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14 dezembro 2024

A Grande Reunião

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Tenho, por diversas vezes, aplaudido aqui o Teatro Meridional. E vou fazê-lo de novo.


A Grande Reunião, com texto de Mário Botequilha e encenação de Miguel Seabra, é extraordinário, dos melhores espectáculos que já vi.


Um grande texto, sarcástico, verrinoso, cómico, profundo, aproveitando as palavras e referências várias, até de John Lennon, numa crítica certeira e mordaz à nossa sociedade desigual e cruel, com uma beleza e uma elegância incríveis.


Um conjunto de grandes actores, uma atmosfera sonora a condizer e uma cenografia minimalista, é tudo grande.


O Teatro no seu melhor. Parabéns ao Teatro Meridional e a todos os que com ele colaboram e nos dão estes fantásticos momentos, em que nos olhamos ao espelho e por dentro, em que nos espantamos e emocionamos.


Vão ver. Já só têm uma semana.



Sinopse


Estamos à beira do colapso da civilização, tal como foi pensado pelos Pantalones. Eles são os sovinas ultra-ricos da Commedia dell’Arte e controlam as tecnologias, o dinheiro, o cerne das nossas vidas. Os Pantalones dominam toda a informação que circula em todo o mundo entre todas as pessoas e programaram uma tempestade perfeita que faz coincidir a ruína económica, o desastre ambiental e as ditaduras populistas. Mas este desastre é só para os outros: os Pantalones têm tudo pensado para se porem ao fresco assim que a sociedade mergulhar no caos, uma estratégia pantalónica circunscrita a 1% da população mundial. Tudo isto é decidido num encontro muito exclusivo a que apenas os multimilionários e poderosos Pantalones têm acesso. Bem-vindos à Grande Reunião.


 


Ficha Artística


Texto: Mário Botequilha


Encenação e desenho de luz: Miguel Seabra


Interpretação: Carlos Pereira, Catarina Mota, Diana Costa e Silva, Emanuel Arada, Henrique Gomes, José Mateus


Espaço cénico e figurinos: Hugo F. Matos


Música original e espaço sonoro: Rui Rebelo


Assistência de encenação: Nádia Santos


Direção de cena, assistência de cenografia e montagem: Marco Fonseca


Montagem e operação técnica: André Reis


Assistência de produção e comunicação: Rita Mendes e Teresa Serra Nunes


Produção executiva: Susana Monteiro


Direção de produção: Vanessa Alvarez


Direção artística Teatro Meridional: Miguel Seabra e Natália Luiza


27 março 2023

Jardim Zoológico de Cristal

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Jardim Zoológico de Cristal


Há momentos que nunca esquecemos e que regressam mesmo sem que nos apercebamos.


Há muitos anos, estava eu a passar uma ou duas noites em casa de uma amiga minha, coisa que muito enervava a minha mãe muito pouco habituada a estas liberdades habituais em gente que vinha de África, quando senti a irmã dessa minha amiga chegar a casa, vinda do teatro.


Vinha a chorar desabaladamente, de uma forma que me impressionou e tocou profundamente. A peça que tinha ido ver era o Jardim Zoológico de Cristal, de Tennessee Williams. A sequela de uma poliomielite fazia-a coxear e (penso eu, pois nunca o verbalizei, tal o pudor que tive de falar de algo tão íntimo e doloroso), isso fê-la identificar-se com a protagonista.


Eu conhecia a peça pois tinha visto, uns anos antes, o filme de 1950 - Glass Managerie, de Irving Rapper, a preto e branco, de que tinha gostado muito. E a cena que mais me impressionou foi a que se passava na escola de datilografia, em que se via Laura a coxear e o ruído do aparelho da perna omnipresente e ensurdecedor.


Depois li mais do que uma peça de Tennesse Williams, que considero um extraordinário escritor.


 


Ontem fui ver O Jardim Zoológico de Cristal, encenado por Natália Luísa, do e no Teatro Meridional.


É sempre uma experiência diferente. O foyer espelha o clima do Teatro, as opções estéticas do Meridional, o carinho e o cuidado que põem na construção das peças, os cenários, as cores, a luz, os objetos, os tecidos, tudo que o que descobre a propósito de um texto, de uma época, o envolvimento com outros grupos, escolas, etc.


