29 agosto 2013

Notas dispersas

 


Vemos, ouvimos e lemos coisas de espantar, algumas dramáticas.



  1. As mortes dos bombeiros nos combates aos incêndios - é tempo de nos solidarizarmos com as famílias e os companheiros, de agarrar forças onde não as há e ajudar as populações. Terá que haver, no entanto, uma reflexão sobre o que se tem passado - onde está a prevenção? A formação é a adequada? Profissionalismo ou amadorismo? É indispensável que se façam balanços e se perceba bem o que deve ser feito para que não se repitam estes horrores.

  2. As inacreditáveis trapalhadas à volta da reorganização das urgências nocturnas na área metropolitana de Lisboa, com afirmações contraditórias, com todos os protagonistas a esgrimirem argumentos na praça pública lançando toda a população em grande confusão, sem saber o que se passa e como vai ser atendida. Também se ouviu esta semana o Bastonário da Ordem dos Médicos pronunciar-se sobre a triagem de Manchester nas urgências hospitalares, levantando a suspeita de falta de segurança dos doentes ao serem atendidos por profissionais menos qualificados do que deveriam. Onde estão os estudos de comparação entre as triagens e classificações de prioridades dos Enfermeiros e dos Médicos, desde a implementação do protocolo em Portugal?

  3. Os EUA preparam-se para invadir a Síria - sem o aval do Conselho de Segurança? E os gaseamentos de milhares de pessoas? São assuntos só deles? E a Europa, não tem nada a dizer? Fernanda Câncio tem razão - é tão fácil perorarmos sobre os nossos códigos de moralidade sem termos que decidir o que fazer.

  4. As eleições autárquicas preparam-se sob a indiferença e o encolher de ombros generalizados - a vergonha da lei de limitação de mandatos a ser resolvida em tribunais, a espera pelo Tribunal Constitucional, que depois é acusado de imobilista e conservador, como estou agora a ouvir alguém do PSD a defender, na SICN, em frente a Gabriela Canavilhas, enfim, o alheamento da sociedade dos rituais e dos formalismos da democracia - um julgá-la-á dispensável.


O melhor é voltar à Rádio Comercial.

18 agosto 2013

Da vida das Dondocas (3)

 



 


Nesta altura já estava bastante inclinada a deixar o peru para outras núpcias, mas a gula foi mais forte que a canseira.



  • Fui colocando o peru no wok, utensílio maravilhoso que descobri há pouco tempo, sem qualquer gordura, só assim, e deixei fritar o peru, mexendo sempre, reservando numa tigela, à medida que estava pronto.

  • Deitei a marinada que sobrava e o molho acumulado no wok, para fervilhar um pouco

  • e estava despachado.

  • Fiz arroz branco

  • e salada de alface para acompanhar.


Chegava a hora de jantar e eu estava mais ou menos exausta, mas com muita vontade de experimentar as iguarias – fan-tás-tic-as.


 


Claro que todas estas actividades culinárias foram intervaladas com colagens, envelopes, carimbos e moradas, pilhas de louça para lavar e bodeguice para limpar. Penso que o próximo fim-de-semana será ocupado a jejuar, porque muitos iguais a este farão despertar a irrevogabilidade da decisão de me converter à religião da inactividade – para meditar, claro.


 


Fim

Da vida das dondocas (2)

 



 


Pois foi hoje:


 


Logo de manhã (lá para as 10 e meia, onze), para ficar mais de 3 horas no frio:



  • Fiz 6 chávenas de café

  • e misturei com 2 cálices de vinho do Porto tinto.

  • Separei 5 gemas das respectivas 5 claras,

  • bati as gemas com 50g de açúcar, durante bastante tempo, até ficar um creme esbranquiçado,

  • depois juntei-lhe o mascarpone aos bocadinhos, batendo sempre, devagarinho, até ficar tudo bem homogéneo.

  • A seguir bati as claras em castelo bem firme

  • e juntei-lhe 150g de açúcar, batendo sempre, até ficarem brancas, firmes  sedosas.

  • Incorporei, aos bocados, as claras no creme de mascarpone (com o rapa-tachos), até ficar tudo uma só massa

  • (provei o creme que estava uma delícia).

