BOM ANO para todos
pelo menos
se for possível
com bom humor
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Ouvi vários comentadores espantarem-se com a serenidade de Manuel Alegre e suspirarem por um candidato de esquerda mais agressivo contra Cavaco Silva.
Para mim, que acabei de ouvir agora o debate, ainda bem que Manuel Alegre não o fez. Para meu espanto, Manuel Alegre portou-se como um verdadeiro Presidente, contido, sereno, tolerante, democrático.
Pelo contrário, Cavaco Silva foi agressivo, evasivo, intolerante, sem respostas às perguntas colocadas. Não sabe o que é o Estado Social, confundindo os direitos de dignidade com a ajuda dos moralmente puros. Não falou da Escola Pública, porque não lhe interessa. Esganiçou-se quando deixou ao governo a responsabilidade da eventual chegada do FMI, quando criticou a administração do BPN, quando se refugiou no site da presidência no momento em que lhe lembraram o caso das escutas, enervou-se quando falou das suas justificações aquando das promulgações de diplomas, deu lições de cavalheirismo internacional quando tentou demonstrar que agradar e ter respeitinho pelos mercados era indispensável a Portugal.
Preparamo-nos para ter mais cinco anos de um Presidente da República que é o espelho da caridadezinha, das mulheres a fazer a lida da casa, da hipocrisia social e institucional.
(...) Venho a este debate não para falar, mas para ouvir. Entrego todo o meu tempo ao Presidente da República, aqui presente, para me ajudar a compreender quem é o candidato presidencial Cavaco Silva, igualmente aqui presente. Porque sem os esclarecimentos do primeiro não podemos saber quem é, nem o que quer, o segundo. Infelizmente, a imprensa do meu país não fez o que agora vou fazer. E, desgraçadamente, Vossa Excelência não se dignou contar aos portugueses o que aconteceu, pelo que vou ser eu a exigir de si que cumpra o juramento que prestou ao aceitar o cargo. Revele sem margem para dúvidas: qual é a sua responsabilidade nas notícias que saíram em Agosto de 2009 descrevendo suspeitas de espionagem e escutas cujo alvo era a Presidência da República? (...)
Hoje reforcei a minha convicção de que o recurso aos fundos de emergência europeus, FMI ou qualquer coisa de semelhante, não depende da melhor ou pior performance do governo português, deste ou de qualquer outro. Depende da decisão política e/ou económica de países exteriores ao nosso, nomeadamente da Alemanha. A União Europeia não tem qualquer poder para conter as pressões, nem sei se está verdadeiramente interessada.
A austeridade deve avançar ou não se e só se internamente assim se decidir, por governos legitimados em eleições nacionais. O agradar aos mercados ou aos países de primeira, não tem qualquer resultado.
A propósito, vale a pena ler este post.
Mikhail Larionov: Mulher com leques
esboço de traje para o ballet Histórias Naturais (1916)
Enfrento o dia em que quase fecho a porta a meio século de vida. Tantos anos acompanhados de sabores e dissabores, amigos e inimigos, vitórias e derrotas, dias bons e dias maus. Já passei cabos de tormentas, cabos de esperança e estou a ultrapassar o cabo dos afrontamentos. Aviso quem ainda não chegou lá que a travessia é lenta e caprichosa, estando as munições secretas sempre no local errado da hora certa.
Festejei ao jantar n’A Tasca da Esquina. Fui lá parar através do blogue Mesa Marcada, ao qual fui parar a partir do Mainstreet, agradecendo a ambos.
É um local mesmo à esquina, como o próprio nome indica, quando se sai da Rua Ferreira Borges, (Campo de Ourique) e se vira imediatamente à direita, para a Rua Domingos Sequeira. Quem me conhece sabe que isto até parece ficção, mas decorei os nomes e o mapa, para além de ter um motorista com sentido de orientação.
A Tasca é pequena, com uma temperatura um pouco acima do confortável. Para isso também contribuiu a garrafa do excelente tinto alentejano Casa Santa Vitória de 2008, que nos foi aquecendo à justa medida do avançar dos pratos e da noite.
