28 janeiro 2012

Pelo caminho

Há pequenos nadas que decidem o dia, pensamentos mais ou menos alegres, fundas decisões, nostalgias e saudades.


 


A propósito de uma interpretação saltitante do Barco Negro, lembrei-me dessa canção soberbamente interpretada por Lara Li, a que tive o privilégio de assistir, já há muitos anos. Apenas acompanhada bela sua belíssima voz, com o ritmo marcado pelos dedos tamborilando no microfone, ouvi arrepiada e deliciada uma lindíssima canção de amor e luto.


 


Há algum tempo vi-a na televisão a ser entrevistada, penso que num daqueles programas da RTP memória, pouco antes ou pouco depois da homenagem a Simone de Oliveira, em que cantou alguns dos êxitos corporizados pela Simone. Foi um luxo, podermos usufruir da sua interpretação.


 



 

Figura

 


 


Ebon Heath: visual poetry


 


 


Enquanto te espero para me adulares


vou adoçando estrias contornando a lápis a figura


sombreando curvas retificando gumes


pequenos rigores de alma que despontam


entre o amor que quero e o amor que permito.


 

Flores

 



Ebon Heath: visual poetry


 


Vou criando flores que só a mim mostram cor e textura


vou criando flores que apenas os meus sentidos perfumam.


Se não forem os meus olhos que as flores observam


se não forem os meus dedos que as flores tocam


desfazem fragmentos de vazio pétalas de fascínio


pela ausência da entrega.


Vou criando formas que só a mim iludem e prendem


numa translúcida nuvem de ternura.


 

Da permanente loucura

 



 


Não são só deuses que estão loucos, mas os homens, que não aprendem nada com a História. As exigências que a Alemanha faz agora à Grécia, serão as mesmas que se fará a Portugal, não tarda.


 


Tudo muda, é verdade, os regimes não são eternos. Ouvimos dizer que a democracia se constrói diariamente, mas não interiorizamos esse conceito. A construção pressupõe esforço e permanência.


 


Esta é uma Europa que eu não conheço, é um espaço político a que não quero pertencer, um espaço económico que não me respeita. Todos os limites que, diariamente, colocamos mais adiante, mais para cima, mais para longe, são repetidamente ultrapassados. Já não são bem limites, porque os valores em que assentavam foram destruídos.


 

26 janeiro 2012

Holofotes

 


De pescoço descoberto, a mostrar a cicatriz da operação à tiróide, a Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, regressou nesta sexta-feira à Casa Rosada (...)


 


Estamos viciados na transformação da vida em gigantes revistas Caras. Não há nada que permaneça privado. Nem sequer as cicatrizes das operações cirúrgicas escapam aos comentários e às obrigações de transparência de quem tem que sofrer os holofotes da falta de assunto.


 

Fazer política

 


O tédio imenso de títulos repetitivos, alarmados e alarmantes, sem que se discuta qualquer coisa de essencial.


 


O Presidente da República deveria receber a remuneração correspondente ao cargo para o qual foi eleito - de Presidente da República. Não concorda com o salário? Então não deveria ter concorrido. O mesmo se aplica à Presidente da Assembleia da República, só para citar dois exemplos.


 


O ordenado do Presidente da Republica é, como o da Presidente da Assembleia da República, para continuar a citar os mesmos exemplos, vergonhosamente diminuto. Ambos são os mais altos representantes do Estado, deveriam ter remunerações condicentes com a responsabilidade e com o significado dos cargos.


 


Não me importo que reduzam feriados nacionais. Não me parece imprescindível, mas também não vejo que seja um erro crasso. O que penso ser inacreditável é o fato de se reduzirem feriados católicos e civis. A que propósito é que há feriados católicos? E porque não muçulmanos ou adventistas, budistas ou hindus? Os feriados nacionais de um estado laico deveriam ser apenas os que se relacionam com acontecimentos que tenham significado para o país por motivos históricos, científicos, humanitários, culturais. Os dias santos, fosse para que religião fosse, deveriam ser santos apenas para quem professa essa religião. Por outras palavras, quem quisesse comemorar a Assunção da Virgem tirava um dia de férias. É claro que há dias que já se tornaram património de todos e que fazem parte da cultura ocidental. Mas são poucos, mesmo muito poucos - só me lembro do dia de Natal e do domingo de Páscoa. Acabar com feriados em compita com a Igreja é mais uma cedência à total separação entre o Estado e a Igreja.


