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10 junho 2026

Mudanças

 


Las manos

Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear, simplificar, tornar funcionais os gestos e os móveis, arrumar livros e papéis.

As estantes já estão à minha volta, o que me dá uma sensação de paz e segurança estranhas. Na verdade estou rodeada de pessoas. Autores, personagens, lembranças, citações, críticas. Como se mantivesse as conversas que tínhamos, como se a casa permanecesse nossa.

Esvaziei a estante, arrastei-a para a sala, limpei-a do inevitável pó acumulado, escovei lombadas e folhas, bati nas capas para que se libertassem da sujidade. À medida que fui escolhendo, percebi que a minha vida tinha estado em suspenso por demasiado tempo.

Primeiro, porque as funções profissionais que desempenhei por mais de 4 anos eram tão exigentes e absorventes que tudo o mais desapareceu. E depois do indizível é como se o mundo fosse outro, como se a tristeza sugasse a inteligência, a emoção, a capacidade de pensar e memorizar.

Talvez por isso me saiba tão bem este pequeno tempo de apaziguamento, de reencontro com o que era antes, uma pessoa que estou a redescobrir. Os temas que me ocupavam a cabeça e a alma não mudaram muito. Fui revendo as minhas múltiplas obsessões, como o cristianismo e as suas variante e heresias, a definição e a descoberta da vida, a ciência, o bem e o mal, o compromisso social, os policiais, os clássicos, a poesia, a revolução, a política. E há tantos livros de que não me lembro ou que nem cheguei a ler. Outros que julguei perdidos nas inúmeras barafundas do quotidiano.

Recomecei a conduzir, já não fecho as portas todas atrás de mim, já consigo cumprir as agendas que invento, idas a concertos e a teatros, férias a sós, já faço refeições, já tenho prazer na companhia de amigos e familiares.

A névoa vai-se dissipando. Começa o calor e a brisa que me acaricia. É perfumada.

09 maio 2026

Skoda - o carro musical

Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado.

Sem perceber como nem porquê, este meu carro resolve aumentar o volume do rádio ou do Spotify quando lhe apetece, até gritar estupidamente. Se desligar o infotainment, ele liga-se sozinho.

Mas também o faz estando desligado e estacionado.

Outro dia parei o carro em frente à farmácia. Depois de comprar o que necessitava dirigi-me ao dito para regressar. Enquanto me aproximava comecei a ouvir barulho que vinha de dentro do carro, como se houvesse alguém a discutir lá dentro. Abri a porta e fui recebida pelo rádio em altos berros.

Nem sempre acontece. E não encontro nada que possa explicar tal comportamento. Já esteve no concessionário várias vezes e volta sempre na mesma.

Enfim, enquanto não resolver imitar o carro assassino, estou descansada!

26 abril 2026

A Miss Marple que há em mim

Acordei hoje com a notícia de mais um atentado a Trump de que ele, miraculosamente, mais uma vez, escapou.

Não é à toa que sou devoradora de policiais. E, confesso, que tantos atentados a Trump, tanta falha nos serviços de segurança que têm por missão defender o Presidente dos EUA, tantas coincidências relativamente ao timing dos atentados – a embrulhada da guerra do Irão, as trapalhadas relativas à construção do salão de baile na Casa Branca, o caso Epstein, a presença de Trump num jantar a que nunca, antes, tinha ido, estão a cutucar o meu natural e científico cepticismo.

Ou seja, esboça-se na minha tortuosa e malvada mente, uma teoria da conspiração...

Aguardemos o desenrolar da trama. 

Importante declaração: Acho o Trump uma desgraça para o mundo mas condeno qualquer tipo de violência, seja ela política ou qualquer outra.


21 março 2026

Viver a vida


Há uns dias recebi um e-mail do Blogger, essa entidade que se rege por algoritmos e regras que ninguém sabe muito bem como foram e são feitas, essa entidade que decide se as mesmas são ou não seguidas, avisando-me que tinha removido o meu blogue porque "(...) O seu conteúdo violou a nossa política de Spam. Para saber mais, visite a página das regras da comunidade, cujo link se encontra neste e-mail. (...)"

