31 dezembro 2009

Bom Ano

 



Danielle Hatherley: new year's eve


 


É sempre com um misto de nostalgia e curiosidade que acabamos o ano, por muito que esta noite tenha o minuto 23:59 igual a todas as outras noites, que o próximo ano comece com nuvens negras, previsões ventosas e cheias anunciadas.


 


Não há nada melhor que aprendermos a olhar a esperança como a certeza do cíclico movimento de rotação da Terra, como a órbita solar, como a vida que se renova a cada instante, sabendo por experiência própria que não há eternidades nem garantias. E o que podemos prometer a nós próprios é viver, o melhor que podemos e sabemos, na comunidade de quem amamos.


 


Bom Ano para todos.


 


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29 dezembro 2009

Proposta de princípios

 



 


Os movimentos independentes de professores consideram "inaceitável" o "acordo de princípios" proposto segunda-feira pelo Governo sobre a carreira e a avaliação docente, e pedem aos sindicatos que não assinem o documento. (...)


 


É claro que, afinal, esta Ministra pode ser ainda pior do que a anterior, prometendo diálogo e negociação e apresentando um acordo de princípios em que há uma carreira estruturada em vários graus, em que a avaliação de desempenho é fundamental para a progressão na carreira,  avaliação essa que inclui vários parâmetros entre os quais a observação de aulas, em que apenas os mais bem classificados, em sistemas de vagas (ou quotas), tal como em todas as outras carreiras, chegarão ao último patamar.


 


Para quem ainda tinha dúvidas, o diálogo de que falam os professores e os sindicatos significa apenas uma coisa - voltar ao doce remanso anterior à Ministra Maria de Lurdes Rodrigues.


 


Aguardo serenamente que esta Ministra mantenha como objectivo a verdadeira dignificação da profissão docente. E que rapidamente se passe a discutir outros problemas, tão importantes como este para a efectiva defesa da Escola Pública, estranhamente arredados do discurso dos protestos: os currículos, as disciplinas, as cargas horárias, os manuais escolares, os exames, etc., etc..


 


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28 dezembro 2009

Espectáculo

 



Clã & Sérgio Godinho


 


 


Quando

tu me vires no futebol

estarei no campo

cabeça ao sol

a avançar pé ante pé

para uma bola que está

à espera dum pontapé

à espera dum penalty

que eu vou transformar para ti

eu vou

atirar para ganhar

vou rematar

e o golo que eu fizer

ficará sempre na rede

a libertar-nos da sede

não me olhes só da bancada lateral

desce-me essa escada e vem deitar-te na grama

vem falar comigo como gente que se ama

e até não se poder mais

vamos jogar

Quando

tu me vires no music-hall

estarei no palco

cabeça ao sol

ao sol da noite das luzes

à espera dum outro sol

e que os teus olhos os uses

como quem usa um farol

não me olhes só dessa frisa lateral

desce pela cortina e acompanha-me em cena

vamos dar à perna como gente que se ama

e até não se poder mais

vamos bailar

Quando

tu me vires na televisão

estarei no écran

pés assentes no chão

a fazer publicidade

mas desta vez da verdade

mas desta vez da alegria

de duas mãos agarradas

mão a mão no dia a dia

não me olhes só desse maple estofado

desce pela antena e vem comigo ao programa

vem falar à gente como gente que se ama

e até não se poder mais

vamos cantar

E quando

à minha casa fores dar

vem devagar

e apaga-me a luz

que a luz destoutra ribalta

às vezes não me seduz

às vezes não me faz falta

às vezes não me seduz

às vezes não me faz falta

 

Indignação mistificada

 



 


Segundo Mário Crespo, a maioria dos clientes do BPP eram pequenos aforradores. O que me espanta, se bem me lembro, é que o BPP não aceitava clientes com menos de 100 a 150.000€. Segundo esses pequenos aforradores e Mário Crespo, o Estado não resolveu os problemas dos clientes. É claro que João Rendeiro, o antigo Presidente do Banco Privado Português, não tem sido por eles incomodado.


 


Este é um problema para a justiça resolver. É aos gestores do BPP que esses pequenos aforradores devem responsabilizar, não ao governo nem ao Estado.


 


O telejornal abriu com a filmagem de um grupo de pessoas a forçarem a entrada da sede do BPP no Porto, do que foram impedidos por agentes policiais. A esse impedimento surgiram gritos e palavrões, numa vitimização que, a meu ver, por muito que entenda o desespero de quem foi objectivamente enganado, não tem qualquer sentido.


 


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Um dia como os outros (22)

 


(..) União Europeia, Rússia, Itália, Reino Unido, França, Alemanha, Canadá, Áustria., Noruega e Estados Unidos reagiram já à violência no Irão. (...)


 


É muito dura, a luta pela liberdade.


 


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Tenho dias

 


Defino-me como agnóstica, avessa aos fundamentalismos religiosos, diferente dos que procuram explicação exterior para as idiossincrasias do corpo e da mente, a orgânica dos átomos de carbono, a vida e biologia celular, a robótica biológica que somos.


 


 


Como me disseram ontem, tenho dias. Dias em que me esqueço daquilo que nos forma e nos enforma e me aconchego, mesmo sem me aperceber, nos etéreos conceitos do bem e do mal, do corpo e da alma, no conforto de não ser responsável por tudo o que faço, digo, escolho.


 


 


Tenho dias.


 

27 dezembro 2009

Das notícias em fotocópia

 



 


A propósito da área da saúde hoje saiu uma notícia exactamente igual em vários jornais online (Público, DE, DN, Sol) com o mesmo texto e mais ou menos o mesmo título, que nos dá conta da preocupação da Ministra Ana Jorge com a saída de médicos do serviço público para o privado.


 


Nenhum dos jornais se debruça sobre a notícia em si. Quantos médicos saíram para o sector privado? Saíram porque se reformaram ou antes de se reformarem? Saíram de todo ou mantiveram algum tipo de vínculo (licenças sem vencimento, por exemplo)? Saíram a tempo inteiro ou mantêm-se a trabalhar em part-time no Estado?


 


Porque é que saíram? Porque ganham mal, porque não aguentam as condições de trabalho, nomeadamente nas urgências, porque tiveram que escolher entre os dois sectores para não incorrerem em ilegalidades?


 


O que pretende o governo fazer para os motivar os médicos a permanecerem no SNS? Pagar-lhes dignamente exigindo que cumpram os horários e os compromissos? Apostar na formação, na diferenciação positiva de quem faz mais e melhor, de quem se dedica à actividade assistencial e científica? Implementar sistemas de incentivos? Acabar com a mistura e a promiscuidade entre sector público e privado?