 


Gostava muito de ver os partidos a discutirem o prestígio das funções públicas dos representantes eleitos, a oporem-se ferozmente ao controlo da informação por fações políticas ou por grandes interesses económicos, a defenderem o Estado livre de pressões e preconceitos religiosos e morais. Gostava que os partidos políticos fizessem política.


 

Espuma

 



Eugenia Pardue


 


Pequeno sabor a espuma que faz levitar


os dias pesados que enfrentamos.


Encosto as rugas e com elas as costas vergadas


no pequeno intervalo em que o mundo


se volta a encaixar.


 

25 janeiro 2012

Um dia como os outros (109)


(...) Agora, seguindo a doutrina de Fernando Lima —  Uma informação não domesticada constitui uma ameaça com a qual nem sempre se sabe lidar.  —, a administração da RDP acabou com um programa de opinião onde participavam António Granado, Gonçalo Cadilhe, Pedro Rosa Mendes, Raquel Freire e Rita Matos. O motivo próximo terá sido uma intervenção de Pedro Rosa Mendes sobre o recente Prós & Contras dedicado a (e emitido a partir de) Angola. Isto é uma vergonha. Mas, aparentemente, preocupa pouca gente.

Se a administração da RDP foi pressionada por Miguel Relvas, como se diz à boca grande nos sítios do costume, os deputados do PS, do PCP e do BE estão à espera de quê para pedir explicações? Se não foi, e apenas quis lamber o ministro da tutela, Miguel Relvas está à espera de quê para substituir a administração da RDP?

Nos media, redes sociais incluídas, a indignação leva a reboque o nome de Pedro Rosa Mendes. É um perigoso enviesamento, pois leva a concluir que ninguém daria um ui se os autores do programa fossem profissionais sem créditos reconhecidos no Meio.


 


Eduardo Pitta


 

22 janeiro 2012

Artesanato

 


 


 


Apesar de serem outros os órgãos detentores da corrente de escrita, apenas os dedos e os olhos materializam as letras. Pouco adequados instrumentos para tão sensíveis artesãos.


 


 

21 janeiro 2012

Solidariedade, precisa-se

 



 


Sabemos que os tempos estão difíceis para todos, mas é nestas alturas que temos que ser solidários com aqueles que mais precisam. Ao comprares esta t-shirt estás a ajudar o nosso presidente a pagar todas as suas despesas. Por cada t-shirt vendida o Cão Azul dá 1 eur para ajudar o nosso presidente*


*Se por algum motivo não conseguirmos o NIB do presidente aceitamos as vossas sugestões para doarmos o dinheiro das t-shirts que vendermos.


 


Cão Azul T-Shirts


 

20 janeiro 2012

Presidência da República desprestigiada

 



 


A abertura da caixa de Pandora do populismo está a ter as suas consequências, umas imprevisíveis, outras previsíveis e perigosas. A diabolização dos políticos e dos detentores dos cargos públicos, com a demagógica redução de remuneração dos mesmos, é apenas uma das facetas daquilo que tem sido empolado por responsáveis dos partidos políticos, de todos, embora mais prevalentes na coligação que nos governa e nos partidos ditos de esquerda, como o BE e o PCP, por vários comentadores, grandes empresários e maravilhosos economistas.