O meu espanto foi total, tal como a minha indignação. Em primeiro lugar, quem e o quê tinha decidido tal coisa; em segundo lugar, que regras de spam eram essas.

Confesso que nem me dei ao trabalho de ir ver. Tudo isto me revolta e me assusta. Deixámos de ser censurados por homens para passarmos a ser censurados por máquinas. Estou demasiado ultrapassada para aceitar que isto é uma evolução benigna.

Depois de me ter passado a fúria, cliquei no link que me deixaram para pedir um "recurso". Tão espantosamente como o anterior, recebi o veredito por e-mail: "(...) Após a revisão, o blogue foi reposto. (...).

E aqui estou de novo, até à próxima apreciação, tão estúpida quanto esta, ou até eu própria remover o blogue.

Vem isto a propósito da necessidade que temos de controlar, "cancelar" (uma palavra muito em voga nestes tempos sombrios), criticar e uniformizar regras que, muitas das vezes, são absurdas e escapam ao entendimento, mas que seguimos acríticos. Deixámos de ter confiança na legislação, essa sim produzida por representantes da sociedade. Deixámos de ter tempo para, sequer, pensar.

Não ponho em dúvida a necessidade de regulação das redes sociais. Mas parece-me que isto não tem nada a ver com regulação.

Também em todos os aspetos da vida em sociedade a fúria normalizadora impõe-se, se não pela legislação, por meios de pressão a que agora se chama "bullying". Tudo o que se ache que não é aceitável é usado de forma a perseguir quem o faz ou defende, de tal forma que é mais seguro para a sua sanidade mental calar a revolta que persistir na sua opinião ou atuação.

Deixámos de ser autónomos em decidir como amar, como aceitar ou não o que a vida nos traz. Tudo nos é ensinado, desde como dividir tarefas em casa, se é que as devemos dividir, à forma como devemos partilhar as nossas emoções, anseios, dúvidas, fantasias, desejos.

O ser humano deixou de saber amar, deixou de saber quais as suas responsabilidades, o que lhe é ou não permitido sentir, o que lhe é ou não permitido contar, viver. Passámos dos livros de autoajuda para o ChatGPT (que é óptimo para me explicar como devo guardar o pão para que ele aguente dias quebradiço e macio).

Tudo isto é muito cansativo e redutor. Confesso que preferia mais erros e mais persistência, mais autocrítica e menos desresponsabilização, mais comunicação e solidariedade e menos pseudo-felicidade autoimposta. Menos egoísmo e mais respeito pelo que o outro é, pelo que possa sentir, e como a nossa pertença verdade absoluta o pode aniquilar.

Enfim, enquanto o blogger me deixar, vou mantendo este espaço onde rezingo. Não sou barbuda, mas vou-me assemelhando cada vez mais ao José Pacheco Pereira.

Também isso me assusta!

01 março 2026

Inquietude

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La desserte

Henri-Matisse

 

A pouco e pouco, vai reencontrando o equilíbrio. A velha inquietude, arrasada e desaparecida, refaz o caminho.

O sol também começa a aparecer e os corpos abrem-se às amenas claridades.

Nada como a alegria do convívio, os gestos com que cozinha, mistura os cheiros, abre as garrafas de vinho.

E depois a porta que se abre, as vozes, os abraços, a conversa.

A partilha das palavras, dos olhos, das mãos, o comungar da refeição, das preocupações, das incertezas da vida.

A vida que vai acontecendo.

À espreita, uns olhinhos espantados, observadores, risonhos, uma vozinha que derrete todos os medos e tristezas, vai absorvendo o estar junto de quem se gosta.

A continuidade.

12 janeiro 2026

Os nossos oráculos

luis osorio lidia jorge.jpg

Esta ideia de silêncio quando ouço pessoas como Lídia Jorge. Uma ideia de serenidade e respeito, de comunhão entre quem não se conhece.

A palavra, as histórias, os contadores de histórias são os nossos oráculos.

Perdemos a capacidade de ouvir, pela cacofonia que criamos. Ouvir alguém que inspira, que fala baixinho, com uma voz doce e segura, mesmo com as inquietações e as dúvidas, porque também tem certezas.

