31 dezembro 2011

Distraidamente

 


(…) passa distraidamente pelos vários canais de televisão à espera que passe o tempo que disparate isto do fim do ano é só um dia exatamente igual aos outros todos que mania esta de separar o tempo como se o tempo tivesse quebras e sinais vermelhos isto só serve mesmo é para comprar agendas diferentes e beber um copo a mais não lhe está a apetecer nada o espírito festivo pôr a mesa lavar a louça estar acordada até à meia-noite só porque é fim de ano tanta coisa que ainda ficou por fazer e o tempo não pára os dias passam à velocidade da luz exponencialmente mais depressa cada ano que envelhece a relativização do tempo que ainda estará para acontecer em relação ao que já passou já não aguenta mais retrospetivas nem as infindáveis listas de melhores qualquer coisa não percebe bem o que tem de comemorar quando o que se adivinha é tão mau suspira e desliga a televisão que são horas de andar com a festa pelo menos está dispensada delas por mais um ano (…)


 

O banho

 



Degas


 


Não se lembra quando nem como começou o ritual. Todos os trinta e uns de Dezembro, pela tardinha, tomava um demorado banho, com tudo aquilo de que nunca se lembrava nos outros dias do ano. Sais, pétalas de rosa, espuma, horas de prazer e antecipação, pele delicadamente macia, fresca, rescendente a hidratantes e desodorizantes. Vagarosamente depilava-se, axilas, púbis, coxas e pernas, lábio superior, um retoque nas sobrancelhas. Quarto aquecido, a roupa de cerimónia a descansar no braço da poltrona, colar e brincos cintilantes em cima da cómoda, escova de crina para os seus cabelos.


 


A cerimónia de preparação demorava horas mas sempre perfeitamente cronometrada. Antes da meia-noite, com a mesa cheia de pequenas iguarias, o copo transbordante de champanhe, recebia o ano novo, como uma amante que se esmera para a consumação do ato. Mas ao contrário dos simples mortais, que de tanto ansiarem a felicidade nunca a encontram, a ela o primeiro de Janeiro nunca a desiludia. Só, entre o ambiente perfumado pela gula e pela luxúria, oferecia-se à celebração do que havia de acontecer.


 

30 dezembro 2011

País

 



Carruço


 


País sem teto nem chão o meu país sem lágrimas


País sem beira nem perdão o meu país em lágrimas


País sem alma nem caixão o meu país sem nada.


 


Velo pelo meu País ardo pelo meu País


País sem ondas para navegar


País sem terra para semear


 


Grito pelo meu País caio pelo meu País


País sem medo para gritar


País sem tempo para esperar.


 

Revista do ano: o que nos deixou presos à Rádio em 2011




 

 

Um ano a recordar - 2011

 



 


Há datas que são hipnóticas e indiciam comportamentos compulsivos. É o caso dos últimos dias de Dezembro em que nos surpreendemos sempre na atividade de balanço do ano que termina. Pois 2011 merece ser recordado pela reviravolta ideológica que protagonizou, com as consequentes mudanças políticas, sociais e económicas, em Portugal e na Europa.


 


Toda a manipulação mediática sobre o falhanço e o desgoverno de Sócrates e Teixeira dos Santos serviram um objetivo único – a substituição de um governo de centro esquerda por um governo de direita. Como se constata agora, com a pouco subtil alteração do discurso da maioria parlamentar, a crise passou a ser europeia, se não mundial, as medidas adicionais tomadas pelo governo de Passos Coelho não foram negociadas com a troika, resultando de uma opção política, e não havia desvio colossal que justificasse o corte no subsídio de Natal.


 


As bandeiras da esquerda democrática, como a educação pública, a aposta na qualificação das populações, nas energias limpas e renováveis, nas tecnologias de informação, no combate aos desperdícios, nas reorganizações e fusões de organismos, foram palco de descredibilização e campanhas negras. Muitas das obrigações contratuais do estado foram rasgadas, assistindo-se a uma alteração das condições de remuneração, horários laborais, reformas, subsídios de desemprego, etc., que significam a total ausência de negociação, fazendo-se da inevitabilidade do desmantelamento dos direitos e garantias a coberto das supostas imposições da troika, justificação para as referidas escolhas ideológicas. Na Europa a democracia deixou de ser importante. Para alguns países há o direito natural de liderança e poder, para outros há o destino natural de empobrecimento e servilismo.


 


Será com este quadro político nacional e internacional que 2012 se enfrentará. Não sou minimamente a favor de confrontos e radicalismos sociais. O movimento sindical, tal como ele existe em Portugal, não tem a menor relevância. As relações de poder entre os trabalhadores e os empregadores são totalmente diferentes das que existiam nos anos 70/80. Há palavras e conceitos que parecem agora obscenidades, como solidariedade, igualdade de oportunidades, estado, serviços públicos, direitos, garantias.


