Saber de cor todos os legumes dietéticos que ela pode comer...
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
31 janeiro 2015
Das (in)confidências de Belém
O Presidente da República não se pode arrogar a presunção de estar acima de qualquer esclarecimento sobre as conversas alegadamente privadas com quaisquer interlocutores, quando usa o seu alto magistério para confortar e aclamar os cidadãos, afiançando a solidez e segurança de grupos económicos e de empresas bancários, como fez no caso do BES.
Da revolução democrática (2)
A vitória do Syriza na Grécia tem muita importância e deve ser por todos nós atentamente analisada em vários aspectos:
- A radicalização do eleitorado e o crescimento do populismo é a demonstração do desespero e do desencanto dos cidadãos com os tradicionais partidos democráticos no poder, que não souberam lidar com a crise e que se distanciaram do eleitorado, aceitando a submissão e a defesa de políticas claramente contra o interesse e o bem estar dos cidadãos, a falta de dignidade e soberania dos seus povos, o empobrecimento e o crescimento das desigualdades, deixando-se levar nos jogos de poder opacos e não democráticos dos vários actores internacionais, nomeadamente europeus.
- A coligação entre o Syriza (extrema-esquerda) e o partido de direita Anel ou Gregos Independentes é uma aliança circunstancial, nascida de uma posição comum em relação à rejeição das medidas impostas pela Troika. Significa isto que as alianças ou definições esquerda/direita já não existem? Ou que há desígnios nacionais, mais ou menos populistas, que justificam alianças que nos parecem contra-natura?. Nada disto é novo; vale a pena, mais uma vez, estarmos atentos e preocupados.
- A posição do governo grego em relação à Europa, independentemente do resultado, é uma saudável pedrada no charco e provoca um irresistível aplauso de todos quantos não queremos a continuação desta ordem que nos governa. Os gregos escolheram quem querem que defenda o seu país, tal como todos os países o deveriam fazer, ao contrário do que é apanágio do governo de Passos Coelho/ Paulo Porta, com a sua cegueira ideológica, essa sim, verdadeiramente irrevogável.
- Nesse sentido é de saudar o braço de ferro entre o recém-eleito governo grego e a cúpula europeia, pelo que significa de vontade de lutar. O PS não tem que ser igual ao Syriza, tem que aproveitar todas as oportunidades de fazer valer a sua posição de defesa dos interesses portugueses, com os países que tentam fazer contra-corrente à ideologia prevalente destes últimos anos. A Europa não pode ser um torno em volta de alguns elos mais fracos. Não se pode permitir a inqualificável ingerência de ministros alemães e outros nas escolhas eleitorais dos países membros.
- O PS deve reflectir bem nas respostas que terá quando for governo, esperemos que com maioria absoluta, das posições que terá perante os parceiros europeus e das coligações que poderá implementar, facilitar ou favorecer para que haja uma maior democratização e igualdade a nível dos decisores internacionais.
Espero sinceramente que as negociações, embora duras, corram bem, que se chegue a um equilíbrio e que haja, finalmente, pelo menos o início de uma mudança. A Grécia é um país soberano, tal como Portugal, Irlanda, Itália, Reino Unido, França, Espanha ou Alemanha e os seus cidadãos querem ser tratados como tal. De uma vez por todas que acabe a propaganda que tentou convencer toda a gente que os cidadãos só tinham direito àquilo que as contabilidades organizadas por 2 ou 3 países, chefiados pela Alemanha, podiam disponibilizar. Governar é mais que isso, tem que ser mais que isso.
26 janeiro 2015
Da desigualdade no acesso à Universidade
A desigualdade gritante no acesso à Universidade tem décadas e é um assunto a que ninguém quer dar atenção. No último Expresso e, agora, na RTP 2, falou-se da divulgação de um estudo de Gil Nata e Tiago Neves, que demonstra que há uma acentuada inflação das notas, mais no ensino privado que nos público, mais em certas regiões do país que noutras, estudo esse que não consegui encontrar no portal InfoEscola.
