31 agosto 2007

Agosto

Longo Agosto
de ventos mudos
quente pleno
maduro.

Venham as chuvas
de Setembro.


(pintura de Cory Behara: leaf #1)

29 agosto 2007

A ausência

Cavaco Silva vetou outro diploma. Depois da Lei da Paridade, do Estatuto dos Jornalistas e da Responsabilidade Civil extra-contratual do Estado, é a vez da Lei Orgânica da Guarda Nacional Republicana.

Vários comentadores e pensadores avisam o PS e o governo, pois acham que podem estar em causa o equilíbrio e a colaboração institucional. Também vêem os vetos presidenciais como um exercício de poder legítimo, mas provocador.

Há até quem comece a falar de partidos presidencialistas. Todos acham que o PS e o governo devem estar preocupados. Sim, mas preocupação maior esperava-se do PSD, do CDS, do PCP e do BE, pois todas estas atenções aos vetos e às palavras do Presidente, inclusivamente quando as não deveria proferir, só demonstram a ausência e a demissão da oposição.

Se a oposição se instalar em Belém, ninguém tem motivos para se congratular, nem mesmo o Presidente. E quanto a partidos presidencialistas, a aventura Eanista com o PRD não foi muito prometedora.

Outra vez Dalila

Correndo mais uma vez o risco de ser insultada por acérrimos defensores da liberdade de expressão, vou falar novamente do caso Dalila Rodrigues.

Ontem Marques Mendes visitou o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) onde foi recebido pela ainda directora do museu, Dalila Rodrigues.

Acompanhados pelas câmaras da SIC, durante a conversa mantida entre os dois, Dalila Rodrigues demonstrou à exaustão porque não deveria ser reconduzida naquele cargo. Na opinião dela, muito válida e estimável, como é óbvio, o MNAA deveria gozar de autonomia administrativa e financeira, não consagrada na lei pela qual ela teria que se reger; demonstrou ainda que, na sua estimável e válida opinião, os directores de museus nacionais, nomeados pelo governo, para prosseguirem a política delineada pelo governo, podem fazer campanha política pela oposição, enquanto desempenham funções, em representação do governo que os nomeou.

Para além disso o facto de Dalila Rodrigues colocar a hipótese de mover uma acção judicial, provavelmente ao Estado, não sei bem, por violação de direitos básicos, designadamente o de ser avisada com 60 dias de antecedência da não renovação da comissão de serviço é, quanto a mim, absurda e não abona nada a favor da sua hombridade, por muito que, legalmente, o possa fazer.

Pode discutir-se a necessidade de certo tipo de cargos serem obrigatoriamente por nomeação, mas não é aceitável que quem os aceita, sabendo que são de confiança política, não tenha a decência de se afastar quando não concorda com o rumo imposto ou com as regras que tem de cumprir. E é ainda mais inaceitável que use esse cargo para atacar politicamente aqueles a quem tem dever de lealdade.

Adenda: totalmente de acordo com Pacheco Pereira

27 agosto 2007

8.

Em infinita discussão contigo mesmo,
estudas o manual de gestão de acidentes pessoais.
Nas paredes aparecem-te escritas as mensagens
que a ti próprio envias. Como se não pudesses esquecer
que és tu, nas tuas próprias mãos, quem te vale.


(poema de Luís Filipe Cristóvão; Pequeña antologia para el cuerpo)

Nelson Évora

Apesar dos dilúvios de futebol, há títulos mundiais no atletismo. Parabéns a Nelson Évora!

26 agosto 2007

Dúvidas metódicas

Neste Verão em que se empolam casos para entreter o pessoal que está de férias, há algumas notícias devidamente comentadas para nos incendiarem o espírito.

De facto o financiamento ilegal dos partidos políticos, a corrupção e, principalmente, a suspeição sobre a política e os políticos é grave e séria.

Mas talvez seja boa ideia, antes de reacções indignadas e moralistas de determinados partidos políticos, sobre o caso SOMAGUE, lembrarmo-nos de um certo Jacinto Leite Capelo Rego, a propósito do caso PORTUCALE e de algumas operações duvidosas envolvendo casas de bingo e de jogos de azar no Brasil.

