Sobre a petição de que falei ontem (lançada na sexta-feira):
Rangel diz que manifesto "não teve adesão dos portugueses" e já "saiu da agenda”
Petição do manifesto dos 74 reúne assinaturas suficientes para ir ao Parlamento
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Sobre a petição de que falei ontem (lançada na sexta-feira):
Rangel diz que manifesto "não teve adesão dos portugueses" e já "saiu da agenda”
Petição do manifesto dos 74 reúne assinaturas suficientes para ir ao Parlamento
O arco do Tejo abraça Lisboa.
Imóvel e secreta no cais do mundo
a cidade escreve a próxima viagem
no preciso instante em que regressa.
A Assembleia da República é a Instituição que, no Portugal Democrático, deve discutir e decidir a melhor forma de conduzir os destinos do País. Por isso assinei a petição pública para que o Manifesto 74, depois do Manifesto dos 70, seja discutido pelos deputados.
Reestruturar a dívida insustentável e promover o crescimento, recusando a austeridade
O programa do FMI e da União Europeia para Portugal (2011- 4) deve terminar a 17 de Maio de 2014. Nas próximas semanas será tomada a decisão de aceitação de um programa precaucionário continuando as mesmas políticas ou de submissão à vontade dos mercados. Em qualquer dos casos, a regra da austeridade continuaria num país em que o nível de desemprego já duplicou para cerca de 20%, como resultado da estratégia escolhida.
Para mais, apesar de fortes reduções do orçamento de Estado, o rácio da dívida no PIB subiu para 129%. Nos dois anos anteriores a 2008, a dívida pública tinha aumentado 0,7%; nos dois anos seguintes, cresceu 15%. Os resultados são claros: a austeridade orçamental reduziu a procura agregada, agravou a recessão, aumentou o nível da dívida pública e impôs sofrimento social à medida que as pensões e salários foram reduzidos, os impostos foram aumentados e a protecção social foi degradada.
Como economistas de diversas opiniões, temos expressado as nossas preocupações quanto aos efeitos da estratégia de austeridade na Europa. Recomendámos fortemente a rejeição das ideias da “recessão curativa” e da “austeridade expansionista” e os programas impostos a vários países. Criticámos as decisões do BCE durante a recessão prolongada e a recuperação medíocre. Os resultados confirmam a razão da nossa crítica. É tempo de mudar o curso desta política.
Assim, apelamos a uma política europeia consistente contra a recessão. Apoiamos os esforços dos que em Portugal propõem a reestruturação da dívida pública global, no sentido de se obterem menores taxas de juro e prazos mais amplos, de modo que o esforço de pagamento seja compatível com uma estratégia de crescimento, de investimento e de criação de emprego.
Para quem o quiser fazer, aqui fica o link.
Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente
Para: Sua Excelência a Presidente da Assembleia da República
Hoje, há um consenso amplo na sociedade que reconhece que Portugal enfrenta uma crise sem precedentes na sua história recente que combina dimensões económicas, sociais e financeiras, tendo também importantes manifestações políticas que podem abalar os alicerces do regime democrático.
Nenhuma estratégia de combate à crise pode ter êxito se não conciliar a resposta à questão da divida com a efectivação de um robusto processo de crescimento económico e de emprego num quadro de coesão e de solidariedade nacional. A reestruturação honrada e responsável da divida no âmbito da União Económica e Monetária a que pertencemos é condição sine qua non para o alcance desses objectivos, tendo igualmente em atenção a necessidade de prosseguir as melhores práticas de rigorosa gestão orçamental no respeito das normas constitucionais. Sem crescimento económico sustentável, a dívida actual é insustentável.
Após a entrada em funções do novo Parlamento Europeu e da nova Comissão Europeia, deverá estar na agenda europeia o início de negociações de um acordo de amortização da divida pública excessiva de vários Estados membros. Portugal precisa de identificar as condições a que deve obedecer um processo eficaz de reestruturação da divida nesse âmbito e deve fazê-lo no respeito pelos processos inscritos no quadro institucional europeu. No entendimento dos signatários essas condições devem visar:
- o abaixamento significativo da taxa média de juro do stock da dívida;
- extensão de maturidades da divida para quarenta ou mais anos;
- a reestruturação, pelo menos, de divida acima dos 60% do PIB, tendo na base a divida oficial.