Há vários anos que defendo que seria preferível fazer exames nacionais a todos os candidatos, sendo a nota de exame aquela que se considerava para o acesso à Universidade. Ou então permitir que cada Universidade tivesse as suas próprias provas de acesso. Pelo menos colocaria todos os candidatos em pé de igualdade. Por muito injusta que seja uma prova na avaliação de conhecimentos, é menos injusta que a situação presente, em que há uma elite que paga e compra as notas de entrada nas Faculdades.
É um escândalo que nada se tenha feito em tantos anos, permitindo esta claríssima violação do princípio Constitucional que se convoca para outras matérias (e bem) - o da igualdade.
25 janeiro 2015
Da revolução democrática (1)
Alexis Tsipras
A vitória do Syriza, na Grécia, é a demonstração de que, em democracia, o poder está no voto. Ao arrepio dos avisos que lhe fizeram os eurocratas, a Grécia decidiu dar a maioria, se calhar absoluta, a quem defende o fim da política de austeridade que tem dominado a Europa durante estes últimos anos.
Vamos ver o que se vai passar e como é que os outros países intervencionados se vão posicionar na necessária recomposição das negociações. Portugal, com Passos Coelho, tem feito sempre marcha atrás. Será que agora, também em período pré-eleitoral, vai desdizer tudo o que disse e fez, como parece ser a intenção ao ouvir o que o PSD e o CDS afirmam sobre a decisão de Mário Draghi, no BCE?
Pode ser o início de uma mudança que é urgente. A revolução vem do exercício democrático e de eleições livres. É tão bom relembrar estas verdades.
22 janeiro 2015
Um dia como os outros (149)
A insistência de António Costa na recusa do conceito de arco da governação é uma ruptura de grande impacto na dinâmica do sistema partidário português. Talvez a mais importante desde que Ernesto Melo Antunes garantiu que o PCP permaneceria legal, na sequência do 25 de Novembro. Resta saber que efeitos terá. (...)
(...) A lealdade do PCP ao bloco soviético e a sua posição contrária à adesão de Portugal à então CEE eram esteios suficientes para esta marginalização tão imposta pelos partidos do "consenso europeu" quanto desejada pelo próprio PCP.
Se o "arco da governação" rejeitou o PCP, também este sempre procurou fugir dele, mesmo quando teve oportunidades históricas para não o fazer. (...)
(...) PS ganhador é PS em busca do centro. Compreende-se. Com o PCP fora do jogo de formação de maiorias, afastar o PS do centro seria perder espaço eleitoral sem qualquer compensação política expectável. (...)
(...) Apesar da camada superficial cosmopolita, a dinâmica profunda do BE vive dos complexos da extrema-esquerda do PREC e amarrou este partido, para as grandes questões estratégicas, à posição do PCP quanto a possíveis convergências de governo à esquerda. (...)
(...) Na verdade, a teoria do arco da governação construiu em Portugal um espaço político tripolar: (...) o PS ou governa sózinho (como entre 1976 e 1978, 1995 e 2002 e 2005 e 2011) ou à direita (como entre 1978 e 1979 e entre 1983 e 1985). (...)
(...) o sistema político transformou esta tripolaridade numa espécie de triângulo em que cabe ao PS reformar sózinho, apertado sempre por uma tenaz direita-esquerda (muitas leis importantes foram aprovadas pelo PS sózinho no Parlamento com cómoda rejeição com argumentos cruzados da direita e da esquerda). Assim, a direita, quando em maioria, avança no sentido conservador, o PS quando em maioria avança no sentido progressista-realista e o PCP e o BE ficam isentos de jogar o jogo da definição do futuro, numa especialização de funções muito conveniente para a capitalização de descontentamentos, mas contrária à governação progressista equilibrada.
As declarações de António Costa ameaçam este equilíbrio perverso e prejudicial para a possibilidade de governar Portugal pela esquerda e são um ponto de viragem. Não creio que elas tenham qualquer impacto no comportamento de curto prazo do PCP e do BE em relação ao PS ou em relação à governabilidade do país. Mas têm méritos tácticos e estratégicos e podem, quem sabe, abrir uma janela de oportunidade.