  • Embebi os palitos de la reine no café com Porto (ficaram um pouco molhados de mais, quase que se desfaziam),

  • coloquei-os, lado a lado, no fundo de um tabuleiro (12),

  • cobri-os com uma camada de creme,

  • outra fila de palitos de la reine embebidos em café (com Porto),

  • outra camada de creme

  • e, finalmente, cacau em pó a polvilhar.

  • Foi para o frigorífico de onde só saiu para ser comido.


As (2) postas de bacalhau esperava por mim. Lá teve que ser:



  • Retirei-lhe a pele e as espinhas e desfiei-o,

  • parti uma cebola às rodelas finas,

  • 3 dentes de alho, aos quais dei uma pancada para os esmagar levemente,

  • folhas de louro

  • e azeite num tacho, até ficar tudo mole.

  • Lavei e escaldei uns espinafres que lá tinha e juntei-os ao refogado

  • temperei com sal e pimenta;

  • depois de reduzir o líquido foi a vez do bacalhau desfiado

  • seguido de 2 ovos cozidos aos bocados.

  • Deixei apurar um pouco,

  • e pronto.


(continua)

Da vida das Dondocas (1)

 



 


No epílogo de um dia fim-de-semana em grande azáfama, como uma assumida e orgulhosa Dondoca deve ter (depois de ver a definição não me parece que se me aplique...), e depois de me debruçar sobre o inigualável mundo da vida de Lorenzo Carvalho, estendo as pernas para me inteirar das novidades agora publicitadas sobre a misteriosa morte da Princesa do Povo, vindas à luz pelas mãos (ou voz?) dos sogros de um militar britânico – os ínvios caminhos da verdade na vida dos famosos.


 


Dediquei, portanto, o fim-de-semana a tarefas burocráticas que tenho que cumprir (na minha faceta de secretária), a fazer as compras da semana, a cozinhar e a encher e esvaziar a máquina de lavar louça.


 


O empadão de carne com puré de legumes, apesar de visualmente pouco apelativo (enfim, estou a ser bastante suave, porque a cor castanha esverdeada não era nada convidativa), estava uma especialidade – a melhor maneira que inventei para despachar uma jardineira de carne que se eternizava no frigorífico e um resto de guisado de legumes, que nunca mais libertava o tacho:



  • carne e rodelas de chouriço a moer, com um pouco de leite, por um lado,

  • ervilhas, cenoura e guisado de legumes a moer por outro,

  • camada de puré de legumes, camada de carne moída, queijo mozarela ralado

  • camadas repetidas pela mesma ordem

  • e forno…

  • comeu-se quase tudo,

  • com gosto.


Isto foi ontem. Ainda preparei o prato que queria fazer para hoje à noite: peru marinado em iogurte e especiarias, ideia do MasterChef Australia (sim, eu não sou assim tão imaginativa):



  • bifes de peru (1 kg) cortados à tirinhas

  • numa grande taça (comigo as taças, tachos, etc., são sempre grandes) com 6 iogurtes naturais (magro, marca continente),

  • com as especiarias que encontrei – açafrão, caril, cominhos, alho e sal (não sei precisar as quantidades),

  • tudo dentro do frigorífico, para ganhar sabor.


Além disso tinha cozido umas postas de bacalhau, um bocado escangalhadas, para o jantar, mas como comemos o empadão, ficaram para hoje. Os iogurtes de cacau também ficaram na iogurteira, para a semana que vem.


 


Hoje de manhã, o tiramissú, sobremesa que ambicionava experimentar já há algum tempo mas que, primeiro porque não encontrava o queijo mascarpone (há no continente, em embalagens de 250g, na zona dos queijos), depois porque não sabia onde comprar os palitos de la reine (também no continente, junto à s bolachas), finalmente porque ainda não tinha procurado a receita (basta procurar no google), estava adiada para melhores dias.


 


(continua)


 

Dos excessos

 


Excessiva é a atenção que estamos a dar (este post é um exemplo) a uma entrevista que, como muitas outras, foi mal conduzida e revelou uma entrevistadora com falta de respeito pelos entrevistados de quem ela não gosta. Uns por motivos políticos, outros por provincianismo, preconceito, populismo e inveja.