Os mecanismos de reestruturação devem instituir processos necessários à recuperação das economias afectadas pela austeridade e recessão, tendo em atenção a sua capacidade de pagamento em harmonia com o favorecimento do crescimento económico e do emprego num contexto de coesão nacional.
A Assembleia da República é o espaço institucional por excelência para desencadear um debate democrático alargado sobre as condições gerais a que deve obedecer a eficaz reestruturação da dívida pública. Uma deliberação da Assembleia da República sobre tais condições genéricas não será um factor de fragilidade. Pelo contrário, reforçará a legitimidade das instituições democráticas, e ao mesmo tempo, fortalecerá a posição negocial do Estado português junto das instâncias europeias.
Neste sentido, e nos termos da Lei que regula o direito de petição, os peticionários pedem à Assembleia da República que aprove uma resolução recomendando ao governo o desenvolvimento de um processo preparatório tendente à reestruturação honrada e responsável da dívida, com os fundamentos constantes do manifesto: “Preparar a Reestruturação da Divida para Crescer Sustentadamente” que se anexa. Mais pedem à Assembleia da República que desencadeie um processo parlamentar de audição pública de personalidades relevantes para o objectivo em causa.
Arpad Szenes
Estamos todos de partida
no fim do olhar a música do adeus
palavras que nos doem e empurram
como mar de mágoa a que nos damos
como estradas em que nos perdemos
de nós e dos outros.
Estamos todos de partida
nos sinos dolentes com que retomamos
caminhos de regressos que ansiamos.
Nas madrugadas em que nos desfazemos
partimos sempre para aqui chegar.
Foram anos intensos, perigosos e determinantes na História da democracia espanhola e, por extensão, da democracia como conceito e como regime. Neles houve alguns protagonistas que não evitaram o risco, a defesa dos seus ideais.
Estes são tristes tempos em que esperamos que outros, como eles, assumam a política como uma causa nobre e não se escudem nas interpretações ínvias e subliminares, populistas e autoritárias, para denegrir o que de melhor temos para dar - o contributo para a sociedade.
Tristes tempos estes em que olhamos para outros protagonistas que apoucam o serviço público e não estão à altura das suas responsabilidades.
Ao contrário do que Marcelo Rebelo de Sousa acabou de dizer, no golpe de Tejero Molina não foram apenas duas pessoas que permaneceram sentadas ou de pé. Foram três - Adolfo Suaréz, Gutiérrez Mellado e Santiago Carrillo.
Devo andar muito distraída ou cada vez mais vendida ao grande capital e à exploração desregrada dos trabalhadores, visto que fui surpreendida com uma indignação que alastrou qual incêndio em palha seca pelo facebook, a propósito de iogurtes oferecidos pela Danone a alunos estagiários, de uma reportagem da RTP sobre a opinião dos jovens estagiários, e de um programa da Antena 1, com Isabel Stilwell e Eduardo Sá que opinavam contra a indignação dos estagiários.
Ou seja, a indignação é o elemento comum de toda esta história descabelada. Além disso descobri que, no serviço onde trabalho, afanamo-nos a proporcionar estágios curriculares a vários alunos mas, pelos vistos, deveríamos recusar-nos a fazê-lo, para não os humilhar. E ainda por cima há uma espécie de tradição em que os alunos oferecerem um bolo ao serviço, no último dia de estágio...
Antes de mostrarmos tanto escândalo, talvez não fosse má ideia perceber exactamente do que estamos a falar para não confundirmos as coisas.
Estágios curriculares - são períodos de semanas a alguns meses, integrados nos curriculos dos vários cursos/ licenciaturas, que as várias instituições de ensino contratualizam com empresas, para as vertentes práticas das várias formações. Estes estágios obedecem a um determinado programa, têm responsáveis ou tutores que, pelo menos no nosso caso, não auferem qualquer remuneração, que devem delinear o dito programa, supervisioná-lo e avaliá-lo, com provas práticas, relatórios, etc. Estes estágios são parte integrante dos cursos/ licenciaturas, que não podem ser concluídos sem eles. Os estagiários não são, como me parece absolutamente lógico, remunerados.
Estágios profissionais - períodos mais ou menos longos em que pessoas já com os graus de licenciatura e/ou cursos completos ficam em empresas, iniciado-se na actividade profissional, habitualmente ainda sem autonomia total, que funciona como integração, sujeitos a uma avaliação do desempenho pelo empregador. Estamos a falar de um contrato, mesmo que em períodos experimental e que deveria ser obrigatoriamente remunerado - coisa que não o é, na maior parte dos casos.
