29 junho 2010

A Escola Pública pode fazer a Diferença (I)


 


Na próxima quinta-feira, dia 1 de Julho, às 14h30, na Livraria ALMEDINA do Atrium Saldanha, Mário Soares apresentará o livro A Escola Pública pode fazer a Diferença, de Maria de Lurdes Rodrigues, a mulher que fez a diferença.


 


(...) É um livro que diz, algures na introdução de 50 páginas, isto: A acção é política tanto no patamar da decisão como no da execução. A crítica, o veto ou a resistência às políticas é também intervenção política. E isto: A ineficiência dos serviços públicos, a ausência de rigor na utilização dos recursos e a degradação da sua qualidade são um inimigo mortal do Estado Social e, no caso da educação, um inimigo mortal da escola pública. (...)


(Fernanda Câncio)


 


Não poderei estar presente para lhe demonstrar, pessoalmente, o meu apreço.


 

27 junho 2010

Um dia como os outros (63)

 



(...) Quando a ministra da Saúde pede aos médicos para avaliarem a situação económica dos doentes ao receitarem medicamentos link mais não faz do que assumir a sua incapacidade para defender o interesse público presa que está no medo e na incapacidade de decidir seja o que for. É vergonhoso para o PS, partido fundador do SNS, ver-se ultrapassado pela esquerda, pelo CDS na questão da prescrição por DCI perante os patéticos e insustentáveis argumentos ministeriais. (...)


 

Destruição do SNS - por dentro


 


A responsabilidade do desmantelamento iminente do SNS não é só dos últimos governos, nomeadamente dos dois últimos, pela saída de Correia de Campos que tentou reformar e tornar sustentável o sistema.


 


A responsabilidade é também de quem lá trabalha e de quem o usa, ou seja, de todos nós, cidadãos que são sempre exemplares quando se olham ao espelho, e vêm tantos defeitos em quem está ao seu lado.


 


As gerações mais novas foram criadas (educadas?) segundo o dogma da sua própria importância, originalidade, reforço do ego e competitividade. Tudo isto é indispensável e muito importante se contrabalançado com a responsabilização, autonomia e sentimento de existência em comunidade. Ou seja, a existência dos outros, como parceiros exactamente com os mesmos direitos, deveres, sonhos e ansiedades.


 


Particularmente na área dos profissionais de saúde, em que durante muitos anos (e continua) foi alimentado o mito do génio para entrar nos cursos de Medicina. Com a melhor das intenções as famílias investiram na preparação dos futuros médicos como se fossem atletas de alta competição. Consequentemente a entrada na tão almejada vaga constituía (e constitui) um carimbo de excelência. Infelizmente, pela distorção das fórmulas com que se calcula a entrada nos cursos (as notas do ensino secundário são necessariamente diferentes de escola para escola e não medem, de forma alguma, a competência para exercer a profissão), esse carimbo não corresponde à realidade.


 


As novas gerações de médicos são iguais às antigas gerações: há os bons e os maus, os interessados e os desinteressados, os ambiciosos e os humildes. No entanto, a sociedade e os tempos de hoje moldaram-nos e continuam a moldá-los numa visão diferente do que é o serviço público.


 


Para esta nova geração de médicos, que se auto avaliam como quadros superiores de alto nível, as suas remunerações e condições de trabalho devem ser iguais aquilo que sempre conheceram e que sempre lhes foi facultado – tudo lhes é devido, a tudo têm direito para que possam exercer a profissão  que, para eles, se limita à demonstração do saber específico de cada especialidade.


 


Ano a ano, com a escassez de médicos que existe e que, não esqueçamos, tem responsáveis políticos, o núcleo do sistema de saúde deixou de ser o doente e passou a ser o médico. Politica e economicamente foram esses os sinais enviados, tratando-se a saúde como fábricas de salsichas ou de componentes de computadores, introduziram a noção do mercado, da oferta e da procura, sem a percepção (ou com esse objectivo?) de que os bens que se transaccionam na saúde não são parecidos com o vestuário.


 


Neste momento não há qualquer cuidado, na maioria dos elementos mais novos, na continuidade de um serviço, na estruturação de uma escola de trabalho, na formação de um grupo coeso. Não há, com honrosas excepções, a noção de que o nosso trabalho é servir o doente. O trabalho é encarado quase como um favor que se faz, não uma obrigação, um factor de realização pessoal, uma dívida e uma contribuição para a sociedade.


