31 julho 2007

Tempo do tempo

A propósito deste post lembrei-me de um livro que li na minha juventude que e chamava Mach 3 - Sinal de Perigo?. Era uma história de investigação, que envolvia uma rapariga muito empenhada em conseguir o amor e a atenção do pai e que, apesar do medo pânico que sentia tinha tentado pilotar aviões a alta velocidade. Como não conseguia, transformou-se em cientista, desenrolando-se a história à volta dos malefícios de Mach 3, descobertos no final, com grande drama e heroísmo. Investiguei o autor, Donald Gordon, mas não consegui nada, pois aparecem-me várias personalidades com estes dois nomes, sem que eu perceba quem era o autor.

Outro livro que devorei e que me impressionou muitíssimo, da mesma colecção (Europa-América juvenil) foi A caminho de Israel, de James Foreman. Era um livro que relatava, se bem me lembro, a fuga de um grupo de judeus de um campo de concentração (?) para Israel, se bem que Israel anda não existia na altura… A memória não é o meu forte, mas ficou-me sempre a impressão de uma dor e de uma luta muito esforçada para alcançar a liberdade.

De outra colecção, de que também não me recordo o nome, li A colina do Dahu, de Janine Bernadet, que falava de um animal inventado por uma criança com uma doença terminal.

As férias grandes eram passadas a ler gulosamente, desde muito cedo, enrolada num sofá. Vivia aventuras fantásticas, vidas cheias, ultrapassava todos os obstáculos, era a cientista à volta dos ratinhos, o judeu a fugir a nado, a criança a passear com o Dahu. Ou Miss Marple, ou Poirot, ou o detective de SS Van Dine, Philo Vance.

Era o nosso tempo sedoso e eterno, cujo sabor ainda respiramos.



(SS Van Dine - Willard Huntington Wright)

Às escuras

Estou às escuras. Distraidamente, à medida que percorria os blogues habituais, que ia lendo as novidades do dia, os pensamentos, as bocas, as histórias, foi-se instalando a penumbra, apenas com a janela luminosa do monitor.

Neste sossego egocêntrico e concentrado, relembro as impressões de filmes como “Blow-up” e Sonata de Outono. O segundo causou-me uma impressão tão forte que ainda hoje me lembro de cenas inteiras, brilhantemente filmadas e representadas, filme de conversa, em que se dissecam as almas e a emoções, em que a vida se despe no mais feio e no mais sublime de todos. A moda é que nunca foi de Ingmar Bergman.

Blow-up foi um filme de descobertas e mistérios, da revelação, do pormenor à espera de quem o encontre, da manipulação, do grão da fotografia, da beleza dos protagonistas, do olhar de Antonioni.

Estou totalmente às escuras. Ao longe murmuram vagamente sons televisivos que ninguém testemunha. Com o vento preguiçoso e molenguento, viajo pelo tempo e pelo mundo, consolada.

29 julho 2007

Mude-se a lei

A falta de justiça, em sentido lato, e a impunidade são dos mais graves sintomas de falência de um estado de direito democrático e, infelizmente, o que se passa em Portugal está muito próximo disso.

Como me lembravam algumas pessoas numa conversa de café, a justiça foi dos únicos sectores em que não houve profundas mudanças após o 25 de Abril, até parece que por um pacto não escrito entre os dois principais partidos, antecessor do pacto para a justiça celebrado entre o PS e o PSD, já na vigência desde governo.

Vem isto a propósito da notícia de destaque do Público de hoje (Reforma negada em cinco minutos e quatro linhas, pág. 2 do caderno 1), que conta o caso de uma funcionária pública que após ser submetida a vários tipos de tratamentos por cancro intestinal, muitos anos de trabalho e pouca qualidade de vida, inclusivamente sequelas que não lhe permitiam ter uma vida profissional normal, decidiu pedir a reforma, apoiada por pareceres médicos assinados pelo Oncologista que a assistia e exames de vários tipos. A reforma foi recusada sem que eles tivessem sido apreciados, sem que a doente fosse ouvida, sem que a recusa fosse fundamentada, oralmente ou por escrito, por uma junta em que os médicos que a constituíam nem sequer se deram ao trabalho de cumprimentar a senhora.

Este caso refere-se a juntas médicas mas podíamos falar dos serviços camarários ou quaisquer outros serviços, do Estado ou particulares. É claro que é muito melhor e mais fácil, em vez de verificar se a aplicação das leis está a ser feita correctamente, por profissionais competentes, idóneos e interessados, em vez de se responsabilizar os eventuais prevaricadores, é muitíssimo melhor e mais fácil alterar as leis.

A actividade legislativa substitui a actividade de regulamentar e fiscalizar, nunca se exigindo responsabilidades, competência e dignidade no exercício da profissão.

Neste caso a lei já mudou. Será que a sua aplicação também vai mudar?

28 julho 2007

Dias de vento


Em dias de vento
ouvimos pensamentos que foram
pois os que são voam
despenteiam-se em palavras
sopram-se em imagens
de medos ausentes
mas conhecidos
trancados no fundo
dos abrigos.


(pintura de Zoltan Szabo; Wind Dancers)

Silly season

Sempre me irritaram as referências à silly season quando chegamos ao Verão.

O facto de se terem férias só pode significar que as pessoas se sintam libertadas das suas tarefas diárias, repetitivas, rotineiras e cansativas, estando por isso mais abertas a interessarem-se por outros assuntos que, em alturas de grande actividade profissional, não têm tempo nem vontade.

Mas os media decidiram que, durante as férias o cérebro se desliga e deixa de funcionar, mantendo apenas as funções básicas de sobrevivência.

Mas entre nós só se fala da silly season no Verão. E quem faz férias no Inverno, não põe o cérebro a hibernar?

(Este ano até temos uma Presidência europeia!)


(Cartoon de Isabella Bannerman: silly season)

Caricaturas principescas

A liberdade de expressão tem sido tema recorrente nas discussões políticas em Portugal, principalmente pela suposta deriva autoritária deste governo e deste PS. Manuel Alegre, num artigo de opinião a que o Público deu um destaque pouco habitual, aponta o dedo aos militantes dos partidos políticos, nomeadamente aos do PS, que reduzem a política a Sócrates, instalando-se na sociedade o medo de exprimir livremente opiniões.