 


Não percebo esta multiplicação da mesma notícia sem qualquer outro trabalho adicional. É só preguiça dos jornalistas?


 


(Também aqui)

 

SNS online

 



 


Os programas eSIGIC e eAgenda são duas excelentes notícias para os doentes e para a gestão dos serviços de saúde. Ganha-se em transparência, conhecimento rigoroso da verdadeira dimensão das listas de espera e do tempo médio de resposta a essas situações, e facilita-se a marcação atempada das consultas, reduzindo as filas nos Centros de Saúde e nas USF, com uma enorme melhoria de qualidade para quem está doente, permitindo também agendamentos mais consentâneos com as realidades.


 


É verdade que a internet está disponível a menos de metade das casas portuguesas, o que limita o uso destes serviços. O objectivo terá que ser a cobertura total do acesso à internet para que a implementação seja rápida e fácil. Todos teremos a ganhar.


 


 


 


(Também aqui)


 

A Christmas Song

 



Jethro Tull


 


 


Once in Royal David’s City stood a lowly cattle shed,

where a mother laid her baby.

You’d do well to remember the things He later said.

When you’re stuffing yourselves at the Christmas parties,

you’ll laugh when I tell you to take a running jump.

You’re missing the point I’m sure does not need making;

that Christmas spirit is not what you drink.


 


So how can you laugh when your own mother’s hungry

and how can you smile when the reasons for smiling are wrong?

And if I messed up your thoughtless pleasures,

remember, if you wish, this is just a Christmas song.


 


Hey, Santa: pass us that bottle, will you?


 

Encolher de ombros

 





Amy Casey: rigging


 


Se nos deslocarmos no espaço e no tempo podemos observar os mesmos jogos políticos, com protagonistas que mudam de lugar e de discurso consoante lhes está acessível o poder ou o anti-poder.


 


Não mudaram as vozes, as gravatas, a seriedade em frente às câmaras televisivas, as actuações medíocres ou fantásticas, os gritos, os sorrisos, os dentes de lobo e o ronronar dos gatos.


 


Por isso todos nós queremos Barak Obama como Presidente e Primeiro-ministro do mundo. Pelo menos há uma sugestão de novidade, de convicção, de realização de anseios e esperanças.


 


Perante a omnipresença dos discursos da crise, da ingovernabilidade, da coligação negativa, da oposição esvaziada e ocupada pelo Presidente da República, pelos despropositados ataques políticos à Presidência com a bênção de um chefe de governo que parece ter optado pela previsibilidade do confronto institucional, já ninguém liga qualquer importância aos diversos casos criados.


 


Lá vamos vivendo a vida, uns cada vez melhor, muitos cada vez pior, desligados dos apóstolos das desgraças e dos eternos sofredores que elegemos para nos governarem. A banalização da desgraça leva à descrença total em quem a anuncia assim como a banalização das queixas as reduz a um colectivo e gigantesco encolher de ombros.


 


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Ávores de Inverno (1)

 





Edith Dora Rey: Winter Trees


 


Ontem viu-o trazer a pistola do pai. Não lhe disse nem lha mostrou. Percebeu pelo silêncio com que a tirou do bolso do casaco, um peso maior que o mundo todo, e a colocou no cimo do roupeiro, bem longe de outros olhos.


 


A completa noção da irremediável finitude, da compreensão da decadência e da dependência, da terrível solidão e tristeza, da casa fria, enorme, túmulo do resto de uma vida decepada pela dor da ausência, fê-lo evitar um previsível gesto de rebeldia e afronta ao destino.


 


Sentou-se ao computador e abriu o martelar das teclas, olhos parados perante o jogo repetitivo e hipnótico.


 

25 dezembro 2009

Vinte e cinco de Dezembro

 



Hung Liu: candles


 


Porque amamos e nos negamos

em todos os dias do ano

porque abrimos e nos dissecamos

em todos os dias do ano

porque odiamos e nos penalizamos

em todos os dias do ano

porque sabemos e nos enganamos

em todos os dias do ano


 


acendemos velas e ramos

neste particular dia do ano.

24 dezembro 2009

Concerto de Branderbourg nº 6, 2

 



Bach - Concerto Brandenbourg nº 6, 2


Claudio Abbado


Orquestra Mozart de Bolonha


 

Os Santos dos nossos Natais

 



Brian Kershisnik - Nativity


 


Nunca percebi porque se deseja um Santo Natal. Mesmo quem é cristão, quem acredite que Jesus é filho de Deus, que veio ao mundo para nos salvar, como santifica o Natal?


 


Que faz um Natal mais santificado que outro? A quantidade ou qualidade das iguarias, o número de presentes que se espalham pelo chão, as horas que se passam na cozinha, o desperdício e a gula frenética que varre todas as almas e, principalmente todos os corpos?


 


O que é um Natal Santo? A pobreza a que não chega a roupa, a comida, o carinho? A solidão, a tristeza, o desespero? Os ódios e os ressentimentos familiares, os velhos que adormecem isolados, as carrinhas das boas vontades, aquelas que têm dias e horas marcadas?


 


Todos os anos me pergunto o que é um Santo Natal, quando as pessoas mo desejam, eu que não sou mesmo nada santa, que vejo esta época como um hino à hipocrisia generalizada, como a festa de tudo o que é contrário aos sentimentos e actos de solidariedade descomprometida, de genuína vontade de abrir os braços e tentar abraçar o mundo.


 


Pois eu desejo que neste Natal todos os que vivem de incertezas práticas e objectivas ou apenas de sentimentos contraditórios, aqueles escuros e pesados que tantas vezes nos assaltam, possam olhar para si e encontrar forças para se animar, ou ao seu amigo, ao seu vizinho, ao seu familiar e, ao acordar no dia seguinte, naquele dia em que já se esqueceram os votos de paz e felicidade, consigam procurar uma solução.


 


Pois eu espero que todos os que todas as noites de todo o ano velam silenciosamente pelo doce articulado da sociedade, tenham alguns momentos de calma e convívio. Eles é que são os Santos dos nossos Natais.

 


(Também aqui)


 

Um dia como os outros (21)

 


(...) "We are now finally poised to deliver on the promise of real, meaningful health insurance reform that will bring additional security and stability to the American people. ... This will be the most important piece of social legislation since Social Security passed in the 1930s." — President Barack Obama. (...)


