30 janeiro 2013

Tanguillo nuevo

 



El Bicho & Agnès Jaoui


 


Me recuerdan tus ojitos cuando te tengo
Sol de la primavera que cae muy lento
Y me pongo de puntillas si no te veo,
Que tengo miedo, si tengo miedo, si tengo miedo...


Dame, lo que me puedas dar
Dame lo que tengo
Sol de la primavera que cae muy lento.
Dame la sombra y la luz
Que sean tus ojos los que me traigan,
Los que me traigan.


Quién tuviera y tengo yo
Quién tuviera y tengo yo
El sueño y poder dormirme
Que cuando llega la noche yo estoy muy triste. (bis)


Las sombras que tiene el sol yo nunca las tengo
Se tiran por la ventana los maceteros,
Las hojas que se marchitan se caen al suelo,
Los pétalos que se pierden se caen al suelo.
Mira...


Quién tuviera y tengo yo...


Dame lo que me quieras dar
Y dame lo que tengo
El sol de la primavera que cae muy lento.
Dame la sombra y la luz,
Que sean tus ojos los que me traigan,
Los que me traigan.


Quién tuviera y tengo yo...

28 janeiro 2013

Um dia como os outros (124)

 



(...) Esta conversa não serve para retirar mérito a Vítor Gaspar, ou ao País, e atribuí-lo a Draghi. Serve para reenquadrar o debate e mostrar que a chantagem da austeridade assenta numa mistificação e numa falsa necessidade. O facto do BCE poder determinar, de forma soberana, as condições de financiamento de um Estado, torna evidente que as atuais políticas orçamentais não são uma necessidade financeira, são uma escolha política, por sinal desastrosa.


 


O lado positivo do regresso aos mercados é que este não depende do conteúdo da política orçamental, como quer fazer crer o Governo e alguns líderes europeus, mas apenas de uma determinada política monetária. Se assim é, a política orçamental deve ser avaliada pelos seus resultados económicos e sociais. E estes são aqueles que se conhecem: uma depressão económica na periferia e uma recessão em toda a zona euro.


 


João Galamba


 

A preocupação pela estabilidade opocicionista

 



 


É interessantíssima a quantidade de comentadores que ressuscitam Sócrates e as habituais teorias da conspiração quando se vislumbra a reanimação do PS, que se encontra em fase agónica na oposição. Estão todos particularmente preocupados com as hipotéticas traições e com os planos de assalto ao poder, traçados há muitos anos. Faltam ainda as suspeitas maçónicas para se completar o quadro.


 

27 janeiro 2013

Strange fruit


Billie Holiday


& Dwayne P. Wiggins & Maurice Pearl


& Lewis Allan


 


Southern trees bear a strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.


 


Pacheco Pareira - Dinamite cerebral no Ponto contra Ponto


 

Jambon à l'aubergine et courgette au four avec du fromage râpé et noix

 



 


Aqui há uns tempos comprei um queijo que prometia sabores fortes em companhia de bom pão, boa fruta e bom vinho. O problema é que tudo era bom, menos o queijo. Tinha um aspecto fantástico, mas revelou-se uma sensaboria plastificada. Já foram comprados e comidos outros vários tipos de queijo, felizmente bem melhores, e este foi ficando, abandonado à sua robustez de silicone reciclado.


 


Pois hoje rezei-lhe pela alma, ralando-o energicamente (o que não é assim tão fácil, pois apesar de consistente demorou a esboroar-se por completo). Cortei uma courgette e uma beringela às fatias, polvilhei-as de sal grosso e deixei-as largar líquido durante meia hora (não faço ideia das razões deste procedimento, que as informações colhidas através de uma intensa procura internáutica consideram ser indispensável). Depois dispus as fatias num pirex formando uma camada, que temperei com pimenta e alho e cobri com fatias de fiambre e o dito queijo; depois coloquei outra camada igual, um pouco de azeite e vinho, completando com nozes picadas - a parte crocante que os programas de culinária não dispensam a nenhuma iguaria - e forno com o pirex.


 


Confesso que estou ligeiramente apreensiva. Há sempre uns ovitos mexidos, caso o jambon à l'aubergine et courgette au four avec du fromage râpé et noix* (há que lhe dar um nome quilométrico e em francês soa mais profissional) saia menos frappant do que deve.