Estágios voluntários - períodos com duração máxima de 3 meses, segundo creio, em que pessoas já com os graus de licenciatura e/ou cursos completos pedem para se integrarem numa empresa que tenha possibilidade de os acolher, para enriquecimento curricular e aquisição de experiência. Estes estágios multiplicam-se por vários períodos dada a ausência de oferta de empregos. Estes estágios não são remunerados e, obviamente, deveriam sê-lo. Estes casos só existem porque o desemprego é galopante e são uma forma de mantenção do contacto com o mundo profissional. Esta é, de facto, uma exploração indevida de mão-de-obra a custo zero.
Os estagiários que tanto se indignaram com a Danone pertencem ao 1º grupo, pelo que não entendo a indignação deles, não percebo a razão da indignação incendiária do facebook e percebo, além de concordar, com a visão de Isabel Stilwell e de Eduardo Sá.
Estou portanto caduca e rendida aos mais férreos valores conservadores e opressivos do neoliberalismo, uma velha caquética que se esforça por colaborar na formação prática dos jovens.
Eu até concordo que se fale da Europa, durante a campanha para as próximas eleições. O problema é que o que há a dizer é nada. Não conheço nenhuma ideia original que os partidos tenham a apresentar e discutir sobre a Europa política, económica e social.
Na verdade o país depende exactamente do que todos pensarmos sobre a forma como o espaço europeu funciona, ou melhor, não funciona. Mas será que há algum dos nossos candidatos a deputados que tenha alguma sugestão a fazer? E o Presidente? O que pensa do nosso passado recente, do presente e do futuro da União Europeia? Será que pensa?
(...) O último dia, sábado, será preenchido com a atuação, a partir das 22:00, dos grupos Manu Jazz (Oliveira do Hospital) e SoWhat?, com Nana Sousa Dias. (...)
(daqui)
Passos volta a convidar Seguro para encontro
Passos recebe Seguro em São Bento
Isto é tudo tão ridículo e tão cansativo. Será que pensam que alguém ainda acredita neste embuste? Depois de tudo o que se passou à volta do Manifesto dos 70?
Confesso que nunca tinha lido a Ode Marítima na sua totalidade. Conhecia vários fragmentos, alguns que me diziam mais que outros. Antes de ir ao Teatro São Luiz copiei a Ode Marítima (site Casa Fernando Pessoa) para um ficheiro de word e li-a quase toda.
São indescritíveis as emoções que nos assaltam ao longo do espectáculo. Com um texto como este, a verdadeira estrela do único acto, somos levados na enxurrada de palavras que Diogo Infante debita, durante mais de 1 hora, sem que nos desprendamos de cena um único segundo.
Está lá tudo. Álvaro de Campos (Diogo Infante) diz-nos de uma forma inexcedível a dor e o lamento de quem se exorta a partir, anseia pelo longe e pelos diversos cais de embarque, navios que se perdem pelos sentidos e que se encontram pela ambição da descoberta, da aventura, do perigo, da experimentação de tudo, mas que não é capaz de sair da sua vida moderna, mediana e certinha, traçada diariamente com uma realidade plana, tumultuosa e avassaladora com a imaginação.
Não me lembro de melhor metáfora para o nosso momento colectivo. Esta ânsia que atravessa a nossa História, esta investida no que está além, para além, esta contradição entre o querer ir e a saudade do ficar, delicadamente acompanhada pelos pequenos e oportunos solos de guitarra, mais uma metáfora portuguesa, é uma das melhores formas de resistir a toda esta lama informe que nos tolhe a vida, principalmente a nossa atitude perante a adversidade.
É essa atitude que hoje nos falta, é esta ambição que está minguada e que se espelha na canção de Pedro Abrunhosa “Para os braços da Minha Mãe”. Gosto de Pedro Abrunhosa como compositor, não como cantor. E apesar da melodia ser bonita, apesar da voz de Camané ser excelente, a letra da canção é a tradução de uma atitude desistente e conservadora, em que à necessidade de partir não se alia qualquer cunho de curiosidade e liberdade para aprender outras realidades, outras culturas, outras oportunidades.
A emigração é um flagelo por quanto resulta de uma total incapacidade política, do País e da Europa, de proporcionar às populações vidas dignas e cheias, de um desperdício do esforço, empenhamento e imaginação de quem tem que procurar a felicidade noutros países. Mas esta é uma geração de emigrantes qualificados, que poderão aproveitar de uma forma mais construtiva a inevitabilidade do desembarque em tantos cais e tantos longes quanto os que a imaginação de Álvaro de Campos tanto queria sentir.
