16 março 2014

Da resistência

 



 


Confesso que nunca tinha lido a Ode Marítima na sua totalidade. Conhecia vários fragmentos, alguns que me diziam mais que outros. Antes de ir ao Teatro São Luiz copiei a Ode Marítima (site Casa Fernando Pessoa) para um ficheiro de word e li-a quase toda.


 


São indescritíveis as emoções que nos assaltam ao longo do espectáculo. Com um texto como este, a verdadeira estrela do único acto, somos levados na enxurrada de palavras que Diogo Infante debita, durante mais de 1 hora, sem que nos desprendamos de cena um único segundo.


 


Está lá tudo. Álvaro de Campos (Diogo Infante) diz-nos de uma forma inexcedível a dor e o lamento de quem se exorta a partir, anseia pelo longe e pelos diversos cais de embarque, navios que se perdem pelos sentidos e que se encontram pela ambição da descoberta, da aventura, do perigo, da experimentação de tudo, mas que não é capaz de sair da sua vida moderna, mediana e certinha, traçada diariamente com uma realidade plana, tumultuosa e avassaladora com a imaginação.


 


Não me lembro de melhor metáfora para o nosso momento colectivo. Esta ânsia que atravessa a nossa História, esta investida no que está além, para além, esta contradição entre o querer ir e a saudade do ficar, delicadamente acompanhada pelos pequenos e oportunos solos de guitarra, mais uma metáfora portuguesa, é uma das melhores formas de resistir a toda esta lama informe que nos tolhe a vida, principalmente a nossa atitude perante a adversidade.


 


É essa atitude que hoje nos falta, é esta ambição que está minguada e que se espelha na canção de Pedro Abrunhosa “Para os braços da Minha Mãe”. Gosto de Pedro Abrunhosa como compositor, não como cantor. E apesar da melodia ser bonita, apesar da voz de Camané ser excelente, a letra da canção é a tradução de uma atitude desistente e conservadora, em que à necessidade de partir não se alia qualquer cunho de curiosidade e liberdade para aprender outras realidades, outras culturas, outras oportunidades.


 


A emigração é um flagelo por quanto resulta de uma total incapacidade política, do País e da Europa, de proporcionar às populações vidas dignas e cheias, de um desperdício do esforço, empenhamento e imaginação de quem tem que procurar a felicidade noutros países. Mas esta é uma geração de emigrantes qualificados, que poderão aproveitar de uma forma mais construtiva a inevitabilidade do desembarque em tantos cais e tantos longes quanto os que a imaginação de Álvaro de Campos tanto queria sentir.


 


A resistência faz-se reagindo, com o combate da poesia, da pintura, do teatro, da música, de todas as artes que nos empurram para diante, que nos mostram mais do que aquilo que temos à nossa frente, do que nos atrofia e nos entristece. As saudades farão os navios regressarem, nunca os devem impedir de partir.


 

1 comentário:

  1. Rui Aguiar01:09

    Também fui ver. Penso que o acompanhamento de João Gil também deve ser referido. Discreto mas realçando passagens. Gostei muito do espectáculo.

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