 


Aqui está uma bela prenda de Natal e uma viragem histórica na política de saúde americana.


 


(Também aqui)


 

Do perú natalício

 



 


Pois no nosso Natal desistimos do peru assado, com ou sem recheio.


 


O problema nem sequer era o peru, que eu despachadamente ia comprar já assado, recheado e enfeitado à casa da esquina, mas dos acompanhamentos.


 


Como já disse, sou um bocado criativa, às vezes em demasia. Como o peru não me dava trabalho, achava que devia caprichar no arroz, nas batatas palha, nas couvinhas de Bruxelas salteadas.


 


No primeiro Natal organizado em minha casa o arroz, sabiamente confeccionado pelo cozinheiro mais apreciado lá de casa, com nozes, pinhões, passas de uva, bem árabe, estava absolutamente delicioso, apenas com o pormenor de não ter um átomo de sal.


 


No segundo Natal resolvi que couves de Bruxelas salteadas eram um toque de requinte saudável nos acompanhamentos do peru. Temperei-as com sal e pimenta e salteei-as em azeite e alho. Esqueci-me porém de um passo preparatório que foi o de cozer as ditas couves, que ficaram salteadas mas cruas.


 


No terceiro Natal arrisquei uma coisa que nunca tinha feito – batata frita palha. Também nunca mais fiz. A verdade é que depois de fritar os fios de batata, penso que através de um utensílio inútil que andava pela cozinha, o resultado foi uma bola gordurenta de fios de batata colados uns aos outros, de tal maneira pouco apetitosos que nem foram à mesa.


 


Desisti de melhorar a ementa. Hoje em dia, para além da aletria e das rabanadas, do bacalhau cozido com batatas e grão, o dia 25 é palco de várias tentativas peruanas ou outras, mas com os acompanhamentos habituais, testados em casas seculares. As filhoses e os sonhos são contributos anuais indispensáveis, a cargo das gerações anteriores.

 

21 dezembro 2009

Mentira publicitada

 



 


Não é preciso mais para desmascarar mais um conjunto de notícias falsas cujo objectivo foi denegrir a imagem do governo e de José Sócrates.


 


Em Novembro fomos inundados com notícias da revista Sábado e com denúncias do Director do Sol em como o governo tinha privilegiado os jornais da boa imprensa - DN, DE e JN - penalizando os outros, nomeadamente o Sol e o Público. Pacheco Pereira falou e acusou, Luís Campos Ferreira, em nome do PSD, pedia explicações.


 


Afinal os dados não eram bem esses chegando-se à brilhante conclusão que quem tinha ganho mais com a publicidade era o CM e a revista Sábado.


 


Mais uma vez, gostava de ouvir os acusadores pedirem desculpa pelo erro. Mas posso esperar sentada.


 


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Doce de pêra com jeropiga

 



 


Pois o doce da temporada demorou a materializar-se na minha cabeça. Não gosto muito de cozinhar nem o faço muitas vezes. Cá em casa até preferem que o não faça, embora sejam de uma injustiça de bradar aos céus.


 


No fundo, criticam-me a elevada criatividade quando preferem coisas mais amenas, ortodoxas, iguais a sempre. Por isso dou largas à minha imaginação na altura de confeccionar as prendas natalícias.


 


Pois este ano, depois de uma tarde a lutar com uma abóbora enorme mas bastante oca, cheguei à conclusão que precisava de aumentar o número de frascos de doce. Pensei em pêras rocha, que já me serviram para um Natal de compota com noz e gengibre, uma especialidade.


 


No entretanto apareceram-me em casa alguns litros de jeropiga, de várias e boas proveniências. Pareceu-me que, se havia um doce maravilhoso que dava pelo nome de pêras bêbedas, em que se cozem as ditas em vinho tinto, açúcar e canela, porque não haveria eu de fazer uma compota usando a jeropiga?


 


Num dos últimos sábados lá fui eu em demanda de 6 quilos de pêras rocha, limão miolo de noz e gengibre, que não havia. Paciência, desiste-se do gengibre.


 


Armada de uma balança de cozinha e muita paciência, descasquei aquelas pêras todas. O peso das cascas e das sementes é enorme, tendo ficado apenas com 3,6K de pêras aos bocadinhos. Espremi algumas laranjas que tinha e misturei o sumo (400ml) com 1L de jeropiga. Misturei com as pêras e resolvi deixá-las cozer durante 5 minutos na jeropiga com sumo de laranja e 5 paus de canela. Depois juntei 2,5K de açúcar (0,5K açúcar por 1K/1L de fruta/jeropiga, respectivamente - tive que misturar açúcar branco e amarelo porque não tinha branco que chegasse) e sumo de 4 limões (por causa da pectina que a pêra não tem).


 


A seguir esperei o mais pacientemente que pude pelo famigerado ponto de estrada. Ao fim da tarde lá consegui fazer a estrada e conduzi rapidamente a compota para os frascos.


 


Podem acreditar que está divinal. Os cabazes já estão compostinhos.
 



 

Entrevistas da Paris Review

 



 


Como é um escritor? Como é que escreve, aonde, de pé ou sentado, numa escrivaninha, numa secretária, é organizado, arrumado, desleixado, maníaco, sedutor, obsessivo?


 


Como escreve, quais os truques, os horários, os rituais? Quais os temas, como inventa, imagina, sonha? Que histórias foram contadas, sempre a mesma de muitas formas, muitas histórias sobre o mesmo assunto, quantas rasuras, que canetas, lápis, máquinas de escrever? Que luz, que sentidos, que sentimentos, que influências, que ídolos, que raivas, que invejas?


 


Estas interessantíssimas entrevistas são os primórdios daquilo que hoje entendemos como a procura da essência de quem cria. Foram efectuadas durante dias, revistas mais do que uma vez por cada um dos entrevistados, as perguntas retiradas ou criticadas pelos escritores.


 


Mesmo assim conseguimos encontrar Truman Capote, William Faulkner, Laurence Durrell, Ernest Hemingway. Uma excelente selecçãoe tradução de Carlos Vaz Marques, ele próprio um entrevistador e curioso estudioso dos artistas da palavra.




 

20 dezembro 2009

Um dia como os outros (19)

 


(...) Num país com tão poucos recursos económicos, com uma língua extraordinária falada por milhões, com uma história e poesia riquíssima, se a gente não aposta na nossa cultura estaremos envolvidos num jogo masoquista. (...)


