É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas
várias indignidades a que assistimos diariamente.
O mundo mudou com uma velocidade vertiginosa, ou fui eu que
mudei. Tudo aquilo que me habituei a pensar e a sentir como certo, na forma de conviver,
de cidadania, aquilo que sempre considerei como dever de humanidade, como a
vivência do que de mais básico há no respeito, no carinho, na tolerância, na empatia,
no compromisso com os outros, na defesa dos mais frágeis, na partilha, no amor
ao próximo e à liberdade, aqueles preceitos das nossas sociedades ditas
evoluídas de raiz judaico-cristã, está a desaparecer e a deixar de ser a matriz
que nos enforma e conduz.
Neste momento, a política europeia, já não falando dos EUA,
considera que os emigrantes e a emigração são um mal em si mesmos, ressuscitou
os campos de detenção, o racismo e a xenofobia passaram a ser a norma.
Nunca houve tanta riqueza, mas também nunca esteve tão concentrada
em tão poucas mãos. As evoluções tecnológicas, em vez de ajudarem precisamente
à melhoria da qualidade de vida de todos, afunilam as nossas sociedades para
guetos e bolsas de pobreza e exclusão.
A humanidade, na prática, deixou de ter direito à busca da
felicidade, de melhores condições de vida. A humanidade, ou uma grande parte
dela, está cada vez mais condenada à sua condição, dependendo de onde se nasce,
da cor de pele, do credo de cada um.
Inventam-se fantasmas que alimentam o medo. E o medo é o melhor
combustível para a desgraça e para a ignomínia. O ódio lançou-se e prolifera a
céu aberto. A mentira é o argumento primário e definitivo.
Por isso, quando penso em escrever, desanimo. Tudo me cala e
cada vez me sinto mais excluída e encolhida nas minhas certezas ultrapassadas.
Deve ser esta mais uma das ferramentas das ditaduras: a
mudez perante o indizível.

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