A resistência faz-se reagindo, com o combate da poesia, da pintura, do teatro, da música, de todas as artes que nos empurram para diante, que nos mostram mais do que aquilo que temos à nossa frente, do que nos atrofia e nos entristece. As saudades farão os navios regressarem, nunca os devem impedir de partir.
(...)
Ah, seja como for, seja para onde for, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar,
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstracta,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!
Todo o meu sangue raiva por asas!
Todo o meu corpo atira-se prà frente!
Galgo pla minha imaginação fora em torrentes!
Atropelo-me, rujo, precipito-me!…
Estoiram em espuma as minhas ânsias
E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!
(...)
Se ainda houvesse dúvidas quanto à responsabilidade deste governo em tudo o que tem sido a chamada política de austeridade imposta pela Troika, a forma como Passos Coelho e os comentadores que a si próprios se apelidam de técnicos reagiram ao manifesto dos 70, demonstra bem que os apelos aos consensos são apenas retórica vazia. Quando eles existem e seriam bem aproveitados para uma negociação séria com os nossos credores, cai a máscara ao Primeiro-ministro e a esta maioria, que solta todos os pseudojornalistas para uma campanha política mascarada de informação contra tudo o que faça pensar numa alternativa ao estado de penúria perpétua.
António José Seguro poderia aproveitar esta evidência, mas nem isso é capaz de fazer.
Não é a Troika, a crise ou Os Mercados que nos votam à miséria e ao empobrecimento, é mesmo a ideologia de quem está no poder. As eleições servem para isso mesmo - julgar quem nos governa. Aproveitemos pois a oportunidade das eleições europeias para rejeitarmos esta Europa a várias velocidades, que não respeita as pessoas, que nos levará, a passos largos e seguros, para a negação do regime democrático. Aproveitemos pois para dizer que não queremos mais esta direita que nos governa, aqui e na Europa.
Des'ree
Listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try and keep your head up to the sky
Lovers they may cause your tears
Go ahead release your fears
Stand up and be counted don't be 'shamed to cry
You gotta be, you gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know love will save the day
Herald what your mother said
Read the books your father read
Try to solve the puzzles in your own sweet time
Some may have more cash than you
Others take a different view
My, oh, my
he-eh-y
You gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know love will save the day
Time asks no questions it goes on without you
Leaving you behind if you can't stand the pace
The world keeps on spinning can't stop it if you tried to
The best part is danger staring you in the face
Remember, listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try to keep your head up to the sky
Lovers they may cause your tears
Go ahead release your fears
My, oh, my
He-ey-y
You gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know love will save the day
You gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know love will save the day
Got to be bold, Got to be bad
Got to be wise, no never sad
Got to be hard, not too too hard
All I know is love will save the day
You gotta be bad
You gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
Oooh, yeah yeah yeah
Life Cycle
Tudo o que acaba tem em si mesmo um começo
num imparável ciclo de luz e de sombras.
Fins e princípios como gémeos inseparáveis
e desavindos em perfeita harmonia
na incerteza ou determinação humana do ser.
É possível, até mesmo muito provável, que Francisco Assis tenha razão e que a liderança do PS não esteja em causa caso o resultado das eleições europeias seja desastroso. Que o vai ser já todos perceberam e a desvalorização das mesmas serve para distrair do significado da adivinhada derrota do PS. Na verdade não há qualquer esperança de renovação na cúpula do maior partido da oposição. Mas será que faria qualquer diferença? Qual a ideia do PS para o País, dentro do quadro europeu?
Desde há largos anos, se não desde sempre, ouvimos falar das famosas reformas estruturais, sem que ninguém explicite o que significa exactamente essa expressão – mais uma vez porque, provavelmente, não significa nada. E repito a pergunta – qual a ideia do PS para o País, independentemente do quadro europeu?
A propósito da promessa de António José Seguro quanto à reabertura dos tribunais que agora são encerrados, tal como aconteceu na altura do fecho das maternidades e das escolas – alguém se lembra? – porque os vai reabrir? Alguém ainda acredita, para além de Pinto Monteiro, que são os tribunais, os departamentos de finanças, os hospitais ou as escolas que prendem os cidadãos às aldeias, vilas ou cidades de província? As alterações demográficas, sociais e económicas alteraram a distribuição da população deslocando-a para o litoral. A reorganização administrativa não se faz nem se vislumbra qualquer capacidade dos maiores partidos para afrontar os aparelhos partidários de forma a romper com os interesses instalados.
