Para alguém que gosta muito de guitarra... esta é com bandolim.
Antonio Vivaldi - Concerto em Dó Maior (RV 425)
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Para alguém que gosta muito de guitarra... esta é com bandolim.
Antonio Vivaldi - Concerto em Dó Maior (RV 425)
Há algo que me desconforta em toda esta Obamania, em toda esta encenação de novo Messias.
Não há homens providenciais, muito menos que se sintam imbuídos de uma missão divina, jurando a Constituição sobre a Bíblia, so help me God.
Esperemos que Obama cumpra, com a sua equipa, aquilo em que acredita, com as fraquezas e as forças de uma pessoa que se propõe realizar uma tarefa bem difícil. Se não, a seguir a alguém que falava com Deus temos um enviado de Deus, so help us God.
Depois de tantos comentários ao meu post anterior a defenderem Pedro da Silva Pereira na entrevista com Mário Crespo, suspeitei que me podia ter escapado alguma coisa.
Como gosto de me considerar uma criatura aberta às opiniões alheias e que não gosta de se sentir a cometer injustiças, além do preconceito que tenho contra o mesmo Mário Crespo (que fala duma forma enroladíssima, usando palavra esdrúxulas e desajustadas, que não pergunta, antes afirma, se conseguirmos compreender o que diz) e Pedro da Silva Pereira (que fala com um tom monocórdio e assume sempre um ar didáctico e de superioridade moral bastas vezes irritante), resolvi ouvir de novo a entrevista.
Realmente os comentadores têm razão. A entrevista não se destinava a esclarecer coisa nenhuma. O objectivo de Mário Crespo era (pelo menos disfarçou muito bem) entalar o Primeiro-Ministro e, na passada, abalroar Pedro da Silva Pereira.
Mário Crespo foi duro, como lhe compete, inquisidor, como lhe compete, defendendo uma posição, como não lhe compete, mostrando sem margem para a sua dúvida e a sua avalizada opinião que Sócrates recebeu luvas para autorizar o empreendimento Freeport.
De facto Pedro da Silva Pereira não lhe facilitou a vida pois desmontou uma por uma as várias teorias e certezas que têm sido veiculadas pela comunicação social. E Mário Crespo não conseguiu desmenti-lo em nada. A única vez em que o desarranjou foi quando perguntou se o ambiente daquele governo era propício à corrupção.
Embora agora compreenda o desalinho de Pedro da Silva Pereira, penso que fez mal em não ter mantido o mesmo registo (parafraseando Mário Crespo) nem a excelência dos argumentos (continuando a citar Mário Crespo). Mais uma vez o tom de ofensa soou a exagero e, por isso, contraproducente. Por muito insultuosa que fosse a pergunta ele deveria ter respondido, não se pondo de parte, como que a sentir nojo daquele assunto. A corrupção existe nas várias áreas de actividade política, económica e social e, independentemente das atoardas de Mário Crespo (agora cito Pedro da Silva Pereira), tantos tios, primos e primas parecem-me família a mais, para mal dos pecados de Sócrates. Ficaria melhor e mais genuíno que lhe respondesse que o ambiente talvez seja mais propício à corrupção no jornalismo, ou coisa semelhante.
Portanto aqui ficam as minhas desculpas públicas a Pedro da Silva Pereira, que foi claro e cilindrou Mário Crespo, com excepção daquela nota dissonante.
Mas continuo a não perceber como é que se aprovam empreendimentos deste tipo em governos de gestão. A explicação de Pedro da Silva Pereira não me satisfez. Não é ético nem sensato.
Espero ter respondido cabalmente aos comentários que muito agradeço (a excelência dos conteúdos…).
Francisco Louçã tem razão. Um governo de gestão nunca deveria aprovar projectos e empreendimentos do tipo de Freeport. Não sei se as leis devem ou não ser alteradas, mas são questões de ética e de senso político que os governos e os primeiros-ministros tendem a desconhecer.
Francisco Louçã também tem razão no que diz respeito aos paraísos fiscais, que facilitam lavagem de dinheiro e fuga aos impostos.
Pedro Silva Pereira fez uma triste figura ao responder a Mário Crespo que a pergunta que dele era insultusa. Sendo assim, nunca deveria ter aceite ser entrevistado. O problema não são as perguntas e as investigações jornalísticas. É o que se lhes segue, ou mais precisamente, o que se lhes não segue.