No plano táctico, o PS pode agora dizer aos portugueses que a exclusão do PCP e do BE das eventuais soluções de governo para o país é apenas e só uma auto-exclusão. O que nunca fez com a clareza com que António Costa o faz agora.
No plano estratégico, inicia um degelo necessário entre os partidos de esquerda que há-de dar frutos em futuras direcções, daqui a uma ou duas décadas que seja, quando estiverem verdadeiramente reformados os protagonistas que vêm de 1975. Põe uma porta onde havia uma parede. Algum dia, alguém, a abrirá. (...)
18 janeiro 2015
A Rita
Chico Buarque
A Rita levou meu sorriso
No sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
O que me é de direito
E Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de são Francisco
E um bom disco de Noel
A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meus pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão
17 janeiro 2015
Resposta da Rita
Ana Carolina
Edu Krieger
Não levei o seu sorriso
Porque sempre tive o meu
Se você não tem assunto
A culpada não sou eu
Nada te arranquei do peito
Você não tem jeito faz drama demais
Seu retrato, seu trapo,seu prato,
Devolvo no ato pra mim tanto faz
Construí meu botequim
Sem pedir nenhum tostão
A imagem de são francisco
E aquele bom disco estão lá no balcão
Não matei nosso amor de vingança
E deixei como herança um samba também
Seu violão nunca foi isso tudo
E se hoje está mudo por mim tudo bem
Samba que nem Rita à Dora
Seu Jorge
O Chico falou que a Rita levou
O sorriso dele e o assunto
Eu sofri seu sofrer mas pergunto
Se o meu ele ia aguentar
A quem tanto queria um presunto
Dei meu corpo morrendo de amar
Onde havia horizonte defunto
Pois o sol a brilhar
(O Chico falou)
O Chico falou que a Rita levou
O sorriso dele e o assunto
Eu sofri seu sofrer mas pergunto
Se o meu ele ia aguentar
A quem tanto queria um presunto
Dei meu corpo morrendo de amar
Onde havia horizonte defunto
Pois o sol a brilhar
Num instante eu tirei
Suas mãos lá do tanque
Presenteei
Máquina de lavar
Contratei pra passar
Dona Sebastiana
Testemunha ocular do esforço que eu fiz
Para ver tudo azul
E até Carvão e Giz
Teria final feliz na África do Sul
Acontece ô Chico
Você mesmo disse
Que a Rita levou o que era de direito
Acontece que a Dora sem ter o direito
Levou tudo que eu já iria lhe dar
Se não deu pra formar um conjunto
O meu som não podia dançar
Se não deu pra gente ficar junto
É um lá, outro cá
Lhe dediquei
Lhe dediquei
Uma trova, um soneto e um samba-canção
Mas é que a danada não tem coração
Tem não, tem não
Sem mais e sem menos, resolve ir embora.
Lhe dediquei
Uma trova, um soneto e um samba-canção
Mas é que a danada não tem coração
Tem não, tem não
Sem mais e sem menos, resolve ir embora.
O Chico falou que a Rita levou
O sorriso dele e o assunto
Eu sofri seu sofrer mas pergunto
Se o meu ele ia aguentar
A quem tanto queria um presunto
Dei meu corpo morrendo de amar
Onde havia horizonte defunto
Pois o sol a brilhar
Num instante eu tirei
Suas mãos lá do tanque
Presenteei
Máquina de lavar
Contratei pra passar
Dona Sebastiana
Testemunha ocular do esforço que eu fiz
Para ver tudo azul
E até Carvão e Giz
Teria final feliz na África do Sul
Acontece ô Chico
Você mesmo disse
Que a Rita levou o que era de direito
Acontece que a Dora sem ter o direito
Levou tudo que eu já iria lhe dar
Se não deu pra formar um conjunto
O meu som não podia dançar
Se não deu pra gente ficar junto
É um lá outro cá
Lhe dediquei
Lhe dediquei
Uma trova, um soneto e um samba-canção
Mas é que a danada não tem coração
Tem não, tem não
Sem mais e sem menos, resolve ir embora.