O café, o chá, os bolos, o som do espanta-espíritos que nos deixa de imediato arrepiados e expectantes. A sala com as cadeiras ocupadas por mantinhas, a penumbra e o perfume.


Sempre me espanto pela intrínseca qualidade e sofisticação de tudo quanto o Meridional faz. A escolha dos atores é sempre certa, de tal maneira que não nos ocorre nenhuma outra. A entrega de todos, a dicção perfeita, as emoções que despertam, o respeito pelo autor, pelas palavras, pela história, pela memória, a música presente-ausente.


Absolutamente emocionante. Um clássico com uma interpretação sublime de todos os atores, uma cenografia simples, sem que nada falte nem seja supérfluo.


É difícil descrever o turbilhão de sentimentos que me assaltaram. Fui para casa muito mais rica.


Obrigada, Natália, por mais esta peça inesquecível.

12 fevereiro 2023

E nós vamos aceitando

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E nós vamos aceitando.


Porque não queremos ser insultados nas redes sociais, porque não queremos ser olhados de lado ao usarmos palavras malditas, ao defendermos aquilo que até há bem pouco tempo, era considerado liberdade artística, criação, multiculturalismo, tolerância pela aceitação da diferença.


Policiamos a linguagem, o desenho, as opiniões, o teatro, o cinema. Não há lugar a debates, a discussão e trocas de ideias. Há barricadas, o lado certo e o lado errado.


Os factos deixaram de o ser. As interpretações do mesmo são, neste momento, aquilo a que temos direito não só nas redes sociais, como nos media. A manipulação do que se escreve, do que se diz, nem que seja para que os títulos sejam tremendistas, mesmo que as notícias digam o contrário, são a informação contemporânea. Não interessa se é verdade ou não.


O discurso corriqueiro, alarve, terrorista, inunda opinantes, políticos, gente que vive e actua pela imagem. Deixou de haver privacidade pois já não distinguimos o espaço público da nossa casa. Tudo se mostra nas redes sociais, tudo se diz em alta voz, tudo é público e não privado, pois o privado levanta teorias da conspiração.


E nós, vamos calando.

26 novembro 2022

Do Deslumbramento

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É fácil não pensar, engolir as imagens cada vez mais rápidas que nos passeiam pelos televisores, monitores de computador, ecrãs de telemóveis. Anestesiamos a voz interior, o cruzamento das ideias, a dor, a dúvida, o espanto. Acomodamos tão bem as desculpas do cansaço, do stress, do impossível reverter do tempo e da vontade adormecida.


Para que serve a arte? Para quê a cultura? Cada vez a entendemos mais como qualquer coisa que entretém, que nos desvia da dura realidade, que nos ocupa o cérebro e os poucos momentos que temos para respirar.


Esquecemos rapidamente que viver implica entrega, fracasso, sonhos, memórias, fragmentos que queremos e temos que procurar, encaixe das mais diversas sensações que não compreendemos, busca de prazer e esquecimentos selectivos, amores vários e de vários tipos, morte, ódios e desrazões, tanta contradição e nebulosas como instantes de beleza e deslumbramento.


Pois é Do Deslumbramento que falo. Fui ver esta peça domingo passado, um texto original de Ana Lázaro construído para a comemoração dos 30 anos do Teatro Meridional.


Confesso que não sei o que dizer, de tal forma me marcou.


O jogo de luzes, o espaço cénico minimalista, a depuração e simplicidade da representação, a música, a incrível sensação de que não estamos perante uma peça de teatro mas de cenas e de conversas interiores daquelas personagens.


Quem são elas? Elas como actores ou os actores como personagens? Estamos dentro de alguma coisa prestes a acontecer ou a recuperar fragmentos do que aconteceu? O que é um corpo, uma memória, uma verdade? O que faz o tempo? É o tempo que faz o corpo e a memória ou a memória que conta o tempo e constrói um corpo? De que nos lembramos verdadeiramente? O que desencadeia a sensação? A luz, a sensação de queda no abismo, a certeza do branco ou do escuro? A dúvida? A incerteza das lembranças, dos sons, dos pequenos acordares dos nervos, da água nas mãos, do inundar das perguntas?


