29 fevereiro 2012

Penacova

 



 


Da janela parede envidraçada, em frente ao vale do Mondego, o olhar perde-se. Este pequeno intervalo no nevoeiro quotidiano, mesmo que o sol não brilhasse e o dia não estivesse tão esplendoroso, seria gota de mel em língua amarga, sequiosa de doce.


 


Para além da vista deslumbrante, a chanfana estava muito boa, com batatas e repolho cozido, embora temperado com um pouco de azeite a mais. A nevada de Penacova foi a novidade menos satisfatória - um pouco seca; o café rematou muito bem a refeição. Além disso não foi preciso pedir fatura, pois saía automaticamente.


 

23 fevereiro 2012

A mulher da erva

 



José Afonso 


 


 


Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia
Saia rota
Subindo a estrada
Inda a noite
Rompendo vem
A mulher
Pega na braçada
De erva fresca
Supremo bem
Canta a rola
Numa ramada
Pela estrada
Vai a mulher
Meu senhor
Nesta caminhada
Nem m'alembra
Do amanhecer
Há quem viva
Sem dar por nada
Há quem morra
Sem tal saber
Velha ardida
Velha queimada
Vende a fruta
Se queres comer

A noitinha
A mulher alcança
Quem lhe compra
Do seu manjar
Para dar
A cabrinha mansa
Erva fresca
Da cor do mar
Na calçada
Uma mancha negra
Cobriu tudo
E ali ficou
Anda, velha
Da saia preta
Flor que ao vento
No chão tombou
No Inverno
Terás fartura
Da erva fora
Supremo bem
Canta rola
Tua amargura
Manha moça
.. nunca mais vem


 

Canta camarada canta

 



José Afonso 


 


Canta camarada canta
canta que ninguém te afronta
que esta minha espada corta
dos copos até à ponta

Eu hei-de morrer de um tiro
Ou duma faca de ponta
Se hei-de morrer amanhã
morra hoje tanto conta

Tenho sina de morrer
na ponta de uma navalha
Toda a vida hei-de dizer
Morra o homem na batalha

Viva a malta e trema a terra
Aqui ninguém arredou
nem há-de tremer na Guerra
Sendo um homem como eu sou


 

22 fevereiro 2012

A preocupação por Olivença

 



 


Não consigo perceber o que leva António José Seguro a atacar Passos Coelho por não ser um dos subscritores da carta de David Cameron, cujas sugestões são, pensava eu, o contrário do que o PS defende. Pelo contrário, António Jósé Seguro, que eu saiba e tenha encontrado após pesquisa pela internet, não se pronunciou sobre qualquer dos dois manifestos de que falei no post anterior.


 


Mas o PS e, provavelmente o seu líder, está preocupado com Olivença.


 

Europa em debate

 



 


Alguma coisa está a mexer na Europa. E isso são, por si só, boas notícias.


 


No espaço de uma semana tivemos conhecimento de um manifesto escrito por Eduardo Paz Ferreira (entre outros): Um Tratado que não serve a União Europeia, outro subscrito por membros dos partidos socialistas, trabalhistas e sociais-democratas de vários países da EU: For a European Socialist Alternative, e hoje de uma carta de David Cameron, Primeiro-ministro do Reino Unido, endereçada ao Presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy e ao Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.


 


O primeiro manifesto, a propósito do projeto de tratado internacional (Tratado sobre a Estabilidade, a Coordenação e a Governação na União Económica e Monetária), e o segundo, com uma alternativa à austeridade imposta pela direita Europeia, ambos apelam a uma revalorização do que serviu de base à constituição da União Europeia, nomeadamente a manutenção da paz, de um estado social que dignifique e defenda os direitos humanos, uma Europa de progresso e prosperidade, igualdade de oportunidades, crescimento e bem-estar. Chamam a atenção para a perigosa rota descendente de todos estes valores, que soçobraram pela desregulação financeira, pelo recurso não regulado nem controlado aos mercados emergentes, pelo pactuar com países não democráticos, pelo aumento das desigualdades e da pobreza, pelo não investimento em energia limpas e no controlo das alterações climáticas. Urgem à tomada de consciência de que a solução só poderá ser europeia, sugerindo um aprofundamento da integração política europeia, e que deverão ser acionados mecanismos de compensação entre países com mais e menos recursos, com sustentabilidade económica diferente.


 


A carta de David Cameron tem uma visão totalmente diferente, em que sugere que a EU deve implementar medidas de liberalização do setor dos serviços, apelando ainda para uma maior abertura e implementação de relações comerciais a nível global, estendendo os mercados e a globalização a parceiros, tal como o Mercosul e o Japão.