 


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Quadras de Natal (1)

 



Cindy Thomas: Family


 


Meu rico menino pobre,
alminha do meu sustento,
o manto que não te cobre
protege a casa do vento.


 


Meu rico filho sem sorte
cordeiro limpo de medo,
o pai destina-te a morte
a mãe esconde um segredo.


 


Foge meu rico santinho
não queiras marca de Abel,
dócil como cordeirinho
o amargo sabor do mel.


 


Foge depressa, oh irmão
do malquerer do destino,
esquece o futuro que não
te deixa viver, oh menino.


 

Patamares mínimos

 



 


Alguns sindicatos representantes dos trabalhadores dos hipermercados ameaçam com uma greve no dia 24 de Dezembro, em protesto contra a proposta de alargamento do horário de trabalho flexível para 60 horas/semana, com a possibilidade de alargamento diário para 14 horas, com aviso dos trabalhadores na véspera.


 


A Sonae e a Jerónimo Martins, grandes empresas e grandes empregadores neste país, apesar da crise económica mundial em geral e portuguesa e particular, aumentaram os lucros em relação ao ano anterior. São estas as mesmas empresas que não podem aumentar o ordenado mínimo para 475€/mês.


 


A recente crise económica demonstrou a iniquidade de sistemas e regimes político-económicos em que o lucro sem objectivo nem responsabilidade social gera situações graves que potenciam revoltas e insegurança, aumento das desigualdades e da pobreza. Mas parece que não aprendemos nada. Ou pelo menos os mesmos de sempre voltam à retórica de sempre.


 


É claro que as empresas devem ter lucro mas não pode justificar uma nova escravatura. Há patamares mínimos de decência e de dignidade, que estes senhores não se envergonham nunca de ignorar.

 


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Afectos

 



(Tiny Pilot: Random Love)


 


Às vezes ouço alguns programas de rádio em que se entrevistam várias pessoas de vários quadrantes, profissionais, políticos e culturais, sobre as sugestões de ocupação de fins-de-semana e/ou horas de lazer.


 


Nesta época são unânimes as que se insurgem contra o horror das lojas cheias, a enormidade e quantidade de ofertas inúteis para quem já não sabe o que desejar, a obscenidade de dinheiro gasto sem qualquer função, os exageros gastronómicos e as suas consequências nas periclitantes dietas hipocalóricas.


 


Se assim é, cada vez percebo menos os sacrifícios que as mesmas pessoas fazem, porque elas assim o confessam, engrossando as hordas de consumistas disparatados nesta época natalícia. Se assim é, porque não mudamos os nossos hábitos restaurando a demonstração dos afectos, retomando o cuidado com os outros, naquilo que a eles diz respeito, nas suas necessidades e gostos, nas suas sensibilidades?


 

Concerto de Branderbourg nº 6, 1

 



Bach - Concerto Brandenbourg nº 6, 1


Claudio Abbado


Orquestra Mozart de Bolonha

Dez livros que não mudaram a minha vida

 


 


 


Dez livros que não mudaram a minha vida (sabe-se lá porquê) - desafiou-me desta vez o Porfírio. Na verdade, muitos mais há que não mudaram a minha vida e muito poucos me mudaram.


 


A lista aqui vai: 



  1. Um mundo para Julius – Alfredo Bryce Echenique

  2. Rio das Flores – Miguel Sousa Tavares

  3. Os dias acabam sempre por voltar – Angelo Rinaldi

  4. Amor e Sexualidade no Ocidente – Georges Duby

  5. História das Lágrimas – Anne Vincent-Buffault

  6. Cadernos de Guerra (1939 – 1940) – Jean-Paul Sartre

  7. A História Secreta – Donna Tartt

  8. Ghostwalk - Na pista de Newton – Rebecca Stott

  9. Ainda estamos casados – Garrison Keillor

  10. Os seres felizes – Marcos Giralt Torrente


Diz o Porfírio que devo enviar este desafio a outros bloguers. É claro que está convidado quem quiser. Gostaria, no entanto, de nomear alguns:



E segue o desafio.


 

Um dia como os outros (18)

 


Foi ontem libertado um homem que passou 35 anos preso nos Estados Unidos, depois de um exame de ADN comprovar a sua inocência. (...)


 


E ainda há quem defenda a pena de morte.


 


(Também aqui)


 

Inverno como deve ser





 



 

19 dezembro 2009

Demissão tardia

 



 


Na sequência de queixas de eventuais pressões que Lopes da Mota teria exercido sobre os magistrados que investigavam o Freeport, este foi sujeito a um processo disciplinar e suspenso por 30 dias. A seguir pediu a sua demissão do Eurojust.


 


Sem prejuízo do resultado do recurso que o seu advogado vai interpor, esta demissão só peca por tardia. Neste momento já não tinha alternativa.


 


Continuam a faltar esclarecimentos importantes: Lopes da Mota agiu por conta própria ou essas pressões foram encomendadas? Por quem e com que razão?


 


Esperemos os novos desenvolvimentos deste caso e o encerramento do Freeport que, apesar de andar arredado das notícias de primeira página e de abertura dos telejornais, continua sem uma conclusão.


 


(Também aqui)


 


Adenda: encerramento do caso Freeport e não do Freeport, como bem notou JNR.


 

Insinuações e suspeitas

 



 


No último programa da Quadratura do Círculo, a propósito da transferência, em 2010, da Red Bull Air Race para Lisboa, Pacheco Pereira questionou António Costa e acusou a CML e o governo de receberem patrocínios de empresas estatais. Deselegante, arruaceiro, prepotente e arrogante, levantou suspeitas sobre o comportamento do governo e de António Costa, como Presidente da CML, que lhe respondeu indignado, duramente, esclarecendo que tinha sido a própria empresa a requer que a dita corrida fosse em Lisboa.


 


Não sei se é uma derrota política para o Porto e para Rui Rio, porque as motivações podem ser apenas a largura do rio Douro em comparação com a largura do rio Tejo. É, de certeza, um revés económico para o Porto e para Gaia.


 


Mas Pacheco Pereira fez uma demonstração ao vivo do que tinha sido a estratégia do PSD na campanha eleitoral para as legislativas. E quando diz que as pessoas estão fartas de José Sócrates, o que as pessoas disseram nas urnas é que estão fartas desta estratégia de insinuações e suspeitas, dos ataques ao carácter, da falta de sentido cívico e da falta de ética. O que as pessoas disseram, alto e bom som, é que estão fartas deste PSD.


