Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais ou menos popularuchos, para irem ao encontro da amálgama de cidadãos mais ou menos indiferenciados.
Os políticos têm de fazer de conta. De que são iguais aos outros, de que se interessam pelos temas dos outros, de que pensam e querem o mesmo que os outros, sendo os outros o povo, que (des)consideram se disso necessitarem, fazendo de conta que o amam.
O pacote laboral foi apresentado como essencial para a modernização do país, para a flexibilidade na contratualização do trabalho, para o aumento da produtividade e para a melhoria salarial, principalmente dos jovens.
Todo este pacote de justificações é repetido à exaustão pelos seus defensores, clamando pelo imobilismo e pelo atavismo de partidos como o PS, o PCP, o BE, etc., que não aceitam nada que possa alterar os direitos dos trabalhadores, que consideram ser inamovíveis e sagrados. Ouvir a rádio Observador, o que tenho feito ultimamente, é ouvir esta ladainha, dita por vozes histéricas e indignadas.
Curiosamente, ou não, nunca, mas mesmo nunca, ouvi explicar como é que este pacote laboral vai contribuir para tudo isso.
Se procurar opiniões, textos, declarações variadas de agentes políticos e económicos, este pacote conseguiria algum aumento de produtividade à custa da redução dos custos do trabalho - como é que isso melhora os mesmos, não se vislumbra. Ou seja, a receita é piorar a vida aos trabalhadores, aumentando a precariedade, aumentando as horas de trabalho sem remuneração, facilitando os despedimentos, abalhadores que, nomeadamente para Anselmo Crespo, são um anacronismo a descartar sempre que for possível.
A discussão parlamentar de quinta-feira, em que o discurso da ministra do Trabalho (Solidariedade e Segurança Social) Rosário Palma Ramalho foi ácido e triunfante, tal como o de Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, e da gritaria apocalíptica, mal educada e grosseira de André Ventura, foi um total fazer de conta. Sinceramente, não percebi ainda se o foi apenas de André Ventura, se também do PSD e do governo.
O desfecho da votação, qual passo doble ou magia negra, deixou o governo e sua ministra em péssimo estado, mesmo que o objetivo fosse a esperada vitimização, o PSD e o seu líder parlamentar com o gosto amargo da traição política, e o CHEGA escancaradamente a mostrar a sua natureza.
Será que André Ventura ainda consegue enganar alguém?
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