É um assunto sério e grave, que atinge todos os partidos políticos e onde nenhum partido, portanto nenhum responsável partidário, é inocente.

Direito à indignação

No Público de ontem saiu um artigo assinado por Luís Raposo, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) e signatário de um abaixo-assinado que se demarcou das afirmações de Dalila Rodrigues, posto a correr por altura do episódio da não renovação da comissão de serviço, como directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).

O artigo é duro e demolidor, arrasando muito do que foi dito sobre a performance de Dalila Rodrigues nesse cargo, sobre as suas posições no que respeita a lei de financiamento dos museus, a sua pretensão relativamente à autonomia financeira do MNAA e sobre as suas posições anteriores, noutros aspectos da política cultural deste governo. É, sem dúvida, um ataque pessoal, que responde passo por passo ao que tinha sido divulgado nos media, fundamentado e concretizado.

Numa pesquisa pela Internet, dei apenas por dois blogues que reagiram a este artigo, acusando Luís Raposo de baixeza e apelidando-o de megafono da brigada do reumático.

Não conheço Dalila Rodrigues nem Luís Raposo, para além do que se lê na imprensa. Não tenho qualquer conhecimento especial da problemática dos museus portugueses, para além do que qualquer utilizador observa. Mas não posso deixar de comparar as críticas concretas de Luís Raposo com os elogios generalistas e generalizados a Dalila Rodrigues.

Quanto ao ataque pessoal, parece-me que quem foi insultado pela própria Dalila Rodrigues, que comentou o abaixo-assinado como uma forma de os signatários defenderem o seu lugar de directores, tem o direito de se defender. Ou não?

25 agosto 2007

Ota, ou seja, Alcochete

Depois de tantas juras e trejuras de José Sócrates e de Mário Lino quanto à inevitabilidade da Ota, depois de estudos infinitos sobre a bondade da decisão, depois de anos de decisão e de marcar passo, depois das pressões a favor da Ota, a favor de Alcochete, a favor de Rio Frio, depois das declarações de Mário Lino a desdizer o que sempre disse, talvez não seja má ideia incluir todas as hipóteses no estudo, a não ser que o objectivo seja adiar para o dia de S. Nunca a construção da nova pista/aeroporto de Lisboa.

Que grande trapalhada!

Em paz

Infinitas partículas de ar, junto ao rio, nesta deliciosa Lisboa melancólica de fim de Verão.

Absurdamente em paz com a vida, distende o cansaço e a tensão, enche bem os olhos de transeuntes, de pés calçados de sandálias, de montras de lojas com infinitas coisas lindas, com linhas harmoniosas, sugestivas de uma obrigatoriedade de consumo, de objectos perfeitos e inúteis, apenas indispensáveis à necessidade de beleza.

Esta é uma liberdade secreta e sagrada, horas de silêncio e absolvição.

Mínimos, devedores, perdedores

O seu lugar é junto daqueles que chegam aos 48 anos e deixam instalar-se a febre e os tremores e morrem com pneumonia, é junto daqueles que emagrecem continuamente e vêm nascer-lhes tumores em sítios feios ou vergonhosos e fazem deles mais um braço, é junto daqueles que têm tuberculose e estão desempregados, fumando cigarros encostados às paredes dos cafés de bairro, é junto daqueles que são comidos por toda a espécie de bichos microscópicos porque o HIV se instalou e venceu, nem sequer sabendo da hipótese de se tratarem.

É trabalhando nessas comunidades suburbanas, à volta de Lisboa, nessa mole de gente que parece nem existir, quando se olha para determinados hospitais de luxo com médicos de luxo, que cumpre um juramento que nunca fez.

As doenças são democráticas e castigam homens, mulheres e crianças, de luxo ou de sucata. Por debaixo das roupas, dos cremes, dos sinais exteriores da condição social, os corações falham igualmente quando enfartam, os fígados cirróticos têm a mesma cor e consistência, independentemente das bebidas que os modulam, os tumores invadem todos os corpos, silenciosa e implacavelmente.

Mas mesmo reduzidos ao mínimo múltiplo comum, uns são máximos e credores, outros mínimos, devedores e eternos perdedores.

(aguarela de Isidre Nonell: Dues dones)

Literatura e homossexualidade

O Público de ontem, no Ypsilon, falou da literatura gay.