 


(Também aqui)


 

Barreiras

 



 


Parece-me uma péssima estratégia do governo o colocar o ónus de alguns problemas, nomeadamente o chumbo da central de compras para o SNS, no Tribunal de Contas, numa remota e nevoenta recuperada ideia de força de bloqueio. Há, com certeza, assessores jurídicos nos vários ministérios, em particular no Ministério da Saúde, que poderão estudar formas de elaborar protocolos que estejam de acordo com a legislação em vigor. Não se pode exigir dos organismos estatais que cumpram as suas funções fiscalizadoras apenas quando convém.


 


Por outro lado, apesar da postura irresponsável de toda a oposição, o governo e o PS só teriam a ganhar se tomassem a dianteira política e não ficassem presos às agendas dos partidos à esquerda e à direita. As coligações negativas devem ser realçadas, assumindo todos os partidos a responsabilidade de preferirem derrotar o PS e Sócrates a encontrarem soluções que viabilizem soluções governativas.


 


Mas além disso, e de acordo com a observação do Porfírio, seria mais lógico e desejável que o governo escolhesse uma área ideológica prioritária para tentar consolidar uma base parlamentar de apoio, pois não se percebe que as tentativas de entendimento sejam indiferentes à esquerda e à direita.


 


Não me parece credível a sugestão da inevitável dissolução rápida da Assembleia da República. Após um ciclo de três actos eleitorais, em que o PS ganhou dois, no caso das eleições legislativas de uma forma expressiva, não será muito fácil aceitar esta solução. Assim como não é espectável a substituição do Primeiro-ministro por iniciativa presidencial. Há muita vontade de exercitar ficção política, a que se assiste diariamente com a pletora de  comentaristas que ouvimos e lemos.


 


Esperamos deste governo firmeza e determinação para enfrentar a crise, a arrastada e perene crise em que vivemos, com imaginação e sinceridade. Esperamos que este governo governe com a orientação que prometeu na campanha eleitoral – à esquerda.

 


(Também aqui)


 

16 dezembro 2009

Tribunal de Contas

 



 


O Tribunal de Contas continua a recusar os vistos a importante número de iniciativas do governo anterior. Das auto-estradas à central de compras do SNS, passando pela crítica ao financiamento do cheque dentista, parece-me preocupante apercebermo-nos de que a administração pública não está a cumprir as suas funções com rigor e dentro da mais estrita legalidade. Aqui está uma área em que a governação deve ser rapidamente alterada.


 


Guilherme d'Oliveira Martins tem sido incansável na defesa dos dinheiros públicos. É pena que quem tanto acusou o governo de tentativa de controlo do aparelho do estado, quando o nomeou Presidente do Tribunal de Contas, pondo em dúvida a integridade pessoal de Guilherme d'Oliveira Martins, não venha agora louvar essa nomeação e recondução.


 


(Também aqui)


 

A real falta de médicos

 



 


Ainda o Prof. Gentil Martins era Bastonário da Ordem dos Médicos (entre 1977 e 1986) e já se ouvia dizer que não havia falta de médicos, que o problema era a sua distribuição pelo país.


 


Hoje em dia, com a média etária do médicos muito alta, com dados que nos permitem saber que dentro de poucos anos haverá uma enorme percentagem de médicos com idade para se reformarem, com casos conhecidos de médicos já reformados que são contratados para continuarem a exercer nos hospitais públicos e centros de saúde, com a enorme carga horária que os médicos têm para assegurar as urgências, as consultas, as cirurgias, as enfermarias, com o pluriemprego médico, como é possível o Bastonário continuar a argumentar que o que há é má distribuição de médicos?


 


É verdade que sim, que os médicos estão mal distribuídos, que há hospitais com muitos e hospitais com poucos, que há especialidades mais carenciadas que outras mas, mesmo assim, há real falta de médicos.


 


Há dúvidas quanto ao tipo de cursos que se estão a abrir? Será que os médicos formados nas Universidades do Algarve e de Aveiro estarão tão bem preparados como os formados pelos métodos e universidades habituais? Isso sim, deveria constituir uma preocupação primordial da Ordem dos Médicos que, nestes casos, não colocou em causa a qualidade dos cursos.


 


(Também aqui)

 

15 dezembro 2009

14 dezembro 2009

Prémio Pessoa 2009

 



 


Não conheço a obra de D. Manuel Clemente, nem como Teólogo, nem como Historiador. Mas o facto de ser Bispo não me parece impeditivo de merecer o Prémio Pessoa.


 


O desconhecimento da sua obra será certamente devido mais à minha ignorância e falta de interesse do que à sua pouca valia.


 


Pertencer à Igreja Católica não deve ser motivo de discriminação positiva tal como não deverá ser motivo de discriminação negativa.


 


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Ideologia ambiental

 



 


A Cimeira de Copenhaga irá ficar conhecida provavelmente mais pelo Climagate do que propriamente pelas metas e acordos que conseguir em relação aos compromissos de redução de emissões de CO2.


 


Não me parecem questionáveis as vantagens globais de um esforço combinado de despoluição atmosférica, de aposta em energias renováveis alternativas, de redução e reciclagem dos lixos, da gestão criteriosa dos recursos naturais, nomeadamente hídricos, de protecção de espécies ameaçadas, em suma, de respeito pelo ambiente e pelo planeta.


 


Mas isso não deve ser feito através da intoxicação da opinião pública com ameaças e previsões de assustadoras, baseadas em estudos científicos que, pelo que se vai sabendo, têm sido orientados para concluir que o aquecimento global está a acelerar pelo efeito no ambiente do Homem.


 


A ciência faz-se todos os dias e o que é uma certeza hoje pode tornar-se incerteza amanhã. A comunidade científica é formada por pessoas, tão permeáveis como quaisquer outras a pressões e lobbies. Os emails revelados fazem suspeitar de uma gigantesca mistificação de contornos ainda pouco nítidos.


 


Interesses poderosos há-os da parte das companhias petrolíferas. Mas não os haverá também da parte dos grupos que se dizem defensores do planeta e profetas das iminentes catástrofes?


 


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13 dezembro 2009

Aprender as arritmias

 



 

Pela Paz

 


 


 


Foi uma semana cheia de trabalho pelo que fui assistindo ao que se passava à minha volta, sem capacidade para apreender a voragem de notícias. Que são muitas, que parecem todas muitíssimo importantes, imprescindíveis para a vida do nosso dia-a-dia, mas que se revelam efémeras e banais.