Um amigo desconhecido mas atento, a quem muito agradeço, informou-me que Manuel d'Oliveira estará na Fábrica do Braço de Prata a 13 de Fevereiro.
Não percam. Eu certamente não o farei.
(Nicolinas)
Mais uma vez se prova o que de mais terrível e banal existe na nossa democracia: a ineficácia da justiça, o sentimento de impunidade de todos, o arrastar de lama para cima de quem fica dado como suspeito pela opinião pública, nunca se provando se de facto é culpado ou inocente.
Para mim a justiça não tem uma agenda política. Pura e simplesmente não tem agenda. Arrasta-se penosamente, de vez em quando mostrando fôlego de montanha que inexoravelmente acaba com sopro de rato.
Mas eu não acredito nas coincidências das agendas jornalísticas, das fugas de informação e das manchetes mediáticas que têm óbvios objectivos políticos.
Se há corrupção no caso Freeport, como nos outros casos todos do futebol, das facturas falsas, do bancos, das empresas camarárias, das imobiliárias, tenham eles responsabilidades políticas, empresariais ou não, devem ser acusados, julgados e condenados. Mas que o façam, de uma vez por todas, que nos seja devolvida alguma confiança neste sistema ineficaz e irreformável.
Se não todos nós estamos sujeitos a ser acusados na praça pública, com nobres ou reles intenções e nunca mais, por muito que tentemos, seremos capazes de lavar a nódoa da suspeita.
(Goya: o sono da razão)
Canso o corpo nos dedos
alugo almas medos
sorvo ar
até acabar.
Repito o abrir
e o fechar
sem portas
por onde entrar.
Canso o medo neste corpo
dedos e alma alugados
até acabar.
Comecei este blogue no dia 5 de Novembro de 2005. Respondendo ao meu próprio desafio fui ver que notícias agitavam o país nesse dia, independentemente da que me incitou a iniciar o blogue – o anúncio da candidatura presidencial de Manuel Alegre.
Ao consultar o DN online desse dia cheguei à conclusão que se debatiam quase os mesmos assuntos que hoje se debatem.
Destaco algumas:
Já nesta altura se falava de facilitação de crédito, do aumento do crédito ao consumo, enfim, daquilo que agora afoga as famílias e o país. Durante estes 3 anos só piorámos e a tal bolha do crédito imobiliário não parou de subir.
A panaceia para a redução dos lucros de uma empresa dizimava mais 1000 postos de trabalho. Mas ninguém se espantava, todos achavam que o Mercado é que sabia.
Em Novembro de 2005 era José Sócrates a conter o ímpeto do investimento público em obras megalómanas do governo anterior, que queria que a primeira ligação feita por TGV estivesse pronta em 2009.
Os confrontos nos bairros periféricos de Paris, autêntica guerra urbana, foram justificados pelas palavras incendiárias do então Ministro do Interior, hoje Presidente da República Francesa, na altura violentamente atacado politicamente. Já se seguiram os confrontos urbanos na Grécia e provavelmente seguir-se-ão confrontos noutras cidades, em que tentaremos encontrar justificações e culpados.
Será que passaram mesmo 3 anos e que estamos numa crise sem precedentes? É que parece que a crise, para nós, é ininterrupta.
Antonio Vivaldi - As Quatro Estações - Inverno - "Allegro"
Europa Galante - Maestro Fabio Biondi
Fui desafiada por duas pessoas, que muito prezo e de quem muito gosto, para continuar uma cadeia blogosférica, sob o signo do número 6.
O mais complicado nesta corrente é escolher as 6 coisas aleatórias que deverei contar sobre mim, porque indicar mais seis blogues para continuarem o desafio com o respectivo link, explicando as suas regras, e informá-las nas respectivas caixas de comentários que tinham sido nomeadas, isso já é muito mais fácil.
Mas então, pensemos:
Próximas confissões blogosféricas:
Segue a dança.
Há alguns dias que percorro os blogues, as notícias, o tempo, sem vontade de os registar. Basta ter que os respirar e sentir.
Talvez um dia desenvolva casacos de várias espessuras, variados impermeáveis para diversos tipos de agressões. Do vento, da chuva, do sol, da crise, da desonestidade, da corrupção, do negrume, da negligência, da estupidez.
Tenho andado, na maior parte das vezes, muito desagasalhada.