 


Por isso, quando ouço falar do fim do SNS e as queixas dos muitos profissionais que têm tudo para serem excelentes elementos, para impulsionar a vontade e a força anímica dos mais velhos, que estão esgotados e precisam de ser motivados, precisam de ter a esperança de que o seu trabalho e esforço não foi em vão, embora considere justificadas muitas delas, pesam-me o coração e os membros num desalento enorme, porque o SNS está a ser destruído, mas também por dentro, por aqueles que dizem (e que têm obrigação de) defendê-lo a todo o custo.


 

26 junho 2010

Só vou gostar de quem gosta de mim






 


Canta Caetano Veloso


De hoje em diante eu vou modificar

O meu modo de vida

Naquele instante em que você partiu

Destruiu nosso amor

Agora não vou mais chorar

Cansei de esperar, de esperar enfim

E pra começar, eu só vou gostar

De quem gosta de mim



Não quero com isso dizer que o amor

Não é bom sentimento

A vida é tão bela quando a gente ama

E tem um amor

Por isso é que vou mudar

Não quero ficar

Chorando até ao fim

E pra não chorar

Eu só vou gostar de quem gosta de mim



Não vai ser fácil, eu bem sei

Eu já procurei, não encontrei meu bem

A vida é assim, eu falo por mim

Pois eu vivo sem ninguém




De hoje em diante eu vou modificar

O meu modo de vida

Naquele instante em que você partiu

Destruiu nosso amor

Agora não vou mais chorar

Cansei de esperar, de esperar enfim

E pra começar, eu só vou gostar

De quem gosta de mim


24 junho 2010

Mandriice

 


Em vez de eliminarem feriados nacionais (alguns, claro, entre os quais o 5 de Outubro, mas mantendo o da Padroeira do Reino de Portugal) e de transformarem o 25 de Abril num dia qualquer, tal como o 25 de Dezembro (na verdade o Natal e a liberdade são quando um homem quiser), sugeria às Deputadas Teresa Venda e Maria do Rosário Carneiro que substituíssem o sábado pela sexta-feira. Um dia de descanso semanal chega e sobra. Além disso já imaginaram a melhoria na produtividade? A crise não justificaria acabar de vez com as pausas laborais? Uma hora para almoço também me parece excessivo. Era até uma medida que permitiria reduzir o número de obesos - muito tempo à mesa aumenta a probabilidade de comer de mais.


 


E porque não acabar com tantos dias de férias? Uma semanita chegava e sobrava. Não sei como não se lembraram ainda de sugerir estas medidas a Bruxelas e aqueles notáveis que falam da economia dos países sem saberem nada deles. Realmente, que madraços somos todos em Portugal.

Um dia como os outros (62)



(...) Dito isto, e sem querer retomar os traços da trama alegadamente descoberta pelo senhor Carlos Santos, importa concluir que a mesma não constitui, desde logo, uma trama, que os factos relatados pelo senhor Carlos Santos nada contêm de ilícito (salvo no que se refere a eventuais actos do próprio) e que aquilo que neles conseguimos detectar diz  sobretudo respeito à aborrecida e inócua organização interna de um blogue de apoio a um partido e um programa políticos, a comunicações dos seus membros entre si e com terceiros (agentes políticos) e à coordenação geral de quem nele escreve (independentes, membros de gabinetes ministeriais e meros filiados no PS). Lamentavelmente (para o denunciante), não vislumbramos, por não existir, qualquer utilização abusiva de meios públicos (computadores; Internet), mas a mera utilização profissional (no caso dos agentes políticos) ou pessoal (no caso dos voluntários e demais filiados) dos mesmos. (...)




(...) Por certas tenho  duas coisas, que julgo partilhar com muitas e boas pessoas e que o senhor Carlos Santos faria bem em recordar (agradecido): que a minha direita despreza delatores, criaturas gelatinosas e pouco masculinas que tudo fazem e penhoram por um momento de fama ou calor humano; e que no mundo da política como eu o vejo e desejo, serão sempre bem vindos adversários políticos como o João Galamba e o Guilherme Oliveira Martins, mas não haverá, junto a mim e aos meus, espaço para entusiastas convertidos da filigrana do senhor Carlos Santos. (...)