 


Quantos cidadãos portugueses que auferem somas astronómicas neste país pobre, em crise e com desigualdades galopantes, futebolistas, empresários, administradores de grandes empresas, banqueiros, etc., que enchem a boca com os sacrifícios que os portugueses devem sofrer, sem fazerem ideia do que é viver com o que receitam, Judite de Sousa teve oportunidade de interpelar sobre a solidariedade e a obrigatoriedade da modéstia?


 


E se Judite de Sousa se entrevistasse a si própria, com o mesmo vigor que usou para Lorenzo Carvalho (de quem não sabia da existência até agora, e que foi magnânimo na resposta)?


 


Excessiva a incompetência, excessiva a falta de assunto.


 


Nota: Honra lhe seja feita.

Sob o signo da desigualdade

 


As várias decisões dos Magistrados sobre as candidaturas autárquicas mostra bem como os partidos políticos tudo fazem para a crescente judicialização da política. Além do imbróglio legal, que só terminará depois da intervenção do Tribunal Constitucional, em cima da data das eleições, a redacção da lei dá razão a quem se pronuncia sobre a iliteracia dos deputados, ou a consciente subversão do espírito da mesma - evitar que haja pessoas a eternizar-se no poder.


 


E depois muito se argumenta a propósito da descredibilização dos políticos.

17 agosto 2013

Dos rasgões na bolha

 


está. Estas bolhas de algodão têm rasgões que nos obrigam a contemplar os nichos do inferno, por muito que nos digam que não existe.


 


Passos Coelho e a maioria que nos governam podem avançar sem medo para todos os cortes que lhes apetecer. As notícias da redução da percentagem do desemprego e do crescimento económico, por conjunturais que sejam, alimentam o discurso de que, afinal, eles estão certos e os outros - leia-a a oposição - estão errados. Ou seja, vão continuar, embandeirando de peito feito as tão extraordinárias reformas estruturais, que ninguém percebe mas que resultam. Que se cuide o Tribunal Constitucional, que é um empecilho para as gloriosas medidas que nos vão salvar, quer queiramos quer não.


 


Como o PS não sabe o que fazer, não tem ideias e não consegue explicar que, embora estas notícias sejam positivas, nada no discurso governamental o é, o PSD arrisca-se a ter, nas autárquicas, uma derrota a saber a vitória, enquanto o PS terá uma vitória completamente desastrosa.


 


O que esperam os militantes do PS para substituir António José Seguro?


 

Dos sentimentos de uma burguesa

 



Beryl Cook


 


Há algumas semanas decidi mudar da TSF para a Rádio Comercial ao despertar, ver o mínimo possível de notícias, evitar ler jornais e, sobretudo, mudar o canal de tv quando aparecem os comentadores. Pareceu-me uma boa forma de me sentir em férias e de perceber como há um país que, apesar das dificuldades, consegue viver. As pessoas respiram e dormem, comem, melhor ou pior, casam-se, nascem e morrem, baptizam-se, apanham transportes, próprio ou públicos, oferecem-se prendas e carinho, riem-se bastante, vão à praia, enfim, apesar da crise, a vida continua.


 


Na continuidade deste espírito nada revolucionário descobri, ou melhor confirmei, a minha natureza irremediavelmente burguesa. Tudo em mim respira vontade de vida estável, poucos sobressaltos, casa limpa e arrumada, cozinha de conforto, como agora é moda dizer-se, feita pelo chef privativo, muito sossego, boa música, bons filmes, se possível brandos e bem dispostos, livros calmos, que disponham bem e que distraiam.


 


Até quando vou ao restaurante (a qualquer um, diga-se em abono da verdade, a única coisa que me importa é comer bem e a preços módicos), a minha natureza pouco tolerante vem rapidamente à superfície. Faz-me confusão a profusão de chinelas, havaianas ou outras, os calções de algodão mole amassados e esfiapados, as t-shirts de ginástica ou de alças a cair, a precisarem urgentemente de sabão, água e ferro de engomar, as calças com nódoas, as barrigas avantajadas à mostra, que as pessoas não se acanham de exibir, não porque não tenham dinheiro para outra indumentária mas porque estão à vontade.