(Edward Weston: Artichoke)
Maestro: Hebert von Karajan; Orquestra Filarmónica de Berlim
Antonio Vivaldi - As Quatro Estações - Inverno - "Allegro"
Agradeço aos blogues a quem entreguei em rede um prémio que resolvi inventar o facto de terem ido na onda.
Mas associado ao prémio havia um desafio que passou desapercebido (?) aos destinatários:
Qual a notícia saída no dia em que começou o respectivo blogue, ou aquela que, posteriormente, se veio a revelar mais interessante, e porque motivo (qualquer meio de comunicação pode ser considerado - jornais, televisões, revistas, blogues, etc.).
Sendo assim insisto no desafio aos mesmos blogues (e a quem mais se quiser associar, evidentemente).
A minha primeira reacção às declarações do Cardeal Patriarca foi isso mesmo – primeira e primária.
Achei um disparate atroz o remexer em possíveis feridas de integração e tolerância religiosa, numa altura em que estamos sempre em equilíbrio instável e num país em que a integração dos muçulmanos parece ser bastante boa.
Na verdade, porque é que o Cardeal Patriarca, representante de uma religião monoteísta, com leituras tão fundamentalistas como as que há do Corão, se lembra de alertar as mulheres portuguesas para o perigo de casarem com indivíduos que professam o Islão?
A pouco e pouco, e a coberto das nossas ideias laicas de tolerância e democracia, esquecemos que estamos a condenar manifestações da mais pura e inalienável liberdade de expressão de qualquer pessoa, nomeadamente de um líder religioso que fala para aquelas e aqueles que são religiosos, num mundo ocidentalizado em que é normal discutir opiniões e fazer declarações, por muito que não concordemos com elas.
E de facto, se pusermos de parte a visão idílica que temos de uma sociedade multicultural que respeita os seres humanos enquanto tal, sem olhar a raças, religiões, opções políticas ou sexuais, se ouvirmos aquilo que, precisamente por vivermos em democracia, muitos dos líderes muçulmanos pregam sem qualquer dificuldade, muitas dessas afirmações deviam fazer revoltar-se-nos os estômagos, porque a dignidade humana, a diversidade, a informação e a democracia estão arredadas dessas pregações.
Em relação às mulheres, principalmente, muitas dos países e das comunidades islâmicas olham-nas e tratam-nas como seres que pertencem aos homens, muitas vezes proibidas de procurarem até assistência médica, sujeitas a rituais que nos repugnam, a nós que discutimos as declarações do Cardeal Patriarca.
Será que podemos discutir com a mesma liberdade as interpretações, leituras e leis do Corão, nas sociedades ocidentais que acolhem e tentam preservar as diferenças culturais e religiosas?
O Cardeal Patriarca foi pouco diplomata nas suas afirmações e deveria sê-lo, foi pouco cuidadoso ao deitar achas para uma fogueira que nunca se extingue, mas para além de ter todo o direito de o fazer, até porque fala para os seus fiéis, não terá alguma razão no que diz? E porque temos tanto receio em o admitir?
(pintura de Elizabeth Perry)
Tudo o que deixas para trás
no liso confuso fundo da memória
tudo o que deixas para trás
velho inútil gasto tudo arrasa
o que te falta nesta bruma
névoa irregular tecido do amanhã.
Depois de me chegarem tantos prémios, resolvi criar eu própria um prémio bloguístico mas que não distinga géneros, raças, idades, colectivos ou solitários. Só interessa que goste mesmo de os ler.
Resolvi chamar-lhe Deste, gosto mesmo!
Lá vão alguns dos que gosto mesmo. Não são todos, mas podemos começar por estes quinze.
Quem quiser pode usar este prémio para distinguir outros quinze.
Isto é até muito divertido!
Adenda: já agora gostava de lançar um desafio a estes mesmos blogues: qual foi a notícia mais interessante, saída no dia em que começou o respectivo blogue (em qualquer meio de comunicação, bem entendido - jornais, televisões, revistas, blogues, etc.)?
Não é todos os dias que se recebe um prémio de ouro, principalmente de alguém do mais puro quilate. Agradeço e fico imensamente vaidosa.
É claro que esta é uma das correntes da felicidade que nunca quebro. Sendo assim, tenho que indicar seis blogues excelentes e ainda mais merecedores do título, embora tenha a vida algo dificultada pelos blogues mistos:
Segue a roda!