 


*tradução literal do Google - fiambre com berinjela e courgette no forno com queijo ralado e nozes; ham with eggplant and zucchini in the oven with grated cheese and walnuts


 

Mais um

 



 


Mais um a quem devemos a democracia em que vivemos. Tempos difíceis.


 

Muitíssimo apressados

 



 


Ouço vários comentadores, membros de partidos da oposição e próximos do PSD e CDS, a esgrimirem argumentos e a trocarem notas, afirmando que não foram as políticas de austeridade seguidas pelo governo que justificaram o êxito da última semana (extensão dos prazos das maturidades e regresso a Os Mercados). Chegam mesmo a afirmar que esta operação estava mais do que garantida, quando há poucos dias se vaticinava a muito próxima queda do governo, por incumprimento da almejada promessa de regresso a Os Mercados, em Setembro.


 


Obviamente que não foram as políticas deste governo que estiveram na génese desta boa notícia como não foram as políticas de Sócrates que motivaram as péssimas notícias, em 2011. Mas são mesmo boas notícias, mesmo que sejam apenas um sinal, mesmo que sirvam apenas para animar um pouco o moral do país. E não podemos ignorar que o governo e os partidos da coligação souberam gerir politicamente estes factos, de forma a darem a entender que isto é o prémio alcançado pelas boas políticas implementadas e que, tal como tinham prometido, estão a salvar Portugal.


 


O PS tem obrigação de desmontar as manobras e desconstruir esta narrativa, dizendo como se faz de modo diferente. Não basta repetir expressões como medidas para o crescimento económico, combater o desemprego, estado social, etc. É urgente conhecer o pensamento do maior partido da oposição sobre as políticas sociais e económicas, qual a sua visão das funções do estado e como sustentá-las, como pretende apostar na qualificação e no conhecimento, como devolver a esperança a quem, diariamente, desiste do país.


 


O PS tem obrigação de se preparar para governar e de ser uma verdadeira alternativa. Enquanto António José Seguro estiver à frente do partido, Passos Coelho arrisca-se a manter-se no poder, mesmo com o rebuliço dentro do próprio partido e na coligação. Estamos mesmo muitíssimo apressados.


 

24 janeiro 2013

Um dia como os outros (123)

 



(…) Apesar de o memorando com a troika ser da co-autoria do PS, o partido remeteu-se ao silêncio distante quando não à crítica aberta ao seu conteúdo, desvalorizando a negociação que fez, não defendendo com convicção nenhuma das propostas nele contidas e, sobretudo, não pontuando, como acho que era seu dever, a diferença entre o que efectivamente constava do memorando e o que lhe foi sendo acrescentado, desvirtuando os equilíbrios nele contidos e pondo em marcha o programa próprio do PSD. Também não vimos o PS - nem nenhuma outra força - apresentar balanços próprios da sua execução, e de como as áreas socialmente mais penalizadoras foram avançando e outras que faziam reformas contra poderes fácticos foram sendo adiadas ou esquecidas.


 


(…) Esta atitude alimenta a ficção de que o país não precisa de reformas, prolonga o embuste de que o país precisa apenas de cortar as famosas "gorduras do Estado", tem subjacente uma atitude conservadora sobre a reforma do nosso modelo social e é incapaz de definir novas direcções de reformas necessárias para um ajustamento que, como todos, terá que ter alguma dose de dor.


 


(…) Aliado à irresponsabilidade à sua esquerda, recusa-se a integrar uma Comissão Parlamentar de Reforma do Estado, boicotando uma discussão em que há que denunciar a agenda do adversário e ter agenda própria e não que defender o corolário conservador da bondade do que existe. Apenas uma séria razão de Estado deve fazer um partido parlamentar recusar integrar uma comissão parlamentar. A banalização desse gesto diminui, o partido, o Parlamento e a democracia.


 


(…) É contraditório dizer-se que se está a acelerar prazos de apresentação de propostas e simultaneamente estar-se a atrasar a relegitimação ou substituição, que inevitavelmente terão que ocorrer, dos protagonistas. Mas não é a primeira nem a mais importante das contradições. Marcar eleições é uma responsabilidade do líder, que deve ler a sensibilidade do partido e do país e tomar decisões. O que não precisamos é de juntar aos problemas sérios de Portugal um tabu partidário risível. Passados dois anos de governo PSD-CDS importa-me mais saber que alternativas de reforma apresentamos e que solução de governabilidade propomos. Oxalá apareçam no momento certo tantos candidatos a liderar o PS quantas essas alternativas e os socialistas decidam quem ganha a pensar na relevância do partido para o futuro do país. Seria uma ruptura séria com o tacticismo que adormeceu o partido há uma década e contagiou a maior parte senão todos os seus principais dirigentes de então e de agora.