No princípio do ano passado o mundo ocidental, predominantemente laico, incendiou-se em defesa da liberdade de se caricaturar o que se quisesse, como se quisesse e quando se quisesse, insurgindo-se contra a inusitada violência que atacava a sociedade livre, pelas ofensas aos sentimentos religiosos e a culturas diversas. Eu fui das que me incluí entre os que partilhavam esse ponto de vista.

Não querendo comparar o que não é comparável, nomeadamente as reacções de incrível violência contra as embaixadas de países ocidentais, jornais, jornalistas e autores das várias caricaturas, há novamente um debate sobre liberdade de expressão desencadeado pela apreensão por um juíz de uma revista humorística espanhola, a El Jueves, pela publicação de uma caricatura dos príncipes Felipe e Letizia num acto sexual explícito, em que se pretendia, na minha opinião, gozar com os subsídios à natalidade decididos pelo governo espanhol e não com o casal de príncipes.

Independentemente do que se pensa da caricatura propriamente dita, o que está em questão é o facto de um juiz, sem qualquer queixa dos eventuais ofendidos, ter ordenado a apreensão do jornal ou seja, ter considerado que não havia liberdade para publicar um determinado tipo de expressão de pensamento.

Não posso concordar com os que defendem que há coisas demasiado ofensivas para serem publicadas. Essa foi uma das razões invocadas contra a publicação das caricaturas de Maomé.

Numa sociedade democrática a liberdade ombreia com a responsabilidade. Num estado de direito os ofendidos queixam-se e a justiça arbitra e decide. Se a Casa Real espanhola não se queixou, não entendo que haja alguém que se digne proibir o que entende por ofensivo. É a sua opinião, não tem que a estender à restante comunidade.

É verdade que alguns textos, desenhos e caricaturas, cenas de filmes, documentários e telejornais, dão vontade aos cidadãos de partir o focinho a alguém. Mas a justiça pelas próprias mãos nunca foi boa conselheira.

A liberdade de expressão existe exactamente para que todos possam dizer o que pensam, por muito irrazoável, insensato ou horroroso que seja, sem que se sintam pressionados ou perseguidos por isso.

26 julho 2007

Testamento

Após a morte de Deus
abriremos o testamento
para saber
a quem pertence o mundo
e aquela grande armadilha
de homens.

(poema de Ewa Lipska; pintura de Julie Newdoll: The First World was Red)

E...?

Tarde e a más horas, em primeiro lugar o PS, depois o primeiro-ministro vêm dizer que é inaceitável que o governo regional da Madeira não cumpra a lei da IVG. Ouvi mesmo José Sócrates, com aquela indignação irritada e exasperada que bem lhe conhecemos, rosnar contra o PSD e o CDS pelo factos destes dos partidos não se terem demarcado de Alberto João Jardim.

Ficou-lhe bem mas ter-lhe-ia ficado ainda melhor se questionasse, mesmo que ao de leve, mesmo que subtil e cripticamente, a parca e lacónica declaração do Presidente da República sobre o assunto.

Então e agora? Se Alberto João Jardim se mantiver na dele, o que pode o PS ou o governo fazer (visto que o Presidente…)?

25 julho 2007

O medo

Posso não concordar com a discordância de Manuel Alegre em relação a algumas políticas governamentais, posso não concordar com Manuel Alegre no seu vaticínio de morte ao SNS, posso até não concordar com Manuel Alegre sobre a forma como se pretende ratificar o aposentado Tratado Reformado.

Mas felizmente que há algumas vozes no PS que dizem o que é elementar, ou seja, simplesmente dizem o que pensam, exprimem as suas opiniões, mesmo com o risco de ser menorizado, mesmo com o risco de se lhe colarem projectos de secessão, com as contabilidades bem organizadas, independentemente de existir ou não essa vontade ou intenção.

O perigo não está em Sócrates, está naqueles que o rodeiam, que o separam da realidade, naqueles que se calam, naqueles que são cúmplices.

Mesmo que o medo seja diferente do medo da época de Salazar, mesmo que o medo seja causado pela forte possibilidade do desemprego, pela crise económica e social, pelo individualismo, a verdade é que estamos limitados na nossa capacidade de sermos livres.

Dentro ou fora dos partidos, do governo e da oposição, é preciso que todos assumam as suas responsabilidades: falando, escrevendo, cantando, pintando, não vergando a todo e qualquer sintoma de medo.

(escultura de Francisco Simões: Manuel Alegre)

23 julho 2007

Abstenções

Enquanto os partidos e as Entidades tristemente peroram contra a elevadíssima abstenção nestas eleições intercalares, carpindo mágoas e penitenciando culpas próprias e alheias, o militantes partidários vão-se abstendo nas suas eleições internas, venenosamente desgastando quem penosamente aguenta o barco, mas ficando nas sombras das bancadas.

Vá lá que houve alguns que, não sei apenas se por vergonha, avançaram para a arena.

Bem prega Frei Tomás…

Incentivos

Como já aqui disse, as medidas para incentivar o aumento da natalidade, tais como o aumento dos abonos de família, tendo em conta o número, têm resultados muito discutíveis e dificilmente avaliáveis. Penso que a sociedade ocidental, como um todo, dando importância à realização pessoal e profissional, tendendo para uma redução do papel feminino confinado à família, leva a que os filhos sejam uma opção cada vez menos prioritária.

Por isso todas as medidas políticas de tratamento igualitário para os homens e para as mulheres, nomeadamente na partilha de direitos e deveres no que diz respeito aos filhos e ao tempo concedido pelas entidades empregadoras às mães e aos pais, sejam benéficas e um sinal muito positivo. A pouco e pouco as mulheres não se sentirão penalizadas por terem que interromper a carreira profissional, sendo preteridas apenas pelo facto de poderem engravidar.

As leis não mudam as mentalidades, mas podem ser um incentivo para que haja ambiente de mudança.