Quem somos para nós? Quem somos para os outros? O que se esconde em cada memória refeita ou em cada corpo que retalha o tempo de que se recorda?


Teatro tão simples e erudito, que parte de cenas breves e de sensações, do trabalho do actor, de uma peça como Bruscamente no Verão Passado, em que é preciso apagar uma fatia de cérebro para cortar uma memória, para a recuperação de uma fatia de cérebro para recuperar uma vida, pela memória.


Do Deslumbramento. Das melhores peças que tenho visto no Meridional, e todas elas são soberbas.


Ainda têm uma semana.

24 setembro 2022

Verbo Feminino

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É difícil falar do recital de Natália Luísa e Rui Rebelo, no Teatro Meridional.


É difícil encontrar palavras para esta celebração da palavra das poetas dos vários espaços da Lusofonia.


É difícil explicar o sentimento de pertença, a sensação do maravilhoso, o escutar da voz da Natália tão bem acompanhada pela discreta e simples música de Rui Rebelo, da luz, do cenário, da elegância, da sensibilidade, da qualidade e variedade dos poemas ditos, interpretados, vividos.


Mas é muito fácil saber o porquê desta magia, do encantamento em que nos envolve a Natália. Do trabalho de pesquisa, da beleza de tudo o que faz.


E é fácil encontrar o espírito de luta, irmandade e solidariedade, mesmo na solidão e na revolta.


Que grande espectáculo, simbolicamente dedicado às mulheres iranianas.


Parabéns ao Meridional, ao Rui Rebelo e, sobretudo, à Natália.


Que privilégio poder assistir a este Recital!

06 junho 2020

Histórias de Lisboa

Há um ano estreava Histórias de Lisboa. Para mim, um fantástico desafio e experiência, aumentados pelo orgulho de participar num espectáculo do Teatro Meridional.


Neste vídeo podemos perceber o conceito, os bastidores, a Lisboa de há um ano, poesia, e excelentes profissionais a criarem e a trabalharem. É sempre um milagre. Obrigada a todos por esta oportunidade, especialmente à Natália e ao Rui. E parabéns!



E como a Lisboa de hoje é diferente da Lisboa de então. Como, de um momento para o outro, tudo muda. Talvez se pudéssemos guardar alguma desta Lisboa silenciosa, espaçosa, dormente e luminosa para um futuro que rapidamente irá voltar, negando as juras de revolução na vida e no uso e abuso dos recursos, fosse se não o suficiente pelo menos uma vitaina de ar e de asas para continuarmos a sonhar.


 


Esta é a letra do fado que o Rui Rebelo magistralmente musicou


 


LISBOA


 


Regresso numa noite de alegria


com ondas de memória no olhar


a pele em nuvens de melancolia


de um corpo que recusa naufragar


 


Em barcos ou nas pedras das calçadas


nas ruas que percorro e desconheço


um mundo de palavras soletradas


de quem faz de Lisboa um recomeço


 


Destino de um passado que se esquece


ao ritmo que desfaz a melodia


verdade de um canto que apetece


no Tejo em que se espelha a poesia


 


As aves que ecoam assustadas


nas praças que Lisboa desenhou


desfilam pelas portas desbotadas


como se a luz abrisse o que fechou


 


Nem muros de pobreza e solidão


limitam tantas almas sem idade


dedilham com amor e lentidão


o fado que refaz a liberdade


 


Regresso numa noite imaginada


pelas ruas que a Lua inundou


recolho numa alma enrugada


o canto que Lisboa me ensinou


 

21 setembro 2019

Ir ao Teatro

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Máscara mortuária de Beethoven


 


Sempre acabo a dizer o mesmo. Não percam a peça Kiki Van Beethoven, não deixem para os últimos dias. Façam um favor a vós mesmos e vão ouvir o monólogo de Kiki, brilhantemente interpretado por Teresa Faria, à melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo.