 


Dito isto, alguém dos vários assessores do Presidente da República deveria aconselhá-lo vivamente a renunciar ao cargo. A panóplia de gente iluminada, da qual Cavaco Silva faz parte, que tem perorado sobre a necessidade de contenção, austeridade, equidade e justiça fiscal, a necessidade de reduzir os hábitos de consumo, de não se gastar acima das nossa possibilidades, está a revelar-se de uma desfaçatez e arrogância, que nada de bom pronunciam para a coesão social.


 


Mais revoltante que todas as opções ideológicas é o desfile de declarações a que temos assistido, de que as do Presidente, lamentando-se pelo fato da soma das suas reformas não chegar para as suas despesas, é o ponto máximo. Todos os reformados descontaram durante anos para poderem usufruir de um montante que foi seriamente reduzido e será ainda mais. Todos os que descontaram para o subsídio de desemprego agora só podem ter acesso a um escasso número de meses subsidiados e por muito pouco. A imensa maioria das pessoas são obrigados a pagar as suas despesas com muitíssimo menos que as reformas de Cavaco Silva.


 


Cavaco Silva desprestigia o cargo e a função de Presidente. Era melhor que se fosse embora.

Máscara


Ebon Heath: visual poetry


 


Pedes-me frases despidas de conceitos e artefactos


desenhos retos de uma linguagem figurada


entre o indecoro da lassidão e a experiência do tempo


pedes-me alma sem o alçapão da memória


corpo sem rasura nem mácula.


 


Aceno em sinal afirmativo sabendo que o momento


da entrega terá a evidente máscara


confidente e confiante da ternura.

18 janeiro 2012

A derrota da crise (4)

 


Outra ideia para transformar a realidade.


 



 

A derrota da crise (3)

 


Aqui está uma ideia para apreciar condignamente:


 



 


Programa


 


9h: Sessão de abertura


9h30mn: María José García Soler (Universidade do País Basco) - La presencia de la gastronomía en la literatura griega.


10h: Maria Regina Cândido (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) - Banquete grego: entre o ritual da philia e o prazer da luxuria.


10h30mn: debate


10h50mn: pausa


11h20mn: Carmen Soares (FLUC) - A imagem da arte culinária e dos autores de literatura gastronómica na Grécia Antiga.


11h50m: Elisabete Cação (CECH) - Utensílios e processos de confecção em Arquéstrato e Ateneu.


12h10m: Nelson Henrique (CECH) - Da natureza para o prato: a observação de comportamentos e habitats no De alimentorum facultatibus de Galeno.


12h30m: debate


13h: almoço


15h: Inês de Ornellas e Castro (Universidade Nova de Lisboa) - Discursos e rituais na mesa romana.


15h30m: Carlos Fabião (Universidade de Lisboa) - Os preparados de peixe de época romana na Lusitania: os nomes e os produtos.


16h: debate


16h20m: intervalo


16h45m: Paula Barata Dias (FLUC) - Em defesa do vegetarianismo: Fílon de Alexandria e Porfírio de Tiro.


17h15m: Luís Lavrador (Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra) - A propósito dos interditos alimentares no Levítico.


17h35m: debate


18h: Maria do Céu Fialho (FLUC/CECH) - apresentação do livro Práticas Alimentares no Mediterrâneo Antigo, M. R. Cândido (org.). Rio de Janeiro 2012.


18h20m: Sessão de encerramento


20h: Ceia greco-romana (Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra)


 

O acordo

 


 


A Bola


 


Temos pois o acordo. O tal que foi assinado por João Proença, herói ou cobarde, que foi abandonado por Carvalho da Silva, em nome do maior ataque aos trabalhadores desde o 25 de Abril, desde o anterior acordo abandonado por ele e assinado por João Proença.


 


Minguaram as férias e os feriados, o que não me parece mal, minguou o salário mais um bocadinho, o que me parece péssimo. Com ou sem assinatura a reforma avançaria. Cumplicidade ou responsabilidade de João Proença, eu não consigo decidir. Não sei se a prioridade não é mesmo tentar salvar alguma coisa e manter alguma coisa em paz. Irresponsabilidade e cumplicidade de Carvalho da Silva, eu consigo dizer que existem, há já muitos anos, enquanto seguidor doutrinário do PCP que se aliou com esta mesma direita, a da falta dos direitos dos trabalhadores, para derrubar o anterior governo. Tal como a cumplicidade e a responsabilidade do BE, com ou sem sindicatos.


