23 dezembro 2010

Uma história de Natal

 



Victoria Ward 


 


 


Estava demasiado frio, até para Natal. A consoada tinha-se passado como de costume, o dia cheio de cozinha, açúcar e mal contido tédio, a noite de murmúrios e silêncios desconfortáveis, histórias repassadas e revisitadas, rasgar papéis, embrulhar sorrisos, tudo o que de bom e de mesquinho veste as festas familiares.


 


A tarde já parecia noite, o céu escurecido ameaçava chuva, o vento desabotoava o casaco. Entrou na enfermaria quase deserta, com o característico levitar da doença e da desesperança. No quarto apenas uma cadeira preenchida, com um corpo magro, branco e leve. Subiu-lhe o soluço mas guardou-o, em respeito por quem sofria. A razão da sua culpa, da sua infinita insónia. Não haveria mais perdão para o erro, para o descuido, para a distracção.


 


Os olhos abriram-se e reconheceram-na. Sorriu. Abraçou-a. Desde aquele momento todos os dias seriam riscados do calendário, contados como se fossem preces, passados em permanente sobressalto. Talvez dali a uns anos se permitisse sentir-se livre. Talvez dali a uns anos voltasse a ser Natal.


 

4 comentários:

  1. A beleza que se lê no sofrimento que se intui.
    Boas Festas

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  2. :))))


    Boas Festas, Sofia.

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    1. Obrigada, MdSol, boas festas também para si e para os seus.

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