Mal, ou - ao menos - mais ou menos, este lugar continua-se
Ela caiu há dez dias, em casa, escorregou-se nela e bateu com a cabeça no chão e desmaiou, susto grande. Acordou no hospital e, da queda propriamente dita, nada resultou de nefasto: cabeça limpa.
Tinha era o que tinha, conhecia-a há vinte meses e, já por esse tempo, tinha o que tinha, chegou-me à minha vida numa rampa inclinada da vida dela, ladeira descida com travões a fundo mas sem ABS.
Equiparam-na de pijama bonito, na enfermaria. Ela mais amarela e mais inchada, por dentro dela e do pijama, do que há quinze dias.
"Vais-te...".
Foi-se.
Hoje morreu. Ia dizer "morreu-me", mas já não. Aprendo tarde, mas ainda aprendo.
Ela morreu, sim.
E morreu-lhes a eles, ao homem e aos três filhos, que lhe abraçaram o corpo e lhe beijaram a face como se as lágrimas do fim fossem loção que oleasse despedidas.
A mim, não. A mim não me morreu.
Limita-te, besugo, para já, a acompanhar as rampas inclinadas dos outros. Aprende: tu só acompanhas.
Até sentires que começas a descer a tua - olha, pode ser de repente, besugo, pode ser como foi com o Rui, o teu colega que foi hoje a enterrar, podes até nem dar muita fé da rampa, da ladeira, besugo lorpa.
E, quando isso te chegar a ti, que tenhas alguém que te chore em cima uma loção qualquer de adeus.
Um unguento quase líquido que comova, ao menos, quem estiver ali de bata branca - fardamento nobre da pobreza -, se calhar ser o caso, a acompanhar, calado, quem estiver, se vieres a ter essa sorte por destino, a ungir-te.
(besugo)
Ontem ouvi um pouco do Expresso da Meia-Noite a propósito da comissão parlamentar de inquérito ao BPN.
Parece-me muito óbvio ter havido falha de supervisão do Banco de Portugal, como aliás o caso do BCP já evidenciava, falha que deveria ter sido assumida por Vítor Constâncio.
Mas depois de ouvir Miguel Cadilhe e alguns deputados, até parece que foi essa a razão do estado em que se encontra o BPN, foi essa a razão dos ilícitos que lá foram feitos, que é o Governador do Banco de Portugal o culpado de tudo.
Convém não esquecer que alguém (uma ou mais pessoas) geriu mal o BPN, levando-o à situação desesperada que determinou a decisão de nacionalizar. Os criminosos não são Vítor Constâncio nem Teixeira dos Santos, como a propaganda ligada ao PSD e a tentativa de branqueamento de figuras como Dias Loureiro (associadas ao período do Cavaquismo) querem fazer crer.
É claro que o orçamento teria que ser revisto, rectificado, complementado, o que se lhe quiser chamar. Não consigo compreender a falha política da equipa governativa ao permitir que isto acontecesse. Era mais que evidente que o orçamento era irrealista, como é mais que evidente que estas previsões se poderão modificar, como muito bem assumiu, por fim, Teixeira dos Santos.
O que não é aceitável, da parte do PSD e de Manuela Ferreira Leite é reduzir os anos de governação socialista a esta crise. Se há coisa de que se não pode acusar este governo é de não ter tentado mudar as coisas, em vários sectores de urgência. Muitas vezes mal, mas outras tantas bem, pelo menos fez.
Na verdade, todo o mundo entrou em crise e Sócrates só esteve à frente do governo de Portugal. E pelo que tenho lido, as medidas que o governo anunciou e anuncia (não faz mesmo outra coisa, é uma tal hemorragia de medidas que até assusta) são idênticas às que os outros governos por essa Europa fora anunciam.
Quanto ao TGV, apesar de achar que de 2003 a 2009 passaram muitos anos e as premissas se modificaram, não consigo perceber porque é que a Europa, com a crise, continua a apostar nele. Aliás, o principal problema do país é que anda a falar de coisas durante décadas mas depois não as concretiza, gasta rios de dinheiro em estudos que dizem uma coisa e o seu contrário e não decide. Quando decide muda o governo e o que era bom passa a ser mau, congelando aquilo que era essencial e nacional no dia anterior. Manuela Ferreira Leite foi protagonista da decisão. Este tipo de investimentos não são pensados apenas para 6 anos. A sua prestação é lamentável.