Escolhemos um menu de degustação composto por sopa e 4 pratinhos. Como é habitual nesta nova era culinária, os nomes dos pratos e a explicação do que vamos comer é muito maior e mais complicada do que a comida em si mesma. Mas estava tudo muito bom. A sopa de tomate com requeijão era deliciosa, nem quente de mais nem fria; a entrada de paté de caça com tostinhas besuntadas com azeite e alecrim, acompanhadas de picles de pêra, deliciosa; a seguir veio camarão com molho de pimentos, extraordinário; depois atum meio cru com molho de coentros, que era bom, mas nada de especial (atum não é prato da minha predilecção); por fim uns filetezinhos de vazia, também muito mal passados, com farófia de milho, batatas fritas e molho de manteiga de alho que sabia muitíssimo bem.
A meio da refeição fomos surpreendidos por um mini rancho folclórico da Casa do Minho, que estava com tanta vontade de acabar o ano que cantou as janeiras. Mas cantou-as muito bem!
Finalmente escolhemos creme queimado e farófias como sobremesa, rematando com café – divinal.
Bem reconfortada, o próximo ano será de lutas e desafios. De leque(s) em punho, com o vigor e a sapiência de uma verdadeira matrona, espero chegar aos cinquenta. E isto é mesmo uma ameaça.
Tal como Ana Matos Pires diz, penso que é altura de discutir a existência, nos termos actuais, das ordens profissionais, a sua orgânica, competências e funções.
No caso da Ordem dos Médicos não entendo a necessidade de existir uma única Ordem como Associação de Médicos. Penso que se deveria abrir a possibilidade de criar Associações de Médicos cuja adesão fosse voluntária. Essas associações zelariam pela qualidade e pela certificação e requalificação médicas, de acordo com os requisitos internacionais tal como são definidos pelo estado da arte. O reconhecimento das competências básicas para o exercício da profissão deveria ser dado pela homologação das respectivas licenciaturas e especialidades, de acordo com os curricula definidos e exigidos pelo estado, após audição de associações médicas e das sociedades científicas.
A verdade é que a Ordem dos Médicos se tem comportado mais com um sindicato, com os problemas do movimento sindical português nos dias de hoje, do que uma associação que zele pela deontologia, pela ética e pela credibilidade da profissão médica. Como estrutura pesada que é, não tem capacidade de resposta, por exemplo, para as queixas dos doentes em relação aos médicos, cuja prioridade me parece absoluta, na defesa da prática de uma medicina de qualidade, deixando pairar a suspeição de um corporativismo que defende tanto quem merece como quem não merece ser defendido.
Os próprios médicos não se sentem motivados a participar numa Ordem em que não se reconhecem. As críticas do Bastonário ao Ministro Mariano Gago são exageradas e não fundamentadas. Apenas se percebe, mais uma vez, a resistência à abertura de novos cursos de Medicina, levantando suspeitas de má preparação, não se sabendo quais as bases para o fazer. Esquece-se a Ordem dos Médicos da sua responsabilidade no que diz respeito ao fecho de vagas para Medicina ao longo dos anos, defendendo a manutenção da redução de vagas com o argumento do desemprego médico e da sua má distribuição territorial. O elevado número de Médicos estrangeiros a trabalhar em Portugal demonstra a falácia desses argumentos.
Seria muito importante que os representantes que forem proximamente eleitos tivessem a coragem de abrir este debate. Seria um estímulo a todos os médicos para se olharem criticamente, questionando o seu papel como grupo profissional, as suas prioridades, as suas carreiras, o Serviço Nacional de Saúde, as formações pré e pós graduada e o seu estatuto laboral, sem preconceitos.
Nesta altura do ano, que é tão boa como qualquer outra mas na verdade o fim e o início dão sempre jeito para balanços, multiplicam-se as listas de livros, filmes, músicas, cantores, figuras e blogues do ano. Todas estas listas dependem do gosto e dos interesses de quem as faz, como é lógico.
O problema é sempre de amostragem. Parece-me até soberba escolher os blogues do ano num universo tão infinito como os universos o são, por definição, quando eu apenas visito uma ínfima parte desse mundo. Mas mesmo assim, de todos aqueles que leio, uns com gosto, outros com raiva, uns com curiosidade, outros com indiferença, há alguns a que eu dou particular destaque.
Quase sempre prefiro blogues individuais, talvez porque têm uma linha mais coerente, uma personalidade mais marcada. No entanto há, nesta lista, dois blogues colectivos que conseguem essa coerência com múltiplos colaboradores. Obrigada a todos pelas horas de entretenimento, informação e questionamento que me proporcionaram.
*Há que dizer que a imparcialidade em relação a este blogue é sempre tentada mas, se calhar, não conseguida. A. Teixeira é alguém que me é muito chegado...