 


O que nenhum dos textos aborda é a urgente e absoluta necessidade de refazer, reconstruir, remodelar, reformar, a forma de legitimação das instituições europeias, de forma que os cidadãos se revejam e reconheçam nessas instituições, dando-lhes uma capacidade política que não têm. Neste momento quem se assume como decisor em tudo o que diz respeito à EU é a Alemanha. Enquanto não houver respeito pelas decisões democráticas internas e não se implementar uma vivência democrática no seio da EU esta continuará a desagregar-se e os povos europeus tenderão a considerar a EU como um organismo estranho, exterior às suas necessidades e aspirações.


 

17 fevereiro 2012

Desemprego - nova abordagem, precisa-se

 


Não é sério culpar este governo pelo aumento do desemprego. Já seria sério dizer que esta política não vai resolver o problema do desemprego, como a política do governo anterior também não conseguiu.


 


A verdade é que, para além das recessões, das crises e dos défices, tal como aconteceu aquando da revolução industrial no século XIX, também a enorme evolução tecnológica, com o desenvolvimento da internet, da banda larga, de sofisticadíssimos equipamentos e ferramentas informáticas, capazes de fazer rapidamente e sem intervenção humana coisas que requeriam muito mais recursos e muito mais tempo, o tipo de trabalho e o número de pessoas envolvidas mudou radicalmente. Além disso, com a redução da natalidade e o aumento da esperança de vida nos países desenvolvidos, há uma cada vez maior incapacidade de criar emprego para quem chega de novo ao mercado de trabalho, com o fator adicional de serem homens e mulheres a disputá-lo, e não apenas homens.


 


Por isso as ideias para mitigar as consequências destas alterações têm que ser totalmente diferentes das que todos os dias ouvimos falar – diminuição do custo do trabalho, para que se possa competir com estruturas sociais que não tenham atingido o nível de desenvolvimento da ocidental. Aquilo a que temos assistido é a uma crescente penúria e a uma filosofia de neo-esclavagismo, assumindo a classe empregadora, seja ela privada ou o estado, tiques de autoritarismo e direito de posse sobre os cidadãos que têm a sorte de ter emprego.


 


É claro que a especialização e a qualificação poderão gerar oportunidades de trabalho, precisamente para criar e aprofundar as tecnologias que vão surgindo e que nos vão sendo cada vez mais imprescindíveis, em todas as áreas do conhecimento e de atuação. Mas também a ocupação em atividades de apoio social e de lazer, precisamente para os mais idosos e para os tempos livres, caso que se pondera na ideia de que aqui falei há algum tempo – a acentuada redução de todo o horário de trabalho, mesmo que isso signifique uma redução da remuneração líquida mensal. O aumento de tempo livre levaria a equacionar outra forma de estar na sociedade, outra organização familiar e outras necessidades de preenchimento no campo do lazer, da arte e da cultura.


 


Onde estão os pensadores, os políticos, na verdadeira aceção da palavra? Do que as sociedades democráticas precisam é de soluções, mas de soluções de fundo, em que as conquistas de bem-estar não sejam postas em causa, até porque são a fundação de uma sociedade humanista que zela pelos direitos dos cidadãos. A reação europeia à crise, com uma ideologia desadaptada da realidade tecnológica, científica e social, apenas aumentará o desencanto e a crise, com o perigo de novas estratégias totalitárias, às quais as populações aderirão, mesmo que rapidamente se arrependam.


 

16 fevereiro 2012

Que Presidente?

 


Lembro-me bem do incentivo de Cavaco Silva às manifestações da sociedade civil, que ele considerava vitalidade. Lembro-me bem dos protestos arranjados pela oposição a Sócrates, sempre que algum dos governantes se deslocava a alguma localidade em visita oficial. Até me lembro de invasões inaceitáveis de reuniões partidárias.


 


Lembro-me de fugas dos ministros e de trocas de saídas, mas não me lembro de qualquer Presidente da República ter cancelado uma visita oficial por saber que haveria contestação.


 


Não gosto deste tipo de tentativa de intimidação dos governantes. Nunca gostei, mas a liberdade de manifestação é total. Gosto ainda menos de um Presidente da República que se recusa a enfrentar os seus cidadãos.


 

13 fevereiro 2012

Tocando em frente

 



Almir Sater & Renato Teixeira


canta Maria Bethânia


 


Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz


 

A todo o custo

 



 


A Grécia continua o seu calvário para a exclusão do euro, que fará implodir o que resta do mito da Europa. Ontem assistimos a uma selvajaria destruidora em Atenas, aplaudida pelos saudosistas das lutas de massas. É outra versão do a todo o custo. Violência, incêndios a prédios, confrontos com a polícia, cerco ao parlamento, nada disto me parece justificável, mesmo que a raiva seja compreensível. Não é assim que espero ver a dignidade portuguesa defendida.