(pintura de J. Roybal: Girl Ballerinas)

21 julho 2007

Ir às compras

Ir às compras é o pior que me pode acontecer. Explico: não é ir às compras no sentido de rumar ao supermercado, normalmente aos domingos, com o sentido do dever que herdei sei lá de quantos avoengos, e encher o carrinho com arroz, batatas, carne, fruta, legumes, papel higiénico, etc. Nem é ir às compras no sentido de precisar de comprar alguma roupa, normalmente aos domingos, indo directamente às lojas que interessam, ver, experimentar, se gostas compras, se não gostas sais, tudo rápido e eficaz. Se há muita gente nas lojas fujo e regresso mais tarde. Para mim as compras são uma tarefa doméstica, mesmo assim praticada mais frequentemente do que seria estritamente necessário. A única excepção a esta regra é o gozo que tenho ao entrar nas livrarias, folhear os livros, cheirar os livros e comprá-los.

Portanto quando ouço alguém desafiar-me para, num dia de férias ou de fim-de-semana, ir ver as montras ou ir às compras, só por ir ver montras e comprar coisas, independentemente de se precisar delas, fico assustada e recuso veementemente.

Mas, mesmo assim, há alturas em que não podemos recusar, porque quem nos pede merece os nossos maiores sacrifícios. No fim de três horas enfiada num centro comercial, em que entrei e saí de várias lojas para assistir à deambulação, observação, palpação de tecidos, experimentação de sapatos, abertura de carteiras, considerações variadas, propositadas e despropositadas, a somar a filas intermináveis de carros à ida e à volta, tudo isto sem me irritar e sem zarpar a alta velocidade, cheguei a casa firmemente convencida de que já podia (e devia) ser canonizada.

Qualidade da democracia

Enquanto se filosofa e discursa sobre a alegada deriva autoritária do governo e sobre o clima de medo que se instalou na administração pública, o Presidente da República expôs laconicamente o seu pensamento sobre o facto de o governo regional da Madeira se recusar a aplicar a lei da IVG, aprovada no Parlamento após referendo nacional.

E qual foi o seu poderoso e breve pensamento? Que quem sentir que as leis não estão a ser aplicadas deve recorrer aos tribunais.

Tudo isto me parece gravíssimo e revelador de que as opções pessoais e morais de determinados actores políticos estão a condicionar a aplicação das leis no território nacional, com objectivas diferenças de acessibilidade dos cidadãos a um determinado serviço.

A Madeira é uma Região Autónoma, o que não pode significar que os cidadãos madeirenses se vejam impedidos de usufruírem dos mesmos direitos dos cidadãos do Continente ou dos Açores.

O referendo realizado em Fevereiro sobre a despenalização da IVG até às 10 semanas de gestação, foi efectuado em todo o território nacional, portanto o seu resultado e consequências, nomeadamente a lei posteriormente aprovada, deverão ser aplicados, igualmente, a todo o território.

Na presença de um insuportável assomo de autoritarismo (mais um) de Alberto João Jardim, colocando as mulheres da Madeira em total desigualdade perante as do Continente, não ocorre ao Presidente outra coisa senão acatar as ordens de Alberto João Jardim, fingindo que a solução política para este problema político é o recurso aos tribunais.

E quem recorrerá aos tribunais, as mulheres que quiserem abortar? Em que tempo útil? E se os tribunais lhes derem razão após as 10 semanas de gravidez, abortam na mesma? E será ilegal? Também irão a tribunal?

O que se está a passar, desde há muito tempo, na Região Autónoma da Madeira é vergonhoso. Mas ainda mais vergonhosa é a forma como as instituições democráticas, nomeadamente o Presidente das República, têm lidado com a situação, permitindo a Alberto João Jardim todos os desmandos de que se lembra, prejudicando os seus concidadãos. E isso é intolerável.

Gostava de saber se é esta a qualidade da democracia que o Presidente preconiza.

Adenda: outros textos sobre o mesmo assunto:

e, já agora, Autoritários - João Gonçalves.

19 julho 2007

Louras




Duelo de titãs!

A Generala

Não há dúvida que Portugal tem muito boa imprensa internacional, façanhas invejáveis e invejadas!

Janelas

Medi o chão em milhares de passos,
alguns ofegantes alguns hesitantes
mas ainda não absorvi o espaço em mim.

Mergulhei em todos os milímetros das paredes
em todos os pontos assimétricos de luz
mas ainda não acendi o lume em mim.

Falta-me ainda o espanto inacabado
com que abrirei todas as manhãs
janelas de sonhos incandescentes.


(pintura de Stephen Lack: Y fish windows)

18 julho 2007

Louvação do barro

Cantarei o barro, porque nele esteve a vida
e este sangue que ferve em nosso corpo.
Meus olhos de barro pressentem o repouso
e o clarão imortal de uma outra vida.

Cantarei o barro porque foi amassada
a nossa carne do barro inconsistente
e na argila curtida e inanimada
o sopro de Deus entrou como a semente.


(poema de Marìa Manenttrad. João Cabral de Melo Neto; escultura de Rodin: mão de Deus)

15 julho 2007

Eleições intercalares de Lisboa

(Às 21:51h)

A abstenção, como se esperava, foi homérica.

Custa-me muito que se ouça, a todo o instante, o discurso dos maus políticos e da má política, quando os cidadãos se demitem de se pronunciar, se alheiam da cidadania. Era bem melhor que nos exigíssemos mais a nós próprios, em vez de carpirmos a nossa própria incapacidade de intervir.

O PSD (e Marques Mendes) perdeu tudo o que tinha a perder: perdeu pelo tempo que a Câmara levou a cair; perdeu porque não houve dissolução da Assembleia Municipal; perdeu porque Paula Teixeira da Cruz, entre outros, não avançou; perdeu porque escolheu Fernando Negrão; perdeu porque ficou em terceiro lugar; perdeu porque ficou atrás de Carmona Rodrigues.

O CDS (e Paulo Portas) perdeu tudo o que tinha a perder: perdeu porque incorporou uma estratégia de ataque a Maria José Nogueira Pinto; perdeu porque Paulo Portas não avançou; perdeu porque escolheu Telmo Correia; perdeu porque não conseguiu eleger nenhum vereador.

O BE perdeu pouco: apenas conseguiu manter um vereador.

José Sá Fernandes ganhou: os votos foram para ele, que fez um bom lugar.

Helena Roseta ganhou mais do que perdeu: conseguiu eleger mais que um vereador.

O PCP (e Ruben de Carvalho) ganhou: merecia, pela seriedade e bom trabalho desenvolvido.

Carmona Rodrigues ganhou e muito: ficou em segundo lugar depois de ter caído com a Câmara; ficou à frente do candidato do partido que lhe retirou o apoio.