Lhe dediquei
Uma trova, um soneto e um samba-canção
Mas é que a danada não tem coração
Tem não, tem não
Sem mais e sem menos, resolve ir embora.
(Lere...)
Lhe dediquei
Uma trova, um soneto e um samba-canção
Mas é que a danada não tem coração
Tem não, tem não
Sem mais e sem menos, resolve ir embora.
Do diletantismo (pouco) militante
Hoje lembrei-me desta minha amiga e colega por duas vezes. Primeiro porque ouvi, por acaso, um programa na TSF (Património à mesa) sobre história da alimentação e dos alimentos, hábitos culturais ligados à gastronomia e à mesa, dos ricos e dos pobres. Ana Marques Pereira foi uma das convidadas e ainda bem. Desde há muito tempo que lhe conheço o gosto e a curiosidade por estes e outros temas, que ela não é pessoa para se esgotar num único interesse. Há cerca de 1 ano organizou uma exposição sobre licores, publicou um livro, e até eu participei numa aula sobre a confecção dos mesmos.
A segunda foi ao ver um episódio de uma série com a Miss Marple, detective amadora criada por Agatha Christie. E lembro-me de discutirmos as nossas adaptações preferidas dos detectives de Agatha Christie: Poirot e Miss Marple. Na realidade, embora concorde que a série protagonizada por David Suchet é a que melhor representa a personagem de Hercule Poirot, um detective belga muito vaidoso, pequeno e de cabeça ovóide, com um bigode magnificente e umas células cinzentas bem activas, não a acompanho quando considera que a Jane Marple de Joan Hickson é fiel ao retrato que dela faz a sua criadora.
Confesso que não conheço nenhuma série nem nenhum filme que, a meu ver, consiga mostrar-nos uma velhota solteirona frágil, ligeiramente anafada, um pouco atarantada, coberta de malhas fofas, com uns olhos azuis penetrantes e inteligentes e que, sempre em conversa com os outros, deslinda os mais complicados e misteriosos crimes. A que está a passar agora no FOX Crime é muito interessante mas, mais uma vez, longe daquilo que eu imagino que seja a Miss Marple.
Não sei se a minha Miss Marple gostaria de cozinhar, mas suspeito que sim e que apreciaria a experimentação e a curiosidade de combinar produtos diferentes. No seguimento dessa minha hipótese já despachei uma das abóboras, fazendo um doce de abóbora com chocolate, cuja receita encontrei neste blogue fantástico, tal como o outro da mesma autora.
Juntei abóbora aos bocadinhos (enfim, mais aos bocadões) com açúcar (650 g por cada quilo de abóbora), canela (em pau, 2 por quilo), sumo e raspa de laranja (1 por quilo) numa grande panela que foi ao lume, e esperei mais ou menos pacientemente que começasse a fazer ponto. Nessa altura triturei a abóbora com a varinha mágica (é melhor retirar os paus de canela antes) e deixei que chegasse à tão ambicionada estrada. Depois parti chocolate de culinária (com 70% de cacau, 100 g por quilo) aos quadradinhos e deixei derreter, mexendo sempre. Foi um êxito, mais fora do que dentro de casa porque, como em tudo, Santos da casa não fazem milagres, dá Deus nozes a quem não tem dentes, etc.
Resta-me encontrar mais novidades para as outras arrumadas na cozinha, a estorvarem um pouco os passos de quem quer chegar à roupa. Enfim, tudo a seu tempo, que a vida não está para pressas nem inconseguimentos.
Perdidos
Lovers hugging
Richard Matzkin
Somos pássaros perdidos
entre os arrepios de uma vida
que nos encolhe e desabriga.
Somos trementes lábios
palavras sem nexo
perante a morte que nos desampara.
Somos únicos solitários abandonos
sem o sangue de quem nos quer.
Isto é fundamental
Estive há dias a rever O Pai Tirano e, como de todas as vezes que o faço, ri deliciada com esta comédia.
É muito típico da nossa forma de viver dizermos mal de tudo o que somos e fazemos. Este filme estreou em 1941 e continua a ser uma excelente comédia. É uma história construída à volta do teatro, com o teatro e para o teatro, sendo um fantástico produto cinematográfico.