Está bom no aconchego de ti. Enrolamos os braços e as pernas no doce morno dos cobertores. Manhã de Natal, o rádio vai despejando mortos e feridos, aviões parados e passageiros desesperados, músicas mais ou menos açucaradas, enquanto o sono vai desaparecendo mansamente.
A paz mede-se pela ternura da partilha do toque, pelo café com filhós na cama, começando o dia devagar.
Coldplay
Christmas night, another fight
Tears we cried a flood
Got all kinds of poison in
Poison in my blood
I took my feet
To Oxford Street
Trying to right a wrong
Just walk away
Those windows say
But I can't believe she's gone
When you're still waiting for the snow to fall
Doesn't really feel like Christmas at all
Up above candles on air flicker
Oh they flicker and they float
But I'm up here holding on
To all those chandeliers of hope
Like some drunken Elvis singing
I go singing out of tune
Saying how I always loved you darling
And I always will
Oh when you're still waiting for the snow to fall
Doesn't really feel like Christmas at all
Still waiting for the snow to fall
It doesn't really feel like Christmas at all
Those Christmas lights
Light up the street
Down where the sea and city meet
May all your troubles soon be gone
Oh Christmas lights keep shining on
Those Christmas lights
Light up the street
Maybe they'll bring her back to me
Then all my troubles will be gone
Oh Christmas lights keep shining on
Oh Christmas lights
Light up the street
Light up the fireworks in me
May all your troubles soon be gone
Those Christmas lights keep shining on
Do Natal do frio da neve
das boas novas
tenho apenas lugar entre as mãos
que se tocam.
Do Natal dos justos dos puros
dos sem pão
tenho apenas a fome
dos que se amam.
Do Natal que nos ensinam
resta apenas a vida dos que sentem.
Victoria Ward
Estava demasiado frio, até para Natal. A consoada tinha-se passado como de costume, o dia cheio de cozinha, açúcar e mal contido tédio, a noite de murmúrios e silêncios desconfortáveis, histórias repassadas e revisitadas, rasgar papéis, embrulhar sorrisos, tudo o que de bom e de mesquinho veste as festas familiares.
A tarde já parecia noite, o céu escurecido ameaçava chuva, o vento desabotoava o casaco. Entrou na enfermaria quase deserta, com o característico levitar da doença e da desesperança. No quarto apenas uma cadeira preenchida, com um corpo magro, branco e leve. Subiu-lhe o soluço mas guardou-o, em respeito por quem sofria. A razão da sua culpa, da sua infinita insónia. Não haveria mais perdão para o erro, para o descuido, para a distracção.
Os olhos abriram-se e reconheceram-na. Sorriu. Abraçou-a. Desde aquele momento todos os dias seriam riscados do calendário, contados como se fossem preces, passados em permanente sobressalto. Talvez dali a uns anos se permitisse sentir-se livre. Talvez dali a uns anos voltasse a ser Natal.
Aretha Franklin
Sleigh bells ring, are you listening?
In the lane, snow is glistening
A beautiful sight, we're happy tonight
Walking in a winter wonderland
Gone away, is the bluebird
Here to stay, is a new bird
He sings a love song, as we go along
Walking in a winter wonderland
In the meadow we can build a snowman
And pretend that he is Parson Brown
He'll say are you married?
We'll say No man
But you can do the job
When you're in town
Later on, we'll conspire
As we dream, by the fire
To face unafraid
The plans that we've made
Walking in a winter wonderland
In the meadow we can build a snowman
And pretend that he's a circus clown
We'll have lots of fun with Mr. Snowman
Until the other kids come knock him down
When it's cold, ain't it thrilling
When your nose, gets to chilling
We'll frolic and play
The eskimo way
Walking in a winter wonderland
Walking in a winter wonderland
Por ser uma decisão eminentemente política, muito me custa e me desilude assistir a um governo socialista a rasgar o acordo que tinha com todos os parceiros sociais, de se atingir os 500 euros de salário mínimo a 1 de Janeiro de 2011.
(...) A coisa é simples: por princípio, o Estado não deve financiar um colégio se tem ao lado uma oferta gratuita que ele próprio garante. O financiamento público apenas deve existir quando o Estado não está em condições de, num determinado lugar ou para uma determinada população escolar, garantir o direito de todos os cidadãos à educação. O espírito deve ser o de dar ao sistema privado um caracter supletivo: para quem o quer e por isso o paga e para quem não tem alternativas e por isso é financiado. Ao manter o financiamento automático, independentemente da oferta pública, esse caracter supletivo era distorcido. Desviavam-se fundos da escola pública para aquilo que é, muito legitimamente, um negócio. Mas os negócios devem depender do mercado e não do Orçamento de Estado. (...)