Esta é que é a verdadeira crise. Assim como a crise de gente que rodeia quem está no poder e que faz com que este tipo de coisas aconteça. Não consigo deixar de falar mais uma vez no cantar das Janeiras ao Primeiro-Ministro. Vergonhoso.
Acho muitíssimo possível e ainda mais provável que a Cristina tenha razão. Que o resultado desta batalha jurídica e destas decisões, nem sempre compreensíveis possa revelar-se devastador para a criança em causa.
Mas, tal como já referi neste post, e lendo o que foi saindo na imprensa, nomeadamente através do Correio da Manhã, a decisão de entrega do poder paternal ao pai biológico tem já vários anos e apenas não foi cumprida porque o casal a quem a criança foi entregue não acatou a decisão judicial, tendo-se recusado sempre a cumpri-la.
Podemos todos discutir a pertinência, a moral ou a falta dela do pai biológico, a moral ou a falta dela da mãe biológica, a moral ou a falta dela dos pais candidatos à adopção, discussão essa que está bastante inquinada pela avalanche de notícias enviesadas e pela conquista da opinião pública tentada pelos dois lados.
Mas se o facto de alguém ficar com uma criança apenas porque vive com ela há vários anos , com o natural apartecimento de laços afectivos com esse alguém, que deverão ser respeitados e observados com enorme cuidado, podemos estar a legitimar que a senhora que roubou um bebé da maternidade, criando-a com todo o amor e carinho, inclusivamente com melhor poder económico que os pais, seja autorizada legalmente a viver com a criança, para que não haja quebra de laços afectivos e para que se mantenha a sua estabilidade psicológica.
Será que isto não abre uma caixa de Pandora?
(pintura de Molly Slattery: coat of arms)
A corda de braços enrola o medo
reduz o espaço que resta.
Sempre vejo uma corda de braços
riscando o resto do medo
ocupa o espaço reduzido
dentro do muro.
Sempre sinto o muro.
The snow is snowing, the wind is blowing
But I can weather the storm!
What do I care how much it may storm?
I've got my love to keep me warm.
I can't remember a worse December
Just watch those icicles form!
What do I care if icicles form?
I've got my love to keep me warm.
Off with my overcoat, off with my glove
I need no overcoat, I'm burning with love!
My heart's on fire, the flame grows higher
So I will weather the storm!
What do I care how much it may storm?
I've got my love to keep me warm.
(Instrumental)
Off with my overcoat, off with my glove
I need no overcoat, I'm burning with love!
My heart's on fire, the flame grows higher
I will weather the storm!
What do I care how much it may storm?
I've got my love, I've got my love,
I've got my love to keep me warm.
(compositor Irving Berlin; canta Mildred Bailey)
Há outra coisa que já há muito tempo queria dizer: não percebo porque é que no site da Presidência da República há um separador com o nome de Maria Cavaco Silva.
A que propósito? Qual o papel ou a relevância de se saber das actividades de Maria Cavaco Silva na Página Oficial da Presidência da República?
Que eu saiba a Presidência da República é um cargo unipessoal. Elegemos uma pessoa, não um casal ou uma família. É absolutamente deplorável esta importação bacoca, deslumbrada e descabida de hábitos americanos que se estão, insidiosamente, a alastrar à Europa.
Outro caso disparatado, na ditadura daquilo a que se convencionou chamar politicamente correcto, é a reprovação social e os protestos das feministas (?) pelo facto da Ministra da Justiça francesa Rachida Dati ter regressado ao trabalho poucos dias após o nascimento da filha. As mulheres e os homens têm direito a gozar as licenças de maternidade e paternidade, não são obrigados a fazê-lo.
Mas que liberdade, hein?
Tinha planeado escrever sobre muitos assuntos, todos já descascados e dissecados, esgrimidos e explorados por muitas pessoas.
Do caso Esmeralda que, segundo as notícias que foram saindo no Correio da Manhã, desde Outubro de 2004 a Janeiro de 2009, transformaram o Baltazar num triste pai que se batia galhardamente pela filha, resultante de uma relação ocasional com uma brasileira, mas que tinha assumido logo que tinha sido provado que era mesmo filha dele; que transformara um casal que recebeu uma criança à margem de todos os trâmites legais das mãos da mãe, e que se negou a acatar as ordens dos tribunais, recusando a entrega da criança ao pai e fugindo da justiça num casal de heróis que lutavam por uma criança que tinha sido abandonada pelo pai. Do caso de uma criança que foi e é o joguete dos adultos, todos com as mais nobres intenções, mas que não cumpriram a lei, que se serviram e foram tragados pelo circo mediático que se montou desde 2007, com as emoções e a manipulação da opinião pública, pelas mais nobres intenções mas que não devem, não podem, interferir com o poder judicial.