Com um argumento muitíssimo bem escrito, num jogo bem disposto e despretensioso entre o real e o figurado, brinca com os amores e desamores, com o conservadorismo e o modernismo, com as relações entre as classes e os géneros, com a pseudo intelectualidade sempre presente numa capital que se queria cosmopolita, com a vida quotidiana dos bairros da gente mediana e trabalhadora.
Com actores brilhantes, alguns por serem muito bons e outros por serem muito maus, é uma sucessão de situações hilariantes e disparatadas que prendem o espectador do princípio ao fim. Cá por casa há quem saiba as deixas, as do Sr. Seixas e de todos os outros, de cor e salteado.
Recomendo vivamente, contra todas as mazelas físicas, mas principalmente psíquicas, com repetição sempre que for preciso.
Isso é fundamental!
Fado triste
Vitorino
Vai ó sol poente
vai e não voltes
sem trazer no primeiro raio
notícias de quem se foi
numa madrugada amarga e triste
um navio de proa em riste
levou tudo o que eu guardei
Na caixa escondida dos afectos
no lembrar dos objectos
que enfeitavam o meu quarto
tudo perde a cor a forma o cheiro
ficaram só coisa esquecidas
da importância que tiveram
Volto sempre ao rio
às sextas-feiras p´ra lembrar
dias descuidados noites à toa
espero que o navio sempre queira
trazer de volta o sussurro
dos teus passos
numa rua de Lisboa
Dos significantes e do significado
A afirmação Je suis Charlie não significa que se goste ou se concorde com o conteúdo dos cartoons, que se compreenda a ofensa de quem se sente provocado – são provocantes e ofendem.
Mas não é isso que está em causa – ser-se Charlie é o grito de revolta perante a inqualificável e inaceitável aceitação, mesmo que politicamente correcta, de que se não devem publicar esses cartoons.
É grave e significativo que se tentem de alguma forma justificar as reacções às ditas provocações – quais são aceitáveis e inaceitáveis, tanto as provocações como as reacções? Há pessoas que têm responsabilidades acrescidas e o Papa é uma delas. Nada, mesmo nada pode justificar o terrorismo.
Da urgente necessidade de afirmação de propostas políticas
O problema das urgências hospitalares tem décadas, já atravessou várias legislaturas e vários governos, de esquerda e de direita. Para além da importância da implementação de serviços de urgência hospitalar autónomos, como tem sido reivindicado por associações médicas (assunto já aqui tratado várias vezes), para além da reformulação das competências e formação dos Enfermeiros e outros Técnicos de Saúde, que é um assunto que tem sido evitado pela Ordem dos Médicos, quando não tratado de forma leviana, nunca será resolvido sem que se reestruture a rede de cuidados de saúde com enfoque e centralização nos cuidados primários – centros de saúde, unidades de saúde familiares ou outros nomes que se lhes dêem.
A cíclica revelação de casos de esperas inaceitáveis em serviços de urgência que, imediatamente se associam à morte dos doentes, sem que se saiba e se demonstre uma ligação entre as mesmas, neste momento político, não é inocente, tal como não o foi a revoada de nascimentos nas ambulâncias e de mortes à espera do INEM, na éopca de Correia de Campos.
Estamos, obviamente, em presença de uma manipulação dos media para fragilizar um ministro que, até agora, e apesar de todas as insuficiências e políticas desastrosas deste governo, tem sabido preservar minimamente a sua imagem e, acredito, a performance do SNS. Mas milagres não existem e está patente a enorme insuficiência de recursos humanos em todo o sistema, a falta de investimento em equipamentos nas unidades do SNS, o incentivo ao desvio dos doentes para o sector privado, etc.
Mais uma vez, este problema não é novo. A escassez de médicos é um resultado de políticas que se iniciaram no tempo de Leonor Beleza com a conivência activa da Ordem dos Médicos, o acesso aos cursos de medicina, apesar do aumento das vagas, continua a ser injusto e enviesado, e renovam-se as premonições do desemprego médico, quando é gritante a falta dos mesmos, em tantas áreas. O que não tem havido é capacidade nem vontade de os colocar onde eles são necessários, fazendo uma renovação das gerações que se estão a reformar e criando um problema adicional que é a inundação de serviços depauperados com gente que necessita de formação e tutela e não as vai ter.