 


(Via Da Literatura)

22 junho 2010

Sem destinatário


Jose Parla: Calligraphic Paintings


 


Pelo fundo do que somos restam árvores decepadas. Comemos vagarosamente como se o pensamento nos viesse da filosofia engolida em dias de esmero. Amamos distraidamente sacudindo vestígios da entrega daquele despudor do sentir sem regras nem tempo de suspensão real. Nada como a realidade da percepção que temos da vida sonhada ou vivida. Nossa vida pobre de carne desse calor de gozo dessa quentura de beijo de dor de tanto se gostar.


 


Pelo fundo somos restos mãos pedras livros ou cartas secretas sem destinatário.

Inexistência



Ramos quebrados raízes fundas tudo


arranquei e juntei e cavei buracos


individuais indefesos numa cerca levantada


em muro.


 


Rodeiam-me as sombras geladas das raízes sem vida


com que fui ganhando a minha própria


inexistência.

18 junho 2010

Saramago


José Saramago foi um escritor de excepção, tanto quanto conseguimos, dentro das nossas limitações, incongruências e ignorâncias, avaliar a genialidade na literatura. Não só escrevia excepcionalmente bem como escrevia sobre temas relevantes e compunha personagens inesquecíveis.


 


O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), o livro de todas as polémicas, é dos melhores livros que lhe li. Há muitos escritores de língua portuguesa que mereceriam o prémio Nobel, mas isso não retira valor a Saramago. A inclusão dos seus textos nos livros escolares e o estudo da sua obra é natural. O facto de terem deixado de fora outros escritores não o responsabiliza e não o deslustra, tal como não deslustra quem foi esquecido. Apenas demonstra o pouco cuidado de quem participa na elaboração dos currículos escolares.


 


A obra de José Saramago internacionalizou-se e globalizou-se, fazendo muito mais pela língua portuguesa do que décadas de diplomatas encartados.


 


Como homem político, a outra faceta que conheci de Saramago, não podia estar mais em desacordo, sendo-me antipática a sua figura e o que ela representava, a sua ideologia, a sua vaidade e a sua arrogante certeza de ser detentor da verdade. Mas não é preciso admirar o homem para admirar a sua obra. E a sua foi e é admirável.

16 junho 2010

Náusea

 


Há alturas em que, mais do que o bom senso que nos aconselha a não dar atenção a vermes, está a impotência de quem se vê enxovalhado por manifestar livremente as suas opiniões. Neste momento a publicação de correspondência privada passou a ser aplaudida como um acto de limpeza moral da corrupção suspeitada de tudo e de todos. A blogosfera rejubila com a maledicência e as tentativas de assassinato de carácter de todos quantos se aproximaram ou aproximam das posições do PS ou do governo, alimentando-se da ignomínia duma criatura desprezível.


 


 


A noção que tenho de que é inútil protestar é claríssima. Mas não deixo de dizer, quando o estômago já não suporta tanta náusea, que a calúnia é a arma dos fracos e dos cobardes e que subscrevo a indignação do Eduardo, do Valupi e dos que se incomodam com os inacreditáveis enredos da delirante personagem.

14 junho 2010

Nem pensem que me enganam


Então e o Quenervos não era o Eprecisoetercalma que comentava os posts do Estoucheiodecalma no blogue daquele grupo de apoio ao... hummm... aaa... Primeiro?


 


E não era também primo do tio da cunhada da ex-mulher da namorada do sobrinho do fundador do masqueascoqueistoe.belogue.come, onde se comentavam uns aos outros e usavam aqueles documentos e emails sigilosamente guardados como SPAM?


 


A verdade é que nunca vi o Quenervos mas tenho a certeza de que o Estoucheiodecalma era nada mais nada menos que Porestaequeeunaoesperava, aquela estranha criatura com gostos pouco recomendáveis, e que foi convidada pelo jornalista vendido ao companheiro que tinha sido comprado pela promessa do convite da assessora daquele cargo importantíssimo de abrir a porta ao secretário do ajudante do nosso, aaaa... hummmm... Chefe.


 


Mas posso provar, até porque guardei os guardanapos lambuzados onde estava escrevinhado o plano para comprar a casa do pai do contínuo do prédio ao lado da rua onde passava o....esse mesmo, que alguém me aliciou para despejar o caixote do lixo do blogue masqueascoqueistoe.belogue.come. Mas eu preveni-me e fechei o blogue. Mas gravei os comentários e sei que o Aiquenojo também assina Estoufartadisto e ainda como Estatudodoido.


 


Mas eu guardei. Tudo. Depois apaguei. Tudo. Nem pensem que me enganam.