 


O autor da peça é Eric-Emmanuel Schmitt, a encenação de Natália Luísa. Sóbrio, simples, na luz, nos objectos em palco, no ambiente, na música que se ouve. Do riso às lágrimas, o encontro connosco, que nos perdemos.


 


E Beethoven.


 


19 setembro 2019

Kiki Van Beethoven

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Autoria: Eric-Emmanuel Schmitt; Encenação: Natália Luiza


Interpretação: Teresa Faria


Só até Domingo, 13 de Outubro


(Quarta a Sábado - 21:30; Domingo - 17:00)


Bilheteira: (+351) 91 999 12 13 / producao@teatromeridional.net / https://bit.ly/2GfOo8b


Teatro Meridional


A MELHOR Sala de Teatro do Poço do Bispo

13 maio 2019

HISTÓRIAS DE LX

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“Groselha, na esplanada, bebe a velha,


e um cartaz, da parede, nos convida


a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:


dizem que o sangue é vida; mas que vida?


Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,


na terra onde nasceste e eu nasci?”


 


Alexandre O’Neill, in ‘De Ombro na Ombreira’


 


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Não deixem para os últimos dias.


Estes espectáculos costumam esgotar depressa.


 

03 junho 2018

Teatro Meridional a rimar com genial

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Feira Dell’Arte


Texto: Mário Botequilha


Encenação: Miguel Seabra


Interpretação: Emanuel Arada e Rosinda Costa


Teatro Meridional


 


 


Para quem perdeu, pode ser que haja uma reposição. Simplesmente genial - tudo. Um texto divertido e corrosivo, actores esplendorosos, luz, cenografia, som, tudo, como sempre, minimalista, engenhoso, simples, a simplicidade da verdadeira arte..


Parabéns.

29 abril 2018

Dona Rosinha a Solteira ou a linguagem das Flores

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Ontem fui ao Teatro Meridional ver esta peça de Federico García Lorca.


 


Mas entrar na melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo é sempre uma experiência única, em que tudo se transforma para acolher os espectadores como se fossem velhos amigos. O café e o chá à nossa espera com uma fatia de bolo, cadeiras, mesas e luzes que convidam a uma intimidade simpática e não intrusiva, peças de mobília que nos colocam dentro de um cenário, fazendo dos presentes actores.


 


Por vezes acontecem revezes e inesperados contratempos, como foi o caso de ontem. Um problema na electricidade, devidamente explicado por Miguel Seabra, atrasou o início da representação, para quem não se importou de esperar, que foi a quase totalidade dos presentes. Entretanto, Natália Luíza distribuiu folhas com poemas de Federico García Lorca, no original e traduzidos por Ruy Belo e Eugénio de Andrade. A pouco e pouco, seguindo-se a ela, várias pessoas declamaram os poemas, criando um ambiente de partilha das palavras e da sua melodia, ecoando por dentro de nós a ressonância de sentimentos, que fizeram do tempo de espera um novo espectáculo.


 


A peça fala da espera, da esperança e do desespero, da resiliência e da fuga à realidade, de mulheres e dos homens que as cercam e enganam, das decisões e dos confinamentos a que nos condenamos, do arrastar da memória e do despojamento final. Fios que se esticam e partem, bordados que se desfiam e morrem, numa linguagem de flores.


 


Três mulheres, três épocas. As luzes, os movimentos, a música, o alternar da leveza e da crua realidade, Dona Rosinha a Solteira, ou a linguagem das flores, é uma peça do início do século XX que continua a ser actual.


 


Nunca é demais ir ao Meridional. Preparem-se já para a próxima, que estreia a 9 de Maio.


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17 novembro 2017

Ainda bem que não pararam

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Não sabia o que me esperava, nunca sei. Mas tenho sempre a absoluta certeza de que valerá a pena, quando vou assistir a um espectáculo do Meridional. E este, que comemora os 25 anos de uma carreira excepcional, prometia reflexão – DEVÍAMOS ter parado.


 


Quando acabou, as mais fortes sensações que me ficaram foram as de deslumbramento por um espectáculo belíssimo, e uma grande interrogação sobre tudo o que vi.