(...) Nos próximos anos, à boleia da crise, serão muitas as tentativas de, por portas travessas, conseguir o velho sonho de privatizar a Escola Pública. Que Cavaco Silva seja um aliado natural desta estratégia, não espanta. Essa é uma das razões que assusta a ideia de o ter em Belém quando Passos Coelho chegar a São Bento. Que a esquerda à esquerda do PS, por razões táticas ou meramente sindicais, não perceba o que está em causa neste espisódio já me deixa mais preocupado. Estou certo que, na especialidade, tratará de corrigir o tiro. Há combates demasiado importantes para estar a pensar em ganhos de circunstância.
Pretenders
Have yourself a merry little Christmas
Let your heart be light
From now on, our troubles will be out of sight
Have yourself a merry little Christmas
Make the Yuletide gay
From now on, our troubles will be miles away
Here we are, as in olden days
Happy golden days of yore
Faithful friends who are dear to us
Gather near to us
Once more
Through the years, we all will be together
If the fates allow
Hang a shining star above the highest bough
And have yourself a merry little Christmas now
(...) O que é revelador é que nenhum Cerejo, nenhuma Cabrita, nenhuma Manelona, nenhum Crespo, nenhum justiceiro da bloga, nenhum magistrado de Aveiro, nenhum super-juiz, nenhum colunista das Brigadas Anti-Sócrates (e são 30, os encartados, metade juristas), nenhum Medina, nenhum Duque, nenhum historiador, nenhum jovem turco da República morta, nenhum candidato presidencial, nenhum assessor doublé de repórter na imprensa marron, nenhum representante da Fatah nos media radical-chic, nenhuma das criaturas que formata a opinião... se interesse pelo backstage do banco da Loja P2, perdão, do banco da Sociedade Lusa de Negócios. Decididamente, a fraude do século não comove ninguém.
Pois, vamos entrar em recessão e o crescimento económico não vai crescer.
Os mercados que estavam a pedir a austeridade e a recessão, e que reagiam muito mal, enervando-se horrorosamente com a falta das medidas que reduzissem os ordenados, as pensões, os consumos e tudo, enervam-se agora horrorosamente porque Portugal aperta o cinto e não consome, reduziu os ordenados, as pensões e tudo.
Pois, os mercados. Riem-se e fartam-se de nos gozar.
Ella Fitzgerald
Just hear those sleigh bells jingling,
ring ting tingling too
Come on, it's lovely weather
for a sleigh ride together with you
Outside the snow is falling
and friends are calling "yoo hoo",
Come on, it's lovely weather
for a sleigh ride together with you.
Giddy yap, giddy yap, giddy yap,
let's go, Let's look at the show,
We're riding in a wonderland of snow.
Giddy yap, giddy yap, gidd yap,
it's grand, Just holding your hand,
We're gliding along with a song
of a wintry fairy land
Our cheeks are nice and rosy
and comfy cozy are we
We're snuggled up together
like two birds of a feather would be
Let's take that road before us
and sing a chorus or two
Come on, it's lovely weather
for a sleigh ride together with you.
Giddy yap, giddy yap, giddy yap,
let's go, Let's look at the show,
We're riding in a wonderland of snow.
Giddy yap, giddy yap, gidd yap,
it's grand, Just holding your hand,
We're gliding along with a song
of a wintry fairy land
Our cheeks are nice and rosy
and comfy cozy are we
We're snuggled up together
like two birds of a feather would be
Let's take that road before us
and sing a chorus or two
Come on, it's lovely weather
for a sleigh ride together with you.
It's lovely weather for a sleigh ride together with you
It's lovely weather for a sleigh ride together with you
(...) Precisamos de defender, preservar e garantir a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, a principal transformação social do nosso sistema democrático. Precisamos de defender a escola pública, uma escola pública de qualidade e exigência. Precisamos de defender o serviço público de segurança social. (...)
Concordo com este parágrafo do Contrato Presidencial apresentado por Manuel Alegre. Como muitos outros parágrafos. Aliás com a quase totalidade do discurso.
O problema é que a garantia da sustentabilidade do SNS, a defesa da Escola Pública e da Segurança Social não se fazem com proclamações nem afirmações de princípio. Elas são necessárias mas não suficientes.
