
Tree Branch Chair
Mike Just
Por mais que tentasse, acontecia sempre. Nunca o que comprava, diretamente ou por encomenda, vinha totalmente em condições. Por muito que planeasse, medisse, remedisse, anotando cuidadosa e criteriosamente tudo o que queria e observava, tudo o que poderia eventualmente correr mal, nunca conseguia a plenitude da perfeição.
Uma gaveta relutante ao abrir e fechar, um móvel desequilibrado com uma perna ligeiramente mais estendida, uma cómoda que ultrapassa o seu lugar na parede, obrigando o espelho a desviar-se do centro, um outro com varões altos e direitos, em vez de carinhosamente à mão, uma secretária com rolamentos avariados, enfim, as imperfeições do Universo iam-se juntando à sua volta.
Há pessoas assim, elas próprias com qualquer coisa de diferente, assimétrico, desencontrado. Uma perna ligeiramente mais curta, um braço que ficou enfraquecido, uma boca torta, o cabelo em desalinho.
Tudo se revoltava, na sua vida. Até o amor, decepado e retirado abruptamente, transbordante de felicidade ou doloroso de profunda tristeza, até o amor se desconjuntava ao abraçar quem tanto queria, com um dos lados da alma mais nevoenta que a outra, como os brinquedos que fazia a desfazerem-se sem nexo, as viagens que sonhava a fugirem sem regressar.
Na verdade, nada no mundo é previsível.
E tudo se constrói ou desmorona em poucos segundos.
Afinal, é no desalinho que mora a graça. O mundo nunca foi feito a régua e esquadro. Os romanos bem tentaram. Respeito. Mas foi exceção. Ainda bem!
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