Esta ideia de que vale a pena manter os nossos sentimentos, os nossos pensamentos, e como são indispensáveis estes momentos em que ouvimos e aprendemos.

Alfazema para Lídia Jorge. Sim, totalmente adequado.

(Os Vencidos)

05 abril 2025

A vida torta

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Tree Branch Chair


Mike Just


Por mais que tentasse, acontecia sempre. Nunca o que comprava, diretamente ou por encomenda, vinha totalmente em condições. Por muito que planeasse, medisse, remedisse, anotando cuidadosa e criteriosamente tudo o que queria e observava, tudo o que poderia eventualmente correr mal, nunca conseguia a plenitude da perfeição.


Uma gaveta relutante ao abrir e fechar, um móvel desequilibrado com uma perna ligeiramente mais estendida, uma cómoda que ultrapassa o seu lugar na parede, obrigando o espelho a desviar-se do centro, um outro com varões altos e direitos, em vez de carinhosamente à mão, uma secretária com rolamentos avariados, enfim, as imperfeições do Universo iam-se juntando à sua volta.


Há pessoas assim, elas próprias com qualquer coisa de diferente, assimétrico, desencontrado. Uma perna ligeiramente mais curta, um braço que ficou enfraquecido, uma boca torta, o cabelo em desalinho.


Tudo se revoltava, na sua vida. Até o amor, decepado e retirado abruptamente, transbordante de felicidade ou doloroso de profunda tristeza, até o amor se desconjuntava ao abraçar quem tanto queria, com um dos lados da alma mais nevoenta que a outra, como os brinquedos que fazia a desfazerem-se sem nexo, as viagens que sonhava a fugirem sem regressar.


Na verdade, nada no mundo é previsível.


E tudo se constrói ou desmorona em poucos segundos.

25 dezembro 2024

Victor Mano

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É com uma enorme dor e um vazio que me despeço da presença física do meu querido pai, Víctor Mano. Mais do que um pai, foste o meu exemplo de vida, a minha força e o meu porto seguro. A tua vida destacou-se não apenas pelas conquistas notáveis, mas sobretudo pelo coração generoso, pela humildade e pela forma como tocaste as vidas de todos à tua volta.


Para além de seres um atleta exemplar e um treinador dedicado, foste um verdadeiro mestre de valores. Ensinaste-me que a verdadeira grandeza não reside nos títulos, mas na forma como vivemos e como ajudamos os outros. Quem teve o privilégio de te conhecer ficou marcado pela tua sabedoria, pela tua bondade e por aquele espírito único que iluminava qualquer espaço onde estivesses.


A tua partida deixa um vazio que não consigo descrever, nem consigo acreditar. Sinto que uma parte de mim morreu contigo. Ainda preciso tanto de ti, do conforto das tuas palavras e da tua força. Mas sei que estarás sempre comigo, a viver em cada memória, em cada lição e em cada valor que transmitiste. O teu nome, Víctor Mano, será sempre uma inspiração, um símbolo de dedicação e humanidade.


Obrigada, pai, por tudo o que foste, por tudo o que nos deste e por tudo o que nos ensinaste. Prometo honrar o teu legado e levar comigo os teus ensinamentos. Descansa em paz, querido pai, sabendo que nunca serás esquecido. Continuarás vivo no coração de todos os que tiveram o privilégio de te conhecer. Amo-te para sempre.


Sport Lisboa e Benfica


Atletismo


CNN Portugal


DN


RR


21 dezembro 2024

Manhãs de Inverno

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Edward Hopper


 


Manhãs de Inverno, claras e frias. O Sol coado pelas persianas, ainda baixas.


Ouço a água a correr de um duche.


Alguma paz e serenidade, neste Natal mais vazio.


Os sons da vida que continua, as cores de um mundo que não parou.


Como se não houvesse nada que ficasse, como se nada fosse perene.

11 novembro 2024

Magusto

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José Malhoa


Nunca percebi porque se chama Magusto à tradição de comer castanhas assadas com Jeropiga.


Segundo o Priberam:


- Castanha - "Origem etimológica: latim castanea, - ae"


- Assada - "Origem etimológica: latim asso, - are"


- Magusto: "Origem etimológica: origem duvidosa, talvez do latimustus, - a, - um, particípio passado de uro, urere, queimar."