O PS (e António Costa) ganhou: ganhou a Câmara; não contabilizou os votos contra o governo; foi pouco tocado pelos independentes, embora a presença de Helena Roseta o possa ter impedido de ter maioria absoluta.

Enfim, daqui a dois anos há mais.

Teorizemos

Segundo o site da meteorologia, hoje prevê-se chuva em Lisboa e uma temperatura máxima de 25ºC.

Para além do número de eleitores a mais, fantasmas, inscritos nos cadernos eleitorais de Lisboa, como, aliás, do resto do país, o que aumenta artificialmente a abstenção, tenho curiosidade em ouvir as justificações para não se votar.

Há já várias explicações, segundo os vários comentadores, que vão desde o sol, a praia, as férias, a falta de assunto para se discutir, a fraca campanha, a tristeza dos candidatos, enfim, há para todos os gostos.

Mas também há apelos que, por si só, são já uma explicação engenhosa da provável elevadíssima abstenção – a desobediência civil.

De facto é uma forma de luta teoricamente interessante, não se sabe bem é com que objectivo. Se as pessoas utilizassem essa arma para protestar (?) seria bom que quem defende semelhante opção nos esclarecesse como se deveria encarar o dia seguinte. Acabava-se com as eleições? Como se escolhiam os governantes? Não havia governantes, ou seria melhor organizar um golpe de estado, ou uma revolução, encabeçada por um herdeiro de Salazar que guiasse (e mandasse) este povo de maus costumes, esta sociedade dissoluta, em que até se fazem referendos e se aprovam leis contra a vida? Ou, pura e simplesmente, numa orgia de cada um por si, não houvesse qualquer forma de governo? Ou íamos buscar o D. Duarte Pio e restaurávamos a monarquia? Ou então o proponente da desobediência civil inaugurava a sua própria dinastia?

Gostaria de saber como se levam até à última consequência determinado tipo de ideias. Ou, pura e simplesmente, são apenas um exercício de estilo azedo, resmungão, apocalíptico, resinoso e rezingão, e não são para levar a sério?

14 julho 2007

Abandono

Sei do gozo e do infinito
de te querer
de sair do meu corpo
e fugir
para o fundo de ti.

(escultura de Camille Claudel: o abandono)

A Comissão para a Idiotia Total

Há valores, hoje em dia, que são totalmente diferentes do que existiam há 20, 40, 80 anos. A sociedade mudou, à custa de novas descobertas científicas, de novos relacionamentos entre os povos, de novos valores, nomeadamente os valores de igualdade racial, respeito pelas minorias e protecção dos mais fracos, assim como na educação das crianças.

Mas as mudanças não deverão levar à extinção do que agora se considera incorrecto. A pseudo-moralização que tomou conta da nossa sociedade é ridícula e muito preocupante.

Desde os cartoons de Maomé, à substituição do cigarro de Lucky Luke e, mais recentemente, às reacções a um vídeo promocional europeu que colecciona fragmentos de cenas de orgasmos de um conjunto de filmes, e agora à proibição de colocar o álbum de banda desenhada Tintim no Congo nas prateleiras de livros para crianças, após a declaração da Commission for Racial Equality, no Reino Unido, de que este álbum é altamente ofensivo pelos estereótipos raciais que demonstra, que se tem assistido ao império do pensamento único, da educação única, da moralidade única, do conceito artístico único, tudo com a pretensão de nos proteger e guardar de maus pensamentos, palavras e actos.

É difícil compreender tanto obscurantismo, tanto preconceito e tanta ignorância. Felizmente, nem toda a gente se rendeu à idiotia pseudo-correcta e pseudo-igualitária.

Esperemos que o bom-senso prevaleça.

(agradecimentos ao
Corta-fitas)

Lembro

Lembro-me dos dedos
na areia
da dormência cálida
do sol
do líquido dos teus olhos
na minha sede.

(pintura de Anthony Smith: beach scene)

Algumas notas (imprensa e blogues)

Sobre os resultados dos exames de Matemática do 9º ano, fica-nos o título espantoso de uma entrevista ao DN de ontem, à presidente da Associação Portuguesa de Matemática: Os exames prejudicam o ensino da matemática.

Como salienta Carlos Fiolhais no blogue De Rerum Natura, não se percebe bem se foi isso que a entrevistada disse, mas percebe-se que não acha a matemática muito compatível com exames. Não preciso de dizer que me parece absurda esta opinião. Se calhar o problema é exactamente o facto de não ter havido mais exames há mais tempo, em cada fim de ciclo, e que pesassem mais na nota final, para além de muitas e mais importantes alterações nos programas e métodos de ensino da matemática e, já agora, do português, das línguas, da ciências, etc, etc.

A Região Autónoma da Madeira não vai aplicar a lei da IVG. E assim se faz a afronta às leis da República que, segundo Alberto João Jardim, são as leis do Continente, com a conivência do governo e, até agora, do Presidente.

As análises, desmentidos, denúncia de imprecisões e correcções ao livro de Zita Seabra continuam, com tons e cambiantes muito diferentes. Interessantíssimo.

13 julho 2007

Algunos infelices

Todos necesitamos que nos quieran.
Algunos infelices, sin embargo,
no sabemos vivir para otra cosa.


(poema de Amalia Bautista; pintura de Shelly Roche: lovebirds)

Zita Seabra - Foi assim


Li o livro de Zita Seabra (Foi assim) de um fôlego. Tem ritmo, é muito interessante e é um importante contributo para o conhecimento da nossa história recente.

É um livro de memórias, das memórias dela, escritas com paixão mas cuidadosamente. Não é um ajuste de contas com os seus camaradas, mas um ajuste de contas consigo própria.

Zita Seabra abraçou uma causa com ardor e fanatismo, a causa romântica da luta pela liberdade e pelo povo, pela igualdade, pela revolução socialista, pela tese científica da evolução para o comunismo. O Partido foi a sua casa, a sua vida, a sua religião. Conta a sua militância clandestina, a sua solidão, a sua certeza na vitória, o seu trabalho e vontade de se transformar numa revolucionária profissional. Com ela ficamos a conhecer o que era a vida de um oposicionista, de um militante comunista, o medo, as prisões, a repressão, a tortura, a solidariedade, o martírio de quem se entrega totalmente a uma ideologia, que tudo abarca e tudo molda a si própria. Não há dúvidas, a confiança é cega.