Durante a anterior legislatura Manuel Alegre personificou e liderou as forças conservadoras, de direita ou de esquerda, que se opuseram frontalmente às mudanças que possibilitavam a manutenção do SNS e a qualidade e o rigor da Escola Pública.
Manuel Alegre tem uma divergência astronómica entre o diz e o que faz. Ele foi co-responsável pela demissão de Correia de Campos e pela tentativa de paragem e boicote que foram feitos à política de Educação do anterior governo. Não há belos e patrióticos discursos que mo façam esquecer.
A Pátria e a Liberdade, o aprofundamento da democracia na Europa, a defesa da coesão social e da ética na política tem que se basear também nos actos e nas escolhas diárias. Manuel Alegre desmentiu com actos aquilo que tão bem pronuncia.
Fiquei a saber que a Presidência da República não é um órgão unipessoal. Fiquei a saber que temos uma espécie de Reino Presidencial.
Andei todos estes anos enganada. As minhas desculpas ao camarada Francisco Lopes e a todos os camaradas que, em conjunto com o Comité Central, concorreram às eleições presidenciais anteriores.
A ignorância é muito atrevida.
Está frio e escuro. Tarde de sábado invernosa, boa música e boa disposição, enrolada numa manta e divertindo-me.
Já que estamos em altura de escolhas e concursos, seguindo a excelente prestação deste blogue naquele que é já uma tradição natalícia da blogosfera nacional, e que tantos e tão sofisticados prémios distribui aos felizes vencedores, lanço aqui outro desafio: pretende-se eleger a peça mais estranha, maravilhosa, inútil ou genial de mobiliário que conseguirem descobrir.
A minha contribuição foi difícil de decidir, mas aqui está ela. A união do descanso à leitura e à natureza, tudo num cadeira que pode ser de jardim, sala, corredor ou sala de espera.
Pablo Reinoso: Spaghetti Bâle
Dizzy Gillespie
Grab your coat and get your hat
Leave your worries on the doorstep
Life can be so sweet
On the sunny side of the street
Can’t you hear the pitter-patter?
And that happy tune is your step
Life can be so sweet
On the sunny side of the street
I used to walk in the shade with the blues on parade
But I’m not afraid
I'm crossing over and I'm walking in clovers
If I never had a cent
I’d be rich as rockefeller
with Gold dust at my feet
On the sunny side of the street
I used to walk in the shade with them blues on parade
Now I’m not afraid
I'm crossing over and walking in clovers
Now if I never made one cent
I'll still be rich as frank sinatra
There will be goldust at my feet
On the sunny --
sunny side of the street
Maria do Carmo Fonseca: Instituto de Medicina Molecular
Reunido em Seteais, o Júri do Prémio Pessoa 2010, constituído por Francisco Pinto Balsemão, (Presidente), Fernando Faria de Oliveira (Vice-Presidente), António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, João José Fraústo da Silva, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga, Rui Magalhães Baião e Rui Vieira Nery, decidiu atribuir o Prémio Pessoa 2010 a Maria do Carmo Fonseca.
Maria do Carmo Fonseca é Professora Catedrática e Diretora do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina de Lisboa. A sua contribuição original, que inclui cinco publicações durante o ano de 2010 em revistas de grande prestígio internacional, consiste na identificação dos mecanismos de transmissão de mensagens no interior da célula e tem como objetivo final a melhor compreensão de doenças causadas por erros da natureza que afetam esse processo. De um modo simples, pode descrever-se a sua investigação como o estudo do genoma em ação, pela visualização de fenómenos biológicos, por meio de técnicas muito sofisticadas de microscopia.
A cultura de rigor na prática científica que promove no Instituto de Medicina Molecular tem sido determinante na atração de uma plêiade de jovens investigadores, muitos dos quais doutorados fora do país, que constituem a garantia de uma excelência que se tem afirmado cada vez mais nos últimos anos.
Ao conceder este Prémio a Maria do Carmo Fonseca, o Júri quis reconhecer também a importância da ciência no desenvolvimento do país e afirmar a sua confiança no futuro da investigação básica em Portugal.
Tenho estado conscientemente alheada dos debates preparatórios das eleições presidenciais. A expectativa é muito baixa e dolorosa de confirmar.
