01 julho 2026

Timothy Schmalz

É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente.

O mundo mudou com uma velocidade vertiginosa, ou fui eu que mudei. Tudo aquilo que me habituei a pensar e a sentir como certo, na forma de conviver, de cidadania, aquilo que sempre considerei como dever de humanidade, como a vivência do que de mais básico há no respeito, no carinho, na tolerância, na empatia, no compromisso com os outros, na defesa dos mais frágeis, na partilha, no amor ao próximo e à liberdade, aqueles preceitos das nossas sociedades ditas evoluídas de raiz judaico-cristã, está a desaparecer e a deixar de ser a matriz que nos enforma e conduz.

Neste momento, a política europeia, já não falando dos EUA, considera que os emigrantes e a emigração são um mal em si mesmos, ressuscitou os campos de detenção, o racismo e a xenofobia passaram a ser a norma.

Nunca houve tanta riqueza, mas também nunca esteve tão concentrada em tão poucas mãos. As evoluções tecnológicas, em vez de ajudarem precisamente à melhoria da qualidade de vida de todos, afunilam as nossas sociedades para guetos e bolsas de pobreza e exclusão.

A humanidade, na prática, deixou de ter direito à busca da felicidade, de melhores condições de vida. A humanidade, ou uma grande parte dela, está cada vez mais condenada à sua condição, dependendo de onde se nasce, da cor de pele, do credo de cada um.

Inventam-se fantasmas que alimentam o medo. E o medo é o melhor combustível para a desgraça e para a ignomínia. O ódio lançou-se e prolifera a céu aberto. A mentira é o argumento primário e definitivo.

Por isso, quando penso em escrever, desanimo. Tudo me cala e cada vez me sinto mais excluída e encolhida nas minhas certezas ultrapassadas.

Deve ser esta mais uma das ferramentas das ditaduras: a mudez perante o indizível.

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...