Só a criação de emprego e o desenvolvimento do interior trará incentivos ao enraizamento das populações que, por seu lado, necessitarão de serviços de todo o tipo. Não quero obviamente dizer que se votem os cidadãos ao abandono e à solidão, esvaziando todos os locais de serviços públicos. Mas também não é o facto de os manter a funcionar sem o mínimo de condições para que sejam de qualidade que fará a diferença. Aliás como nunca a fez, como são exemplo os concursos públicos que abrem e fecham sem concorrentes, para não falar da iniciativa privada que, simplesmente, não existe.
Estamos a assistir a um desmantelamento daquilo a que nos habituamos a considerar direitos e que, como esta maioria não se cansa de propagandear, não o deveriam ser com argumentos como - a sociedade que construímos é irreal sendo os motivos a suposta injustiça que se faz às novas gerações que sustentam a saúde, a assistência social e as reformas das mais velhas; os funcionários e de tudo o que é serviço público são gastadores de dinheiro e não têm qualidade. Isto ao invés de investir na competência, no rigor e na eficiência, atraindo os melhores e mais competentes, reduzindo em número criteriosamente, usando o mérito para contratar e promover, o demérito para dispensar. Mas aquilo a que esta maioria nos dá direito é a um empobrecimento generalizado, a baixos salários, desqualificação, requalificações que significam despedimentos, ausência de apoios sociais, etc.
Onde estão as propostas de António José Seguro para a reforma do estado? É que o investimento na qualificação, na ciência, nas universidades, nas novas tecnologias, nas energias alternativas, foi coisa do tão detestado e megalómano José Sócrates. Neste momento o PS apresenta um candidato a primeiro-ministro muito pouco feroz e bem falante, cuja melopeia adormece e resigna, cuja a cabeça é usada para um penteado certinho, cujo pensamento é árido e faz secar qualquer esperança no futuro próximo.
Cavaco Silva já deu o mote - tudo vai continuar, por muitos e longos anos.
(...) Não percebo nada, tudo me cheira a esturro, a teatro de sombras, aperformances, desde o jogo do empurra ao "não subimos porque não queremos", à famosa "contenção" tão celebrada por ambos os lados, aos repetidos "5 minutos para dispersar", às declarações dos responsáveis sindicais ("eles fazem o seu trabalho, nós fazemos o nosso") e ao compromisso da Presidente da AR em "enveredar esforços para desbloquear a situação". Alguém que me explique, por favor.
Publicar um livro de poesia continua a ser como deixá-lo cair de uma ponte e esperar que se ouça o estrondo. Habitualmente, não se ouve nada. - Lawrence Ferlinghetti
Como ler um Escritor - John Freeman
Edições Tinta da China, Lisboa, 2013
As viagens de comboio são óptimas oportunidades para ler. Ultimamente tenho passado várias horas entre Lisboa, Porto e Coimbra, aproveitando para me deliciar com alguns livros que vão aguardando em cima das mesas.
Escrita íntima é um livro editado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM) e pela Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva (FAZVS) e é constituído por um conjunto de cartas trocadas entre os dois pintores, organizadas em três grupos: o primeiro nos anos 30, o segundo durante o seu exílio brasileiro e o terceiro entre 1947 e 1961, correspondendo ao regresso a Paris e à reconstrução das suas vidas.
É um livro fascinante, porque fascinante foi a história de cada um dos pintores, a sua obra, o enquadramento histórico com as guerras, as ditaduras, os anos de interregno ao fugirem para o Brasil (Arpad Szene era judeu), a efervescência artística e intelectual na pintura, na escultura, na literatura e até na música, as viagens, o desenvolvimento da sua arte individualmente e inserida nas correntes das várias épocas que atravessaram e, principalmente, pela sua história como casal que se encontrou e se amou tão total e completamente que faz deles os protagonistas de uma extraordinária história de amor.
As cartas que agora são publicadas, no original (francês com vários termos estrangeirados e adaptados, na sua maioria códigos de carinho e ternura) e traduzidas para o português, com fotografias das próprias cartas e de alguns dos desenhos com que se comunicavam, de quadros e de fotografias dos dois, em casa, com amigos, a trabalharem, mostram uma entrega e um amor através dos mais simples e habituais momentos diários, que não deixa ninguém indiferente.