 


Mesmo assim duvido muito que a paz ou a conflitualidade dependessem da assinatura ou do abandono deste acordo. Suspeito que já não há gente esperançosa nas negociações destes sindicatos e destas centrais sindicais. Assim como não há esperança nestas associações patronais. Ou nesta oposição abstencionista e segura de um PS que se apressou a calar o passado feito por Sócrates, rastejando pelas entrelinhas da pseudo responsabilidade oposicionista.


 


Talvez sejam gémeos, João Proença e António José Seguro, tentando segurar a mole humana revoltada. Talvez nem pensem nisso. Talvez sejam honrados cidadãos a fazer o que melhor calculam para o seu país. Talvez calculem que seja o melhor para eles. Talvez se desconheçam e se estranhem totalmente, costas voltadas em estratégicas adversas e contrárias.


 


Talvez nada disto interesse e o melhor que faremos para sobreviver é tentar viver e trabalhar em novos partidos, novas associações, novos sindicatos. Mesmo sabendo a falta de forças que nos tolhe a vontade.


 

Nomeação


 


Quando comecei este blogue não me passou pela cabeça que ele pudesse ser nomeado para qualquer coisa, muito menos pela sua/minha atividade política. Na verdade têm sido anos de grande ebulição cívica. Vem isto a propósito da nomeação, pelo Aventar - a quem agradeço - como um blogue de atualidade política, ultimamente pouco atual e cada vez menos político.


 


Se bem que estas nomeações acabam por ocorrer entre um pequeno grupo de blogues que se vão conhecendo e linkando, dentro de uma imensidão de outros muito mais atuais, muito mais bem escritos e informados, cultos, criativos, originais, etc. Mas é sempre agradável alguém pensar que podemos fazer parte da sua preferência.


 

Perplexidade

 



Ebon Heath: visual poetry


 


Posso guardar os olhos recusando a luz


posso desligar os ruídos ignorando o eco


posso incendiar os dedos rejeitando o toque


que nenhum sentido da inevitável inação


negará a dimensão desta imensa perplexidade.


 

17 janeiro 2012

Da poesia nua

 



Ebon Heath: Visual Poetry


 


 


 


Retiro adereços às palavras descarno sons e intenções


uso pinças e dentes sem delicadeza nem pudor


escancaro nervos e vozes mesmo as murmuradas.


 


Cruentos os versos que espirram nomes e solidão


nas paredes decalcados os olhos e a nudez


deste meu amor por tudo que de nada se desfez.


 

14 janeiro 2012

A pele que há em mim

 



 Márcia & J. P. Simões


 


 


Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu


 


E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
E o sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu


 


Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.


 


Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.


 


Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei
Para lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Para voltar a viver
Já não sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.


 


Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O quarto vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala.


 

Para variar

 



 


Dois excelentes programas de rádio, na TSF.


 



 

Omnipotência e omnipresença

 



 


S&P corta rating a nove países, França perde AAA e Portugal passa a “lixo”


 


E que tal sugerirem o julgamento de Sócrates em todos os países da Europa? O homem arrasou e continua a arrasar...


 


Nota: Cuidado: ele anda aí, quem sabe em encontros inconfessavelmente maçónicos, para além de gastronómicos...


 

Capelinhos

 



Vulcão dos Capelinhos, 14-04-1958


 Luís Carlos Decq Motta


 


A propósito deste post, sobre a ilha Surtzey, lembrei-me do vulcão dos Capelinhos. Há já alguns anos visitei os Açores, incluindo o Faial. Ficou-me na memória o imenso areal cinzento, as casa soterradas, o espetáculo da devastação e do poder da Terra. Vi as fotografias da época e imaginei o terror e o fascínio de quem ali vivia e teve que emigrar.