Da entrevista de Sócrates que lhe correu bem, apesar da atrapalhação em explicar as ajudas e as garantias ao BPP. Da inacreditável conduta de Ricardo Costa que confunde independência e rigor informativo com má educação e arrogância descabida.
Do debate que se tem travado sobre a clarificação do PS e de Sócrates quanto às suas intenções governativas e na dependência de ter ou não a maioria absoluta nas próximas eleições. Pois quanto a mim seria muito útil que Sócrates se demarcasse totalmente de possíveis alianças à direita, leia-se PS e CDS/PP, caso não consiga mais de 50% dos lugares na Assembleia da República.
Da perda de credibilidade de Manuel Alegre e da ala esquerda do PS que preferiram as contabilidades de votos a seguir, segundo os próprios, a sua consciência e as suas batalhas de esquerda, somada à perda de credibilidade da posição do BE após o artigo de Luís Fazenda.
Enfim, de muitos outros assuntos como o desafio de Manuela Ferreira Leite a Sócrates, a mais do que deplorável actuação de Israel ao invadir a Faixa de Gaza, robustecendo politicamente as franjas mais extremistas do Hamas, com quem deveria ter tentado negociar, do problema do fornecimento de gás monopolizado pela Rússia. E claro, da inevitável gripe e da omnipresente crise.
Enfim, estamos todos à espera que Obama tome posse.
(caricatura de John Cox)
Adenda: vale a pena ler este post do Pedro Correia.
(pintura de Nicolas Staël: composition)
I.
Olhos ardentes
mãos inquietas
rugas abruptas
no absoluto rigor
do medo.
II.
Abrem-se
veios nas pedras
sangram
rios de vozes
entre
mantos verdes
reacende-se
o brilho
do mundo.
Mas também não deixou de ser extraordinário e muito revelador, o facto de os deputados do PS terem feito uma engenhosa contabilidade entre as votações das moções do BE, de Os Verdes e do PSD, de forma a que nenhuma delas passasse.
Pois, são todos contra a Ministra e esta política autoritária e autista.
A Assembleia da República deu mais um espectáculo de 3ª categoria. É assim que se afastam os cidadãos do regime democrático.
Paulo Rangel na SIC Notícias:
O PSD está a favor da avaliação mas vai propor uma lei vinculativa na Assembleia que poderá obrigar o governo a suspender a avaliação.
O PSD também estava contra o Estatuto dos Açores mas proibiu os deputados de votar contra.
A hipocrisia não tem limites. O PSD quer recuar mais de um ano. Tem mesmo sentido de estado.
Não se pode aceitar a chantagem que a Rússia faz com a Ucrânia e com outros países europeus, boicotando o abastecimento.
Putin usa os piores métodos, como sempre, para manter aqueles que ousam opor-se-lhe, seja em que campo for. Por uma vez concordo com Durão Barroso.
Neste blogue está a decorrer um concurso estranho e muito divertido, principalmente pelo deleite que é assistir à campanha eleitoral. Ainda não decidi o meu voto, mas não faltarei.
Há um novo blogue que promete delitos de opinião. Que venham eles para que os questionemos.
Vale mesmo a pena ir lendo alguns posts sobre este assunto:
Como este (através do Água Lisa) e este.
Vale a pena saber exactamente o que se tem passado naquela área desde 1947, mas sem maniqueísmos nem manipulações. A realidade é muito mais complexa do que gostaríamos.
Adenda: também vale a pena ler este e este post, e seguir-lhe os links.
Só ontem vi este filme, que eu saiba o primeiro realizado por George Clooney, sobre o terror e a caça às bruxas do Macartismo.
De uma sobriedade exemplar, num registo a preto e branco que nos remete para os filmes de época e da época, cheio de sombras, com o fumo dos cigarros e a voz negra e doce de uma cantora de blues, um saxofone que se entranha no ambiente, as vozes sussurradas do medo, os olhares de quem tudo sabe e de quem tudo esconde, a perseverança de quem sabe quais são as prioridades e os valores que devem guiar a informação e o jornalismo.