 


Paulo Pedroso


 

23 janeiro 2013

Boas notícias

 


Cumpre-se o défice de 5%, a emissão de dívida pública foi um sucesso e há várias vozes no PS a pedir antecipação de congresso, com a possibilidade de discutir a actual liderança socialista.


 


Independentemente do desacordo com o governo, com o empobrecimento geral e a política de substituição de um estado social por um assistencialismo alicerçado em juízos morais, há uma inequívoca vitória do governo nesta operação financeira. É indispensável que a oposição apresente uma alternativa credível e sustentada.


 


O PS deve apresentar-se ao eleitorado com soluções. António José Seguro não tem pressa, mas nós temos.


 

19 janeiro 2013

Jeux Interdits

 



Jeux Interdits

Romance


 Fernando Sor


Narciso Yepes


 

Ainda

 


Vejo cada vez menos televisão e ouço cada vez mais rádio. Pares da República, Governo Sombra, Bloco Central. É tão refrescante ouvir gente inteligente a dizer coisas inteligentes.


 


O que faz António José Seguro ainda na liderança do PS?


 

Sal

 



Salt painting


Dana Jo Cooley


 


 


Um dia de punhos apertados. No teu peito


a irmandade dos povos desabridos desastre


exato e metódico como manto de fado milenar.


 


Habita-nos um pequeno monstro cinzento


que olha e ri das faces demolhadas em banhos de sal.


Ressequidos os montes e cumes de burburinho ocupado


de tantas mãos vazias. Um dia a menos


que a falta do teu peito faz a vida inútil e comprida.


 

13 janeiro 2013

Fundação para a Saúde

 



 


Fundação para a Saúde - Serviço Nacional de Saúde


 


 Debate preparatório do 1.º Congresso da FSNS


Debate: Portugal, Europa e Saúde


Museu do Oriente , Lisboa, 16 Janeiro de 2013


Inscrições: ca@fsns.pt


 


É preciso discutir, trocar ideias, informar e informarmo-nos.


Não nos resignemos à inacção e participemos.


Somos nós a decidir.


 

Fretes

 


Após a análise do Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médicas (CNEDM), em relação ao parecer emitido pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) sobre o racionamento de medicamentos, multiplicam-se as demissões mas, espantosamente (ou não), a do Bastonário não é uma delas.


 

Reformar o Estado

 



 


Em democracia a liberdade de expressão e a controvérsia deveriam ser aceites e estimuladas. Em Portugal existe uma espécie de censores, que mudam de lado e de cor consoante o poder da época, que determinam os assuntos em agenda, a forma de os aplaudir ou denegrir e a virulência dos ataques.


 


Esta é a melhor forma de destruir de imediato qualquer medida, atitude, método ou ideia, independentemente da opinião de cada um sobre as mesmas. Foi assim com os governos de Sócrates, sempre que tentaram alguma mudança, nomeadamente na educação na saúde, é assim com este governo, como mais uma vez se demonstra com o mais recente episódio, relativamente ao relatório do FMI.


 


Se foi ou não encomendado pelo governo (que o foi, está dito nas primeira e quinta páginas do documento), se é ou não um documento político (obviamente que o é), se tem ou não erros nos dados de que se serve (pelos vistos tem mais que muitos, o que também é da responsabilidade de quem colaborou na sua elaboração - pág. 5), se não deveria ter sido divulgado e por quem o foi (segundo o Expresso, os relatores ficaram tão surpreendidos como o resto da população), são colaterais à verdadeira e urgente necessidade de se discutir a reforma do Estado.


 


O PS, em vez de se chocar e ofender, com intenções inflamadas e vazias, tem obrigação de promover, participar e esclarecer todos os cidadãos, em todos os fóruns possíveis e aproveitando todas as oportunidades, sobre a sua visão sobre as funções do Estado, quais e como as sustentar. Esse foi um debate que o primeiro governo de Sócrates fez, afrontando interesses instalados e corporações. Essa era uma das clivagens entre o PS e o PSD, que Sócrates mostrou no debate que lembrei no último post.