No que parece estarem todos de acordo é que há uma lenda associada a esta festa, que se relaciona com o bom sentimento de um soldado romano Martinho de Tours (Martinus Turonensis) que viveu no século IV e foi, posteriormente, o São Martinho. Este Santo, que não comungava das novas ideologias da pós-verdade e da ultra-direita tramontana, egoísta, individualista, racista, xenófoba e sexista, tendo-se aproximado de um pobre quase nu, num dia frio e chuvoso, resolveu dividir a sua capa em duas, usando a espada, para que o coitado se cobrisse. Deu-se então um milagre (que deve ter pesado na sua canonização) e o dia tornou-se suave e solarengo - daí o Verão de São Martinho. A ciência, no entanto, embora confirme o fenómeno, é bem mais desinteressante que a história popular:



"(...) Ora, este evento climático, tem uma explicação meteorológica. O período de transição entre o verão e o inverno traduz-se na união do anticiclone subtropical do Atlântico Norte (Anticiclone dos Açores) com o Anticiclone da Sibéria. Durante este processo, a variabilidade do estado do tempo é elevada, com sucessivas passagens da Frente Polar. Contudo, no período em torno da primeira década de Novembro, ocorre em média um abrandamento e, até, uma inversão do fluxo zonal (de oeste) em altitude. Tal inversão, traduz num enfraquecimento ou mesmo bloqueio da Frente Polar sobre a Europa do Sul e, por vezes, verificando-se a predominância de dias com menos nebulosidade e menos precipitação, ou seja, uma relativa melhoria do estado do tempo. (...)"


IPMA



É uma altura em que, em nome de todos os bons rituais cristãos e familiares, se podem comer castanhas cozidas e / ou assadas, acompanhadas de Jeropiga (ou vinho novo). Ao contrário do Magusto, que se celebra em terras portuguesas, galegas e até estremenhas, em áreas em que a língua (e os costumes) têm origens galaico-portuguesas, a Jeropiga é apenas portuguesa.


Resolvi fazer castanhas assadas no forno, usando esta receita.


1. Pré aquecer o forno a 200 graus


2. Lavar as castanhas


3. Fazer-lhes um golpe lateral, mas que não as divida (cuidado, que este procedimento é perigoso)


4. Colocar as castanhas num recipiente, cobertas com água a que se adicionou sal grosso


5. Ao fim de 20 minutos, espalham-se pelo tabuleiro do forno e cobrem-se com mais sal grosso


6. Vão 40 minutos a assar (eu revolvi-as ao fim de 20 minutos)


7. A seguir tempera-se com alecrim, deitam-se numa tigela e cobrem-se com um pano


8. Dez minutos depois, comem-se


Não ficaram nada mal. A Jeropiga já tinha desaparecido do supermercado, por isso foi substituída por Moscatel de Favaios.


E, na busca de um momento musical que representasse esta ocasião gastronómico-religiosa-artesanal, tenho a certeza de que deixaria orgulhoso alguém que, tantas vezes, descobriu as canções mais extraordinárias e hilariantes, a propósito de tudo e de nada.


Espero não te desmerecer, meu querido companheiro de tantos Magustos.


05 maio 2024

Dias de mães

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Kaari Upson


Mother's legs


 


Muitos, todos, nos sonhos e nas velas, no trabalho e no descanso, nas brincadeiras e nos ralhetes, momentos de enorme e profunda felicidade, momentos de abismal e eterna tristeza e solidão.


Mães uns dos outros, a quem sabemos um colo ou uma farpa quando precisamos, em grupos misturados de tecnologia e abraços, de palavras, de sentimentos.


Para todas as mães e pais, que dividem esta condição ampliando-a, que se multiplicam em múltiplos deles próprios para o serem, para o aprenderem, para a incontornável e incomensurável tarefa de ajudar a criar alguém, que saboreiem este como os outros dias que foram e que serão seus.

02 março 2024

Cliché, mais sedentário que ambulante

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Girl with Grandmother


Oksana Fedorova


 


A realidade torna-nos em gente muito mais comum do que nos pensamos, até mesmo em clichés ambulantes. Também me está a acontecer a mim.