 


Faltam as alternativas, gente com ideias diferentes, que coloque à opinião pública escolhas autênticas, por muito duras que sejam de encarar. Por isso a ideia do referendo grego era boa, importante e democrática. Tal como democrática é a decisão do Parlamento grego em aceitar o acordo para o resgate. O problema é que a liberdade do Parlamento grego está condicionada por imposições de um colectivo que é um conjunto único, não pelo bem da Europa mas pelo bem da Alemanha. É não haver quem, na Grécia ou em Portugal, desenhe um outro futuro – fora deste simulacro de União Europeia, sem dinheiro, com desemprego, com enormes dificuldades, e tente recomeçar o que se destruiu.


 


Mas a esquerda está mais preocupada em mostrar-se de esquerda, com manobras de má publicidade, abraçando tudo o que é alarmismo e desgraça. Pois ela aqui está, a desgraça, desgraçadamente globalizada neste canto que desejávamos especial e imune.


 

12 fevereiro 2012

Inutilidades

 


 


 


A inutilidade do automatismo de almas e corpos


inúteis porque iguais a todas as partículas universais


movimentando-se caoticamente governadas por leis invisíveis


que exaltam eternamente a inutilidade filosófica do pensamento.


 

Trezentos mil

 



 


Os manifestantes contam-se às centenas de milhar, cem mil, duzentos mil, trezentos mil, começaram contra Mário Soares, Salgado Zenha, Cavaco Silva, Maria de Lurdes Rodrigues, Sócrates, continuam agora contra a Troika, Passos Coelho e Cavaco Silva. Jerónimo de Sousa rejubila com tantos milhares precisando até de recuar 32 anos, para abarcar a enchente.


 


Infelizmente é isso mesmo, estamos a recuar muitas décadas. Mas não só nos direitos adquiridos. Também no conveniente apagamento do que é uma democracia representativa, resultados eleitorais, no competente exaltar das forças trabalhadoras e da rua, a rua que o PCP, a CGTP e o BE tanto gostam de invocar para fazer cair governos democraticamente eleitos. Exactamente os mesmos partidos que em sede parlamentar tudo fizeram para derrotar o governo anterior, o tal mais à direita de sempre, como todos os governos de Portugal desde 25 de Novembro de 1975.


 


O sindicalismo velho e derrotado pelas circunstâncias, pela História e pel’Os Mercados continua, cego e surdo às avalanches da sociedade. Os trabalhadores já não usam calças com peitilho mas os sindicatos continuam a usar o mesmo espartilho. A consagração de Arménio Carlos foi apoteótica. E os próximos capítulos serão iguais aos que já passaram.


 


Nota: Vale a pena ler o Valupi.


 

10 fevereiro 2012

O sentido do fim / The sense of an ending

 



 


O fim não tem que ter um sentido. Mas pode haver sentido para um fim.


 


Em busca do que falta nas nossas vidas ou do que não sabemos. Ou do que sabemos ou do que nos lembramos. A memória é apenas uma ajuda para o esquecimento activo. O que somos ou o que vamos sendo, sem honra nem glória. Aquilo que depuramos dentro do que nos foi tocando aceitando as derrotas manipulando as nossas próprias emoções. Tudo fazemos para sobreviver ao nosso próprio tédio.


 


Ao chegar perto do fim tentamos encontrar um fim para cada um. Para todas as roturas que encontrámos ou provocámos. Para todos os amores que sofremos realizados ou não. Para todas as derrotas as vergonhas escondidas as pequenas maldades os pequenos orgulhos as pequenas ambições as pequenas invejas as pequenas lealdades as pequenas razões de tudo.


 


Mas será preciso primeiro fazer essa viagem. Ir desenrolando o que aplicadamente fomos colocando em gavetas labirínticas talvez à espera de não ser preciso escancarar as janelas. Ou nem sequer ter consciência da sua existência.


 



 

Attaboy

 



The Goat Rodeo Sessions


 

Crespologia

 


Não se pode acusar quem relata conversas privadas em restaurantes e cafés, sejam sobre política, astros ou futebol, para depois vir pedir justificações a Vítor Gaspar. Os jornalistas sabem as regras que estão afixadas. Não vale a pena invocar o interesse público. Essa conversa dá sempre para o lado que se quer. É uma conversa de moucos. São mais uns limites que se ultrapassam. Limites que foram impostos por estruturas onde as regras são às claras. Mais tarde serão limites impostos por ditaduras.