Ficamos também a conhecer o ostracismo a que são votados os traidores, aqueles que não aguentavam as torturas na prisão, os que não aceitavam o centralismo democrático, os que cediam aos apelos da classe burguesa. Ficamos a saber que as vítimas são aceitáveis, que os fins justificavam os meios, para que a ditadura do proletariado vencesse e houvesse um Homem Novo, numa sociedade sem classes.

Ficamos a saber da disciplina férrea, da organização primorosa, da multiplicação dos pequenos partidos satélites, da infiltração das associações académicas, dos sindicatos, dos militares, do secretismo, das conspirações, da alegria da libertação no 25 de Abril, da luta pela libertação dos presos políticos, da luta pela colectivização da terra, pelas nacionalizações, pelas barricadas, das manifestações, contra manifestações e provocações, das armas distribuídas pelos membros da UEC, das tentativas para que não houvesse eleições livres.

Ficamos a saber que o Partido deixou de usar a expressão ditadura do proletariado por razões tácticas, que queria um confronto, a sua revolução de Outubro, que contou as espingardas e que, em 25 de Novembro, desistiu por perceber que não venceria: um passo atrás, dois passos à frente.

Percebemos a luta por uma Constituição que moldaria ainda vários anos do pós 25 de Abril, o trabalho parlamentar subalternizado por Álvaro Cunhal, a justificação da execução de Sita Valles, a progressiva tomada de consciência de um rumo desajustado, a perda da fé.

Porque foi o abandono da fé no comunismo, no Partido e no Camarada, um processo doloroso e espaventoso mas totalmente necessário para a consumação da rotura.

Para quem, como eu, viveu esses tempos heróicos da pós revolução com intensidade e esperança, para quem nunca percebeu as viragens ideológicas de Zita Seabra, compreende agora melhor o que era pertencer a uma organização daquele tipo, com tanto de heróico como de terrível.

Não concordo com Zita Seabra, não me revejo nas suas posições, não percebo certas atitudes e opiniões. Mas reconheço-lhe o mérito de ter tido a coragem de viver como viveu durante tantos anos, missionária de uma causa que lhe pediu tudo e a quem deu tudo, e a coragem de se olhar, de se pôr em causa e de o revelar, com o mesmo espírito de missão.

Gostava que quem viveu aqueles anos, participou e conviveu com este pedaço da nossa história, dentro ou fora do PCP, contasse as suas memórias. Gostava que, em vez de se procurarem pequenos pontos de imprecisão, interpretações sobre o que quereria dizer e não sobre o que está escrito (como a famosa comparação da chegada de Cunhal com a chegada de Lenine) aproveitando para fazer um verdadeiro assassinato de carácter, revelasse a sua verdade, a sua forma de contar a mesma história.

Só assim saberemos se foi (mesmo) assim.

12 julho 2007

Obrigatório

A gente tem-se uns aos outros e mais nada - José Luís Peixoto
(4 a 29 de Julho - Teatro Meridional - quarta a domingo, às 22 horas - Rua do Açúcar, Poço do Bispo)

Matemática

As notas nos exames de Matemática do 9º ano foram catastróficas.

Não era possível esperar que um ano, por muito boa vontade e por muitos programas de incentivo e de recuperação que se fizessem, fosse suficiente para se ver qualquer diferença, em qualquer ano de exames.

A Ministra da Educação não teve o discernimento de não embandeirar em arco com a ligeira melhoria nos exames do 12º ano. Esperemos que tenha o discernimento de não desistir, de aprofundar e motivar ainda mais os professores, os alunos e os pais para o trabalho, fazendo uma criteriosa análise do que correu bem e do que correu mal.

É com esforço, trabalho e verdade, sem demagogias facilitadoras nem alarmistas, que se pode avançar um pouco mais.

A educação de qualidade deve ser um paradigma do serviço público.

Tudo e nada

Tenho livros que se abrem
letras que se procuram
olhos de outros
que apregoam sinos
ecos vorazes
que abanam rumos.

Tenho árvores à espera
de frutos doces
que caem fortes
e maduros.

Tenho tudo
e tudo me falta.

(pintura de Jonn Herschend: Nothing is Where I left it)

Vermelho e negro

Depois do último post, estas cores são as apropriadas.

(socialista, republicana, anti clerical, facção Manuel Alegre, herdeira da facção do saudoso Raul Rego)

(pintura de Paul Brent: Red Cityscape)



  • Adenda: afinal ficou azul, vermelho e negro...

A Concordata

Muito se tem falado indignadamente, e tomando as dores da Igreja Católica, que se ofendeu com o Estado na figura do Primeiro-Ministro, por não perceber atitudes do governo que não estão em consonância com o espírito abnegado da Santa Madre Igreja, no que respeita ao seu estatuto enquanto defensora dos fracos, dos pobres e dos oprimidos, pois até se revolta contra o clima de medo e a prepotência destes socialistas maioritários.

No entanto, se quisermos saber exactamente quais as razões da zanga não percebemos, pois há apenas vagas referências a diminuição de apoios nos ATLs, ao não reconhecimento do grande papel da Universidade Católica no ensino superior do país, ao direito constitucional de se ser apoiado religiosamente nos hospitais e nas casernas.

Sempre me intrigou que num país em que há uma Constituição que diz:

  • Artigo 13.º
    (Princípio da igualdade)
    1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
    2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual. (...)

E há uma lei de liberdade religiosa que também diz:

  • Artigo 2.º - Princípio da igualdade
    1 — Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, perseguido, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever por causa das suas convicções ou prática religiosa.
    2 — O Estado não discriminará nenhuma igreja ou comunidade religiosa relativamente às outras.
    Artigo 3.º - Princípio da separação
    As igrejas e demais comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.
    Artigo 4.º - Princípio da não confessionalidade do Estado
    1 — O Estado não adopta qualquer religião nem se pronuncia sobre questões religiosas.
    2 — Nos actos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade.
    3 — O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes religiosas.
    4 — O ensino público não será confessional. (...)