Não entendo muito bem a que se chama literatura gay, se é literatura sobre ou com personagens homossexuais, ou se é aquela que é escrita por homossexuais.

Tal como penso que não há uma literatura feminina, porque a literatura não tem género, também penso que não há literatura homossexual, porque a literatura não tem orientação sexual.

A vivência de um escritor, desde o seu género, ao seu ambiente familiar, às doenças que tem, à cor dos olhos, da pele e do cabelo, à sua estatura, à forma como se relaciona com ele e com o mundo, os amores e desamores, a situação económica, a forma como escolhe as viagens que faz, se as faz, a comida de que gosta, o tipo de roupa que veste, as horas que dorme e sim, a sua orientação sexual, são importantes na forma como ele entende a vida e, principalmente como a transmite e a sonha, como usa a imaginação, como se expande ou se reduz no que escreve.

Escrever sobre sexo, de todos os tipos, pode ser e é feito por escritores com todo o tipo de orientações sexuais, activos ou reformados, tímidos ou exibicionistas.

A literatura, ela própria, é inesquecível ou indigente, delicada ou crua, que prende ou martiriza, enfim, boa ou má.

24 agosto 2007

Artesãos

Na cidade ficaram os pombos e os carpinteiros dos corpos, com o trabalho sempre em atraso. Fazem muito pó e são pouco perfeitos.

Corpos com medidas personalizadas não cabem nas costuras de um diagnóstico. Difícil de entender, neste mundo normalizado.

É tudo artesanato: o nosso conhecimento e a nossa arrogância.

Hábitos

Externo é o hábito
de usar a pele
dos búzios
espalhar olhos
pelos dedos
raspar a tampa
do silêncio.

Interno é o hábito
de revolver
as ondas
desejar o mundo
imerecido
morrer infinitamente
só.

(Leonardo da Vinci: desenho do coração e dos seus vasos)

A estrada

Piso a estrada vagarosamente
o caminho a pedra
o sol que queima.

Piso a estrada dolorosamente
o longe o vento
a sede de névoa.

Amo a estrada silenciosamente.


(pintura de Dianne D. Baker: Passage of Fire)

Intervalozinho

Nunca tão bem me soube chegar a 6ª feira à tarde. Vou poder espreitar o mundo para lá do trabalho, encher a cabeça com outros assuntos, outras vozes, outras músicas. Tenho sede de lazer.

(pintura de Carol McCormack: Dinnabarraba dancers)

19 agosto 2007

Desocupados

Um bando de meninos que não tinham mais nada que fazer, resolveram passar um pouco das suas férias em luta ambientalista e irreverente, tão criadores e originais, tão independentes e cidadãos que são.

Não há nada melhor do que ser verde e vermelho, encenar uns batuques e uns ruídos de batuque e gritar contra os transgénicos, essa palavra que soa logo a manipulação genética e a guerra biológica, frutos do capitalismo, do consumismo e da poluição mental das mentes imperialistas e globalizantes.

É um excelente tema fracturante.

O resto foi o costume. O proprietário indignado e com um princípio de um ataque cardíaco, assustado com a flagrante ameaça da fome que iriam passar a mulher e a filha, após aquela destruição insana (1 em 50 hectares, ou seja 2% do total), a GNR a olhar para o outro lado, que isto de trabalhar cansa, e os comentadores a comentarem a idiotia de alguns e a preguiça estúpida de outros, que nem se dão ao trabalho de abrir a boca para dizer algumas evidências, como condenar o sucedido e responsabilizar quem deve ser responsabilizado.

E se os puséssemos a cavar, até pagarem com o seu próprio suor, os prejuízos?

A novíssima (confitada) cozinha

  1. Pato esturricado em molho de laranja azeda, envolto em batata esmagada e arroz engomado, com fatias de tomate verde e tiras de alface secante.
  2. Fragmentos de vitela empalada, acompanhados de cubos de pimento verde e nacos de cebola carbonizada, em cama de batatas crocantes ensopadas em óleo vegetal com salpicos de sal grosso.
  3. Bife da vazia ensanguentado, levemente escaldado, mergulhado em piscina de manteiga de mostarda e natas azedas, envolto em coroa de palitos de amido em textura estaladiça, passados por óleo antigo e cansado, com encaracolado de alface em cabelo.