 


(Quem avisa amigo é)

À deriva (2)

Afinal quais foram as razões que levaram a ARSLVT a decidir o encerramento das urgências pediátricas no período nocturno, entre 15 de Junho e 15 de Setembro, nos Centros Hospitalares Barreiro-Montijo e de Setúbal?


 


Segundo o Portal da Saúde, no dia 9 deste mês, para além da escassez dos profissionais:


 


(...) Tendo em conta que o movimento assistencial registado habitualmente quer no Centro Hospitalar Barreiro-Montijo, quer no Centro Hospitalar de Setúbal, no período das 0 às 9 horas, é em média de 8 crianças, com episódios de gravidade ligeira a moderada e que raramente geram internamento, o Hospital Garcia da Orta reúne as condições necessárias para assegurar resposta a todas as necessidades de assistência médica diferenciada. Esta instituição encontra-se a cerca de 40 km de distância, percurso que, em auto-estrada, pode ser efectuado em 30 minutos. (...)


 


Mas então, quais foram as razões que levaram a ARSLVT a recuar na sua decisão? Segundo o Público de hoje:


 


(...) Verificando-se que o Centro Hospitalar de Setúbal e o Centro Hospitalar de Montijo-Barreiro estão em condições de assegurar as escalas de pediatras, garantindo o normal funcionamento da Urgência Pediátrica, a ARSLVT não vê, neste momento, a necessidade de reorganizar o horário das urgências pediátricas no período do Verão, mantendo-se assim os serviços de Pediatria em funcionamento ao longo das 24 horas do dia (...)


 


(...) A ARSLVT gostaria de agradecer publicamente aos profissionais de saúde dos serviços em questão a disponibilidade para assegurarem o normal funcionamento dos serviços no período do verão, evitando assim incómodos para os utentes (...)


 


O que mudou nestes últimos 5 dias? Aumentou muito o número de crianças atendidas durante a noite? Aumentou muito a gravidade das situações de urgência? Aumentou muito o número de Pediatras nos Hospitais? Os Pediatras desistiram das férias?


 


Se não foi devidamente explicada a primeira decisão, pior foi a segunda. Este tipo de ziguezagues só aumenta a desconfiança dos profissionais e das populações. Onde está a racionalização dos serviços, a preocupação com a qualidade dos cuidados prestados? Onde está a política de saúde deste governo?


 

Em ponto miúdo

 


No próximo dia 19, sábado, há um excelente local para passar a noite, com o brinde de se ouvir poesia e se conhecer uma mulher excepcional.


 


 



 


Palacete dos Viscondes de Balsemão, Porto


 

12 junho 2010

Gentilezas


Craig Ficher: White painting


 


Com gentilezas destas até o


 





  fica mais redondo...


 


de orgulho.


 

J'attendrai







 





Django Reinhardt & Quintet of The Hot Club of France




J'attendrai le jour et la nuit
J'attendrai toujours ton retour
J'attendrai car l'oiseau qui s'enfuit
vient chercher l'oubli dans son nid
Le temps passait court en battant tristement
dans mon coeur si lourd
Et pourtant j'attendrai ton retour
J'attendrai le jour et la nuit
J'attendrai toujours ton retour
J'attendrai car l'oiseau qui s'enfuit
vient chercher l'oubli dans son nid
Le temps passait court en battant tristement
dans mon coeur si lourd
Et pourtant j'attendrai ton retour
Le vent m'apporte de bruits lointains
Guettant ma porte j'écoute en vain
Hélas, plus rien plus rien ne vient
J'attendrai le jour et la nuit
J'attendrai toujours ton retour
J'attendrai car l'oiseau qui s'enfuit
vient chercher l'oubli dans son nid
Le temps passait court en battant tristement
dans mon coeur si lourd
Et pourtant j'attendrai ton retour
Et pourtant j'attendrai ton retour
Le temps passait court en battant tristement
dans mon coeur si lourd
Et pourtant j'attendrai ton retour

À deriva (1)

 


Sem qualquer explicação, prévia ou adicional, da ARSLVT ou do Ministério da Saúde, tivemos todos conhecimento da decisão do encerramento das urgências pediátricas nos Hospitais Distritais de Setúbal (HDS) e do Barreiro (HDB), no período nocturno entre 15 de Junho e 15 de Setembro.