 


Não foi o caso do discurso de Obama na cerimónia de entrega do prémio Nobel da paz. Obama fez um discurso extraordinário e corajoso, enfrentando as suas responsabilidades como Presidente dos Estados Unidos nas guerras contemporâneas, mas lembrando que há guerras inevitáveis e que o combate pela paz é exigente e não dá tréguas a nenhuma das nações que se dizem dela defensores.




(...) I understand why war is not popular. But I also know this: the belief that peace is desirable is rarely enough to achieve it. Peace requires responsibility. Peace entails sacrifice. (...)


 


Obama faz um discurso marcadamente ideológico, mostrando aquilo em que acredita e aquilo que quer fazer, exortando as outras nações, grandes e pequenas, ricas e pobres, a comprometerem-se com uma estratégia conjunto para alcançar a paz.


 


(...) First, in dealing with those nations that break rules and laws, I believe that we must develop alternatives to violence that are tough enough to change behavior - for if we want a lasting peace, then the words of the international community must mean something. (...)


 


(...) This brings me to a second point - the nature of the peace that we seek. For peace is not merely the absence of visible conflict. Only a just peace based upon the inherent rights and dignity of every individual can truly be lasting. (...)


 


(...) Third, a just peace includes not only civil and political rights - it must encompass economic security and opportunity. For true peace is not just freedom from fear, but freedom from want. (...)


 


Foi um discurso intencionalmente poderoso e humilde. Não tenho a certeza de que Obama mereceu este Nobel, mas tenho a certeza de que fará tudo para o merecer. Queiram outros Chefes de Estado assumir assim as suas responsabilidades, contribuindo realisticamente para a construção de um mundo mais justo.


 


(...) We can acknowledge that oppression will always be with us, and still strive for justice. We can admit the intractability of depravation, and still strive for dignity. We can understand that there will be war, and still strive for peace. We can do that - for that is the story of human progress; that is the hope of all the world; and at this moment of challenge, that must be our work here on Earth.


 


(Também aqui)


 

Seguro de memórias

 



Salvador Dalí - el caballero de la muerte


 


A morte pendura-se nos gestos


respira-se pelos cantos


subtil e densa como sangue


palpitante e perpétua como vida


seguro de memórias no amor


perversa novidade ao nascer


sempre e dolorosamente.

 

Um dia como os outros (17)

 


(...) a criação de um clima de medo e intimidação na opinião pública por parte de certas organizações ecologistas e figuras públicas, para, mais do que fazerem passar a sua mensagem, imporem-na de forma totalitária e assente apenas em factores emocionais, sem possibilidade de contestação ou de contraditório.


 


(Também aqui)


 

Ruídos ensurdecedores

 



Salvador Dali - elefantes


 


O tempo esvai-se antes de acontecer. Mal surge uma voz, uma pergunta, um bater de asas, mil vozes, mil perguntas mil bater de asas fazem eco mesmo que não sejam vozes, não encontrem perguntas, não batam asas. E de repente já se calaram as vozes, já se esgotaram as perguntas, já murcharam as asas na voragem do ruído ensurdecedor que reproduz ondas e sons sem sentido, até que o rumor do silêncio deixe de existir.


 


Nessa altura cegaremos, ensurdeceremos, apagaremos a individualidade, sem tempo para pensar.


 

Um dia como os outros (16)

 


"O que ficou visível nesta crise é que afinal de contas os grandes riscos foram assumidos pelo público e por isso não me parece que esses grandes ganhos tenham a mínima justificação"


 


(Também aqui)


 

Conforto

 


Ouço as vozes quase em surdina, amáveis, excitadas, delicadas, as vozes de quem saboreia a companhia mútua, de quem se gosta e sente falta.


 


O que explica o amor, a ternura, a vontade de cuidar? Não sei, mas estas vozes ao longe asseguram-me um conforto imenso.


 

09 dezembro 2009

Concurso na Barbearia

 



 


A Barbearia do senhor Luís abriu o tão esperado concurso da época. Este ano são os burros do presépio os contemplados.


 


Claro que este Quadrado não ficaria bem defendido se não se apresentasse a concurso.


 


Este é o nosso burrito, com ar satisfeito e bem enfeitado. É para ganhar, claro.


 

Linguagem parlamentar

 



 


Absolutamente lamentável a cena passada na primeira audição da Comissão Parlamentar da Saúde. A linguagem e a atitude dos deputados Maria José Nogueira Pinto e Ricardo Gonçalves não dignificam em nada os trabalhos parlamentares.


 


Há inúmeros e graves problemas a discutir e a esclarecer, nomeadamente na área da saúde. Os cidadãos merecem mais respeito por parte dos seus representantes.


 


(Também aqui)


 

Dança das luvas rosa

  



(via Saude SA)

07 dezembro 2009

Concerto de Brandenburg nº 1, 3

 



Bach - Concerto Brandenbourg nº 1, 3


Claudio Abbado

Orquestra Mozart de Bolonha


 

Presidenciais antecipadas

 


As eleições presidenciais tomaram importância acrescida desde o episódio das escutas  a Belém. Ao perder credibilidade e capacidade de acção, perante a crise económica e a crise política que se avizinha, seria necessário um Presidente respeitado pelas restantes instituições, que fosse capaz de congregar esforços sem intervir na luta partidária.


 


Manuel Alegre apresentou-se às últimas eleições presidenciais sem o apoio do PS. Foi um erro político de Sócrates que, ao arrepio de muitas vozes dentro e fora do PS, preferiam um candidato que englobasse a área do centro esquerda. Mário Soares surgiu já derrotado e Cavaco Silva capitalizou a existência de duas candidaturas com base na matriz socialista.


 


Votei em Manuel Alegre. O meu blogue surgiu precisamente com o objectivo de, dentro do pouco que podia, fazer campanha por aquela candidatura. As minhas razões estão explicadas ao longo desses dias e não vou repeti-las.




Passaram-se quatro anos e tivemos uma legislatura inteira de governo socialista. Foi um governo que tentou apresentar alternativas, fazer reformas, mudar o que estava parado. Manuel Alegre, ao longo de toda a legislatura, fez um contraponto muitas vezes incompreensível à política governamental. Estão neste grupo as críticas à actuação do Ministro Correia de Campos, acusando o governo de tentar destruir o SNS, e à actuação da Ministra da Educação, pactuando com a demagogia e o populismo dos partidos que se dizem de esquerda, mas cuja defesa da escola pública se limita à defesa dos interesses instalados de uma classe profissional.