Continuo à espera que o PS, como partido que procura uma maioria absoluta para governar este desgoverno, proponha uma reforma, reestruturação, ou outra qualquer palavra que tenha um significado semelhante, com as seguintes prioridades:
- Investir nos cuidados primários de saúde – descentralizar o sistema deslocando a porta de entrada dos doentes para os seus centros de saúde, afastando-as do sistema hospitalar;
- Prover esses centros de saúde com meios de diagnóstico de rotina, próprios ou contratualizados, para que possam tratar e seguir doentes com patologias crónicas;
- Prover os centros de saúde de consultas de especialidade por especialistas, que possam acompanhar os doentes na comunidade, em vez de terem que sobrecarregar os hospitais, incluindo pequenas cirurgias, estomatologia, oftalmologia, etc, para que permitisse a saudável e indispensável convivência interdisciplinar com os médicos de medicina geral e familiar;
- Rever e providenciar para que as carreiras de enfermagem e de técnicos de diagnóstico e terapêutica possam assumir determinadas funções que, ao contrário de retirarem competências aos médicos os ajudam e os preservam para actos e funções que só eles podem fazer, com a respectiva formação e recertificação de competências;
- Rever e reestruturar as redes e os serviços hospitalares, começando por definir as prioridades de atendimento e de serviços oferecidos, com base no conhecimento das patologias e realidade/ dimensão das populações – investir em centros de estudo epidemiológico, estatístico, como o registo oncológico nacional, etc.
- Reajustar e renovar os quadros de recursos humanos, em todas as vertentes, mantendo uma estrutura que permita a formação dos mais novos e a optimização e eficiência do funcionamento dos serviços
- Alterar as remunerações do pessoal de saúde, com uma avaliação do desempenho real e rigorosa, adaptada a cada área e a cada função, motivando e premiando o mérito
- Apoiar e incentivar a formação contínua, a recertificação e a acreditação dos serviços e dos profissionais, numa cultura de verdadeira aposta na qualidade – redução dos riscos.
O PS tem que começar a dar respostas a este tipo de questões e a propor alterações exequíveis, realistas e que motivem e estimulem os profissionais. Falo da saúde, mas há todas as outras áreas que esperam propostas. E para isso não precisa de esperar pelas alterações da política europeia.
15 janeiro 2015
Esperame en el cielo
canta Agnès Jaoui
Esperame en el cielo corazon
Si es que te vas primero
Esperame que pronto yo me ire
Ahi donde tu estes
Esperame en el cielo corazon
Si es que te vas primero
Esperame en el cielo corazon
Para empezar de nuevo
Nuestro amor es tan grande y tan grande
Que nunca termina
Y esta vida es tan corata y no basta
Para nuestro idilio
Por eso yo te pido porfavor
Me esperes en el cielo
Y ahi entre nuves de algodon
Haremos nuestro nido
Nuestro amor es tan grande y tan grande
Que nunca termina
Y esta vida es tan corata y no basta
Para nuestro idilio
Por eso yo te pido porfavor
Me esperes en el cielo
Y ahi entre nuves de algodon
Haremos nuestro nido
11 janeiro 2015
10 janeiro 2015
Dos esclarecimentos explícitos
É importante não confundir a livre condenação de cartoons, editoriais, artigos de opinião ou outras formas de liberdade de expressão com o impedimento que elas existam, com o assassinato de pessoas. Embora haja muitas tentativas sub-reptícias e bem sucedidas de censura, nomeadamente o politicamente correcto, há uma diferença abissal entre isso - que se denuncia com a mesma liberdade - e a execução dos considerados blasfemos.
Além disso também há a liberdade de discordar e de se ofender, mas para isso serve a lei, os tribunais, a possibilidade do recurso ao contraditório, como agora está na moda dizer-se. Nada, mesmo nada, pode justificar qualquer tipo de atentado terrorista.