Tudo isto num espaço com toques de província, serviço langoroso, em que o Chefe se mantém invisível nos bastidores. As bebidas são as únicas que se podem aceitar neste ambiente urbano e de subúrbio, com o leite de cevada bem tirado, em espuma líquida derramante.

17 agosto 2007

Famílias

Todas as famílias são disfuncionais.

Há pais ausentes e mães dragões, pais galinhas e mães tecnocráticas, pais e mães do mesmo sexo, pais e mães sem sexo, filhos únicos tímidos, filhos únicos centros de mesa, filhos múltiplos que se matam, filhos múltiplos que se amam, mães solteiras, pais viúvos, mães e pais separados dentro de casa, mães e pais separados por continentes, mães e pais sem filhos, filhos sem pais nem mães, avós que são pais, avós que são filhos, filhos que fazem tudo, pais e mães super todos, filhos malcriados, embirrentos, quezilentos, pais torturantes, manipuladores, abusadores, assassinos, filhos que sovam os pais e os avós, que fogem, que roubam, que se drogam, que se matam de fome, que se matam de fartura.

A minha família só é normal porque é minha e porque nela aprendemos a gerir o nosso quotidiano, os nossos amores e desamores, a nossa parcela necessária e suficiente de desajustamento.

Não há modelos, normas ou critérios aplicáveis, objectivos e testados, de se crescer em harmonia, com o mundo ou connosco.

Todos os dias procuramos fragmentos da felicidade, cada um à sua medida, cada forma irrepetível e teimosa. No fundo, se nos afastarmos um pouco do nosso conglomerado celular, veremos que tudo é absurdamente igual e por isso mesmo eficazmente diferente.


(pintura de van der Heide: the Good Lord is looking after you)

15 agosto 2007

Entardecer

Entardecemos,
meu amor,
com olhos de luz
poente
mãos crepitantes
e sedentas.

Ávidos de verde
empapamos de chuva
as manhãs acesas
e juntos,
meu amor,
renascemos.

(pintura de Hessam Abrishami: Autumn Eve)

Agosto

Reparei que chovia. Agosto revolucionariamente revoltado com o Verão.

Inesperadamente retirarem-se apetrechos a condizer. Mas ninguém estava preparado e as indumentárias matinais foram muito divertidas: calções de banho, chinelos e guarda-chuva, num senhor muito distinto, sandálias e gabardina, numa rapariga gorducha.

Mas todos de bom-humor. Ser do contra dá sempre algum gozo. Talvez por isso tenha escolhido exactamente esta manhã para lavar o carro.

Remodelar

Tem-se falado muito de uma remodelação do governo, entradas e saídas de ministros previstas, com nomes apostados pelos comentadores profissionais.

Pois eu acho que deveria haver remodelação urgente dos assessores jurídicos, de imagem, de imprensa, de tudo. Os erros são mais que muitos. E Cavaco Silva tem aproveitado, e bem, por dar um ar da sua graça.

Sócrates superstar não chega. Vitalino Canas, Augusto Santos Silva e o eterno Pedro Silva Pereira são indecorosamente insuficientes.

E que tal o Sr. Primeiro-Ministro aproveitar as férias para pensar muito, profundamente, olhar-se bem ao espelho e dispensar os aduladores?

13 agosto 2007

Esperar

Correia de Campos está satisfeito com os resultados publicados em relação à melhoria dos tempos médios de espera para cirurgia e tem razões para isso. De facto, mesmo não concordando com a forma como o combate às listas de espera cirúrgica se faz, tenho que reconhecer que os resultados são bons.

No entanto, gostaria que me convencessem de que esta é a melhor forma, mais eficaz, que garante maior qualidade no tratamento, e mais barata. Gostaria de saber porque não se esgota primeiro a capacidade instalada nos hospitais públicos, em termos físicos e humanos, em vez de se contratarem cirurgias com os privados.

Correia de Campos está satisfeito mas espero que não se dê por satisfeito, pois é necessário que se melhore muito mais. E, já agora, o que fazer em relação à Região de Lisboa e Vale do Tejo? Para quando a definição dos tempos máximos de espera para cada tipo de patologia?