Acordada à hora costumeira, seja semana ou fim dela, o meu primeiro pensamento foi para aquela coisinha minúscula e fofa que me virá visitar mais tarde, aquela pequenina bolinha de ternura que faz agora parte de mim.


Essa ideia veio acompanhada do planeamento do lanche para quem a vier ver, com bolo à mistura, chá, etc. tudo aquilo a que as avós têm direito de fazer para que tias e bisavós tenham o direito de comer.


Há uma semana reiniciei as aventuras culinárias com bolo de laranja, daqueles que usam a laranja toda. O forno portou-se bem e o bolo ficou bastante bom.


Hoje será de banana, porque há umas que estão a amadurecer perigosamente na cesta e precisam de uma atenção redobrada.


No entanto, os pormenores das tabelas de conversão de pesos e medidas, são um quebra-cabeças – chávenas, xícaras, copos e colheres, de todos os tamanhos e feitios, para sólidos e líquidos, são medidas muito pouco científicas. Gosto de gramas, quilos, litros e mililitros. Mas nada me demove, nem a proibição médica de pegar em pesos com o braço a consolidar. Paciência, terei de ser imaginativa.


Entre as dentadas e a degustação que se antecipam, os carinhos e os beijos naquela maravilhosa pequenina, haverá lugar a acaloradas discussões político-filosóficas, a propósito do andamento do país e do mundo, que não conseguimos salvar.


Há lá melhor forma de passar uma tarde de sábado?


BOLO DE BANANA


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Liguei o forno a 180 graus; no copo misturador, coloquei 3 bananas aos bocadinhos, 180 ml de óleo, 80 ml de leite, 3 ovos e 300 gr de açúcar amarelo. Previamente tinha moído 300 gr de flocos de aveia (não tinha farinha) e misturei 1 colher de sobremesa de bicarbonato de sódio (não tinha fermento).


Logo que a mistura ficou bem homogénea, fui juntando a farinha de aveia com uma colher de pau. Depois de tudo bem ligado, enchi 2 formas anti-aderentes de bolo inglês e coloquei no forno, por 30 minutos (como o forno é eléctrico, deixei-o lá dentro até esfriar, para acabar de cozer).

18 fevereiro 2024

Autodigestão

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Der Tod und das Mädchen


Egon Schiele


 


Pergunto-me muitas vezes porquê o esforço? O insano e titânico esforço para fazer aquilo que deve ser feito, o correto, o certo.


O que é então o certo, o correto, o que deve ser feito?


Sempre, sempre o que custa mais, o que dói, o que precisa de tanto trabalho e frustração. Aquilo que, só mesmo de vez em quando. se consegue.


Então porquê o esforço? Porquê? Se não há Deus para castigar ou premiar, se todos vamos morrer da mesma forma, com pele, ossos, carne e vísceras, algumas peças dentárias, algumas próteses com que vamos enchendo corpos e almas ao longo da vida?


Porque nos embrenhamos na culpa de, dentro do mais fundo de nós, sentirmos o prazer como pecado, a facilidade como preguiça, o conforto como luxúria a que não temos direito?

13 fevereiro 2024

Drones, Trump, OVNIS e TVDE

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Ultimamente tenho andado bastante em TVDE, pela capacidade proibitiva de médicos super cautelosos, que não me deixam conduzir durante 6 semanas.


A verdade é que decidi entrar no ano de 2024 visitando o Serviço de Urgência, depois de dias e dias a aconselhar a toda a gente da minha roda familiar, que não poderia escorregar, tropeçar, cair, contrair maleitas fossem elas quais fossem, porque os serviços de urgência não estavam visitáveis.


Portanto eu, fazendo jus ao certeiro provérbio faz o de ele diz, não faças o que ele faz, a poucas horas do réveillon, decidi tropeçar em casa, cair e partir o braço, felizmente o esquerdo. Ou seja, lá fui experimentar a doce satisfação de ir para as urgências, de braço em ângulo exótico, RX, TAC, redução, gesso, RX e a maravilhosa notícia, já nos primeiros minutos de 2024, de que teria de ser operada, com a sentença de iniciar uma baixa médica por 8 dias.