Da luta diária que nos resta
O ataque aos jornalistas e ao Charlie Hebdo é mais um dos muitos que se têm realizado por esse mundo fora. Infelizmente, tal como Fernanda Câncio lembra, esquecemo-nos depressa e desapaixonadamente de todos os horrores que vão sendo noticiados, uns mais que outros, para nos indignarmos violentamente com os mais recentes.
O atentado à liberdade de expressão deve ser, e tem sido, motivo de solidariedade internacional, com o aproveitamento político rápido da extrema-direita francesa, ao recuperar a proposta de referendo ao regresso da pena de morte e ao encerramento das fronteiras, e da estupidez da esquerda francesa, ao deixar de fora a Frente Nacional na manifestação contra o terrorismo.
Na verdade todos os dias vamos cedendo um pouco da nossa liberdade e dos nossos direitos – deixamos de dizer o que pensamos porque não queremos ofender, porque temos medo de perder o emprego, oportunidades de contactos que nos interessam, negócios, etc. Não nos apercebemos que é a luta diária, constante e permanente que pode manter os valores da sociedade em que vivemos. A possibilidade de cultivar as nossas crenças e a nossas diferenças é um direito inalienável consagrado pelas Nações democráticas e pelas Organizações Internacionais que a separação entre o Estado e a religião, seja ela qual for, é o melhor garante da vivência tolerante entre as várias comunidades.
Não sei qual é ou quais são as soluções, o que podemos contra o extremismo e os terroristas. É demasiado fácil e simples considerá-los a todos loucos. As mais temíveis armas são, como sempre foram, a criatividade, a informação, a inteligência, a expressão artística, a provocação, o confronto de ideias. E disso não podemos nunca abdicar.
08 janeiro 2015
07 janeiro 2015
Das armas contra o terror
Hoje não é possível deixar a indignação silenciosa, dentro de cada um de nós. Um dos valores da nossa sociedade tolerante e democrática - a liberdade - foi usada precisamente para acabar com ela.
Ninguém pode deixar de mostrar a sua revolta, sob pena de perdermos um dos bens mais preciosos ao ser humano - a liberdade de expressão de pensamento.
Mais perigosa que as espingardas e as metralhadoras, que os tanques e as bombas, são a literatura, a pintura, o humor, a ironia, o sarcasmo. O atentado de hoje, em que foram assassinadas 12 pessoas que usavam o humor para explicar e viver a sociedade é uma infâmia, um crime sem qualquer tipo de justificação.
04 janeiro 2015
Da volta à realidade
A crise e o caos nas urgências hospitalares enchem diariamente as páginas dos jornais, como se fossem uma novidade. Pois não são. Todos os anos essa mesma crise repete-se.
Qual é então a novidade e/ ou objectivo destas notícias? Em primeiro lugar não se percebe a insistência no Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), obviamente e já há muitos anos subdimensionado para a população que serve. Em segundo lugar, se em cada ano as dificuldades são maiores, isso resulta apenas da cada vez maior redução de recursos que existe no SNS, humanos e técnicos, o que era espectável perante a política e desinvestimento acelerado nos serviços públicos, neste caso de saúde, e pela desagregação e desmantelamento dos equipamentos hospitalares que tem sido o apanágio deste governo.
Ainda há pouco Judite Sousa e Marcelo Rebelo de Sousa teceram considerações sobre o elevadíssimo montante que a ACSS ou a ARSLVT ou o governo estariam dispostos a pagar para que os agiotas dos médicos se dispusessem a acudir às populações. Repentinamente já se podem contratar 10 médicos, quando durante anos não houve autorização para substituir os que foram saindo dos quadros dos serviços.
A verdade é que a hemorragia de quadros de Portugal para o resto do mundo está a ter as repercussões que se previram. E mais terão. Além dos baixos salários que o estado pratica, cada vez há menos condições para que se mantenham os serviços com um mínimo de qualidade. Como há uns dias uma reportagem do Público demonstrava, há médicos de 54 anos a desistirem de lutar em Portugal.