 


E esta liderança socialista? Qual é a estratégia deste PS para a reforma do Estado? Ou acha que não é necessária? Deixemo-nos de coreografias barrocas (e bacocas), a não ser que sejam apenas para disfarçar a total ausência de alternativas. Pois esse é mesmo o meu receio - que António José Seguro não tenha qualquer pensamento sobre tudo isto.


10 janeiro 2013

Política e seriedade precisam-se

 


Tenho ouvido e lido várias declarações em relação ao relatório elaborado pelo FMI, que está disponível na internet. Do que já li, ou não percebo nada do que está escrito ou a grande maioria do que ouço é de gente que não se deu ao trabalho de o ler. Ou pior, se o leu e entendeu pretende manipular as reacções da população, lançando o pânico de forma irresponsável, demagógica e populista.


 


Não discuto o facto de se ter pedido o relatório, tal como não discuto muita da ideologia patente, em muitas das medidas propostas. No entanto, parece-me um documento importante para discutir, cujo diagnóstico é muito certeiro e que aponta alguns caminhos, quanto a mim indispensáveis de prosseguir, que se iniciaram com Sócrates, nomeadamente na área da saúde.


 


É verdade que há que reduzir custos e desperdícios, reorganizar e ajustar. Sempre defendi o aumento dos horários e a dedicação exclusiva dos médicos, o que reduziria a necessidade de horas extraordinárias e levaria a um melhor aproveitamento dos recursos. É verdade que há tarefas que podem ser executadas por enfermeiros e técnicos em vez de o serem por médicos. É imprescindível que as remunerações tenham componentes variáveis e se relacionem com o desempenho, a qualidade, o mérito, a produtividade. Assim como é verdade que é indispensável que se descongelem as promoções. Está lá tudo isso, como estão outras medidas com que não concordo, como o aumento das taxas moderadoras ou o desinvestimento no serviço público de educação. Como não estão outras medidas que deveriam estar, como o incentivo à formação e apoios ao desenvolvimento económico, como o que fazer para reduzir o desemprego e captar os recursos mais preparados e activos, que estão a sair do país.


 


Todos sabemos que o Estado está capturado por interesses corporativos e por interesse privados, mas nenhum governo, até agora, conseguiu afrontá-los. Sócrates iniciou reformas indispensáveis na saúde e na educação e todos sabemos o que aconteceu. Os mesmos que se opuseram às reformas na época são os que agora as pedem, tal como os que agora as negam em grandes brados as defendiam há uns anos.


 


É avassalador o estado a que a discussão política chegou. Gostaria que alguém no PS tivesse uma postura de Estado. É urgente discutir estes assuntos, reformar e melhorar os serviços públicos. A agenda da redução do estado social ao mínimo ou mesmo à sua inexistência, deve ser demonstrada com verdade e honestidade intelectual e contrapostas outras medidas e soluções que o mantenham sustentável.


 


Era muito bom que todos lêssemos o documento para pensarmos com a nossa cabeça. Tal como seria muito importante rever o debate entre Passos Coelho e Sócrates (via Aspirina B) antes das últimas eleições. Muito importante para percebermos o que foi um assalto impreparado e sem vergonha ao poder. É bom que não nos esqueçamos.


 

06 janeiro 2013

À deriva

 



 


A mensagem de Ano Novo do Presidente Cavaco Silva alimenta os programas de comentário político, apesar da unanimidade quanto à irrelevância da personagem. Tudo se prepara para a realidade - a inoperância das instituições democráticas: a Constituição e o Tribunal Constitucional, a Assembleia e o Presidente da República, os partidos da coligação e os da oposição.


 


Isto vai vogando mais ou menos à deriva. Daqui a uns meses vai haver mais desempregados, mais crise e mais austeridade. Mas a Europa continua connosco, António José Seguro continua a indignar-se com as medidas do governo e dentro dos partidos continuam a fazer-se contas, para ver quem se queima ou quem é capaz de se preservar, para vir buscar os cacos do que restar.


 

Subliminar

 



resting in bed 


James Abbott Mcneill Whistler


 


Passar um dia inteiro na cama, sem estar doente, é algo de que não me lembro de fazer desde há muitos e muitos anos. Pois hoje aqui estou enroscada, com várias mantas em cima, computador nos joelhos, televisão em frente, a gozar um domingo de abulia absoluta, negando o diagnóstico de hiperactividade.


