Procurador-Geral Pinto Monteiro



Ouvi, de forma intermitente, o curto discurso de tomada de posse do novo Procurador-Geral da República.

No país da maravilhosas leis e da fuga para a frente, quando não parece haver soluções fáceis, ouvir um indivíduo com esta responsabilidade dizer que o essencial é aplicar as leis, levanta a moral e aviva a esperança.

Outro aspecto que me agradou enormemente foi a responsabilização de toda a sociedade na luta contra a corrupção:

  • (…) em cada povo e em cada época tem que existir aquele mínimo de valores éticos a respeitar, e subjacentes à feitura e aceitação das leis (...)
  • (…) é fundamental a criação de um juízo de censura, de um desejo de punibilidade existente na consciência moral do homem médio, que por isso deve ser sensibilizado para o problema (…)
  • (…) não havendo essa consciência moral e a certeza de que todos serão tratados de igual forma, existindo antes a convicção de que todos se governam e de que a corrupção é um mal menor e inevitável, os esforços contra a corrupção serão sempre votados ao fracasso (…)


Finalmente temos outro Procurador-Geral da República. Desejo-lhe a ele, e a nós, muitas felicidades.

08 outubro 2006

Smile

Smile



Smile though your heart is aching

Smile even though its breaking

When there are clouds in the sky, youll get by

If you smile through your fear and sorrow

Smile and maybe tomorrow

Youll see the sun come shining through for you



Light up your face with gladness

Hide every trace of sadness

Although a tear may be ever so near

Thats the time you must keep on trying

Smile, whats the use of crying?

Youll find that life is still worthwhile

If you just smile



Thats the time you must keep on trying

Smile, whats the use of crying?

Youll find that life is still worthwhile

If you just smile





(Madeleine Peyroux: Half the perfect world)

Dia de ninho


Dia de chá
mantas e livros,
de pantufas
biscoitos e cama.

Dia de modorra
e de carinho,
de fim de festa,
de descanso.

Dia de ninho.


(pintura de Marty Walsh: Tea and Toast)

Pedreiros Livres


Por diversas vezes, e sempre que não se consegue justificar a nomeação de uma certa personagem para um determinado cargo, para o qual é lendariamente conhecida a sua incompetência, ou se há uma aura de pessoa intocável, quando se comentam pecados e pecadilhos, verdadeiros ou falsos, ou quando se pretende desacreditar alguém, não existindo quaisquer razões para tal, mesmo que esse alguém seja sobejamente apreciado pelas suas qualidades, sejam de que tipo forem, murmura-se, põe-se a correr, ou exclama-se com evidência – pertence à Maçonaria!

Segundo Mário Mesquita ("Conspirações ao correr da pena", no Público) e a Câmara Corporativa, parece que o director do SOL se juntou aos clarividentes reveladores de evidências, ligando a Maçonaria ao processo Casa Pia, o que para justificar, nem que seja remotamente, a inexcedível e vergonhosa trapalhada do processo, sob a responsabilidade de Souto Moura, é altamente engenhoso, de um equilibrismo e de uma falta de noção do ridículo notáveis, mas pouco original, convenhamos!

Anna Politkovskaia

PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


(poema de Sophia de Mello Breyner Andresen; fotografia de Anna Politkovskaia)

07 outubro 2006

Uma pequeníssima nota


Não percebo porque é que tanta gente achou o discurso de Cavaco Silva sobre a corrupção TÃO importante, TÃO abre espaço ao governo de Sócrates, que TANTO agrega vontades, oh que bom que há tantos motivos de consenso na sociedade portuguesa.

Após um PACTO de justiça, patrocinado pelo mesmo Presidente, em que se não falava da dita corrupção, eis senão que se lhe dá um rebate na alma e vai de clamar contra esse veneno da democracia.

E, saído dos escombros do esquecimento, sai João Cravinho de espada em riste e leis preparadas para a nossa assembleia aprovar e, depois, ignorar.

Tal como se ignoravam olimpicamente os mesmos discursos anti corrupção do anterior Presidente Jorge Sampaio.

Porque é que é tão importante realçar a maravilhosa e sã convivência entre Sócrates e Cavaco?

Finanças Regionais


Nunca é demais realçar este facto político inédito, desde que Alberto João Jardim é Presidente do governo regional da Madeira, ou seja, desde sempre, que há um governo e um ministro das finanças que afrontam a demagogia, o populismo e a incrível falta de noção do que é a dignidade de um cargo público e o que significa esse cargo público.

Alberto João Jardim tem usado o facto de ser eleito para dizer todas as enormidades que lhe passam pela cabeça, chegando a ameaçar o Contnente com a independência do arquipélago, numa forma e com uns modos absolutamente inadmissíveis. Ele acha que as regras não se aplicam, nem a ele nem ao seu governo regional, partindo do princípio que o dinheiro continuará a fluir sem reservas, sem que as contas sejam feitas, assumindo-se como uma excepção, não se sabe ao abrigo de que leis, à prestação dessas mesmas contas.