Compreende-se

Compreende-se. Joe Berardo é muito mais cultural, muito mais museológico, muito mais mediático. Miguel Torga era um parolo, tinha sotaque, não tinha jeito para a socialização.

É claro que, estando à mão para discursos patrióticos dos nossos socialistas reciclados, era muito enternecedor, no tempo em que a palavra povo, os gestos do povo, a cultura do povo, o saber do povo era importante, ou pelo menos era importante dizer povo, muitas vezes, com a voz directa e embargada dos ecos montanhosos.

Nestes tempos de contemporaneidade, caviar, casaco solto e camisa preta, cabeças escanhoadas e perfume de dinheiro, notas esvoaçantes, contratos chorudos, ambições televisivas de etéreos poderes, a cultura é o Joe Berardo.

12 agosto 2007

Comunicado

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
geme e trabalha
até cair.


(poema de Miguel Torga; pintura de Ted Stanuga)

Essência

Como a terra dura, como os penedos lisos, sólidos, inamovíveis, como o amor pela pátria, como o silêncio altivo e humilde, como o saber antigo e eterno, como a doçura das uvas e o afago da chuva, como o horizonte e o querer, como a tortura da solidão adiada, como a natureza que nasce e que morre, ciclicamente, esforçadamente, gulosamente, como tudo o que nos faz seres humanos, Miguel Torga é a essência de todos nós.

Identidade

Matei a lua e o luar difuso
quero os versos de ferro e de cimento
e em vez de rimas, uso
as consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
a todo coração que se debate aflito
e luta como sabe e como pode:
dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
têm maior duração,
gasto as horas e os dias
a endurecer a forma da emoção.


(poema de Miguel Torga; fotografia de penedos)

11 agosto 2007

O último metro

Revi, há pouco tempo, O último metro (Le Dernier Métro) de François Truffaut, um lindíssimo filme sobre a representação, a dos actores numa peça de teatro, a das pessoas na sua vida, sobre o jogo de enganos com que lidamos para sobreviver, sobre os limites a que cada um de nós pode chegar.

Os actores são magníficos, o ambiente envolvente, a realidade da ocupação, do medo, da vida quotidiana que continua, dos pequenos truques e dos pequenos actos heróicos. Do amor e da paixão, da solidão de quem escolhe um caminho.

É um filme de almas humanas.

A linha divisória

É muito mais fácil saber o que está certo ou errado muitos anos após os acontecimentos que, à data, resultaram de circunstâncias e de decisões que não previram o alcance e os precedentes criados.

A ocupação de França pelos alemães, na II Guerra Mundial, é um dos episódios históricos em que, tal como nos lembra A. Teixeira, poucos se podem gabar de ter tido uma posição firme de resistência, desde sempre.

A História não se compadece com visões parciais ou moralistas, conclusões retiradas posteriormente e, habitualmente, escrita pelos vencedores.

A própria história do anti-semitismo e do problema judaico, que não era apenas um problema da Alemanha, teve, desde o início, a colaboração de líderes de associações judaicas, que aprovaram e apoiaram a deportação em massa de judeus, pensando que essa seria uma boa solução.

É sempre muito mais difícil perceber qual a linha divisória entre a dignidade e a ignomínia, entre o ceder e o render-se. Mas mais tarde ou mais cedo as sombras dos nossos actos projectar-se-ão sobre o que tentámos construir, colectivamente, como sociedade. E as tragédias da humanidade estão constantemente a um passo de acontecer, e acontecem, a todo o instante. E ninguém é inocente.

Tabloidização normalizada

Hoje, como de costume, antes de tomar o meu café com jornais, fui comprar os ditos. Os cafés do bairro resolveram fechar todos ao mesmo tempo, portanto recorri a uma espécie de centro comercial, onde há muitos cafés e uma loja que vende jornais, revistas e tabaco (vão escasseando).

Mecanicamente, peguei nos jornais que habitualmente compro, paguei e, quando me sentei preparando-me para saborear o DN, defrontei-me com o logótipo do Sol. Fiquei embasbacada, irritada e humilhada com este erro de confusão jornaleira.