 


Sou totalmente favorável à racionalização dos escassos recursos existentes na saúde, nomeadamente em recursos humanos. Se não há número suficiente de Pediatras e de Neonatalogistas que assegurem uma assistência de qualidade nesses hospitais e/ou se o número de casos não justifica a existência de equipas de urgência nesses hospitais, parece-me até muito bem que sejam concentradas as urgências num único hospital, neste caso o Hospital Garcia de Orta (HGO), desde que os médicos que trabalham nos HDS e HDB cumpram as suas horas em serviço de urgência no HGO, reforçando as equipas que aí trabalham. Noutros países, como França, as urgências gerais na cidade de Paris estão concentradas, formando-se equipas com os profissionais de todos os hospitais. É óbvio que, para que isto seja viável, têm que ser acautelados os transportes em ambulâncias devidamente equipadas, não só em meios técnicos como humanos.


 


Mas alguém percebeu de facto o que se está a passar? Esta é uma medida que serve apenas para o período de Verão ou será permanente? O número de casos é diminuto só em época de Verão? Há número suficiente de profissionais nos restantes meses do ano? Estas medidas inserem-se nalgum plano geral ou são conjunturais e pontuais? Será que a ARSLVT e o Ministério da Saúde não consideram esta alteração na organização dos serviços prestados à população suficientemente importante para virem esclarecer e acalmar as populações?


 


E esta medida serve apenas para as urgências pediátricas da margem sul? E as da margem norte? E para os serviços de urgência de adultos, não se justificariam medidas semelhantes?


 


Afinal, que orientações políticas existem no Ministério da Saúde? Só a pandemia de gripe A justificava comunicados contínuos e permanentes conferências de imprensa?

Os próximos episódios

 


Ainda não chegou ao fim, nem nunca chegará, a história do negócio da PT/TVI. Mas o objectivo que Pacheco Pereira tanto perseguiu foi atingido, ou seja, a certeza de que têm que ser divulgadas as escutas para que se faça luz sobre o assunto.


 


Tudo é lamentável, desde a forma como tudo começou, até à permanência de uma personagem como Ricardo Rodrigues em representação do PS, as ameaças de Pacheco Pereira e as certezas antecipadas de João Semedo.


 


Ninguém sai prestigiado deste episódio, mas quem mais danificado ficou foi o próprio Parlamento.


 

11 junho 2010

Situação insustentável


Cavaco Silva, pelo contrário, fez uma intervenção que, para quem tivesse recuperado de um coma de 25 anos, pensaria que o Presidente que nunca tinha assumido responsabilidades políticas no país, nomeadamente a chefia de governos apoiados por duas maiorias absolutas consecutivas.


 


Cavaco Silva fez, mais uma vez, o discurso das glórias passadas dos valorosos portugueses, aproveitando, também mais uma vez, para criticar o governo, falando da situação insustentável a que chegámos, da justiça na distribuição dos sacrifícios, da retórica da desgraça a que não estamos condenados, a não ser que sejamos coesos e não baixemos os braços. Foi um discurso lúgubre, paupérrimo, ultrapassado, sem rasgo nem entusiasmo.

Veteranos


 


Não acompanho as críticas feitas a António Barreto pelo discurso que proferiu nas cerimónias de ontem. Pelo contrário, penso que foi um discurso corajoso e justo e que há muito já deveria ter sido feito.


 


As Forças Armadas e os seus militares estão subordinados ao poder político. É a este que se devem pedir responsabilidades pelo envolvimento das Forças Armadas nos vários teatros de guerra. Os regimes e as motivações são diferentes mas o dever dos militares é sempre o mesmo. A eles o povo deve respeito e reconhecimento pela sua função, pela sua dedicação, pelo sacrifício da própria vida.


 


Os comportamentos desviantes e os crimes de guerra deverão ser como tal olhados e resolvidos. Não se podem julgar os militares pelos crimes que alguns cometeram. Mas não é disso que trata a homenagem que todos nós, como colectivo, devemos aos veteranos. É mais uma ferida que deve ser curada, distinguindo o patriotismo de ideologia, a determinação de fanatismo, o cumprimento de um dever de obediência acéfala.


 


Sou familiar de militar e talvez por isso este assunto me toque mais profundamente. Mas a memória mais antiga que tenho do 10 de Junho é a cerimónia de entrega de medalhas e condecorações aos militares, muitos a título póstumo. Não me esquecerei nunca dos pais, das mulheres, dos filhos, das lágrimas deles e das que via em casa, da sensação de que, amanhã, a dor poderia estar mais perto. Estes militares serviram o país, não um qualquer regime político. Assim como o fazem agora na Bósnia, em Timor ou noutro qualquer local para o qual sejam chamados. Foram também os militares que, mais uma vez arriscando tudo, devolveram ao povo a soberania.