E depois há uma Concordata, que diz, por exemplo:

  • Artigo 19
    1. A República Portuguesa, no âmbito da liberdade religiosa e do dever de o Estado cooperar com os pais na educação dos filhos, garante as condições necessárias para assegurar, nos termos do direito português, o ensino da religião e moral católicas nos estabelecimentos de ensino público não superior, sem qualquer forma de discriminação.
    2. A frequência do ensino da religião e moral católicas nos estabelecimentos de ensino público não superior depende de declaração do interessado, quando para tanto tenha capacidade legal, dos pais ou do seu representante legal. (...)

E as outras religiões? E os ateus? E os agnósticos? Será que o governo se vai penitenciar?

Quem não tem que fazer...


...faz colheres.

(Stuart King: sycamore spoons)

11 julho 2007

Sem interesse nenhum

Não percebo a bonomia (com raras excepções) com que o livro de João Ramos de Almeida (Eleições viciadas? – O frágil destino dos votos – Autárquicas de 2001 em Lisboa.). Não li o livro mas, a julgar pelo que li na blogosfera e ouvi a Marcelo Rebelo de Sousa (no último domingo), parece ter havido engenharias eleitorais, que terão permitido alterar o resultado das eleições, insinuando-se que haveria estrategas da noite que saberiam, se não teriam mesmo provocado, as tais engenharias.

E todos acham isso normal? Onde estão os pedidos de esclarecimentos, investigações, inquéritos, acusações e contra acusações?

Provavelmente isto também não é muito importante, assim como não deve ser importante limpar as listas eleitorais. Não deve interessar mesmo nada.

Natalidades

Acabei de ouvir, na TSF, o Presidente Cavaco Silva defender incentivos à natalidade, argumentando que, em vez de se encherem páginas de jornais e minutos televisivos com a interrupção da gravidez, se deveria falar da defesa da vida (cito de cor).

Concordo que será necessário defender políticas que incentivem o aumento da natalidade, mas misturar, mesmo que subtilmente, a aprovação de legislação sobre a IVG e a sua aplicação, com a defesa da vida, no sentido de motivar as pessoas a terem mais filhos, é demagógico e politicamente desonesto.

O Presidente tem todo o direito a ter opinião contrária à lei da IVG, recentemente aprovada. Por sinal, opinião que manteve para si durante todo o debate anterior à realização do referendo, em nome não sei bem de que imparcialidade ou independência. Mas regulamentar e despenalizar a IVG até às 10 semanas de gestação, não aumenta nem diminui a natalidade.

Quanto às políticas de incentivo à natalidade são difíceis de implementar, são polémicas na sua essência, porque injustas e discriminatórias para quem não deseja filhos, e com resultados muito controversos.

É um problema de todos nós, de condições de vida, de condições económicas e de valores. À medida que as sociedades se desenvolvem, que se reduzem a ignorância e a pobreza, que há maior igualdade de oportunidades entre géneros e que as mulheres defendem a sua independência económica e carreira profissional, a tendência é a diminuição do número de filhos por casal.

Com o aumento do desemprego jovem as mulheres tendem a adiar a maternidade, à espera de estabilidade profissional. Por outro lado, a interrupção no trabalho leva as mulheres a dosearem muito bem a prole, com receio de serem despedidas ou de não progredirem o que, legitimamente, ambicionam. As deslocações e a disponibilidade horária acabam quase sempre por penalizar mais as mulheres que os homens.

A tão almejada igualdade entre homens e mulheres, no que diz respeito aos compromissos familiares, com os filhos menores e com os pais idosos, ainda está longe de ser atingida. Nas leis oficiosas do trabalho e nos costumes, há certas liberdades que estão vedadas às mulheres, assim como há alguns deveres que não se exigem aos homens.

Mas o problema é mais vasto. Hoje em dia as prioridades e os valores de vida são diferentes. É mais importante ter tempo livre e dinheiro para comprar bens de consumo que investir nas tarefas, mesmo que menos onerosas, de educar um filho. Por outro lado, a elevada exigência de condições materiais que nos auto impomos, os inúmeros medos e inseguranças, a nossa eterna necessidade de sermos crianças e adolescentes, não só na aparência, como nos gostos e, principalmente, na recusa de determinado tipo de responsabilidades, leva-nos a encarar a maternidade e a paternidade como algo para a qual não temos disponibilidade, principalmente emocional.

Quebrar este ciclo é muito complicado. Com excepção de medidas concretas em termos fiscais, de subsídios, de melhoria das redes de ajuda às mães e aos pais, flexibilização de horários de trabalho, maior equidade nas tarefas domésticas, a alteração das prioridades individuais e, portanto, sociais, não se decreta nem se legisla.

PS – A notícia na TSF, no Público, no Correio da Manhã e no Sol online, apenas foca o que o Presidente disse sobre a melhoria da qualidade da democracia em Portugal, sem fazer qualquer menção às declarações do Presidente sobre a natalidade. Não deve ser importante, nem ter qualquer interesse.


(pintura de Sheila Tiffin: Children on the Beach)

10 julho 2007

Descanso

Entre duas semanas, entre dois pequeníssimos mundos que, para mim, se transformam no mundo inteiro, assim farei um intervalo em viagem de descanso.

Como adquirem importância desmedida as nossas pequenas derrotas e vitórias, centralizadas na nossa cabeça, o âmago de tudo, esse microcosmos tão insignificante para a roda da vida.

Fecho um tempo e espero. Para a semana abrirei o que há-de vir.

09 julho 2007

Sede

Cresce a sede
cresce a sebe
aparo o mundo
salto a rede
sinto o fundo
que me segue.

(pintura de Nicole Charbonnet: Study for Thirst nº 10)

08 julho 2007

Espiritualidades

Alegremo-nos e levantemos as mãos aos céus em agradecimento pela espiritualidade na medicina! Temos médicos que operam em feixes de luz (à velocidade da luz), e jornalistas que devem levitar quando escrevem, talvez depois de se impregnarem de algumas ervas na Horta do Garcia... Esperemos que os primeiros acertem mais que acertam os últimos.

(Frontispício do Colóquio dos Simples, de Garcia de Orta, que deu nome ao Hospital de Almada)

Indigências

Este é mais um exemplo de total indigência, predominantemente política, deste governo, numa das áreas mais sensíveis. O que diz, como o diz e em que circunstâncias o diz, tal como as justificações de Correia de Campos para a demissão da Directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, são um hino à miopia e à incapacidade política, a juntar ao ministro Mário Lino e, mais recentemente, a Jaime Silva, para não falar do sempre eterno Manuel Pinho (não nos podemos esquecer que isto é feito por um governo e por um partido que, segundo tantas vozes autorizadas, estão numa deriva autoritária e que, para além disso, têm numerosos experts no controle dos media).