 


Esta não é uma peça de texto escrito ou falado, é uma peça de texto mímico e sensorial, em que o que se passa no palco conta uma história diferente para cada um dos espectadores. Aliás quem faz a história é cada um de nós, sendo os actores, a cenografia, a música, tudo, provocações de uma coisa que parece totalmente desligada e desconexa, mas que é uma forma de nos mantermos em interrogação permanente, de adaptarmos o que vamos vendo aos nossos percursos de vida. As personagens vestem e despem continuamente roupagens, que os fazem diferentes. Umas vezes experimentam, como se medissem as consequências, outras fazem-no rápida, repetida e atabalhoadamente, atropelando-se pelas mesmas roupas, outras normalizam-se e adquirem um tom executivo, assertivo e apressado, agressivo e devorador, outras ainda acabam por preferir a própria pele sem adereços, mergulhando numa posição quase fetal e isolada, à parte, como se se auto marginalizassem.


 


E por vezes encontram-se, como na cena em que duas actrizes têm vestido iguais, se movem da mesma maneira e olham espantadas à sua volta, meio crianças, meio bonecas, de mãos dadas. Por vezes encontram-se, como as que caiem nos braços uma da outra, como se desistissem e se amparassem mutuamente. Por vezes encontram-se, como se descobrissem o amor. Por vezes encontram-se, como se pudessem substituir ou acrescentar pormenores uns aos outros, adaptando-se a circunstâncias extremas.


 


E há algumas revoltas isoladas e inconsequentes, como a vontade de cantar de uma personagem que lembra as bailarinas da Paula Rego, que não sabe “o que querem que faça” e desafia “quem quer” com uma voz poderosa, há alguns desesperos, há um guarda-chuva que faz rir, um espelho que roda vagarosamente numa interpelação directa (somos nós que ali estamos), alguém que se passeia com nariz de palhaço e flores, murmurando palavras como silêncio e pausa.


 


A última cena é indescritível de bela. A música, as vozes, a luz, a melancolia, tudo misturado com a sensação de que não percebemos nada de nada, nada do que passámos, do que vivemos, do que somos, e ao mesmo tempo que, apesar de tudo, aquilo é connosco. Que, apesar de tudo, continuamos a procurar a nossa própria personagem, individual e colectiva.


 


Seria isto o que o Meridional pretendia? Penso que cada um fará uma interpretação diferente.


 


Mais uma vez estão todos de parabéns. Não percam, mesmo.

23 julho 2017

Meridional - 25 anos de encantamento

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O Teatro Meridional comemorou, no dia 21 de Julho, 25 anos.


 


Em 54 espectáculos, cerca de 2 por ano, o Teatro Meridional foi criando peças inesquecíveis, em que a simplicidade dos cenários e da música, a magia das palavras, ou mesmo a sua quase ausência, associadas e interligadas com o espantosa performance dos actores, fizeram e fazem a sua imagem de marca - qualidade, ternura, inteligência, humor. Esta qualidade tem vindo a ser reconhecida pelas dezenas de prémios com que tem sido distinguido, e pela presença do público incondicional e cada vez mais numeroso.


 


Desde há cerca de 15 anos que têm o seu espaço próprio no Beco da Mitra, a melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo, como diz Miguel Seabra que, com Natália Luíza, dirige esta família de gente de excepção. Não faltam o café e o chá, o bolo, as mantas no Inverno e os leques no verão, tantos toques de atenção particular que, também por isso, fazem do Meridional um Teatro único.


 


Sinto-me uma privilegiada por ter podido partilhar estes 25 anos. Sempre que vou assistir a uma das suas peças, saio de lá mais atenta, mais alerta, mais feliz.


 


Muito obrigada.

19 janeiro 2017

Um quarto de século

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O Teatro Meridional comemora 25 anos e dá-nos a todos um excelente presente de aniversário.


 


Não percam o que de melhor se faz em Portugal em teatro, música, cenografia e encenação, jogo de luzes e representação. É tudo bom, desde o espaço no Poço do Bispo, à simpatia e generosidade com que se acolhem os espectadores, à incrível criatividade e persistência dos seus Directores Artísticos e de todos os que com eles colaboram, tornando cada espectáculo numa experiência única.