E assim foi, dia 3 de janeiro, um êxito de operação, uma simpatia, profissionalismo e competência de todos (das urgências ao bloco operatório, da radiologia ao recobro) os que me trataram, com a fantástica notícia de que teria de estar de baixa 1,5 meses.


É claro que já estou a trabalhar, mas como não posso mesmo conduzir (amanhã faz 6 semanas, felizmente), tenho andado em TVDE. Já me calharam condutores silenciosos, outros faladores, mais novos e mais velhos, paquistaneses, indianos, brasileiros, portugueses, de todos os tamanhos e feitios, todos muitíssimos corteses e disponíveis a ajudar.


Um dos últimos, simpaticíssimo e alegre, veio todo o caminho a falar, tendo-me confidenciado que o Trump sabia perfeitamente que os drones eram comandados por extraterrestres, que Marcelo Rebelo de Sousa (seu amigo) estava à espera de ordens, que os políticos não podiam fazer mais porque os extraterrestres não deixavam, mas que se nos quisessem matar, já estávamos todos mortos.


Amanhã recomeçarei a levar o carro, devagar, devagarinho.

Entrudos

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Entrudo - aldeias do xisto de Góis


 


É mesmo um Carnaval, ao que vamos assistindo.


Em vésperas de eleições, os bailes televisivos são feios, cacofónicos, inúteis, tristes, dispensáveis. Nem as máscaras são novas, nem bem feitas, nem vistosas. Apenas velhas, defeituosas e assustadoras.


Ouvem-se palavras e ideias, palavras sem ideias e ideias verdadeiramente inomináveis. Parece que, de repente, todos nos transformámos em gente grosseira, sem princípios nem valores, de uma estreiteza de vistas difíceis de compreender.


De tudo se faz tábua rasa - militares e paramilitares a fazer greve e filiados em partidos? Por que não? Ameaças de boicote às eleições? Qual o problema? Criminalizar os imigrantes sem autorização de residência? Os malandros que nos andam a tirar empregos e a islamizar?


As guerras na Ucrânia e israelo-palestiniana? Não têm interesse nenhum. O que é importante é o leilão das medidas, sem qualquer base estratégica, sem qualquer noção do que se quer, do rumo e do investimento (não só financeiro) que se entende melhor para o futuro.


Infelizmente, o Entrudo não acaba amanhã. Estaremos em corso sem paragem pelo menos até 10 de março. Em Portugal, nos EUA, na Europa. Mais tarde ou mais cedo, virá a Quaresma.

15 agosto 2023

Limites do infinito

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A simplicidade é uma utopia. Mas olhar para o mundo e os seus problemas, complexos e irresolúveis, dividi-lo em pequeníssimas parcelas despidas de ruído, peso, nevoeiro, lodo, limpando-as para que apenas fique o essencial, para que o todo se vá moldando à simplicidade, não é utópico.


O infinito não alcançamos, mas podemos tender para ele, uma expressão da matemática que sempre me fascinou. Se x tende para infinito significa que, numa determinada função, x vai assumindo uma sequência crescente de números até um limite, que seria o infinito, sem nunca o atingir; se x tende para menos infinito, significa que, nessa função, a sequência de números é sempre decrescente, até ao infinitamente pequeno ou inexistente, o que nunca acontece (no conjunto de números reais).


Podemos tender para a simplicidade, sendo cada vez mais simples (mais infinito) ou reduzindo-nos cada vez mais à essência (menos infinito).


É por vivermos na complexidade que ansiamos pela simplicidade, com os limites do infinito.

19 março 2023

Pais e Filhos

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Fatherhood as Described by Paul Beatty


Rashid Johnson


2011


 


Acabaram de sair de casa. Contentes e serenos, lado a lado.


Vou arrumando minimamente os desarrumos. E recordando outros dias, outras refeições, com os mesmos ou mais protagonistas.


Tenho saudades de mais lugares ocupados, particularmente um, que de vez em quando me dói como se me faltasse um bocado. Que falta.