Mas há algumas coisas que são, de facto, de espantar: apenas nos Ministérios da Saúde e da Educação, e apenas com este governo, há apropriação partidária dos lugares de chefia na administração pública (não estou a justificar, estou só a perguntar)?

Sócrates, tal como Cavaco Silva, quis assumir as rédeas do governo e do partido. Tal como Cavaco Silva, arrisca-se a perder os dois.

O Sonho

O sonho desarruma
tudo, muda
as formas do mundo altera a ordem dos
assuntos é difícil contá-lo

quando por fim saímos
e acordar
se torna alívio chegamos a ser nele
assassinos faz crescer a angústia

do amor perdido
evitamos a
custo precipícios desalinho
de imagens como um filme do espírito

mas afinal a vida também vive
na dor e na ânsia pelo que não existe


[poema de Gastão Cruz; pintura de Kate Roesch: untitle (blue)]

06 julho 2007

Desumanidades

Nas últimas semanas fomos confrontados com notícias sobre decisões incompreensíveis e desumanas de Juntas Médicas, que consideraram aptos para o trabalho dois professores, uma com leucemia, outro com neoplasia da laringe, tendo ambos falecido, a primeira duas semanas após ter retomado o trabalho, o segundo meses depois.

Como era de esperar, o país reagiu indignado. Quando digo o país refiro-me a vários comentários que se foram ouvindo por todo o lado, de responsáveis políticos e personalidades várias.

Jornais, rádios, televisões e blogosfera, todos os dias juntam fragmentos de informação e muita opinião, resultando, para além da indignação, muita perplexidade, confusão e incredulidade.

De início acusou-se o Ministério da Educação de desumanidade, responsabilizando-o pelo ocorrido, quando os processos resultantes das avaliações de incapacidade por doença, profissional ou outra, não passam pelo Ministério da Educação (são da Caixa Geral de Aposentações – CGA - e/ou da ADSE); depois acusaram-se as Juntas Médicas, responsabilizando-as de inacreditável incompetência e de não terem formação específica, tendo vindo o Bastonário da Ordem dos Médicos anunciar que se bateria pela formação específica das pessoas que compõe as Juntas Médicas. Depois as Juntas Médicas responsabilizaram os relatórios médicos dos respectivos serviços dos Hospitais da Universidade de Coimbra e do Instituto Português de Oncologia do Porto, que referiam, na altura das comparências às referidas Juntas, remissão das doenças.

Neste momento responsabiliza-se a composição das próprias Juntas Médicas, que deveriam ser constituídas apenas por médicos. Ora segundo o site da ADSE, as Juntas Médicas são constituídas por um representante da ADSE, médico ou não, que será o presidente e terá voto de desempate e qualidade; segundo a legislação consultada será constituída por três médicos, dois da ADSE, um dos quais preside, e um escolhido pelo doente. Penso que este segundo caso se aplica aos acidentes de trabalho e/ou doenças profissionais. Mas isso não foi esclarecido por ninguém.

Também ninguém explicou exactamente o que estava escrito nos relatórios das Juntas Médicas, pois há vários graus de incapacidade e de aptidão para o serviço. Segundo a legislação a que tive acesso (Internet), as pessoas podem ser declaradas aptas para um determinado serviço, mas com limitações várias, assim como com graus ou percentagens de incapacidade, dependendo do tipo de doença e da deficiência por ela causada, antes da serem reformadas por doença.

Também ninguém explicou que as doenças oncológicas têm períodos de remissão, mais ou menos longos, assim como períodos de recidiva ou agravamento, o que significa que os doentes podem estar capazes numa altura e ficarem incapazes meses depois. Ou seja, que o facto de se ter um diagnóstico de cancro, tratado ou não, não implica obrigatoriamente a incapacidade total para o desenvolvimento de todas as responsabilidades profissionais. Por exemplo, uma doente que tenha tido um carcinoma (tumor maligno) da mama, que tenha sido tratada com cirurgia alargada e quimioterapia, pode ficar totalmente apta para o seu trabalho, dependendo do tipo de trabalho que faz.

Claro que ninguém entende porque é que um professor que teve um tumor maligno da laringe, tratado com cirurgia (ressecção da laringe) e tendo ficado afónico, tenha sido considerado apto para dar aulas de filosofia. Mas foi mesmo isso que aconteceu, ou terá ele sido considerado em condições de trabalhar na escola? Se calhar haveria algum tipo de trabalho que ele poderia desenvolver na sua profissão, sem ter componente lectiva.

O que mais me impressiona no meio de tudo isto, para além da óbvia infelicidade e tortura que se infligiu aos próprios doentes, não se sabe por quem, não se sabe como, nem se sabe porquê, estes casos são manipulados e estrategicamente servidos a conta-gotas, com informações contraditórias, muito pouco rigor, nenhumas perguntas e muito menos esclarecimentos, sem qualquer preocupação de perceber o que, de facto, se passou, responsabilizar quem for de responsabilizar e impedir que tudo se volte a repetir.

Apresentação

Escrever, tentar concretizar o mundo em que se entrecruzam emoções, angústias, momentos de felicidade e profunda melancolia. Como uma necessidade quase orgânica, preciso de libertar as palavras que me correm pelo corpo, concretizar em letras os sentidos, nomear as coisas que sou ou que quero ser, olhar-me de frente, organizar-me.

Escrever torna mais nítido o quotidiano, intensifica viagens, decompõe enigmas, esclarece e unifica os fragmentos de rotina, bocados incompreensíveis da vida, que me acordam e atormentam, que me maravilham e embelezam.

Escrever é um acto solitário e doloroso, que intimida e assusta, compulsivo e redentor, que me envolve e arrasa. Escrever é um vício, um acto de amor.

Nem sempre me reconheço no que escrevo, naquela que se espelha e se questiona, naquela que se incendeia e se consome. Nem sempre entendo a forma que as palavras desenham, como se houvesse mais que uma forma, mais que uma pessoa que de mim fizesse parte.