 


Nota 1: Ler Os ex-combatentes, por Daniel Oliveira, no Arrastão.


Nota 2: Ler 10 de Junho; Portugal e os Militares, por Alexander Ellis, via Mainstreet.


 

10 junho 2010

Um dia como os outros (59)





Depois de "o Estado sou eu", JPP acrescenta: "a Lei sou eu", "a democracia sou eu". E por aí adiante.

Eu não existo sem você

 










Tom Jobim & Vinicius de Morais


cantam Leila Pinheiro & Rui Veloso


 


Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham prá você


 


Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você

Pátria


Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O que será que significa para quem proferiu os discursos solenes, para quem condecorou personalidades, para quem repetiu muitas vezes a palavra pátria?


 


Ninguém é dono das palavras, muito menos do que elas significam. Portugal e patriotismo não são ferretes nem emblemas, bandeiras desfraldadas para ferir. Portugal é uma mescla de sons e de cores, de sentimentos e de poesia, muita, verde, amarela ou castanha, de olhos azuis ou negros, de cabelos ruivos ou de carapinha.


 


Onde estão aqueles que de Portugal fizeram pátria, quem homenageou os imigrantes, os novos cultores da língua, os pais e mães de novos filhos, os que misturam e e fazem evoluir o canto, a melodia, a significado de ser português?


 


Vivemos em Portugal, com as nossas vitórias e as nossas misérias, com uma bipolaridade singular, que nos entristece e nos impulsiona para mais longe. Portugueses somos todos os que ainda não desistimos dele e de nós. Somos todos que o queremos ser, sem paternalismos nem novos moralistas.


 

Em favor do ensino da História


 


Ainda a propósito das tentativas de apagamento da História e de silenciamento de projectos e opiniões livres, divulgo uma petição de que tive conhecimento através da caixa de comentários do meu último post (Olga Magalhães):


 


(...) Quando encaradas de forma objectivante, as disciplinas de história podem, igualmente, contribuir para a formação e a consolidação de uma consciência social aberta, democrática e participativa. Fazem-no contextualizando fenómenos complexos; viabilizando posturas menos alienantes face às problemáticas da multiculturalidade e das identidades (locais, regionais, nacionais e globais; sexuais e etárias, socioeconómicas e socioculturais, político-ideológicas e étnico-religiosas); treinando-nos para lidar com as diferenças e as semelhanças, as mudanças e as permanências, a cooperação e a conflitualidade, as situações de crise ou estagnação e de progresso; tornando conjecturável o relacionamento entre o passado, o presente e eventuais cenários futuros. (...)


 


Petição Em favor do ensino da História - não apaguem a memória.


 

08 junho 2010

Buracos negros


 


Gostaria que me explicassem como é que se recriam episódios da história recente de Portugal, nomeadamente dos últimos 100 anos, esquecendo a existência do Estado Novo e das organizações que o integraram.


 


Gostaria de entender qual é o problema de um agrupamento de escolas de Aveiro decidir comemorar o centenário da República teatralizando vários episódios, inclusive a forma como se vestiam as crianças da Mocidade Portuguesa, realidade que mais de três décadas de crianças viveram obrigatoriamente (1936 a 1971 – correspondendo a 35% desses 100 anos).


 


Infelizmente durante os anos da Mocidade Portuguesa o poder político instrumentalizou o conhecimento da História de Portugal, esquecendo uns episódios e enaltecendo outros, distorcendo a informação que era veiculada nas escolas, nos livros, nos discursos, nos teatros, em todas as manifestações sociais e culturais.


 


Tantos anos após o 25 de Abril ainda há quem tenha dificuldade em lidar com o próprio passado. Em democracia e em liberdade não podem existir buracos negros. Apelidar de fascistas os professores que organizaram os eventos e que estimularam os seus alunos a estudar e a preparar essas comemorações é, antes de mais, um exercício inaceitável de censura.

06 junho 2010

Sem desculpas

 


É claro que o esforço de Sócrates e do governo em diversificar as hipóteses de trocas comerciais com países de África e da América só pode ser a demonstração de que temos um caixeiro-viajante como Primeiro-ministro (O turismo de Sócrates - Vasco Pulido Valente).