Até agora, Presidentes da República, Primeiros-Ministros e líderes do PSD têm-se calado, assobiando para o ar, permitindo esta insanidade.

Finalmente, e como diria um grande e prezado amigo, Teixeira dos Santos e José Sócrates aplicaram-lhe um torniquete numa parte delicada da sua anatomia...

Gulodice

Guloso te lambo
como se um doce foras
servido sem restrições
à minha gula
até me lambuzar
todo
em ti
no exagero
que excede
do doce
e da fome
as dimensões.

Faço do teu ventre
guardanapo
limpando nele
a boca transbordante
e não resisto
num gesto de criança
a lamber os dedos
um a um
como me ensinaram
a nunca fazer.


(poema de Pedro Neves; pintura de Gina Bold: faun with shepardess)

Revista de imprensa (muito) matinal

Preferia que o suplemento “Mil Folhas” saísse ao sábado. Tenho mais tempo e disposição para saborear os jornais nas manhãs do fim-de-semana. Serei só eu?

Muito me interroguei sobre os acordos com o MIT, desde a célebre pergunta de José Tavares acusando Sócrates de ter sepultado o projecto, por pressões ou outras coisas escusas que não se perceberam, mas também não foram explicadas. É bom que comecem a ser divulgadas as áreas científicas que vão sendo abrangidas, as Universidades e os Institutos que estão englobados.

José Sócrates afirmou que o PS irá fazer campanha pela despenalização do aborto. Finalmente acabaram-se as meias tintas guterristas sobre este assunto. A posição do partido não colide com opções individuais, ao contrário do que António Guterres parecia defender.

A novela entre a Refer e a Teixeira Duarte por causa do túnel do Rossio é estranhíssima. Afinal, depois da Teixeira Duarte ter reduzido as obras de CINCO anos para UM ano e meio, a Refer afinal rescinde mesmo o contrato, e a Teixeira Duarte NÃO ENTENDE! Quem não percebe nada sou eu!

Em tempos em que se tenta impedir o fenómeno crescente da imigração ilegal, com a construção de muros legais e de pedra, é muito interessante a opinião de pessoas como Demetrios Papademetriou, que alerta para o futuro da crescente mobilidade de pessoas, em busca de trabalho, de melhor qualidade de vida, de felicidade, o que coloca desafios aos governos das nações que se dizem livres e democráticas, no sentido de facilitar e aprender a administrar essa mobilidade, cujos centros serão cidades em vez de países.

06 outubro 2006

Continuação das agendas políticas

Paulo Gorjão, do Bloguítica, referiu-se ao meu “post” anterior, dizendo-se espantado pelas ilações que nele tirei relativamente à sua opinião sobre o trabalho de Correia de Campos como Ministro da Saúde.

De facto não foi apenas aquele texto que me levou a tirar essas ilações. Se não estou em erro, de há 1 ano para cá, as únicas vezes que Paulo Gorjão se tem referido a Correia de Campos têm sido num tom crítico, tendo-se as críticas agrupado no último mês, porque nos restantes, mais uma vez se não me engano, Paulo Gorjão foi omisso em relação ao Ministério e ao Ministro da Saúde. Como ele próprio me esclarece (e se calhar não só a mim), não criticou a liberalização da venda de medicamentos que não necessitam receita médica, o encerramento das maternidades ou a reestruturação das urgências. Não criticou, não aplaudiu, não comentou. Talvez por isso, pelos vistos abusivamente, interpretei as suas críticas como opinião pouco favorável.

Até porque tenho de Paulo Gorjão a ideia de um homem bem informado e interventivo, pelo menos na blogosfera, que não se esquece dos assuntos que questiona, e que os persegue sem descanso, até obter uma resposta. Tem sido assim com o MIT, com a notícia errada do DN sobre o novo Procurador-Geral da República. Por outro lado, do elenco governativo, tem particular atenção às actuações de alguns ministros (Freitas do Amaral, António Costa, Manuel Pinho e, mais recentemente, Correia de Campos).

Relativamente às teorias da conspiração, devo confessar que as adoro, mais de umas do que de outras, claro. Por exemplo, intriga-me que, perante a sua insistência em criticar António Costa pela má época de incêndios, não tenha ainda obtido o “Relatório Provisório” sobre incêndios florestais, do passado dia 3 de Outubro, disponível no site da Direcção Geral dos Recursos Florestais, em que se demonstra que o número de incêndios e a área total ardida, de 1 de Janeiro a 30 de Setembro deste ano foram, respectivamente, 57,4% e 32,5% das médias observadas entre os anos de 2001 e 2006.