Depois de suspirar silenciosamente, entristecida com a minha galopante senilidade, folheei o Sol, com alguma curiosidade, pois quando ele saiu achei-o péssimo.

Não melhorei a minha opinião sobre o Sol. O pior é que, lendo o DN online, fiquei a perceber uma das causas da minha confusão: é que os jornais estão cada vez mais iguais, desde o formato, às cores, ao estilo, aos títulos, às notícias.

Estou com senilidade galopante, mas os jornais estão de uma futilidade esmagadora, inúteis, entediantes e totalmente normalizados.

Gestão a menos

Mais uma vez, para entrar em vigor a 1 de Agosto, é publicado um decreto-lei que ninguém percebe muito bem qual a ideia nobre que o gerou. O objectivo é claro: reduzir custos. Mas à custa de quê, com que planeamento, negando autonomia aos Concelhos de Administração dos hospitais, empresarializados ou não, à custa de que peregrina ideia de poupança ou de regularização o sector?

Não se entende o enquadramento, que gestão de recursos humanos se pretende, que filosofia de serviços, a que cuidados de saúde estão a guiar este tipo de medidas avulsas e sub-reptícias, para começarem a funcionar na época em que a falta ou a má gestão do pessoal de saúde mais se faz sentir.

Correia de Campos cada vez se parece mais com um elefante numa loja de cristais.

A propósito, ler também Autonomia, onde ficas? (Saúde SA) e manta de retalhos (que raio de saúde a nossa).

10 agosto 2007

Romaria

É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre meu cavalo
É de laço e de nó
De jibeira o jiló
Dessa vida
Cumprida a só

Sou caipira, pirapora, Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
À custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte, eu não sei, nunca vi

Me disseram, porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir de
Romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

(autor: Renato Teixeira; intérprete: Elis Regina)

Casa no campo

Conheci esta canção através da voz de Elis Regina. Inesquecível, embriagante, solene.

Para uma tarde de Verão (dedicada a uma amiga muito querida).



Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras
Pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sape
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais


(autores: Zé Rodrix – Tavito, 1972)

07 agosto 2007

Sigo

Tal como o pardal
na imensa estrada
que no último instante
vê o perigo

em voo rasante
de susto e de vento
sacudo o medo

e sigo.

[pintura de Origa (Olga Hooper): Birch tree and sparrows]

06 agosto 2007

No sítio do costume

Compras, supermercado, vento, calor, modorra, tudo para um só dia de domingo, igual a tantos outros passados e, seguramente, a tantos outros futuros.

Na caixa uma empregada com facies de ave, com cabelos de um louro totalmente suspeito, com pálpebras meio descidas e ombros descaídos, vai passando as diversas mercearias com pouca diligência, mas carregando no pedal que faz andar o tapete das compras com grande velocidade.

Com os sacos de plástico a fecharem-se teimosamente e a fugirem do controle das mãos, ocupadas a abrir as bocas moles dos sacos, a agarrar produtos escorregadios e a tentar ser rápida, não me aguento mais e resmungo, de forma bastante audível, que assim é muito mais difícil!

A única manifestação, o único sinal, de que algo zumbe ao seu ouvido é a paragem instantânea do rolar do tapete, o que faz com que algumas garrafas de coca-cola, em equilíbrio instável, caiam com estrondo, arrastando o harpic sanitas. Já quase no fim do martírio pergunto, com péssimos modos, se não faz parte das funções da empregada da caixa ajudar os clientes a ensacar as compras.

Com a diligência de um caracol e com a expressão de uma múmia, não levantando nem mais um milímetro das pálpebras, ela responde: Só para as entregas.

Incenso

Queimo incenso
espero

que a noite
me transforme

em cinzas
perfumadas

em poeira
de vento.

05 agosto 2007

Fontes

Seguiremos pelas fontes
até ao âmago da água
elementar e cristalina
pura de ausência.

Seguiremos pela sede
até ao eterno desejo
límpido e sibilino
gota de essência.

Seguiremos pela sombra
até ao limite da luz
matinal e repentina
sopro de consciência.