O debate entre Fernando Nobre e Cavaco Silva mostrou, mais uma vez, os motivos porque Cavaco Silva não deve ser reeleito e porque Fernando Nobre, por muito nobres que sejam os seus motivos, objectivos e motivações, está a candidatar-se a um lugar de Presidente e não de Primeiro-ministro.
Mais uma vez estamos perante uma escolha quase impossível. Sem desprimor para os candidatos, pois só esse facto é importante para o sistema democrático, não há nenhum que empolgue e inspire os cidadãos. E é em tempos de incerteza e muita desesperança que as ideias e as palavras são indispensáveis para nos envolvermos.
Todos falam em desígnios nacionais, mas nenhum consegue apontar um que movimente o país, que faça convergir a vontade de fazer mais e melhor, de olhar em frente com alguma confiança.
Dia 23 de Janeiro cumpre-se um ritual cujo significado começa a escapar. Em quem votar?
Amy Casey: kept in place
É esta a cidade.
É este o nosso pequeno mundo.
É esta a nossa prisão invisível.
Dentro dos muros os caminhos labirínticos que percorremos.
Arrastamos o corpo e as vestes
encostamos às portas fechadas e esperamos
sempre e melancolicamente esperamos.
É esta a cidade que nos acolhe e nos pede
o sentir do que falta o sentir da revolta.
É esta a cidade.
Somos nós os parcos e demitentes cidadãos.
Miguel Vale de Almeida fez parte das listas de cidadãos independentes candidatos pelo PS nas últimas eleições legislativas. Afirmou, antes das eleições: (...) Poderia falar de mil e uma coisas – até porque não quero ser o deputado apenas das causas LGBT (não quero, aliás, ser mais do que deputado, independente, não quero cargos executivos e tenho no horizonte da minha vida o regresso à universidade e à minha profissão depois da legislatura). (...)
No entanto, a sua renúncia ao mandato, a forma como é interpretada e o texto por ele escrito, fazem pensar que o único objectivo que tinha era, precisamente, ser o deputado das causas LGBT. Talvez por isso mesmo afirme que será lembrado como o o primeiro deputado assumidamente LGBT. Só que, ao contrário de Miguel Vale de Almeida, não penso que isso seja importante para a democracia. Importante é termos deputados que, ao aceitarem essa responsabilidade, representem todos os cidadãos e não apenas os seus próprios interesses, ou os de um grupo, por muito legítimos que sejam.
(...) Curiosamente, e admitindo a evidente negligência norte-americana em preservar a sua inúmera documentação classificada, os autores de toda aquela pirataria parecem ainda não ter conseguido aceder a material igualmente significativo de outras origens... Será porque os outros países todos, ao contrário dos Estados Unidos, saberem proteger devidamente dos hackers da WikiLeaks?... Falando sério, um e outro episódio parecem ser emersões à superfície dos episódios sujos de um conflito permanente pela Supremacia Global, que apenas durante o período da Guerra-Fria não precisou de se esconder tanto por debaixo do manto da hipocrisia. Que é o que me aborrece e que não me canso de denunciar. Tanto no caso da Greenpeace como no da WikiLeaks, é uma inqualificável estupidez que se pretenda camuflar estes golpes sujos sob proclamações de índole moral. (...)
(...) Lentamente, começa a ser evidente que Wikileaks é política pura e dura. A diplomacia americana sofreu um golpe da dimensão do ciclone Katrina, que a deixará a coxear por muitos anos. Na tomada de decisões, os diplomatas passam à irrelevância e os espiões serão a partir de agora mais ouvidos.
A transparência perdeu.
Uma das críticas que li e ouvi era de jornalistas que se espantavam muito por outros jornalistas (como é o meu caso) adiantarem algumas dúvidas sobre a Wikileaks. Afinal, as intenções, financiamento, origem e métodos desta organização não são totalmente conhecidos. Quero dizer: a Wikileaks publicou os segredos de outros mas não é transparente. Ora, não tendo isto a ver com liberdade de informação (visto que a informação circula) não vejo razão para pôr em causa a honestidade intelectual de jornalistas que façam perguntas, por exemplo, sobre a forma como segredos tão sensíveis foram obtidos. Quem nos garante que haja 250 mil telegramas e como é possível que um simples soldado tenha acesso a informação tão sensível? A profissão de jornalista tem a ver com um cepticismo militante que nos obriga a não engolir com demasiada facilidade certas explicações.