 


Os jantares de apoio a Manuel Alegre são os preparativos para uma onda de dinamização para a próxima candidatura a Belém. Respeito Manuel Alegre e penso que será sempre uma referência, pelo menos é-o para mim, pela sua frontalidade e pela forma de exercer a cidadania. Mas se Manuel Alegre não está refém de ninguém também o PS não deverá estar refém de Manuel Alegre. E seria bom que Manuel Alegre e os seus apoiantes pensassem se essa é a candidatura que melhor servirá o país.


 


(Também aqui)

 

Inquéritos a todo o custo

 


O que é preciso é pedir uma comissão de inquérito. Não interessa porquê nem com que objectivo, só interessa que é contra o governo de Sócrates, este ou o anterior. Como deste ainda há muito pouco a inquirir, restam quatro anos de medidas que desagradaram à oposição, seja ela qual for. Portanto a palavra de ordem é: comissão de inquérito.


 


A primeira proposta, que eu até acharia interessante e talvez esclarecedora, foi uma comissão parlamentar para averiguar se teria havido ou não intromissão política ilegítima por parte do governo anterior na linha editorial dos órgãos de comunicação, mais precisamente na TVI e no Público. Foi o próprio Pacheco Pereira que insinuou que isso seria feito num dos programas da Quadratura do Círculo, após a sugestão de Lobo Xavier. Isto à boleia da vergonhosa defesa da publicitação das escutas entre Sócrates e Armando Vara, que Manuela Ferreira Leite quis transformar em problema político.


 


Mas essa grande ocasião esvaziou-se repentinamente e o problema da asfixia democrática e do controlo dos media deixou de ser importante e motivo para uma comissão parlamentar de inquérito.


 


Portanto vamos a outra – uma comissão parlamentar de inquérito que avalie as brumas por detrás do Magalhães, aquele tão maléfico engenho, de tão maléfico engenheiro, promovido por tão maléfico governo.


 


É esta a legislatura que nos espera – a tentativa de desfazer tudo o que foi feito durante 4 anos. Mas, a avaliar pelas alternativas, é para fazer o quê?

 


(Também aqui)


 

06 dezembro 2009

Tinta roja

 



Aires de Tango


 


 


Paredón,

tinta roja en el gris

del ayer...


 


Tu emoción

de ladrillo feliz

sobre mi callejón

con un borrón

pintó la esquina...


 


Y al botón

que en el ancho de la noche

puso el filo de la ronda

como un broche...


 


Y aquel buzón carmín,

y aquel fondín

donde lloraba el tano

su rubio amor lejano

que mojaba con bon vin.


 


¿Dónde estará mi arrabal?

¿Quién se robó mi niñez?

¿En qué rincón, luna mía,

volcás como entonces

tu clara alegría?


 


Veredas que yo pisé,

malevos que ya no son,

bajo tu cielo de raso

trasnocha un pedazo

de mi corazón.


 


Paredón

tinta roja en el gris

del ayer...


 


Borbotón

de mi sangre infeliz

que vertí en el malvón

de aquel balcón

que la escondía...


 


Yo no sé

si fue negro de mis penas

o fue rojo de tus venas

mi sangría...


 


Por qué llegó y se fue

tras del carmín

y el gris,

fondín lejano

donde lloraba un tano

sus nostalgias de bon vin.

 

Crise multicolor

 


Não é possível fugir. Estamos a chegar ao Natal, essa época de consumo desbragado e obrigatoriedade de bondade, sorriso e felicitações, mesmo que nos apeteça emigrar para os confins do universo.


 


Como há amarras demasiado fortes que impedem o isolamento total, debaixo de uma camada de cobertores e silêncio que elimine os sinos e as canções melodiosas, junto-me sempre com espírito de missão às festividades. Como dizia um outro sou uma escrava do dever. Mesmo assim ainda me divirto. Este ano vou reeditar o licor de laranja, experimentado nos idos de 2002, altura em que a crise tinha essa mesma cor.


 


Mas como a crise se mantém, para que possamos maldizer a nossa vida para todo o sempre, com essa cor ou com outra, e o licor de pétalas de rosa que já fiz ficou horroroso, lá terá que ser. Claro que estas iguarias necessitam de tempo. Já estão as cascas das ditas laranjas a tomar banho em aguardente há cerca de 1,5 meses. As cascas têm que ser cortadas às tiras fininhas e só se pode aproveitar a parte cor-de-laranja. A parte branca deve retirar-se sob a ameaça de ficarmos com um licor amarguíssimo.


 


A quantidade de cascas de laranja é mais ou menos a olho. Normalmente encho 1/3 do volume do frasco (de boca larga) e 2/3 com aguardente e vou mexendo de vez em quando. Quando o líquido já está bem da cor das cascas, passa-se à finalização.


 


Para cada litro de aguardente faz-se um xarope com água e açúcar (1l água/1kg açúcar). A quantidade de água e açúcar pode ser menor se pretendemos um licor mais forte (para cada litro de aguardente 7,5 dl de xarope).


 


Temos que filtrar a aguardente, temos que filtrar o xarope feito à parte (deixar a água ferver com o açúcar durante 10 a 15 minutos), misturar, filtrar de novo e engarrafar. Os filtros desafiam a nossa imaginação – podem usar-se guardanapos de linho ou filtros para café.


 


As garrafas são um prodígio de reciclagem moderna e ambiental. Lavam-se e escaldam-se, rolham-se (boa sorte para encontrar rolhas de cortiça, o que não está fácil, embora também se possam reciclar as das garrafas de vinho). Depois é só rotulá-las.



Eu costumo ir provando e provar várias vezes é um mecanismo excelente para aguentarmos as horas na cozinha a que esta função obriga.


 



 

(Des)Arrumações

 



(autor desconhecido)


 


As prioridades que damos às coisas e a forma como as olhamos e valorizamos são um enigma de variação terrena.


 


Consegui estar cerca de meia hora a ouvir as maravilhas da concepção de uma casa, descrição essa mais pormenorizada no que diz respeito à arrumação da cozinha, aproveitamento de espaço na despensa, facilitações de arrumação e limpeza, largueza e arejamento de armários de roupa sem portas, confortabilidade do aquecimento do chão e arejamento de estúdios de trabalho sem separação de áreas de privacidade.


 


O jornal teve que ser olhado a correr, de soslaio, mantendo metade do cérebro desligado do ouvido. As manobras de sobrevivência mental que temos que aprender são inúmeras e infindáveis.