Imagino que tenham tido uma vida cheia cheia, com partidas e recomeços, com dificuldades e coragem, sempre perseverando na procura dos seus caminhos, influenciando-se e apoiando-se mutuamente, sendo um o guia e a inspiração do outro, núcleo da sua força e amparo das suas fraquezas.
Onde estão os escritores, os guionistas, os realizadores, os investigadores deste país, que não se debruçam sobre esta incrível história de dois artistas amantes por toda uma vida tão repleta de experiências, tensões, viagens e arte, que estiveram no centro de movimentos artísticos tão importantes, que viveram a intensidade, as misérias e os fulgores do século XX?
É um livro inspirador. Está também a decorrer uma exposição, na FAZVS a propósito desta Escrita íntima, a não perder, certamente.
No intervalo destes últimos 40 anos, o mundo mudou radicalmente. O desenvolvimento tecnológico exponencial permitiu maior longevidade e qualidade de vida, nos países a que se convencionou chamar desenvolvidos, maior riqueza e bem-estar, melhor e mais rápida divulgação com as novas tecnologias de informação.
Politicamente a queda do muro de Berlim, o ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque, a consolidação e alargamento da União Europeia, o despertar dos países da América do Sul, o crescimento da China e da Índia, os fenómenos de migração populacional, entre muitos outros, modificaram os equilíbrios existentes a um ritmo crescente, transformando o mundo numa massa globalizada, que cria riqueza mas que a concentra em cada vez menores núcleos de indivíduos, aumentando o fosso entre os que mais podem e os que nada podem.
Percebemos hoje que não tem havido capacidade, imaginação nem vontade de lidar com os novos problemas que se avolumam – as alterações demográficas, o reacender dos ódios (xenofobia e racismo), as alterações climatéricas, a gestão dos recursos naturais. Em Portugal e na Europa assiste-se a um cada vez maior divórcio entre os governantes, os líderes dos partidos e os representantes das diversas associações sociais (sindicatos, confederações patronais, industriais, etc) e a restante população, aumentando a descrença neste regime democrático em que esses mesmos governantes, líderes e representantes são, por definição, eleitos livremente.1
A total subversão do papel da comunicação e da informação, fruto da revolução informática, transformou a vida, os direitos, as liberdades e o conceito de justiça numa paródia, assistindo-se à construção e destruição de carácter e de factos, mais falsos que verdadeiros, numa roda-viva dentada que tritura pessoas, instituições, conceitos. A manipulação das vontades e dos sentimentos globais movem as multidões e aqueles que deveriam ser os dirigentes deixam-se dirigir pelas ondas de protesto, indignação, fúria ou júbilo que todos os dias assolam a sociedade.
Estas organizações políticas não conseguem mobilizar os cidadãos, que deixaram de acreditar no que lhes é dito e repetido. A vida vai correndo à parte do que é cozinhado nas cadeiras dos diversos poderes e a raiva surda com o encolher de ombros vai sendo a atitude de quem quer manter a mínima sanidade mental. É confrangedor ouvir as frases gastas, os clichés, as palavras de ordem de governo, oposição, comentadores, economistas, sindicalistas e outros membros que gravitam na órbita desta elite, sem centelha, sem ideias, sem glória.
Ao contrário de tanta coisa que se modificou nos últimos 40 anos, nada se quer mudar nesta organização política formal, porque já é só formalidade e alimentação de interesses de poder, sem que importe a sociedade, o seu respirar, o seu viver, a sua felicidade. A riqueza e o poder deixaram de ser meios para serem fins, e o governo da nação deixou de se preocupar com a própria nação para se preocupar com os que a governam, num mundo ficcional e desligado da realidade.
Por isso é cada vez mais provável a queda do regime democrático. Ninguém acredita nele. Continuamos neste romance de faz-de-conta até que, provavelmente tarde de mais, outro regime ditatorial tome conta de nós. É que eu não conheço mais nenhum tipo de regime – democracia e ditadura podem ter várias práticas e vários nomes, mas são apenas essas as alternativas - democracia ou ditadura. E a avaliar pelo que se passa nesta Europa, o primeiro arrisca-se a ser trocado por um mais moderno, mais chique e mais na moda.
1 A última manifestação convocada pela CGTP parecia uma procissão, com andor e ladainhas e menos fulgor que as rezas de um velório.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...