Uma mesa de família, naqueles momentos em que as famílias são o aconchego e a razão do nosso equilíbrio, naquelas horas em que apenas as boas memórias nos assaltam.


Eu tenho muito boas memórias. E a mesa tem sempre o ruído das vozes, os cheiros da comida, o prazer da companhia.


Ficamos os dois. Ficamos bem.

11 dezembro 2022

Há pessoas

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Scott Jolman


 


Há pessoas que passam pela vida tão quietas, silenciosas e discretas, que a palavra que nos lembram é presença.


De corpo médio e sólido, de voz branda e palavras poucas, de olhar atento e sorriso fácil, aparecem sempre de mãos cheias sem que se lhes peça nada, aparecem sempre quando são precisas, sem que se façam lembrar.


Uma linha de continuidade, um barco à espera, um manto que aquece.


Há pessoas que passam por nós tão quietas e discretas que nos fazem lembrar como o ruído é desnecessário.

02 outubro 2022

Velhos hábitos

Já há bastante tempo que não fazia doce de abóbora. Talvez porque já não exista a pessoa que me dava as abóboras, aquela prima afastada que vivia na terra, que me fazia lembrar o tempo da meninice, um tempo vivido noutro século e também por uma outra eu, que não a que agora existe.


Mas este fim de semana voltei ao velho hábito, também porque fui incluída no velho hábito de outras pessoas que distribuem produtos das suas quintas. Tão velho o hábito como a convivência entre seres humanos, que trocam e partilham víveres, experiências e afectos.


Confrontei-me, por isso, com três abóboras, uma gigantesca e as outras duas apenas grandes. Após pesquisa aturada e apurada, concluí que são do tipo Hokkaido, o que é muito interessante, mas não melhorou a dificuldade que tive para as desmanchar.


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Comecei pelas duas mais pequenas. A casca é duríssima, pelo que a enorme faca que escolhi mostrou grande resistência em cooperar, associada à negação da própria e ao desgraçado ombro direito avelhentado e dolorido que é meu companheiro há já alguns meses, tendo transformado uma tarefa de manhã de sábado num treino desajeitado e bastante esforçado, que faria inveja à minha rigorosa PT.


Não sou de desistir, mas desisti após a segunda abóbora pequena, deixando a gigantesca para outros carnavais, pois parece-me que antes do próximo Carnaval não me vai apetecer outra maratona como esta.


Dois quilos de pedacinhos de abóbora mais tarde, depois de várias imprecações e suspiros irritados, lá raspei a casca de 3 limões que espremi, mais 4 paus de canela e 1200 gr de açúcar, branco e amarelo (é preciso adaptarmo-nos às carências inesperadas), numa panelona que deixei em pousio. Depois de uma horas, foi ao lume, onde ficou 1,5 horas.


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Resolvi, sabe Deus porquê, pegar na varinha mágica para transformar em papa o doce de abóbora, que ficou ainda menos parecido com doce, muito menos de abóbora. Após duas ou três provas achei que estava enfarinhado. Decidi repensar o doce e guardei a inspiração para o fim de uma noite bem dormida.


Mas não me senti lá muito inspirada, confesso. Juntei um pouco de água e foi outra vez ao lume. Só que calculei mal o tempo e a intensidade do fogão e fui despertada pelo cheiro a açúcar queimado. Temendo o pior, corri para o lume que desliguei e para o tacho que retirei do fogão.


Mesmo assim ainda queimou um pouco. Mas depois de arrefecido consegui enfrascá-lo, evitando as partes queimadas. Os frascos cheios já foram ao lume para formar vácuo e as provas devolveram-me um gostinho bastante aceitável.


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Nada como estas aventuras culinárias para nos esquecermos, ainda que temporariamente, das eleições brasileiras, do escalar da guerra e do perigo de uma terceira guerra mundial, da crise que se aproxima, das pandemias, dos refugiados, dos emigrantes, da pobreza, da tristeza, enfim, da vivência de cada um e de todos, desta mole humana a que pertenço.


Porque apesar dos sobressaltos do mundo, a vida acontece, muito difícil para a maior parte, mais fácil para muito poucos que, na maior parte dos casos, nem disso se apercebem.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...