Também é interessante o facto de ter elaborado uma potencial intriga explicativa da presença de Freitas do Amaral no governo (trampolim para a Presidência da República), seguindo-se a sua reflexão sobre uma eventual remodelação governamental (em Março), apontando Freitas do Amaral como remodelável, tendo este acabado por demitir-se em Junho…

Não tenho rigorosamente nada contra as teorias/teses da conspiração, as agendas políticas e as opiniões de cada um. Somos todos livres de pensar, exprimir esses pensamentos e até livres de errar nas interpretações que fazemos dos pensamentos dos outros.

05 outubro 2006

Agendas políticas

Não deixa de me surpreender (ou talvez não…) que alguns comentadores estejam a usar a proposta da reforma dos serviços de urgência para tecerem considerandos sobre a permanência de Correia de Campos no governo, ou sobre a confiança do PS, ou de algum PS, neste ministro.

As preocupações que expliquei no meu post anterior, relativamente ao facto de 1 milhão de pessoas ficar a mais de 45 minutos de uma urgência polivalente, tal como outros comentadores blogosféricos, não invalida a importância e urgência desta reforma.

Pedir implicitamente que Sócrates venha apoiar o seu ministro da Saúde é, para todos os efeitos, retirar-lhe peso político e, portanto, espaço de manobra. Parece que há uma agenda oculta que primeiro “trabalhou” para a demissão de Freitas do Amaral e agora, de uma forma sub-reptícia, pede a cabeça de Correia de Campos.

O ministério da Saúde, tal como o da Educação, são dos que mais necessitam de reformas, reformas essas que mais custos terão em termos sociais. Mudar de ministro sempre que há algo polémico e perturbador do status quo é uma cedência aos que pedem um espírito reformista ao governo, mas que se assustam imediatamente quando as mudanças se avizinham.

04 outubro 2006

Laranjas


Descasco uma laranja
voluptuosamente,
borrifando o rosto.

Separo os gomos
delicadamente,
mordendo deliciada
a película transparente.

Saboreio o sumo
e lambo os dedos
levemente pegajosos.

Aproximas-te,
guiado pelo odor,
meio intrigado

pela sua origem
e só percebes o engodo
quando te colo as mãos
com beijos molhados.

Amo-te.


(pintura de Kathrine Frances Milns: oranges)

A (des)localização das urgências


O estudo para a redefinição e reestruturação dos serviços de urgência está em debate público. Parece-me um passo indispensável na reforma do SNS.

Já tenho aqui dito e repetido que não há reforma de urgência que resulte se, em primeiro lugar, não forem reformados os cuidados primários, Centros de Saúde (CS) ou Unidades de Saúde Familiares (USF) ou seja, se o acesso dos doentes ao seu médico não for rápido e atempado e se não houver capacidade para satisfazer o mínimo de exames complementares de rotina sem recorrer ao Hospital.

A grande maioria das situações que levam os doentes às urgências hospitalares são situações que poderiam e deveriam ser resolvidas em consulta.

Por isso estou esperançada nas USF, por isso estou esperançada na reforma das urgências. A divisão entre Serviço de Urgência Básica (SUB), Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica (SUMC) e Serviço de Urgência Polivalente (SUP) parece-me lógica. A hierarquização do nível de cuidados médicos necessários e a concentração de meios técnicos e humanos em unidades de referência é uma forma acertada de especializar (desde que se caminhe para serviços especializados de urgência, com pessoal formado e remunerado para tal) e de rentabilizar os parcos recursos existentes.

Mas a notícia de que há cerca de 1 milhão de portugueses a mais de 45 minutos de um SUP é inaceitável.

Espera-se de um estado em que todos os cidadãos pagam impostos para assegurar determinados serviços, nomeadamente o serviço de saúde, que não haja portugueses de primeira – os que vivem junto a centros urbanos – e de segunda – o que vivem no interior desertificado. Mais de 45 minutos pode ser a diferença entre a vida e a morte. Mesmo que seja caríssimo, o estado tem que prover ao bem-estar da população.

Os peritos fizeram o seu papel: analisaram tecnicamente a situação e propuseram soluções técnicas. Do estado espera-se uma solução política, que tenha obviamente em conta o relatório e a recomendação dos peritos, mas que tenha em conta o seu papel equitativo e de garante da saúde de todos os cidadãos, sem distinção.

Por estado entende-se governo e autarquias. Em vez de desatarem aos gritos e a promover manifestações histéricas e demagógicas, devem, todos, sentar-se à mesa e procurar as melhores soluções.

Atrasar o fecho das urgências nessas zonas, investir em ambulâncias de emergência e em pessoal qualificado para acompanhar os doentes, em helicópteros, dotar os SUB e os SUMC dessas zonas de meios de consulta rápida on-line, enfim, posso lembrar-me de várias modalidades.