 


Devo dizer que um dos motivos de me sentir tão confortável é o pijama que comprei na praça, a 7,50€, quentinho e absolutamente do meu tamanho, o que me confere a possibilidade de dormir a noite sem acordar enregelada, com as mangas da camisa enroladas nos ombros ou as pernas do pijama arregaçadas nas coxas. As praças são um manancial de coisas úteis e baratas que nós, naquela senda do gastarmos acima das nossas possibilidades, de que o nosso patriótico governo nos está patrioticamente a salvar, deixamos de dar a devida atenção.


 


Portanto, adepta do consumo de proximidade, neste novo eu caseiro, doméstico, organizado, prevenido, aforrador, cauteloso e perfeitamente classe média, pequena burguesia, tão normal que irrita, passo as manhãs de sábado em catedrais de frutas e legumes, em talhos inseridos nas comunidades, em hipermercados que tudo têm mesmo nos domingos quando aos sábados não posso domesticar.


 


É extraordinário como se iniciam hábitos que rapidamente se transformam em tradições irrecusáveis, como os imprescindíveis cafés de bairro que nos aguardam, com o dito longo ou curto, com adoçante ou em chávena fria, o irrecusável copo de água e a companhia costumeira, nos sítios do costume, a rever as semanas ou apenas a acompanhar os nossos silêncios.


 


Não sei se são as crises económicas e financeiras, se são os anos que nos ensinam a mediania e a ritualidade. Mas de tudo aquilo que eu não compreendia nos mais velhos, os gestos repetidos, as horas mais ou menos marcadas, os locais de peregrinação diária, me parece agora a libertação da tensão da labuta, do stress do trabalho, dos compromissos e das exigências que nos obrigamos.


 


Por outro lado sinto-me um pouco culpada do meu alheamento em relação ao mundo, ou mais exactamente ao país, à constatação do compadrio, da incompetência e da falta de coluna vertebral nas mais pequenas parcelas de quotidiano que nos assolam, das máquinas de gente, do tal sistema que emperra porque humanamente os humanos são pequenos, mesquinhos e têm um medo insano da insegurança, e têm uma capacidade inabalável de abuso do poder.


 


Seja por uma depressão rasteira e subliminar, longa e resistente, seja pela preguiça que me tolhe os membros, seja pela sensação de impotência para resolver seja o que for, mantenho-me hoje aqui, bem acolchoada e coberta, deixando que o cinzento do dia se passe lá fora, bebendo chá e dedilhando ideias, para me preparar para a semana que há de vir, e que será igual às outras cinquenta e tal semanas do ano de 2013.


 

01 janeiro 2013

A derrota da crise (10)

 



 


É muito interessante observar os músicos numa orquestra, enquanto estão a tocar. Muitos ondulam com os corpos, meneiam a cabeça, por vezes quase saltam dos assentos. Alguns estão circunspectos e praticamente não se manifestam.


 


Este ano o concerto de ano novo no CCB foi bastante melhor (na minha opinião, claro) que o do ano anterior. Talvez o programa tenha sido mais bem escolhido ou talvez o maestro seja mais apelativo. A própria orquestra parece ter dado os parabéns a Kynan Johns, deixando a ovação do público ara ele, levantando-se apenas após insistência do maestro.


 


Deixo um excerto de concerto vienense deste ano, uma tradição iniciada em 1939, sem o Danúbio Azul. Quem quiser bilhetes para o ano, pode já inscrever-se para o sorteio.


 



 

... dentro de momentos

 



 


Aumentos de preços da electricidade e gás; aumento de impostos; redução das deduções fiscais; aumento do desemprego; aumento das taxas moderadoras no SNS; redução da credibilidade dos agentes políticos e económicos; aumento do perigo de movimentos ditatoriais. Crise na cultura, no ensino, na saúde, na justiça, na segurança; crise da democracia.


 

Um de Janeiro

 


 


To Every End There is a Beginning


Rich Frederick


 


Neste pequeno centro de evasão a que chamo casa


o mundo suspenso entre a raiz do sol


e o bater de uma asa


apenas a música de flores embala


a certeza da realidade que me espera.


 

Marques Júnior

 



 


A pouco e pouco vão-se as referências de uma vida ao serviço dos outros, de um tempo de virtude e inocência. O mundo vai acabando em bocados dolorosos.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...