Nos versos encontro a arrumação da desordem, o sentido da confusão, a calma na desorientação. A música e o ritmo das palavras escritas, depois ditas, que se refazem e transformam de cada vez que se repetem, quando alguém se apropria delas, como eu me aproprio dos poemas que outros escrevem, como eu me apodero dos sons, das cores, dos ecos dos poetas.

A simetria da minha vida, disciplinada, rigorosa, criteriosa, cheia de regras e de controlos, completa-se com a total insubmissão das palavras. Mesmo dentro da libertação que é escrever, há a contenção do abismo, o medo da vertigem, do absoluto, que se pondera e se mede, autónoma e obsessivamente.

A constante procura do imo, da depuração, da essência, a certeza da eternidade dessa busca e da inevitabilidade do final, espartilham os gestos mas abrem as asas do impossível.

Este é um livro de reencontros, de luzes fracas e longos silêncios. Este é um livro de recomeços, de aceitação, de cortinas, de renascimentos. Este é um livro de afectos. Sem outra razão que uma entrega, com o pudor da alma nua, assim me dou, a um tempo receosa e feliz, com sombras e sem infinitos.

03 julho 2007

Cadeias

FT e Lino, respectivamente dos blogues O País do Burro e thesoundofsilence enlaçaram-me numa cadeia de 5 livros, 5 blogues.

Para além de agradecer tão grande honra, obedecerei sem tardar à nomeação de mais 5 livros:
  • O Pintor de Batalhas – Arturo Pérez-Reverte
  • Flubert’s Parrot – Julian Barnes
  • Lourenço Marques – Francisco José Viegas
  • Cotovia – Desző Kosztolányi
  • Tres Deseos - Amalia Bautista

E 5 blogues:

E quem quiser, continua…


(pintura de Paul Klee: Primary Route and Bypasses)

Leituras

Como tenho tempo, perdi algum dele a ler demoradamente artigos de jornais, mesmo dos económicos. Recomendo o artigo de Teodora Cardoso, no Jornal de Negócios online, sobre a confiança, ou mais precisamente a desconfiança dos portugueses, transcrevendo apenas uma parte do parágrafo final. Mas vale a pena ler e meditar nele todo.

(…) Tudo isto nos leva de volta à confiança. (...) A sua destruição parece, contudo, ter-se tornado, mais do que nunca, no objectivo fundamental dos que se habituaram a explorar a desconfiança em seu benefício.

De um estilo e de uma temática totalmente diferentes, adequado a qualquer altura e circunstância, também recomendo um excelente post de A. Teixeira, intitulado As maminhas da favorita.

A mais

Hoje acordei a mais para o dia. Com pernas e braços excedentários, com muitos neurónios activos.

O meu corpo não se lembrou que está em férias.

(pintura de Marianne Mitchell: reverence)

02 julho 2007

Página em branco

Que poema, de entre todos os poemas,
página em branco?
Um gesto que se afaste e se desligue tanto
que atinja o golpe de sol nas janelas.

Nesta página só há angústia a destruir
um desejo de lisura e branco,
um arco que se curve – até que o pranto
de todas as palavras me liberte.

(poema de Sophia de Mello Breyner Andresen)

01 julho 2007

Portugal europeu

Apesar de dizer, todos os sábados e domingos, que deixarei de comprar o DN, todos os fins-de-semana reincido na compra.

Hoje valeu a pena. Tem um excelente grupo de artigos sobre a presidência portuguesa da União Europeia – Especial Europa – bem escritos, informativos e interessantes.

A propósito do mandato de Sócrates para redigir e aprovar o Tratado Reformado, parece-me de grande desonestidade política argumentar-se contra a necessidade do referendo pelo facto de não ser a Constituição/Tratado Constitucional que será ratificada/o, mas apenas um tratado. É um truque de prestidigitação que corre sérios riscos de desacreditar ainda mais José Sócrates e todo um conjunto de europeístas que defendem não se poder correr o risco de ver o tratado reformado rejeitado.

Em democracia correm-se riscos em todas as eleições. É mesmo a essência da democracia: correr o risco de convencer os cidadãos!

Nomeações

O regime de intimidação, autoritarismo e compadrio político que se vive (e que já se viveu noutras legislaturas) é atrofiante para os cidadãos, reduz a confiança nos governantes e instala a cultura dos capachos profissionais, os olhos e ouvidos dos chefes, tudo o que é mais contrário e pernicioso à vivência democrática. Pelo que temos lido na imprensa, os casos da DREN e do Centro de Saúde de Vieira do Minho são disso excelentes exemplos (se bem que não entendo porque é que um caso passado em Janeiro só agora seja notícia).

Mas, mais uma vez segundo o que leio na imprensa, mais precisamente no Público de hoje (página 8), o caso da não recondução do cirurgião Fernando Portal como director do Hospital Distrital de S. João da Madeira, cargo que exercia há 17 anos, não é idêntico e não pode ser confundido com os outros.

O Director de um Hospital é um lugar de nomeação política. Podemos discutir a correcção ou incorrecção da lei mas, neste caso, não é isso que está em causa. Sendo um cargo de nomeação política, depreende-se que quem o ocupa se revê ou, pelo menos, se compromete a seguir a política e as orientações governamentais.

Ora parece que o Dr. Fernando Portal declarou publicamente a sua divergência em relação à reestruturação dos serviços de urgência, no que dizia respeito ao fecho dos mesmos no Hospital que dirigia.

É um direito que lhe assiste, obviamente, é mesmo um dever de quem pensa e tem lugares de direcção dentro da rede de prestação de cuidados de saúde, se discorda, combater as medidas que considera prejudiciais e contrárias ao bem-estar da população.

Mas cabe ao ministro ajuizar se quem escolhe para a direcção de uma unidade de saúde, e repito é uma escolha política, tem condições políticas para implementar as medidas decididas por ele e pelo resto do governo.

O que me espanta é o próprio Dr. Fernando Portal não ter apresentado a sua demissão por estar em total desacordo com o fecho das urgências do seu hospital.

Acho que se confunde muito o direito de divulgar opiniões com a responsabilização e assumpção das consequências desse mesmo acto. Somos livres de discordar das opções políticas do Ministro da Saúde. O que não podemos é esperar que o Ministro nomeie para a direcção das unidades de saúde pessoas que discordam da sua política e que, logicamente, não terão as melhores condições políticas para exercerem esses cargos.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...