 


Assim como a decisão de fechar escolas com menos de 21 alunos só se compreende na lógica puramente economicista do Ministério da Educação, cujo objectivo nunca será dar maior e melhor oferta escolar, melhores condições físicas e de aprendizagem, com a ajuda das autarquias nos transportes e na alimentação. No tempo das Professoras Clotildes é que se aprendia e em escolas bem apetrechadas, que servem muito bem para os dias de hoje. Não eram precisos aquecimentos no Inverno nem ares condicionados no Verão, pavilhões de desportos, computadores, impressoras, internet, acessos para deficientes físicos, preocupações ambientais e de redução de custos, os tais custos que a oposição reclama que devem ser reduzidos mas que quando o governo o tenta é sempre inadmissível.


 


Tão inadmissível como o execrável facilitismo de permitir que alunos com idades superiores a 15 anos, se reprovarem no 8º ano, possam propor-se a exame nacional de Português e Matemática do 9º ano, o mesmo que todos os alunos do 9º ano terão que ultrapassar, e caso consigam passar nesses exames e nas provas das outras disciplinas, se permita a passagem para o 10º ano. Facilitismo e inaceitável desigualdade de oportunidades para as crianças.


 


Tal como a alteração do regime de comparticipação nos medicamentos, em que o Estado incentiva fortemente a utilização de genéricos, acautelando a comparticipação de 100% no regime especial para pensionistas. Está obviamente errado, não se sabe exactamente porquê, mas está errado.


 


Não nos podemos esquecer dos crimes contra a saúde pública e individual que foi o fecho de maternidades e dos SAP por esse país fora, que levou à demissão de Correia de Campos, aquele que estudou a reorganização dos serviços de urgência, que tentou a sustentabilidade financeira do SNS. aquele destruidor do SNS, que agora é que está a salvo da ruína, preparado para ser desmantelado.


 

Discurso directo


 


Li com muita atenção a entrevista de Fernando Nobre ao DN e ouvi a mesma entrevista na TSF.


 


Mantenho as minhas dúvidas. Apesar de ser verdade que os actos falam pelo seu posicionamento político, que as suas ideias se podem situar na área do centro-esquerda, tenho sempre alguma desconfiança de quem se apresenta contra o sistema.


 


Por um lado eu entendo, e é verdade, que Fernando Nobre não tem responsabilidades na governação do país e que, portanto, pode apresentar-se como uma pessoa que vem de novo, de fora do bloco central de interesses, como cidadão suprapartidário movido por imperativos de cidadania. Neste aspecto tem enormes semelhanças com a primeira candidatura presidencial de Manuel Alegre, apoiada por um movimento de cidadãos, independentemente dos partidos a que pertenciam. Com a vantagem de Fernando Nobre ser, de facto, alguém que vem da sociedade civil e não das estruturas partidárias.


 


Por outro lado o sistema de que Fernando Nobre fala é o regime democrático. Os partidos políticos não podem ser encarados como um mal menor da democracia, sob pena de começarmos a pensar que são descartáveis. Tenho sempre muita desconfiança no discurso populista de quem se encontra virginalmente fora do combate político.


 


No geral penso que foi uma boa entrevista. Gostei de ouvir Fernando Nobre falar das suas diferentes opções das alterações fiscais, da sua preocupação expressa pelos mais desfavorecidos, da sua defesa do estado social e da necessidade de uma melhor e maior regulação financeira, assim com as críticas a Manuel Alegre e a Cavaco Silva. Não sei é se o cargo para que se candidata lhe dá possibilidade de ser um interventor activo sem que interfira na governação, que lhe está obviamente vedada.


 

Ruído


O ruído está a tornar-se uma constante em todo o lado.


 


Nos cafés ouvem-se as vozes estridentes das donas de casa que contam as dores nas costas, os almoços de galinha de cabidela e a má educação dos netos para todos os comensais desprevenidos, que tentam, no seu canto, saborear a meia torrada e passar os olhos pelo jornal.


 


Entram crianças pequenas que gritam desenfreadamente sem que os queridos papás e mamãs os façam calar. Instalou-se na sociedade a noção de que as crianças não podem ser contrariadas, pelo que pulula a selvajaria e a prepotência dos pequenos ditadores, com o embasbacamento dos adultos demitidos das suas funções.