 

05 dezembro 2009

Um dia como os outros (15)

 


(...) Procuramos parceiros que tenham mais alguns valores nas áreas da investigação e da educação, que tenham mais algumas ambições em termos de ciência e tecnologia com impacto no nosso futuro, e desse ponto de vista encontrámos muito bons parceiros em Portugal. (...)


 


Portugal está na vanguarda de muitas das inovações e estudos científicos nos campos das energias alternativas e engenharias biomédicas.


 


A formação e a educação são domínios em constante renovação. A Escola Pública de qualidade é crucial para que se entenda que a qualificação é uma das melhores respostas a qualquer crise.


 


(Também aqui)


 

Interlúdio

 



pintura de Wifredo Lam


 


Qualquer coisa de intermédio

no interlúdio do ser

qualquer coisa de intervalo

no espaço de entender

qualquer coisa entre duas

sem contínuo nem fim

qualquer coisa de mim.


 

History repeating

 



Propellerheads & Shirley Bassey


 


 


The word is about, there's something evolving,

whatever may come, the world keeps revolving

They say the next big thing is here,

that the revolution's near,

but to me it seems quite clear

that it's all just a little bit of history repeating


 


The newspapers shout a new style is growing,

but it don't know if it's coming or going,

there is fashion, there is fad

some is good, some is bad

and the joke is rather sad,

that its all just a little bit of history repeating


 


.. and I've seen it before

.. and I'll see it again

.. yes I've seen it before

.. just little bits of history repeating


 


Some people don't dance, if they don't know who's singing,

why ask your head, it's your hips that are swinging

life's for us to enjoy

woman, man, girl and boy,

feel the pain, feel the joy

aside set the little bits of history repeating


 


.. just little bits of history repeating

.. and I've seen it before

.. and I'll see it again

.. yes I've seen it before

.. just little bits of history repeating


 

Serviços mínimos

 


Manhãs de mantas e cardos estas manhãs de sábados moles e chuvosos, janelas escuras e opacas, lá fora pequenas rabanadas de café para separar as névoas da tristeza.


 


Manhãs de serviços mínimos.


 

03 dezembro 2009

Um dia como os outros (14)

 


(...) Armando Vara foi avisado de que o primeiro-ministro, José Sócrates, estaria sob escuta telefónica.


 


Avisaram Armando Vara? Quem? Mas afinal o Primeiro-ministro estava a ser escutado? Quem autorizou as escutas? Não deveria ter sido o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça?


 


(...) "O problema que está em causa não tem a ver com o acesso às escutas - tem exactamente a ver com o facto de o povo português não conhecer o conteúdo das escutas" (...)


 


A total irresponsabilidade da líder do maior partido da oposição. Falta de cultura democrática e desrespeito pelo estado de direito.


 


(Também aqui)


 

01 dezembro 2009

Concerto de Brandenburg nº 1, 2

 



Bach - Concerto Brandenbourg nº 1, 2


Claudio Abbado

Orquestra Mozart de Bolonha


 

Tratado de Lisboa

 



 


Entra hoje em vigor o Tratado de Lisboa. Um Tratado aprovado pelo Parlamento Português, nomeadamente pelos dois maiores partidos políticos, em franco incumprimento da promessa eleitoral de o referendar.


 


Ao contrário do que uma Constituição deve ser, e este Tratado de Lisboa foi uma forma de recuperar do falhanço do Tratado Constitucional Europeu, não houve mandato para a elaboração de um tratado constitucional nem houve participação alargada dos cidadãos europeus.


 


Ao contrário do que se esperaria, a forma como o Tratado de Lisboa foi ratificado pela maioria dos países retira-lhe credibilidade política. Por outro lado, perante uma profunda recessão, penso que estamos todos pouco crentes nas melhorias de funcionamento das instituições europeias, que são as vantagens que se têm publicitado a propósito da necessidade deste Tratado.


 


Não me parece que o Tratado de Lisboa seja do conhecimento ou do interesse dos cidadãos europeus. Culpa dos cidadãos e culpa dos governantes europeus, nomeadamente dos nossos, que nunca encontraram tempo, espaço ou vontade de debater os caminhos que nos esperam, apresentando-nos este Tratado como a única solução para a continuidade da União Europeia.


 


Desejo, no entanto, que os seus defensores tenham razão e que este Tratado  seja uma oportunidade para que a Europa seja o espaço de cidadania, solidariedade, crescimento económico e bem estar social que todos queremos.


 


(Também aqui)

 

Ausência de debate económico

 


Não tenho dúvidas de que a situação do país é difícil e complicada. Basta ouvir no rádio que há mais de 10% de desempregados para sentirmos que a crise não é apenas um estribilho de espectáculo de que se servem os media, os políticos, os empresários, os sindicatos, os reformados, os jovens, enfim, a crise é uma sombra perpétua no horizonte de todos os cidadãos.


 


De todos? Não, não de todos. Como sempre são os que têm menos formação, os mais pobres, os mais velhos, os mais excluídos, aqueles que vêem fechar as empresas, fechar as oficinas, aqueles a quem a mensalidade das casas, as propinas e os livros, a vida, pesa cada vez mais ao fim do mês, os que sempre sentem mais a crise.


 


Ontem ouvimos os mesmos senhores de sempre, sérios, honestos, de cara fechada e semblante preocupado, com as mesmas frases, os mesmos avisos, as mesmas ideias ou falta delas, a ocupar uma grande parte do serão com a impressão negativa do que já todos temos: não há solução.


 


João Salgueiro, António Carrapatoso, Alexandre Patrício Gouveia, João César das Neves, Jacinto Nunes e Augusto Mateus, um painel de economistas predominantemente de direita (apenas Jacinto Nunes e Augusto Mateus fizeram parte de governos socialistas), repetiram à exaustão aquilo que eles e os seus partidos dizem há mais de 10, 20 anos.


 


Não há outros economistas? Não há outras teses, outras propostas, outras formas de olhar para os problemas? Onde estão os jovens economistas de esquerda? Não existem? Em Junho e Julho deste ano subscreveram-se três documentos públicos contra e a favor dos investimentos públicos em grandes obras públicas. Onde estão essas pessoas com visões diferentes das que são sempre convidadas para dizer sempre as mesmas coisas?


 


Não há verdadeiro debate sobre economia. Há a política económica que a direita preconiza. Não conhecemos outro tipo de alternativas. Não se lhe dá voz.




(Também aqui)

 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...