14 outubro 2006

A Paz

Ouvimos, com muita frequência, intelectuais, políticos, sociólogos, economistas, cientistas, falarem da sociedade civil e do papel indispensável que têm na intervenção cívica.

Ouvimos, com muita frequência, admoestações a quem tenta remar contra a corrente, a quem tem idealismo e perseverança, com a famosa frase: não podemos mudar o mundo.

Ouvimos, com muita frequência, falar da inevitabilidade do mercado e das suas regras, da inevitabilidade da deslocalização do trabalho para países onde a pobreza é tal que qualquer migalha distribuída às populações (que continuam a ser exploradas em prol do aumento da riqueza dos impérios empresariais, ou dos impérios bancários, que se fundem e refundem até restar um ou dois milionários) é louvada e disputada pelos seus governantes.

Ouvimos, com muita frequência, piedosas prédicas a favor da caridade, habitualmente associada a uma qualquer fé, mais da cristã na nossa Europa desenvolvida, que exorta os bons cidadãos a dar aos que menos têm, impondo-lhes imediatamente uma dívida de gratidão, da qual ficam eternamente dependentes.

Muhammad Yunus demonstrou que quem tem do dinheiro uma noção utilitária de distribuição a quem dele precisa, que a erradicação da pobreza está nas mãos de todos e de cada um, que a dignidade do ser humano está dependente do tratamento igualitário, não olhando às posses, à cor e à religião, que a inteligência, força, vontade, idealismo e realização pessoal podem estar na modificação de pequenos factores que façam, de facto, a diferença, que a paz se conquista todos os dias, que é possível mudar o mundo.

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