 


Vale a pena ver alguns filmes que circulam pela internet sobre este fenómeno ainda tão recente. Deixo um deles, com as imagens em bruto.


 



 

Calçada da Graça

 



 


Há que reconhecer que o meu sentido de orientação é, de facto, inexistente. Por isso o TOM TOM é um dos meus melhores amigos. Mesmo tendo uma voz a sair do aparelho, encafuado no carro de forma a conseguir ir vendo o caminho pré indicado e colorido, bastante irritante, ordenando saia na saída ou mantenha-se à esquerda ou saia na rotunda, 3ª saída, etc.


 


Hoje aventurei-me pelas ruas de Lisboa antiga, mais precisamente para a Calçada da Graça. Armada de excelente companhia e TOM TOM devidamente acondicionado, carregado e orientado, meto-me ao caminho. Caminho acidentado, com ruelas íngremes a subir, outras ruelas íngremes a descer, curvas de duzentos e tal graus, linhas de elétrico que fazem deslizar os pneus, carros estacionados em todo o lado impedindo de estacionar em lado nenhum, depois de voltas várias na tentativa de que alguém se convencesse a desaparecer, para aproveitar um qualquer buraco para parar, resolvi regressar a casa.


 


Mas nada se consegue sem muito trabalho. No cimo de uma das ruelas íngremes que teríamos que percorrer em sentido descendente, dei com vários carros a fazerem marcha atrás, naquilo que me pareceu um movimento alarmado, com as luzes da marcha atrás violentamente acesas, perseguidos por um elétrico que vinha em sentido ascendente e entupindo a ruela, que não permitia a passagem simultânea dos veículos em sentido contrário. Todos se saíram bem, menos um desgraçado de um opel astra que nunca mais se despachava, mesmo tendo em conta os amáveis transeuntes que davam frenéticas indicações ao respetivo motorista.


 


Foi um passeio interessante. Imperdível. Incluindo o cheiro nauseabundo que estava instalado precisamente ao cimo da ruela em questão. O tempo de espera do despacho do opel astra foi ainda mais extraordinário, tendo em conta as condições ambientais. Enfim, Lisboa antiga e turística, em todo o seu esplendor.


 

O ovo da serpente (*)

 



 


Após a falência do Lehman Brothers e da recessão que se lhe seguiu, muitos pensaram que o capitalismo estava em crise. O Estado serviu, nessa altura, para defender os cidadãos de estranhas manobras financeiras de grandes empresas bancárias, cujo risco de falência globalizada arrastava para a penúria milhões de pessoas em toda a Europa e EUA. Houve um ressurgir das ideologias que repudiavam o lucro pelo lucro, fazendo-se inúmeras comparações com o que se tinha passado antes da grande depressão, na esperança de uma mudança que valorizasse o indivíduo, a qualidade de vida e o bem-estar da sociedade, a bem de todas as democracias.


 


Pelo contrário, a enorme campanha a que temos assistido em toda a Europa, que redundou na substituição democrática, nuns casos, e não democrática noutros, dos governos de muitos dos países europeus, branqueando a natureza sistémica da crise e apontando como criminosas as políticas que tinham sido implementadas para impedir situações semelhantes às da Grande Depressão, tem subvertido e mudado radicalmente a perceção da vivência e da sociedade no futuro próximo.


 


Neste momento há já o convencimento de que o Estado não serve para defender as pessoas, para lhes assegurar direitos fundamentais e uma vida digna, mas que é uma excrescência a retirar da vida pública. Também já se conseguiu convencer as populações que não há sustentabilidade para um sistema de segurança social e para um sistema nacional de saúde. Ou seja, a assistência na velhice e na saúde depende dos rendimentos de cada um.


 


Estamos portanto a construir uma sociedade em que o trabalho é um privilégio e que as perspetivas de desenvolvimento individual, com um mínimo de segurança e qualidade, só está ao alcance de um pequeno grupo de indivíduos, sem se perceber o porquê dessa diferenciação. A falta de pudor de algumas declarações dos novos senhores do mundo é avassaladora e as hordas de jovens sem futuro sustentado avolumam-se.