 


Para ver e/ ou rever, aqui fica o calendário das reposições para este ano:



  • AL PANTALONE, de Mário Botequilha - já em cena, até 5/ Fevereiro,

  • A LIÇÃO, de Ionesco - de 22/ Fevereiro a 12/ Março

  • ANTÓNIO E MARIA, a partir da obra de António Lobo Antunes - de 30/ Março a 9/ Abril

  • O SR. IBRAHIM E AS FLORES DO CORÃO, de Éric-Emmanuel Schmidt - de 10 a 28/ Maio

  • CONTOS EM VIAGEM – CABO VERDE - de 12 a 30/ Julho

  • AS CENTENÁRIAS, de Newton Moreno - de 13/ Setembro a 1/ Outubro


 


Parabéns a quem nos sabe fazer rir, sonhar, chorar e pensar.


 

17 outubro 2016

Do teatro como ópio

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Contos em Viagem - Macau


 


 


Encantamento e ópio, vício e magia, perfume e névoa, poente e noite, caminhos interiores que se perdem e acham, habitar o ar e as profundezas, limbo, estranheza, vinho doce e veneno.


 


É muito difícil encontrar as palavras que adjectivem a experiência de assistir a um espectáculo destes. Não se encontra uma razão, uma história. E no entanto elas lá estão, as razões e as histórias, o sentimento e a perdição, o querer ir e o ficar.


 


O espaço cénico minimalista, que se metamorfoseia sempre inebriante, o jogo de luzes, os sons e a música como actores intervenientes, a bailarina que aproxima e afasta o nosso olhar, e as palavras ditas, sussurradas, cantadas por um actor, numa amálgama a que não se consegue resistir.


 


Nunca é demais repetir quão maravilhosos são os criadores do Teatro Meridional. Nunca é demais dizer que é um espectáculo imperdível. E que nos faz tão bem.

23 abril 2016

Do teatro, ibérico e outros

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Pequeno passeio rumo ao Centro Comercial Vasco da Gama, mais precisamente à FNAC, lugar onde me esperava The mousetrap and other plays, de Agatha Christie, para me preparar condignamente para a próxima viagem à capital londrina, mais precisamente ao St Martin's Theatre, a casa desta peça desde 1974, em cena desde 1952.


 


Adoro estas pequenas passeatas que transformam um banal almoço numa estimulante conversa. De Londres e do teatro passei a William Shakespeare e às comemorações do 4º centenário da sua morte, com inúmeros colóquios, reedições de obras, estudos histórico-literários, etc., que nos transmitem a importância do autor britânico na literatura e na dramaturgia ocidentais.


 


E no entanto, a literatura e especificamente o teatro, nos séculos XVI e XVII europeus, muito ficaram a dever aos autores espanhóis, nomeadamente a Lope de Vega e Pedro Calderón de La Barca, assim como ao francês Molière, mais ou menos contemporâneos de Shakespeare.


 


Mas anterior a todos estes apareceu Gil Vicente, cuja obra eu gostaria muito de ver alguma companhia teatral a revisitar. O nosso Gil Vicente, com o seu Monólogo do Vaqueiro, quase inaugurou a importância social e política do teatro, como espelho do e sátira ao poder e às classes sociais, da linguagem dos simples, das figuras mitológicas, do bem e do mal, enfim, dos grandes temas que nos preocupam.


 


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Roque Gameiro


 


Não há dúvida que a pressão da língua inglesa explica em parte a notoriedade de Shakespeare e o relativo embaciamento dos autores ibéricos e francês. Mas nos séculos XVI e XVII não seria bem assim, a língua erudita era o latim e as línguas neolatinas muito mais importantes que a inglesa. Nada disto retira o brilhantismo e o génio a Shakespeare. Só é pena não haver o mesmo realce para outros, tão geniais e brilhantes como ele.


 


Nota: Alguém que comigo partilha passeios e conversas, enviou-me uma informação interessante: é que a primeira peça que a RTP apresentou logo após o início das emissões regulares foi precisamente... Monólogo do Vaqueiro.


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Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...