Indispensável nestes tempos de espectáculo, superficialidade e falta de rigor informativo. O bom jornalismo faz a diferença. A recusa da demissão de princípios pode mudar alguma coisa.
Tal como A sombra do Vento este livro devora-se. Está bem escrito e prende irremediavelmente o leitor.
A mistura entre as vidas das personagens e as vidas dos livros, as suas almas e os seus enredos, em que se insinuam o fantástico e o miserável, o livro tem tudo: amor e ódio, paixões, morte, anjos e demónios. A cidade de Barcelona é uma dos principais personagens, com os becos e ruelas, arquitectura e badalos de sinos, comerciantes, ladrões e polícias, numa amálgama tenebrosa com alguns laivos de santidade.
O autor mantém as referências do livro anterior, havendo como que uma continuidade entre as duas histórias, o que cria um elo subterrâneo com os leitores e deixando adivinhar outras continuidades.
Não foi uma novidade, não será eterno, mas é um excelente livro.
(autor: Carlos Ruiz Zafón)
O último discurso do Presidente Cavaco Silva, ao contrário do que vaticinavam (esperavam) muitos comentadores, foi liso, cinzento, rígido e sem chama.
Disse o que todos já tinham dito, falou da verdade e do endividamento, da não resignação e dos agricultores, da falta de competitividade e do pequeno comércio.
Foi tão inócuo que agradou a todos. Foi tão descartável que as tentativas de interpretações de recados ao governo e às oposições são divertidíssimas.
Na verdade o Presidente só enviou um recado a si próprio, quando afirma que não se deve gastar tempo em querelas institucionais quando está em causa a gestão de uma situação de grande crise (permanente).
Enfim, 2009 segue-se a 2008 e antecede 2010.
Por muito que se compreendam as motivações de Israel quando fala em defesa do território, quando fala em segurança dos seus cidadãos, a escalada de violência a que temos assistido, com uma semana de bombardeamentos e, agora, uma invasão terrestre, extrapolam em muito esses objectivos.
Que a própria Autoridade Palestiniana já tenha condenado o Hamas, que saibamos do pendor terrorista e ditatorial do Hamas, da sua mistura com a população civil, do seu fundamentalismo, não nos podemos esquecer que o Hamas ganhou as últimas eleições legislativas, que os observadores internacionais consideraram livres, tanto quanto numa situação daquelas se pode pensar e agir livremente.
A comunidade internacional está totalmente presa pela posição dos USA sempre apoiando Israel. A EU não existe como voz una, autorizada e com peso nesta ou noutras matérias, apelando ao bom senso e ao cessar-fogo, sem que ninguém a ouça.
Não sei se haverá solução para o conflito israelo-palestiniano. Independentemente das simpatias que cada um dos lados angaria, é impossível justificar uma tão desproporcionada reacção de Israel. De vítima passa a algoz, mesmo que descontemos a enorme propaganda a favor da causa palestiniana. Até quando?
Há algumas coisas que insisto em fazer no primeiro dia de cada ano, perfeitamente inúteis, mas que me dão uma sensação de começo, de renovação, que apenas se explica pelo bálsamo que os rituais são para a força anímica.
Todos os anos transformo o café da manhã numa peregrinação e numa exploração científica, pois todos os cafés e centros comerciais estão fechados. Ao volante do carro, nas manhãs desertas das 10 horas de todos os primeiros de Janeiro, sinto-me num país que espera.
Todos os anos inauguro uma agenda nova, vermelha, em que reescrevo as moradas e os telefones da agenda anterior. Aproveito para eliminar alguns nomes que, por negligência ou esquecimento, deixaram de fazer parte da minha vida.
Todos os anos assisto ao Concerto de Ano Novo em Viena, pela Orquestra Filarmónica de Viena, enrolada no sofá, meio adormecida. São quase sempre as mesmas músicas, os mesmos bailados, a mesma assistência de vestidos e fatos de gala, as mesmas flores, mas é reconfortante. Este ano vai, talvez, iniciar-se uma nova tradição, juntamente com o almoço/jantar de ossobuco, com o Concerto de Ano Novo no CCB.
O dia está frio, rodeado de bruma quase opaca, que dá vontade de soprar com muita força, para ver se desanuvia. Eu gosto assim.
(pintura de Lea Kelley: industrial impact)
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...