 


Nada disto tem a ver com combate e afirmação de repúdio à política europeia, defesa da soberania ou recusa de protectorados alemães.


 

Veremos

 


Vemos na Grécia, Portugal. Porque será que achamos que somos diferentes dos gregos? Mas que Europa é esta em que Merkel se julga dona da União Europeia, do dinheiro da União Europeia, das políticas da União Europeia?


 


Vemos na Grécia, Portugal. E veremos outros países. Como eles começam a ver em Merkel outro Hitler. Como outros hão de ver.


 

Encontro incidental

 



Monet


 


Entrou no quarto com cara amarrada, levemente indisposta pela companhia. A miúda passou o tempo como ela imaginava que passaria, ao telemóvel. Telefonou a várias pessoas, entre familiares e amigos, a contar da sua entrada inusitada nas urgências, das dores e da operação, da cicatriz e dos repuxões, da má qualidade da comida e da simpatia da médica.


 


Entre as vítimas contava-se o namorado, um desgraçado escurinho e magrinho, com a indumentária de gueto exibida numa demonstração de arrogância de tribo, com um ar de preguiça e tédio que se impunha, avesso às várias tentativas de vitimização da companheira. Como as mulheres são manipuladoras, atrevidamente dramáticas, descrevendo e mostrando interiores doridos, ao que eles apenas são capazes de regurgitar que nooojjjooo. Mas o mais extraordinário foi o facto de, mal o rapaz ter desaparecido de vista, ter voltado aos telefonemas intempestivos, de longos minutos, a perguntar como estava a ocupar todos os segundos da vida dele. Isto até ao exacto momento anterior ao adormecimento.


 


Apesar de tudo, a carranca foi-se-lhe suavizando. Era uma miúda terna e divertida, com uma noção perfeita de que não deveria provocar a velha (com certeza que, para ela, era uma velha com cara de pesadelo). Não fez perguntas, não fez comentários, não fez nada que lhe acirrasse o desagrado. Dormia com o silêncio das almas jovens sem torturas, bem diferente do seu ressonar bastante audível, aquisição que muitos anos e muitos quilos lhe tinham somado, das suas insónias bravias e dos seus calores nocturnos, transpirados de desalento e de inúmeras ideias, que se esvaíam mal raiava o dia.


 


Foi quase como uma noitada antes de um qualquer evento científico, companheiras de uma noite, distâncias bem guardadas mas com o seu quê de cumplicidade, mesmo sem que a idade, o estilo e as ideias fossem diametralmente opostas. E seríam?


 

World Press Photo 2011

 



 

07 fevereiro 2012

Demora

 



John Marin


 


 


Terei que saber reforçar os minutos que me sobram


pela angústia do conhecido.


Tenho que saber demorar as horas que não chegam


pela tácita compreensão da paciência.


Apresento-me à perícia


de quem repete diariamente gestos precisos


à avidez das inevitáveis dobras


de um tempo que demora a chegar


e tem pressa de partir.


 


 

04 fevereiro 2012

A ortografia é a questão

 




 


Não concordo com o acordo ortográfico. Não percebo a necessidade, nem os pressupostos, nem o resultado deste acordo. Nesse aspecto comungo da opinião de Vasco da Graça Moura. Mas também suponho que tenha havido sempre ferozes e ilustres opositores aos vários acordos ortográficos que foram sendo absorvidos pela língua portuguesa e pelas várias gerações de portugueses. Este será só mais um.


 


Mas só nesse aspecto. Desde que haja legislação que nos obrigue, desde o início deste ano, a usar o dito acordo, mesmo que nos meus posts o não use, em tudo o que for oficial devo cumprir a lei. Eu e qualquer outra pessoa, nomeadamente Vasco da Graça Moura. Além de um inútil disparate, esta atitude é bem demonstrativa de uma certa cultura instalada – mal sai uma lei a primeira coisa a fazer é encontrar uma ou várias maneiras de a boicotar e não a cumprir. Será que Vasco da Graça Moura mediu bem a sua (e da Administração unânime) decisão? E se alguém resolver cumprir a lei, dentro do CCB? O que lhe vai acontecer? Se Vasco da Graça Moura quiser lutar denodadamente para alterar essa determinação, não me parece a melhor forma de o fazer. Para além disso, será que informou quem o nomeou dessa sua intenção?