 


Estar à vontade justifica a total falta de sentido estético e das proporções que se instalou na nossa sociedade. Ainda bem que não são necessários vestidos compridos nem disparates semelhantes para assistir a um espectáculo de ópera, mas será que é adequado ir almoçar de pijama? E as crianças, as tão amadas e endeusadas crianças, que ninguém controla quando guincham, correm pelo meio das mesas aos gritos, fazem birras e incomodam toda a gente? Será que não é importante que lhes seja mostrado que os outros, adultos ou não, têm o direito de estar em paz? Será que não é preciso que se lhes ensine a viver em comunidade?


 


Estar à vontade faz com que todos os infelizes comensais sejam obrigados a ouvir as conversas telefónicas com filhos, maridos, amantes, pais, mães, amigos, patrões, independentemente de ninguém ter nada a ver com a vida de quem assim enche os ouvidos dos outros, independentemente de ninguém querer saber da vida dos outros.


 


Estou, portanto, embrenhada na soberba da minha classe, sentindo-me numa bolha de algodão que ampara a amolece os desastres do mundo, imersa nos problemas filosóficos de moral e ética de Isabel Dalhousie, um esplendoroso exemplo da burguesia escocesa, mais precisamente de Edimburgo, e nas amáveis aventuras africanas de Precious Ramotswe, a orgulhosa dona da The Nº1 Ladie’s Detective Agency, da sua assistente Ma Makutsi, e do seu marido mecânico, Mr. J. L. B. Matekoni, o proprietário da Toklweng Road Speedy Motors.


 


Mas vai-se instalando a dúvida; interrogo-me se é agora que vivo alienada numa bolha irreal ou de algodão, ou se tenho vivido até agora numa outra bolha, real ou construída, mas sulfúrica.


 

10 agosto 2013

Beijo sem

 



Marisa Monte & Adriana Calcanhoto

(roubado à Irene Pimentel)

 


 


Eu não sou mais
Quem você
Deixou
Amor (de ver)


 


Vou a lapa
Decotada
Bebo todas (viro outras)
Beijo bem


 


Madrugada
Sou da lira
Manhãzinha
De ninguém
Noite alta
É meu dia
E a orgia
É meu bem


 


Eu não sou mais
Quem você
Deixou
Amor (de ver)

08 agosto 2013

Das reformas estruturais

 


O combate ao desemprego e o modelo económico que esta maioria defende para o país.


 


(...) Todos os escalões de rendimento contribuíram para a descida [dos postos de trabalho] exceto o dos salários líquidos inferiores a 310 euros, o qual registou um aumento de 5,2% (mais oito mil casos). (...)


 


Ver aqui.


Cheque ensino

 


Continua o governo a desmantelar os serviços públicos, agora o de educação. O estado vai financiar ainda mais o sector privado no ensino obrigatório. Enquanto nos entretemos com as patéticas e lamentáveis telenovelas de quem disse e de quem fez, em desmentidos e suspeições vergonhosas, vai-se concretizando a agenda ideológica desta maioria.


 


Onde está a posição do PS a esta medida? Que fazem os porta-vozes do maior partido da oposição em relação a esta revolução silenciosa, totalmente contrária ao que defendeu em governos anteriores?


 


Muita gente não entende bem o que faz Sócrates na sua prédica semanal, na RTP. Talvez o seu propósito seja simplesmente lembrar à população que o PS governou, defendendo os seus governos e defendendo-se a si próprio. António José Seguro esqueceu-se de 6 anos de história do PS. Que tente afirmar a sua liderança mostrando que é diferente, é natural, que nunca sequer refira o que de bom o PS fez nas anteriores legislaturas é significativo, dando uma imagem de um líder pouco recomendável.


 


As pessoas podem estar alheadas, revoltadas, cansadas, mas percebem a diferença entre aqueles que lutam pelas suas ideias e os que se escondem atrás de uma retórica vazia, esquecendo-se do passado para sobreviverem.


 

06 agosto 2013

Ruídos politicamente relevantes

 


Em relação à alegada negação de medicamentos inovadores por parte dos IPO, por motivos economicistas, convém que se esclareçam algumas coisas:



  1. A Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica (CNFT) foi criada com o objectivo de elaborar um Formulário Nacional de Medicamentos, actualizá-lo, elaborar normas de utilização dos medicamentos incluídos e promover a sua utilização no SNS.