Mas é imprescindível que isso aconteça e que não se olhe esse milhão de pessoas como apenas 10% da população. E parece-me que até ao fim de Outubro é pouco tempo para discutir este problema.

Teimosamente continuo a acreditar que este governo é mesmo socialista. Este é um momento óptimo para o demonstrar.

01 outubro 2006

Quem tramou Zita Seabra?

Não percebi nada da trapalhada sobre a retirada do projecto-lei de Zita Seabra que defendia a suspensão e o fim dos julgamentos de mulheres acusadas do crime de aborto.

Primeiro não percebo o que é que uma notícia no jornal, por mais venenosa, conspirativa e de política baixa que seja, tem a ver com a desistência, por uma deputada, da apresentação de uma proposta de decreto-lei.

Depois não percebo porque é que quem não é favorável à despenalização do aborto não quer que as mulheres sejam acusadas e condenadas. Se o aborto é considerado um crime, tem que ser penalizado e quem o pratica acusado e condenado a cumprir a pena estabelecida por lei. Se todos estão de acordo que é chocante condenar em tribunal a penas de prisão mulheres que abortaram, então é porque é chocante considerar o aborto um crime.

E ainda não percebo como é possível Zita Seabra ser a protagonista deste episódio. Devo afirmar que não conheço em pormenor a posição de Zita Seabra sobre este assunto. Mas Zita Seabra foi durante anos e anos membro do PCP e deputada por esse partido às diversas assembleias. Que me lembre, a posição do PCP foi e tem sido sempre a favor da despenalização do aborto, defendendo uma alteração legislativa sem necessidade de recurso a referendo. Sabendo que o PCP é sempre unânime nas suas decisões, fala sempre no plural (mesmo na campanha para a Presidência da República falava sempre na “nossa candidatura”), sempre depreendi que Zita Seabra era a favor da despenalização do aborto.

Ter-me-ei enganado? Não devo ter percebido mesmo nada!

Peregrinação


Erramos pelo poema, peregrinos
em busca das palavras que se escapam
ao silêncio da voz aprisionada.

Erramos pelo mundo, penitentes
por pecados que nos dedos viajantes
nos embalam como luz enfeitiçada.

Queremos e corremos,
sem dor ou método, vivemos
do amor com que matamos e morremos.


Outro diálogo (com a Ana Luísa) - irrepetível e obrigatório!
(pellegrini)

Intervenção e cidadania

Estamos, de facto, perante encruzilhadas, nós todos como sociedade, cada um de nós como indivíduo, parte da mesma sociedade.

As mudanças que decorreram nas últimas décadas, após a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e a chamada globalização, com o aumento do consumismo, a glória do mercado, o apelo aos valores do individualismo, competitividade, sucesso a todo o custo, concentração de capital, de serviços, de pessoas, levanta um vendaval de problemas que nos levam a desequilibrar as nossas próprias convicções.

A nova esquerda, a refundação da esquerda, os novos ideais socialistas, a intervenção e cidadania. Palavras e expressões grandiloquentes mas, muitas vezes, vazias de significado. Começa porque não sabemos qual é a noção de cidadania que cada um de nós aceita e, principalmente, pratica. Porque cidadania não é só escrever num blogue, ler jornais e dizer mal do governo à mesa de café, queixarmo-nos do aumento de impostos ou da morosidade da justiça.

Individualmente a cidadania também se exprime na noção de que a nossa atitude cívica é essencial para a coesão social. Ter do trabalho a noção de serviço público, do cumprimento das leis a noção de segurança e equilíbrio, do pagamento de impostos a noção de equidade, da distribuição dos recursos a noção de solidariedade.

A voragem das mudanças, a propaganda e a miragem do consumo têm tentado convencer-nos que a ordem económica e social têm prioridades inversas, que o bem estar e a realização individual são directamente proporcionais ao tamanho do carro, ao número de televisores e telemóveis, à efémera glória do espectáculo mediático.

Sinais de constrangimento e medo assolam a Europa. O envelhecimento populacional, a extrema pobreza numa grande parte do mundo, a imigração crescente e a falta de soluções para a integração dos imigrantes, o desemprego, o crescer dos fundamentalismos religiosos e o uso desses fundamentalismos com objectivos políticos e belicistas, assim como a capitulação perante os extremistas, podem levar-nos a descrer de valores que sempre considerámos universais, convictos que assim podemos travar o avanço para novas formas de totalitarismo.

Refundar, em cada um dos cidadãos, a ideia de pertença, a ideia de que cada pessoa é um elo indispensável à comunidade e a uma vida mais feliz, repensar a noção de cidadania no respeito pela sociedade – talvez seja essa a função mais importante da nova esquerda.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...