(escultura de RalphCurtisRoyer: Cross Fountain #2)

Apoucamento ideológico

António Barreto, em entrevista ao DN, a propósito dos 30 anos da Lei Barreto, afirma que O PS está num processo acelerado de desertificação ao nível dos conteúdos, ideias, projectos, causas e programas (esta parte da entrevista não está transcrita no DN on-line).

Infelizmente António Barreto tem razão. O PS está ocupado em gerir a maioria absoluta, em elogiar o pragmatismo e em calar o debate ideológico.

Ao contrário do que se está sempre a dizer, cada vez interessam mais as ideologias, cada vez é mais premente a clarificação das ideias à esquerda e à direita, a estruturação de soluções políticas para a nossa sociedade, a procura de soluções para os excluídos, para a regulamentação do trabalho, para a preservação do meio ambiente, para o apoio aos idosos, para o aumento da natalidade.

É em redor da discussão ideológica que se podem congregar as populações, que se podem motivar as pessoas. O PS está a percorrer um caminho que pretende de auto preservação, mas que será inevitavelmente de destruição. A moda é gerir a crise e dizer que não há alternativas.

Há sempre uma alternativa. E a pior é o descrédito no regime democrático, o divórcio entre os governados e os governantes, o autismo do poder.

Este PS está numa deriva de apoucamento ideológico. Ao contrário do que António Barreto crê, eu penso que José Sócrates irá ganhar as próximas eleições, e até com maioria absoluta, pois o apoucamento ideológico não é exclusivo do PS nem da esquerda.

Mas quem perde com tudo isto é o próprio regime. Abrem-se brechas que não são aproveitadas para a necessária renovação.

Outro dia, em conversa de café, alguém me dizia que não seria possível que António Barreto fizesse parte por muito tempo do governo actual. Infelizmente, pessoas da sua craveira e com o seu empenhamento estão fora de moda. Já há bastante tempo.

(imagem do cartaz retirada daqui)

Nomeações e reconduções

Ainda sobre Dalila Rodrigues.

Dalila Rodrigues foi nomeada para uma comissão de serviço de 3 anos como directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), na vigência da anterior Ministra da Cultura, Maria João Burstoff, em Setembro de 2004.

Parece que não restam dúvidas de que exerceu esse cargo com empenhamento e competência, a julgar pela avaliação que dela faz o próprio director do Instituto de Museus e Conservação (IMC), Manuel Bairrão Oleiro.

Por ser um cargo temporário e de nomeação, está sujeito à confiança política de quem a nomeia. Neste caso à Ministra da Cultura actual (que, ela sim, deveria ter dito já qualquer coisa sobre esta polémica) ou, mais directamente, do director do IMC.

Acho admirável como é que uma pessoa que declarada e publicamente se manifesta contra a nova lei orgânica do IMC, que é, aliás, um direito que lhe assiste, espera poder ser reconduzida no cargo de directora do MNAA. Acho ainda mais extraordinário que se sinta perseguida por tal facto e que tenha ficado surpreendida.

Em primeiro lugar ficámos a saber que a renovação das comissões de serviço são obrigatórias. Depois ficámos também a saber que, embora as pessoas declarem publicamente que discordam da política do governo, neste caso de um ínfimo pormenor como é a lei orgânica do organismo que tutela directamente a estrutura a dirigir, devem sacrificar-se a concretizar políticas de que discordam, ou com meios que consideram inadequados.

A liberdade de expressão é um direito, o assumir as responsabilidades das suas posições políticas é um dever. Dalila Rodrigues não foi demitida, nem foi castigada, apenas não vai cumprir mais uma comissão de serviço como directora de um Museu, que se regerá por regras com que ela não concorda.

Se Manuel Bairrão Oleiro decidiu bem, isso é o que será avaliado daqui para a frente.

Quanto ao abaixo-assinado subscrito por 16 directores de museus nacionais, que se demarcaram da posição de Dalila Rodrigues, tem o mesmo significado que outros abaixo-assinados subscritos por outras pessoas, sobre os mais diversos assuntos. A conclusão de que esses directores estariam a defender os seus lugares é, no mínimo, extremamente deselegante, como Dalila Rodrigues insinua, a respeito dos seus ex-homólogos. Será Dalila Rodrigues mais honesta, mais sincera e mais competente que os directores dos outros museus, apenas porque tem uma opinião contrária à da tutela?