  2. Dessa Comissão fazem parte, entre outros, Médicos e Farmacêuticos representantes de várias unidades hospitalares e um representante da Ordem dos Médicos - Dr. José Manuel Silva (o Bastonário).

  3. A dita Comissão já elaborou uma lista de medicamentos a serem utilizados no cancro da próstata da qual não consta o medicamento de que se fala (abiraterona), segundo um comunicado do Ministério da Saúde.

  4. Se, como diz o Bastonário, o medicamento tem eficácia comprovada e consta das guidelines internacionais, e das normas de orientação clínica da Ordem dos Médicos (as quais não se encontram disponíveis no site), porque não está na lista da CNFT (não a encontrei acessível na internet)?


Este é um assunto demasiado importante para que subsistam dúvidas. Uma coisa é a racionalização dos custos e a reorientação das prioridades, outra muito diferente é negar aos doentes a melhor, indicada e mais adequada terapêutica. Mas será de facto esse o caso?


 

Cismas

 


As fronteiras existem mesmo para ser ultrapassadas. Sejam vermelhas, amarelas ou incolores, não há palavras irrevogáveis nem limites distinguíveis. É tudo muito movediço.


 


É como as memórias traiçoeiras e atraiçoadas. Instabilidade política? A maior está precisamente dentro do governo. Sim, porque a oposição é mesmo só uma palavra, diariamente revogável.


 

04 agosto 2013

Meu amor, meu amor

 


 



Alain Oulman & Ary dos Santos


canta Amália Rodrigues


 


Meu amor meu amor


meu corpo em movimento


minha voz à procura


do seu próprio lamento.


 


Meu limão de amargura meu punhal a escrever


nós parámos o tempo não sabemos morrer


e nascemos nascemos


do nosso entristecer.


 


Meu amor meu amor


meu nó e sofrimento


minha mó de ternura


minha nau de tormento


 


este mar não tem cura este céu não tem ar


nós parámos o vento não sabemos nadar


e morremos morremos


devagar devagar.


 

Estrias

 



Number one


Jackson Pollock 


 


 


Acerto as cartas pelas estrias


papel engelhado de mil e umas tardes


esfregando olhos dedilhando raízes


desapego e paixão envelhecidas.


As marcas na madeira como escrita


de vidas sem história.


Aliso as mantas pelos dedos


que se multiplicam a uma velocidade


com que não desmancham os vícios da dor.


Livres como flores agrestes em ofertas de paz.


 

Decantar

 



Robert Malte Engelsmann 


 


Corto o cabelo em frente ao espelho


primeiro uma ponta uma sobrancelha


o despontar da orelha o nariz que se entorna.


Aparo e vou desgastando numa procura da simetria ideal.


Corto o espelho na ponta do nariz


uma sobrancelha a mais um cotovelo que se inclina


vou cortando o corpo na direcção que se destina


a mais abstracta pintura em que se mistura.


De aparas e segmentos desprezados recomponho a figura


a um canto que é mesmo nesse esconso desencanto


que me revejo


e me decanto.


 

03 agosto 2013

Dentro de casa / A gaiola dourada

 


Sempre que vou ao cinema prometo a mim própria que irei muito mais vezes, tal é o prazer de me sentar na sala escura e assistir às histórias que se desenrolam à minha frente. Misturo-me com as personagens e esqueço-me de mim. É uma realidade por vezes mais presente que a vida que arrastamos sem nos apercebermos de que se não repetirá nunca.


 


Dentro de casa, de François Ozon, e A gaiola dourada, de Ruben Alves, são dois excelentes filmes neste Agosto de temperatura pouco veranil. O primeiro, uma pequena perversa parábola sobre o espreitar pela janela, o desejo do que está para lá da nossa vivência, as emoções que roubamos. O segundo, uma ternurenta comédia e uma reflexão bem-disposta sobre a emigração portuguesa em França e a segunda geração.


 


 



Dentro de casa (Dan la maison)


 

 



A gaiola dourada (La cage dorée)


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...