 


Os adolescentes e jovens adultos usam algumas palavras-chave para comunicarem, para além de alguns sons ininteligíveis, mas sempre a um volume exageradíssimo, talvez porque têm os orifícios auriculares ocluídos pelos auscultadores de um qualquer acessório musical.


 


Os ajuntamentos de claques futebolísticas, agora com a iminência do mundial de futebol, estão inundados daquelas horrorosas e ensurdecedoras imitações de instrumento musical, com um som absolutamente assustador.


 


Ainda não percebi se a quantidade de ruído serve para não ouvirmos os nossos próprios pensamentos, por depressivos, ou para não nos deprimirmos pela total ausência de pensamento. Qualquer das hipóteses é deprimente.

05 junho 2010

Migalhas



Coleccionei pedras como migalhas


que desenredassem labirintos


circulares, caminhos escarpados.


Desapareceram, não nos bicos dos pássaros


mas nas profundas asas do tempo.

My old flame

 


Quase de certeza.


 














 

Charlie Parker, Miles Davis, Duke Jordan, Tommy Potter, Max Roach


Nostalgia

 Pois até talvez.


 














Igor Butman


Quietude


Edward Hopper
Morning Sun


 


Nestes dias em que a pacatez do sol atrasa


espreguiçando pelo primeiro café


chego a uma realidade de sonhos invisíveis


silenciosos estupidamente proibidos


que saboreio demoradamente


na quietude matinal.

04 junho 2010

Fronteiras


 


Há uns dias li um livro que me deixou muito desconfortável. Não pelo que lá conta, que não é novidade, mas pela estranha semelhança que algumas características da sociedade retratada começa a ter com a nossa.


 


Miguel Pinto continua a história de Carlos Dominguez, um cirurgião cubano perseguido e preso pela polícia política do seu país por delito de opinião. A Fronteira mais Longínqua é protagonizada pelos informadores e desinformadores, espiões e contra-espiões, gente com medo e que suspeita do seu amigo, do seu parceiro, que não se sente seguro quando escreve, quando conversa, quando telefona. Carlos Dominguez só tem um desejo: fugir de Cuba. O livro lê-se de uma assentada, como se fosse de aventuras.


 


Em Portugal, no momento presente, começa a considerar-se normal falar em tom ameaçador dos emails que se trocaram, julgam-se e insultam-se pessoas pelo simples facto de defenderem o governo, o PS ou o Primeiro-ministro Sócrates, levantam-se suspeitas com base em conversas telefónicas, em algo que alguém comentou, que se ouviu na mesa do lado, em sms.


 


É vergonhoso como se tenta condicionar a livre expressão da opinião usando meios imorais, para depois invocar o interesse nacional, a honorabilidade, a defesa da honestidade e a denúncia dos corruptos.


 


Estamos a viver tempos perigosos. Não se olha a meios para atingir os fins. E os fins, mesmo que mascarados de nobreza de carácter, são apenas as razões dos que não sabem ou não são capazes de se respeitarem e de respeitarem a liberdade dos outros.

03 junho 2010

Sozinho











Caetano Veloso


 


Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus desejos e planos secretos
Só abro pra você, mais ninguém

Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela de repente me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Nódoa de petróleo


 


Esta difusa e subterrânea ladainha que tudo vale a favor da pátria começa a corroer a liberdade com que avaliamos e debatemos as várias opções políticas, económicas e culturais. A Constituição não pode servir de escudo intransponível para umas coisas e de papel datado e descartável para outras.


 


As alterações fiscais, por muito prementes e inadiáveis que sejam, têm que ser tecnicamente bem feitas e por gente competente. Não é aceitável um Ministro desculpar-se com o os rigores da crise, pelo atropelo Constitucional.


 


Na verdade, a percepção de que a vida portuguesa se passa em áreas estanques e não miscíveis é cada vez mais aguda. Ao ouvir e ler repetidamente que há enormes buracos orçamentais no SNS perante a apatia e a falta de rasgo dos responsáveis governativos que, com o seu silêncio e incapacidade, fazem coro com os que, devagar devagarinho, vão incutindo na população a óbvia impossibilidade de pagar o estado social; ao assistir às escassas camadas de população que nem sequer põem a hipótese de ter os seus filhos a estudar no ensino público, como se este fosse feito para as classes sociais mais desfavorecidas, filhos de servos que serão servos, sinto alastrar uma nódoa de petróleo de inexorável perda de liberdade, do regresso do autoritarismo, da aristocracia dos eternos poderosos.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...