Em muitas discussões, Assange é uma espécie de herói da liberdade. Mas os verdadeiros heróis da liberdade contemporâneos são Aung San Suu Kyi ou Liu XiaoBo, cuja luta pela liberdade de expressão e circulação de informação não tem excitado muito os espíritos. Repito: estes dois casos são de liberdade, e bastante desesperante, enquanto que Wikileaks pertence à política, o que gera sempre mais paixões. (...)
Este Natal veste-se de tangerina. Elegante, calorosa, vitaminada, amiga do ambiente, transforma a crise numa nuvem de sorrisos e gestos largos, Natal aberto, louro, doce e vivo.
Receita de licor de tangerina, a preceito e mais sensível a encontro de amigos, mais bem feito a 4 ou 6 mãos, quanto mais bem regada de conversa melhor. As provas múltiplas e repetidas são essenciais.
Acredito que hoje Maria de Lurdes Rodrigues esteja muito satisfeita e orgulhosa. Como é habitual, é preciso que outros nos digam o que de bom se faz em Portugal.
Ao contrário do que tantas figuras disseram durante a última legislatura, umas por ignorância, outras por corporativismo e ainda outras por oportunismo político, a Ministra Maria de Lurdes Rodrigues foi das melhores Ministras da Educação que tivemos. E o relatório PISA disso faz eco.
Gostaria de ouvir agora os comentários daqueles que apelidaram a política de educação do anterior governo como a catástrofe das catástrofes, aquela que justificou a marcha dos professores e a grandiosa manifestação contra a Ministra.
É claro que há ainda muito que evoluir. Mas foram dados grandes e importantíssimos passos no sentido de uma mudança coerente e do redefinir de objectivos.
(...) Assim, a OCDE constata que Portugal melhorou nas três áreas científicas e isso deve-se, acredita a organização, às medidas políticas aplicadas desde 2005. O investimento feito em computadores portáteis, acesso à banda larga, refeições, aumento do apoio social escolar contribuíram para a evolução, aponta o relatório da OCDE. Outros factores foram o Plano Nacional de Leitura, o Plano de Acção para a Matemática, bem como a formação de professores em Matemática e Ciências. A aplicação das provas de aferição (nos 4.º e 6.º anos), assim como os exames nacionais (no final do 3.º ciclo e no secundário) também fazem parte das medidas que a OCDE elogia. Bem como a criação de novas ofertas educativas para os alunos, como os cursos profissionais. (...)
(...) Andreas Schleicher refere que a melhoria de resultados "pode ser explicada em primeiro lugar pelas políticas seguidas nos últimos anos e por uma conjugação de factores como a avaliação de professores e um controlo sério da qualidade do ensino. (...)
Johann Sebastian Bach
Rami Alqhai - viola da gamba & Davide Merello - cravo
Dia gelado, cinzento, lindo. O Porto calorento, livreiro, acolhedor. No Clube Literário do Porto estivemos a conversar, a ler poemas, a trocar amabilidades, a ouvir música, a responder a perguntas, a confrontarmo-nos com as palavras e as suas ambiguidades.
Obrigada a quem participou e tornou uma tarde de sábado num agradável momento.
Ele [Alberto João Jardim] não tem vergonha nenhuma e não têm vergonha os que aproveitam para atacar agora o Governo Regional dos Açores, esquecendo as realidades que existem na Madeira. - Carlos César
A falta de vergonha é uma condição que alastra perigosamente, fazendo vítimas em inúmeros representantes políticos. A falta de vergonha de Carlos César não é mais pequena que a vergonha e o alarme que sinto quando se insinua este nome como um dos possíveis sucessores à liderança do PS.
O abandono do local de trabalho pelos controladores aéreos espanhóis originando o caos no espaço aéreo e colocando em risco milhares de pessoas, demonstra até que ponto a cegueira corporativa pode chegar.
Não estamos a falar de trabalhadores reivindicando condições de segurança no trabalho, redução de horário por perigosidade e desgaste rápido ou remunerações condignas. Trata-se de um grupo profissional que usa a sua especificidade e diferenciação e a cumplicidade de outros profissionais, que atestam por sua honra a doença simultânea de mais de 400 pessoas, para chantagear um governo livremente eleito, fazendo de milhares de passageiros reféns.
As piruetas argumentativas a que assistimos para legitimar esta pseudo greve por um lado, e para atacar as medidas extraordinárias decididas pelo governo espanhol por outro, são verdadeiramente acrobáticas.