 


O populismo e os discursos moralistas foram apenas uma estratégia da direita para chegar ao poder. Por isso a revolta é ainda maior, quando se assistem a discursos de personalidades como o Presidente da República, o Governador do Banco de Portugal, Eduardo Catroga ou Manuela Ferreira Leite, advogando a maior austeridade para quem já está no fundo da escala e no mínimo dos rendimentos, enquanto eles próprios usufruem das exceções. Em Portugal as exceções penalizam sempre os mais desfavorecidos e os mais carenciados.


 


O pior é que, nem interna nem externamente se vislumbram ideias nem força para as defender, pessoas que se recusem a esta triste globalização da desigualdade e do empobrecimento.


 


Resta-nos continuar. E reagir, nem que seja a escrever.


 


(*) - filme de Ingmar Bergman 


 

13 janeiro 2012

Desligar

 


Que alternativas a esta situação? Vou tentando ouvir notícias, mas a saturação é demasiada. Um enorme bocejo e a exasperação esperam-me ao fim de poucos minutos. Vão passando dias e semanas com o burlesco trágico de marionetas que se levam a sério.


 


As figuras mediáticas, as representantes do nosso estado democrático, mantêm os contornos mas já perderam os pormenores. Os cidadãos nem sequer reconhecem os traços internos, já não vêm os limites das formas, já perceberam a ausência de espessura.


 


O ruído incomoda como mosquitos a meio da noite. É o melhor caminho para nos desligarmos da realidade.


 

Um dia como os outros (108)


quando em 2010/2011 o governo sócrates decretou um corte médio de 5% nos vencimentos dos funcionários públicos que ganhassem mais de 1500 euros, a ter lugar em 2011, o banco de portugal rabeou mas foi obrigado a aplicar o corte. em 2012, porém, com o governo passos, e numa situação que o próprio banco de portugal reputa de muito mais grave ainda que a de 2011, com uma tutela exterior nas contas do estado e uma gravíssima recessão económica, os cortes decretados nos subsídios de férias e natal não são acatados pelo banco. (...)


 


Fernanda Câncio


 

12 janeiro 2012

Revolução laboral e económica

 



 


Aqui está um excelente artigo de Ana Sá Lopes, a propósito de um paper que já tem cerca de 1 ano.


 


E se a melhor forma de combater o desemprego, animar a economia, reduzir poluentes e o consumismo fosse diminuir o número de horas de trabalho semanal para 21horas? Será que há algum economista que tenha pensado sobre isso?


 

11 janeiro 2012

Imoralidade (2)

 


Manuela Ferreira Leite afirmou ontem que as pessoas com mais de 70 anos teriam direioto a tratamentos de hemodiálise se pagassem.


 


Lançou-se, portanto, a discussão da sustentabilidade do SNS. Na opinião de Manuela Ferreira Leite o direito à saúde mede-se pela capacidade de a pagar. Não deixa de ser interessante assistir, em tão pouco tempo, à total desvergonha de uma direita que durante tanto tempo teve pudor em dizer o que lhe ia na alma. Ainda não ouvi os nossos representantes políticos repudiarem estas declarações, tal como o fez de imediato António Vitorino.


 

10 janeiro 2012

Imoralidade (1)

 


Até pode ser legal, mas é imoral. Numa altura destas, em que há redução salarial e aumento de impostos para tantos, ausência de subsídios, reformas a descer e desemprego a aumentar, a resposta de Eduardo Catroga à questão sobre a possibilidade de acumular a remuneração com a pensão, tal como a manutenção do 13º e 14º meses no Banco de Portugal, são sintoma de uma enorme falta de sensibilidade social, para não dizer de vergonha. Isto é inaceitável.