Adenda: tenho muita pena de não ter acesso ao documento subscrito pelos 16 directores, pois não gosto muito de ler notícias com bocados escolhidos; gosto mais de escolher eu.

Absolutismo maioritário

O governo e o PS têm sofrido sérios reveses nos últimos dias.

O parecer do Provedor de Justiça sobre o concurso de acesso a Professor Titular é arrasador para quem o concebeu e defendeu, apesar de todas as contestações da classe profissional. Parece-me muito bem que se façam reformas e se resista ao corporativismo, mas o parecer de Nascimento Rodrigues demonstra que o Ministério da Educação e a sua Ministra sofreram uma pesada derrota, pois este é um assunto emblemático da sua política. É indispensável que a Ministra retire as consequências inerentes a este parecer, reconheça o que há de errado no processo, assumindo ela própria a responsabilidade política, e responsabilize os assessores em causa. Não se pode exigir e apregoar rigor e competência com este tipo de prestação dos governantes.

Por outro lado, o veto presidencial ao novo estatuto do Jornalista. Mais uma vez o PS resistiu às críticas das outras bancadas parlamentares e às críticas dos jornalistas. É bem verdade que a acusação de que estávamos a assistir ao maior ataque à liberdade de expressão desde o 25 de Abril é descabido e disparatado, pois os subscritores dessa acusação esqueceram-se de todos os ataques à liberdade de expressão existentes entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, conduzidos também por jornalistas. Mas Augusto Santos Silva e o PS têm de acatar as consequências de um autismo de maioria absoluta, tentando agora minimizar os estragos. Esperemos que prevaleça a humildade democrática, que tem sido bem escassa, e que a lei seja modificada.

Não deixa de me espantar a surpresa de Cavaco Silva pela não renovação da comissão de serviço de Dalila Rodrigues, como directora do Museu Nacional de Arte Antiga. Extraordinariamente, o Presidente surpreende-se com assuntos que, em princípio, não deveriam fazer parte suas preocupações, mas não se surpreende, não se indigna nem tem nada, ou tem muito pouco, a dizer sobre os desmandos, as declarações e a falta de cumprimento das leis por parte de uma região autónoma e do seu Presidente Regional. Será que a coexistência pacífica está a terminar?

03 agosto 2007

Livros

Tenho um livro na mesa-de-cabeceira, ou dois, ou três, que me acodem de longe, silenciosamente fazem-se lembrados, quando relutantemente apago a luz e tento dormir.

Nem sempre venço as insónias. Com os olhos decididamente fechados, correrias loucas substituem os mares de Finisterra, gente frenética na vez de Jaime Ramos, o mar tão longe dos meus dedos, que lhe sinto o sal, o arrepio gelado na pele, o vento nos braços, o sol que queima nos ombros. Vagarosamente me embalo, recordo o Pico, o sotaque açoriano, o jantar tardio, num terraço da Horta.

Mais constante e fiel que qualquer amigo, que qualquer amante, o livro não nos abandona. Pelo contrário, nós abandonamo-lo, sem culpa nem remorsos, acumulando poeira, mas acordando no imediato momento em que lhe dirigimos o olhar. Revive e transforma-se, murmurando ondas e borbulhando charutos, escondendo pistas e mastigando mistérios.

Tenho muitos livros na minha mesa-de-cabeceira, amizades velhas e confortáveis, compondo almas dentro de mim.

(pintura de Ardyn Halter: in the library)

Maratonas

Manter o ritmo louco destas últimas semanas, alterar, planear, remodelar, executar, motivar. Manter a vontade acesa, a chama, sem que me queime ou incendeie, reduzindo a cinzas sonhos de tanta grandeza.

Manter o ritmo e o sentido do efémero, do todo que se perde num segundo, do pouco que se demora eternidades a atingir.

Agora respiro, estendo, relaxo, acalmo.

Manter a vida.


(desenho de Sarah Larsen: maratona)

Penumbra

Se não quisermos este sol
colheremos
a penumbra destes dias
e beberemos
a humidade destas mãos.

Se nos amamos
nestas gotas evaporamos
e repetidamente
condensamos.


(pintura de Wayne Jiang: Rear Windows)

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...