Há muita gente com nostalgia revolucionária, mas esqueceu-se dos motivos e dos fins das revoluções sociais. Agora já não se defendem os oprimidos, os escravizados, os marginalizados da sociedade. Defendem-se aqueles que, por quaisquer actos, mesmo que à margem do estado de direito, estão dispostos a romper a estabilidade social.
São precisamente este tipo de situações que vão minando a credibilidade dos estados democráticos.
E a tradição ainda é o que era. Natal não é Natal sem o concurso d'a Barbearia do Senhor Luís.
Este ano vão a votos as ovelhas das várias lojas cá do burgo. Haverá muitas e jeitosas, mas não melhores que a minha, seguramente, alegre e farfalhuda, com relva para ruminar, já que outras coisas ruminamos nós, neste ano da graça de 2010.
E como os prémios são, como é habitual, excelentes, perfilha-se já esta para a corrida.
Boa sorte aos concorrentes, que o júri é sempre justo e magnânimo.
poema de Ricardo Reis
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a Lua toda
Brilha, porque alta vive.
PS vota contra projecto do PCP sobre tributação de dividendos.
Confesso que às vezes não percebo o Partido Socialista. Talvez lá eles percebam o que andam a fazer, com a grande coragem do líder parlamentar a ameaçar demitir-se se não estiver a maioria de acordo com a "linha geral". Pode haver boas razões para não baralhar as regras fiscais e deixar ir em paz quem, aparentemente, está a fazer uma manobra de antecipação que não está ao alcance da generalidade dos portugueses. Mas, se há essas boas razões, expliquem-nas claramente cá ao zé povinho. É que eu tinha ficado com a ideia que o próprio governo queria encontrar uma forma legal de impedir a manobra. Mas, claro, fui eu que não percebi nada. Espero bem que os restantes milhões de portugueses que se importam com isso tenham percebido melhor do que eu.
É que a esperteza propaga-se. Vejam este exemplo. Um ginásio, que cobra uma mensalidade que verá em 2011 recair sobre o montante de base uma taxa de IVA muito mais elevada do que até aqui, também descobriu o milagre da antecipação dos pães. Propõe à clientela que pague até 31 de Dezembro todo o ano de 2011, com o IVA de 2010. Fazem as continhas aos clientes, para que eles saibam quanto poupam. Isto também é legal? A resposta interessa-me, uma vez que sei de fonte segura que o caso é real e está mesmo a acontecer. Deixem na posta restante, se fizerem a fineza.
Porfírio Silva
Fernando Pessoa com Costa Brochado no Martinho da Arcada
Depois de um fim de tarde chuvosa a correr de um lado para o outro, rumámos ao Chiado, esperando pacientemente na fila de carros que enchia a A5, o viaduto Duarte Pacheco, o Rato, as imediações da Praça Camões. Estacionamentos completos, fomos andando até à Praça do Comércio. Em frente a uma loja de chapéus, carteiras e sapatos, finalmente arrumámos a viatura às 21:30.
O Martinho da Arcada foi lembrado e saudado como uma excelente ideia, até pela coincidência da efeméride – aniversário da morte de Fernando Pessoa. Mal entrámos no lindíssimo restaurante, com duas ou três mesas ocupadas, fomos avisadas assertivamente que a cozinha fechava às 22:00 e o restaurante às 23:00. Teimosamente ficámos, escolhemos morcela assada, salada rica, farinheira com ovos mexidos, creme de marisco e cataplana de peixes mistos.
Comemos a toque de caixa, apressadas por constante recordações das horas de encerramento da cozinha e do restaurante. A última de nós chegou já depois da cozinha fechada. Comeu os restos já frios das iguarias entretanto pedidas, antes da saída do cozinheiro.
Também apreciámos, para além das fotografias nas paredes, das cadeiras de madeira e dos tampos de mármore, das toalhas, dos guardanapos de pano e do fardamento dos empregados, o ruidoso desmontar das mesas e da arrumação de pratos e talheres. Saímos sem sobremesa nem café, para passear por Lisboa iluminada e para a gulodice de um gelado com café.
Lisboa à noite, fria, luminosa, com gente pela Rua do Carmo, Praça Camões, Chiado. Gelados com café e conversa solta, até tarde.
O Martinho da Arcada, uma referência literária e cultural da nossa capital, maltratado pela incapacidade de chamar e acarinhar clientes. As tertúlias que se iniciaram o ano passado, para salvar da falência o café, não alteraram os hábitos de quem afugenta os possíveis comensais que, em noite de Pessoa, não se podem dar ao luxo de ali estar.
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...