17 janeiro 2009

Caixa de Pandora

Acho muitíssimo possível e ainda mais provável que a Cristina tenha razão. Que o resultado desta batalha jurídica e destas decisões, nem sempre compreensíveis possa revelar-se devastador para a criança em causa.


 


Mas, tal como já referi neste post, e lendo o que foi saindo na imprensa, nomeadamente através do Correio da Manhã, a decisão de entrega do poder paternal ao pai biológico tem já vários anos e apenas não foi cumprida porque o casal a quem a criança foi entregue não acatou a decisão judicial, tendo-se recusado sempre a cumpri-la.


 


Podemos todos discutir a pertinência, a moral ou a falta dela do pai biológico, a moral ou a falta dela da mãe biológica, a moral ou a falta dela dos pais candidatos à adopção, discussão essa que está bastante inquinada pela avalanche de notícias enviesadas e pela conquista da opinião pública tentada pelos dois lados.


 


Mas se o facto de alguém ficar com uma criança apenas porque vive com ela há vários anos , com o natural apartecimento de laços afectivos com esse alguém, que deverão ser respeitados e observados com enorme cuidado, podemos estar a legitimar que a senhora que roubou um bebé da maternidade, criando-a com todo o amor e carinho, inclusivamente com melhor poder económico que os pais, seja autorizada legalmente a viver com a criança, para que não haja quebra de laços afectivos e para que se mantenha a sua estabilidade psicológica.


 


Será que isto não abre uma caixa de Pandora?


 

5 comentários:

  1. Sofia, concordo, mas acho que nunca se pode tomar uma decisão que seja "devastadora" para uma criança desta idade, não pode, se se quer ter em conta os "superiores interesses da criança". parecem-me coisas incompativeis!

    vou deixar aqui uma resposta que coloquei lá nos comentários..
    é EXACTAMENTE isso:

    "O tempo da Justiça não é o tempo dos nossos sentimentos, nem muito menos é o tempo que levamos a estabelecer laços familiares com aqueles que nos rodeiam, independemente se as ligações biológicas existem ou não."

    PRECISAMENTE!!

    e dizem-se coisas inacreditáveis, como eu vi um...acho que é pedopaiquiatra de que não me lembro o nome mas que ja foi a um debate, com uma voz muito melada, loiro de olho azul(sabe?), dizia ele esta coisa incrivel: resumindo, o melhor castigo era nenhum dos dois ficar com a criança!!!! -perdão?? como é que é possivel alguem estar a pensar na miuda? um gajo ouve isto e perde a fé nos "pareceres"...
    mas, o que é certo é que varios foram de opinião que a miuda estabeleu laços e reconhece afectivamente o casal Gomes como pais e bons cuidadores, claro.. sendo assim, o interesse da criança será SEMPRE estar com aqueles que reconhece como familia que a trata e quer bem e com quem ela se sente bem.

    independentemente da justiça que haja em a entregar ao pai, ela será uma pessoa psicologicamente mais saudável com isso?? nesta fase e nas seguintes? claro que não! os pais afectivos são pessoas moralmente condenaveis? só quem não sabe o amor que se cria a uma criança independentemente de a parir ou não, é que poderá dizer isso. qualquer um reagiria assim, eu acho. entregar um filho "nosso" a alguem que ele não conhece, com quem não tem laços afectivos? quem o faria sem luta?, pergunto.

    o facto é que o Estado maquilhou a cara, lavou as mãos e entregou uma criança que na sua cabeça tem familia a um individuo que lhe dizem que tem direito a ela, que lhe vai dar outro nome e a vai levar para outra escola. ou seja, até a identidade lhe foi alterada: a paulada final.

    a miuda que inicialmente não queria, que aparece em todo o lado a tapar a cara, aceita agora tudo o que lhe quiserem fazer.
    desistiu.
    isto para mim é extremamente revoltante e enoja-me a satisfação com que lhe chamam justiça. justiça para quem?? para todos, menos a interessada. os tais "interesses superiores da criança" que se lixem, porque, como bem diz, o tempo passou e o tempo da justiça também passou.é issim, há que assimi-lo: "prescreveu".
    Ja ñão existe NENHUMA SOLUÇÃO JUSTA. logo, pelo menos não massacrem a miuda!

    na minha opinião, dava-se abretura ao pai biológico para a visitar sem a pressão do "este é aquele que te vai levar um dia", que deve ser das coisas mais horrendas com que se pode confrontar uma criança.

    sem pressões, deixá-lo aproximar. ela vai crescendo e seguramente que se gostar dele um dia pode querer estar mais tempo ou ate ir viver com ele, quem sabe. mas teria que ser ela a querer. à medida que cresce vai entendendo melhor e dava-se-lhe a possibilidade de ela propria gerir isso como fazem com os divorcios.
    mas não.
    tinha que se arranjar uma solução com que o Estado lavasse a cara. O resto é paisagem....
    até porque, a obstinação do pai biologico em a levar a qualquer custo não agura nada de bem, na minha opinião. as crianças não são "coisas nossas".


    fico imensamente triste com este caso. o sofrimento das crianças incomoda-me demais.

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    1. Cristina, não podia estar mais de acordo - o sofrimento das crianças incomoda-me demais. E aceito perfeitamente que, neste momento, o melhor para a criança seria mesmo ficar com o casal adoptante.

      O que questiono é o fundamento. Se uma pessoa raptar uma criança pequena e a tratar como filha, e se esse acto for descoberto apenas após 4 anos, o que se faz?

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  2. A caixa de pandora já está a berta há muito, daí que dela saiam constantemente, opiniões, comentários e veredictos dos que pensam de tudo sabem e sobre tudo palpitam e, o que é mais grave, dos que sabem mesmo.
    Quanto mais absurda e por vezes escabrosa é a situação mais se cultiva. É um atavismo, não nada a fazer.

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  3. Patricia Costa21:20

    Lendo com atenção os acordãos judiciais do julgamento do Sr.Luís Gomes,bem como o que se tem passado nas audiencias do julgamento da esposa de que vai ser lida a sentença no próximo dia 29,pergunto a que apela ao superior interesse da criança,se considera normal a vida que ela levou durante estes 6 anos,e se aquelas pessoas que tiveram aqueles comportamentos,são competentes para continuar a viver com ela e a educá-la?

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    1. Tenho muita dificuldade em apreciar desse modo a competência ou incompetência de alguém para educar uma criança. Parece-me perigosíssimo entrarmos por esses meandros, a não ser que haja crimes cometidos, maus tratos, sei lá. Quanto aos acórdãos não os conheço portanto não me posso pronunciar.

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