 

09 janeiro 2012

Subitamente, na Madeira

 


Na Madeira os cidadãos passaram a pagar por inteiro os medicamentos. As dívidas são de tal ordem que a ANF resolveu deixar de fornecer a crédito. É o resultado das opções políticas e económicas do governo regional da Madeira. Alberto João Jardim foi eleito com maioria absoluta. Mas já se perfila a justificação: um nova patifaria do Contnente.


 

08 janeiro 2012

Em nome dos aventais

 


 


 


Hoje resolvi fundar uma nova Loja Maçónica – Grande Cozinha Semanal. Em honra de uma das Arquitetas, Pavlova transformou-se em código de irmandade entre os membros da Grande Cozinha Semanal. Como não podia deixar de ser, os aventais são obrigatórios, mesmo que pendurados atrás das portas. Envergam-se os valores pelos quais lutamos, pesar, medir, provar. Instrumentos vários nos rodeiam e há alguns ritos iniciáticos – o roubo da água quente.


 


Nesta Grande Cozinha Semanal procura-se a perfeição no tempero, a doçura nevada das natas, o perfume divino das ervas e do açúcar a queimar. Nesta Grande Cozinha Semanal há obstáculos a ultrapassar como a descrença dos vizinhos próximos e a temperatura dos fornos.


 


Pela calada dos sábados e domingos, trocamos receitas e favores em géneros, abrimos as portas do conhecimento e da informação, transformamos claras em altos castelos, retalhamos pêssegos e regamos caldas, reciclamos açúcar granulado em pós finos e do golpe de vinagre avançamos vitoriosamente para o paraíso.


 

06 janeiro 2012

Lamentável

 



 


António José Seguro não assume opiniões sobre coisa nenhuma. Soma trivialidades vagas e não se compromete.


 


Enquanto houver uma oposição política liderada por pessoas sem capacidade de defenderem ideias, por calculismo ou falta delas, continuaremos nesta marcha rápida para a reciclagem dos totalitarismos.


 


Nota: Desta vez concordo com António Arnaut.


 

05 janeiro 2012

Dos efeitos da não política

 


Vivemos tempos muito assustadores e de regressão de direitos, liberdades e garantias. Agora pressionam-se os políticos a assumirem se são ou não maçons.


 


Pertencer à Maçonaria, à Opus Dei ou seja lá a que organização, secreta ou pública, é da esfera privada de cada um. Desde que não haja interferência com a causa pública, com as funções a que cada um se obriga, é a lei que deve prevalecer. Será que também têm que declarar se são ou não católicos, muçulmanos, budistas ou ateus, se comem coisas impuras, se gostam de beber vinho ou cerveja sem álcool? Terão que assumir a etnia, raça, preferências sexuais? Em Portugal ser-se político significa estar-se permanentemente sob suspeita. O apelo à transparência total é demagógico e perigoso. A esfera da vida privada é um direito de todos e os políticos não têm direitos diminuídos por o serem.


 


Se há tráfico de influências, corrupção ou troca de favores isso terá que ser investigado, julgado e punido, Nas secretas ou no parlamento, nas empresas públicas ou nas privadas. Tudo o resto é uma forma de desviar a atenção da verdadeira política, por quem não a sabe nem a quer fazer.


 

04 janeiro 2012

Um dia como os outros (107)


(...) Portanto, ao contrário do que afirma José Soares dos Santos, administrador executivo da Jerónimo Martins, em entrevista nesta edição, a primeira e mais importante razão para a escolha da Holanda não é o acesso a um novo mercado de capitais, é o pagamento de menos impostos do que pagaria em Portugal, hoje e no futuro. Porque, como diz o slogan do Pingo Doce, ‘sabe bem pagar tão pouco'.


A explicação, pueril, soa a falso e incomoda. Porque os contribuintes individuais e as pequenas e médias empresas não podem ir para a Holanda, mas têm de ouvir o patriarca da família Soares dos Santos e o segundo homem mais rico do País a dizer como é que se devem comportar para que Portugal saia da situação de emergência em que está. A criticar políticos, empresários, trabalhadores, as elites.