 


Não partilho do coro de protestos pelo saneamento político de António Mega Ferreira. Cumpriu até ao fim o seu mandato e foi substituído. Foi uma nomeação política? Pois foi como terá sido a de Mega Ferreira. É da competência do poder político fazer essas nomeações. Mas o que me causa pena é ver que o PS, pela educadíssima e pausada voz do seu líder, em vez de fazer oposição política à concretização de uma ideologia retrógrada, conservadora, de desmantelamento das funções dos estado, mais precisamente as da saúde, educação e segurança social, de alienação de sectores chave para a soberania, de não acautelamento da liberdade e da independência da informação, do autoritarismo fiscal, etc., tenha escolhido esta bravata de Graça Moura para fingir que é oposição.


 


Nota: Aqui fica o esclarecimento. Pelso vistos, só a partir de 2014 o uso do acordo é obrigatório para todos.


 

O Sr. Meireles

 



 


E o Sr. Meireles (como lhe chama uma amiga) entrou, final e triunfalmente na minha casa. Grande, robusto, fiável (esperemos), promete mundos e fundos de sabor.


 


Mas não foi fácil. Em primeiro lugar, ninguém pense que aproveitar algumas coisas menos velhas, que outros, com amor e carinho nos doaram, vale a pena. No caso em apreço, reutilizar um fogão composto por placa e forno eléctrico, numa casa apetrechada com um fogão a gás inteiriço, tudo num só, fica ao triplo do preço de um novo fogão inteiriço a gás, novinho em folha, para substituir a velharia. Isto quando não embarcamos num único orçamento, feito por um dos muitos Mourinhos de cozinhas, que se esquece, coisa pouca, de que a torneira de segurança do gás deve ficar, obrigatoriamente, à mão de semear.


 


Mas a solução de troca de fogões, Sr. Portugal por Sr. Meireles, é muito mais complicada do que parece. A empresa que fabrica e comercializa os fogões Meireles, portuguesa com certeza, vende-o on line ou através de outras casas que estão perto de toda a gente. Por isso fui feliz e contente à Rádio Popular para adquirir o famoso fogão Meireles. Apesar de ter avisado que o gás que corria nos canos da minha casa era o natural, disseram-me logo que o fogão era entregue preparado para gás butano, e que iria lá um técnico Meireles para trocar os injectores. Apesar de me terem tentado esclarecer, não percebi a explicação da razão pela qual o fogão não poderia ser entregue já com os injectores correspondentes. Depois teria que ser o cliente - neste caso eu - a contactar um técnico credenciado para a instalação do fogão. A Rádio Popular faria o obséquio de me dar o nome de uma empresa credenciada para o efeito. E também podiam remover o fogão antigo se e só se já estivesse desligado da canalização.


 


Impossível tentar juntar todos estes elaborados e laboriosos passos. Portanto eu comprava um fogão que me iam entregar a casa (a Media Markt, por um trajecto de 5 Km, cobra a módica quantia de 20,00€); a seguir, não sei quanto tempo depois, aparecia o técnico para trocar os injectores; depois, iria outro técnico fazer a instalação; a seguir eu ajeitava o fogão velho como um móvel a mais, até ser possível a Câmara ir lá buscá-lo. Muito prático, não há dúvida.


 


Como não me rendi, procurei na internet todas as casas que forneciam fogões Meireles e oh, surpresa, a Neocasa, instalada na zona de Leiria, faz tudo ao mesmo tempo: traz o fogão novo, já com os injectores adaptados ao gás que temos, instala o fogão porque é credenciada para isso, leva o fogão velho, e entrega a factura em troca do pagamento por multibanco, na nossa própria residência. Não é extraordinário?


 

03 fevereiro 2012

Escolhas

 




 


 


Escolho o nada exactamente a simples existência do quotidiano sobressaltado alienado de trabalho e tarefas que se somam e seguem sem pausa. Escolho o conforto da mediania casa pão e mantas tardes de domingo em doce transformação do alimento em doce mansidão de carinho amassando o dia para os que amo. Escolho a surdez selectiva para o absurdo a cegueira propositada para a negrura a apatia planeada da placidez.


 


Passam rostos vozes entre o desligar da mente figuras indistintas e pomposas que se ouvem aplaudem acenam sisudas e bem vestidas apertadas e cingidas entre cinzentos e campainhas. Reconheço vagamente vultos de uma irrisória magnitude que incomodam como um arranhar agudo de giz na ardósia. Fogem os olhos da nuvem de poeira como as palavras pulverizadas dos fatos que se cumprimentam dos penteados que se opulenta.


 


Escolho o branco dos lençóis a música o ritmo repetitivo da vida que assinamos pontualmente desde que toca o despertador.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...