Este é o retrato do país que nos deixa esta especial governação – envelhecido, triste e desesperançado, com o número de beneficiários do subsídio de desemprego a diminuir, não porque haja mais emprego, mas porque o desemprego de longa duração retira até o direito aos apoios cada vez mais escassos.
Acabaram-se as festas – a realidade voltou. E ela é a mesma de 2014.
03 janeiro 2015
Do prazer de viajar
Viajar é das coisas que mais gosto de fazer. O absoluto prazer de ver outras paragens, outras pessoas, outras realidades, misturar-me com as culturas locais, ver as ruas, os rios, os barcos, os automóveis, os trajes, as casas, as comidas e bebidas, os hábitos, a língua, enfim, experimentar bocadinhos do resto do mundo.
Confesso, no entanto que, à medida que os anos passam, me vou transformando numa viajante mais exigente e mais burguesa, pois a aventura de dormir ao deus dará, sem certezas nem conforto, são-me cada vez menos apelativas.
Sabendo desse meu gosto inesgotável, fui presenteada com duas séries de viagem efectuadas e narradas por Michael Palin, interessantíssimas, leves e bem dispostas, com o picante do inesperado, de coisas que foram correndo menos bem e outras dentro ou acima do esperado. A volta ao mundo em 80 dias, em que se procurou reproduzir a viagem de Phileas Fogg, herói de Júlio Verne, inaugurou um determinado tipo de documentários sobre viagens e viajantes, penso eu. Em relação a Himalaias, estou a rever a série porque esta já passou num dos canais da televisão, não me lembro qual, e é deslumbrante.
Não podendo eu mesma fazer este tipo de viagens, sabe-me imensamente bem partilhar as aventuras de quem as arriscou e aproveitou. Só tenho pena que a minha fluência em Inglês não me permita comprar mesmo as séries não legendadas que, mesmo em inglês, ajudam bastante.
Um dia como os outros (148)
(...) Como já escrevi, a prisão preventiva foi aqui utilizada para investigar mas também para aterrorizar, para despersonalizar - e para calar. Hoje, quero dizer mais: neste caso, prendeu-se também para, em certo sentido, "provar". Porque quem quis esta prisão infundada sabe bem que a prisão funciona como prova aos olhos da opinião pública – "se está preso alguma coisa deve ter feito", é o que as pessoas tenderão a pensar. E muitas, na sua boa-fé, estarão convencidas de que para haver prisão preventiva é porque hão-de existir, na parte ainda secreta do processo - por azar, logo aquela única parte a que os jornais não conseguiram ter acesso... - "provas muito sólidas" ou pelo menos "indícios muito fortes" da prática dos tais crimes graves. Mas a verdade é que não há. E todos sabemos que se isso existisse já teria sido publicado nos jornais do costume! Só que, entretanto, aos olhos da opinião pública, a prisão substitui-se ao processo, à investigação, à instrução, aos indícios, às provas, ao contraditório, ao julgamento - e até à sentença. Afinal, se ele está preso, que mais é que ainda é preciso provar? A resposta, porém, por estranho que pareça, é esta: tudo. Falta provar rigorosamente tudo. (...)
01 janeiro 2015
Das pesquisas para agendamentos científicos
Nada como começar o novo ano com grandes projectos de formação e investimento profissionais.
Temo, no entanto, que estas resoluções de ano novo se demonstrem frustrantes - os preços são de molde a fazer desistir o mais resistente poupador compulsivo - só as inscrições, viagens e estadia somam mais que o ordenado de 1 a 2 meses. Vale a pena também pensar nisso, quando se lêem estas notícias.
Mas enfim, é preciso optimismo - com tanta preocupação governamental pela qualidade de atendimento e pela saúde dos doentes em Portugal, de certeza que os Hospitais vão alargar os cordões às bolsas e começar a comparticipar nestas acções de formação...
Skoda - o carro musical
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...
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Durante muito tempo achei que não se deveria dar palco a André Ventura e aos seus apaniguados. O que dizem é de tal forma idiota, mentiros...
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Há uns dias recebi um e-mail do Blogger, essa entidade que se rege por algoritmos e regras que ninguém sabe muito bem como foram e são feita...
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Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...