Alexandre Soares dos Santos criou riqueza e fez fortuna, o que legitima as suas opiniões. Mas não a superiodade moral que transporta em cada uma das suas intervenções. A decisão beneficia os accionistas da Jerónimo Martins, e bem, mas prejudica o País, e mal. É, também, por causa de decisões como esta, de actos que desmentem as palavras, que os portugueses não gostam dos ricos.


 


António Costa (Diário Económico)


 

A derrota da crise (2)

Bolo de chocolate com laranja

 



 


Esta época do ano, cá em casa, é ocupada por inúmeras festas. Desde o Natal, passando por aniversários e pelo fim de ano, é um continuum de ocasiões para celebrar, com fim no dia de Reis.


 


A experiência, hoje, ficou-se por um bolo de chocolate com laranja.



  1. Parti 1 tablete de chocolate (200g) preto, de culinária (mínimo de 50% de cacau), para dentro de um copo de alumínio, juntamente com 1 copo de leite (usei um copo de água) e 150g de margarina, e deitei-lhe fogo, bem baixinho, para nada se queimar.

  2. Logo a seguir raspei a casca de 2 laranjas, grandes, e espremi-lhes o sumo.

  3. Bati, numa grande tigela, 6 gemas com 250g de açúcar, bem batidas. Fui depois incorporando, alternadamente, a mistela derretida de chocolate com 300g de farinha e 1 colher de chá de fermento em pó.

  4. A seguir foi a vez do sumo e da raspa das laranjas.

  5. Depois de tudo bem batido e misturado, transformei as claras em castelo bem firme e, com uma colher, envolvi-as no preparado do bolo.

  6. Untei a forma com margarina, polvilhei com farinha e deitei a massa do bolo lá para dentro.

  7. Deixei cozer em lume médio durante 45 minutos, no forno que, logo de início, tinha acendido para aquecer.


É claro que ficou ex-tra-or-di-ná-rio-o. A ideia de o besuntar com chantilly era maravilhosa, mas devia ter esperado que o bolo arrefecesse totalmente. Assim ficou tristemente derretido e não lhe fazia falta nenhuma.


 


Experiência coroada de êxito. A repetir (sem o chantilly).


 

03 janeiro 2012

Poder

 



 


Nada como um dia atrás do outro para verificar a cegueira e a surdez de muitos. Um capitalista é um capitalista – ou empresário, como agora se diz, pois capitalista é uma palavra fora de moda, ultrapassada, anquilosada e estranha ao moderno pensamento mundial. Eu não posso (e não devo - deveria ser sinónimo, neste caso) fugir aos impostos, porque se pudesse podia e ninguém poderia contrariar o meu poder.


 


Poder – é essa a questão.


 

01 janeiro 2012

o portugal futuro

 



Poema de Ruy Belo 


 


o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


 

Dunas

 



Ivete Sangalo & Rosa Passos 


 


Mês de março em Salvador
O verão está no fim.
Todo o mato está em flor
E eu me sinto num jardim.

Quem sair do Abaeté
Rumo às praias do Flamengo
Não de carro mas a pé,
Pelas dunas, mato a dentro

Há de ver belezas tais
Que mal dá pra descrever:
Tem orquídeas, gravatás,
Água limpa de beber

Cavalinhas e teiús,
Borboletas e besouros,
Tem lagartos verdazuis
E raposas cor de ouro

Sem falar nos passarinhos,
Centopéias e lacraus,
Nas jibóias e nos ninhos
De urubus e bacuraus

Vejo orquídeas cor de rosas
Entre flores amarelas
Dançam cores vão-se as horas
Entre manchas de aquarela

Desce a tarde vem na brisa
Um cheirinho de alecrim
Canta um grilo. Sinto a vida:
Tudo está dentro de mim.

Mês de março em Salvador
O verão está no fim.
Todo o mato está em flor
E eu me sinto num jardim


 

2012

 



 

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