 


Como vencer? Como lutar? De todas as formas que a democracia entende, com o cuidado de não piorar, com as formas de luta, a vida de quem tem mais dificuldades, de quem tem menos representantes. Escrever, falar, manifestar-se, informar-se, discutir. Mas nunca a violência, nunca a recusa ao diálogo, nunca greves que apenas penalizam as próprias empresas e os próprios trabalhadores. Dentro da legalidade democrática e dentro daquilo que é um estado de direito, procurar representações políticas nestes partidos ou em novas associações políticas, mas nunca denegrindo a atividade política, cívica e de cidadania, nunca desistindo de pensar e nunca entregando a condução dos nossos destinos a pretensos especialistas missionários.


 

27 dezembro 2011

Meio século

 



Cheryl Dolby


Grandmother Tree Sculpture


 


Depois será igual a antes


ontem idêntico a hoje


o mesmo que amanhã


uma linha contínua de tempo


com ligeiros desvios espaciais.


Cada instante diferente do anterior


distinto do seguinte


o ar do mundo a crosta da terra


a certeza do regresso


ao fundo ao fim a sempre


igual e diferente


naturalmente.


 

26 dezembro 2011

A que faltava

 


(...) Também já tive a ocasião de dizer que a orientação geral de todas essas reformas será a democratização da nossa economia. Queremos colocar as pessoas, as pessoas comuns com as suas actividades, com os seus projectos, com os seus sonhos, no centro da transformação do País. Queremos que o crescimento, a inovação social e a renovação da sociedade portuguesa venha de todas as pessoas, e não só de quem tem acesso privilegiado ao poder ou de quem teve a boa fortuna de nascer na protecção do conforto económico. (...)


 


(...) Ora, um dos objectivos prioritários do programa de reforma estrutural do Governo consiste precisamente na recuperação e no fortalecimento da confiança. Não só da confiança dos cidadãos nas instituições, mas também da confiança que temos uns nos outros, nas nossas relações profissionais, nas nossas relações sociais e nas nossas relações de cidadania. (...)


 


 



 

Estes dois excertos mostram a pose majestática do Primeiro-ministro e a escassez de ideias que grassa na direita governativa. Para além de que confiança é coisa que este Primeiro-ministro não merece, pois não soube conquistar. A expressão democratização da economia quer dizer nada.

 

Nada. É exactamente isso que esta mensagem é. Mesmo assim menos ridícula que as anteriores.

 

Também nada que me espante, Ana, tal como o nada das reacções partidárias, todas.

 

25 dezembro 2011

Rituais


Tiago Taron: 24ª madrugada 


 


Quando se comparam longínquos rituais em que se calam frustrações e solidões não assumidas, percebe-se que a felicidade se forma de pequenos instantes que lembramos e reconhecemos como inspiradores quando passados, enquanto a infelicidade se sente sempre presente e pressente-se quando se encara o futuro.


 

24 dezembro 2011

Natal de esquerda

 



 


Em minha casa discute-se se tratar das couves é de esquerda ou de direita. É claro que quem defende ser de esquerda declama quadras de Manuel Alegre, com uma voz que imita a de Manuel Alegre, ribombando pela sala.


 


Pois eu já tratei das rabanadas e da aletria, sempre com uma atitude combativa e interventiva, de esquerda portanto, e agora estou a intervalar, numa cedência descarada e anti-revolucionária à direita.


 


Mas como o bacalhau, o grão e as batatas esperam a sua vez, vou permitir-me esta escapadela, desejando a todos os que costumam passar por aqui a alegria pura de estar com quem se gosta.


 


Divirtam-se, o mais que puderem.


 

23 dezembro 2011

Boas festas

 



 


Os dias regressam iguais e diferentes de branco e verde


entre o calor do mundo que nos falta


há em nós rituais imensos de sonho e melancolia


que refazem a vida por mais um ano.


 

Estou em ânsias

 



 


 


A época natalícia torna-se ainda mais difícil quando nos confrontamos com as Boas-Festas do nosso Presidente, ou mais precisamente, do Casal Presidencial, porque agora temos direito a mensagem do Próprio e da sua Esposa, e com as Boas-Festas de António José Seguro.


 


O Casal à frente de um presépio e o Opositor ao lado de uma árvore de Natal, é quase um Carnaval antes do tempo, mas do lado mais negro, ou mais pequeno, de pequenino, de... como é possível?


 



 


Falta a mensagem do Primeiro-ministro. Estou em ânsias.


 

21 dezembro 2011

No One But You


The Goat Rodeo Sessions


 

Escrevendo

 



Brion Gysin


 


Nada como ir escrevendo os dias


palavras sem medo nem esperança


que o silêncio instalado assobia entre os dedos


e o amor que segredamos respira-se por dentro.  


19 dezembro 2011

Este país não é para nós

 


A falta de preparação política do Primeiro-ministro em particular e do governo em geral, é assustadora. No meio de uma crise como esta, temos um governo que em vez de incentivar a população, dar-lhe confiança e incutir alguma esperança, a aconselha a emigrar.


 


A tristeza alastra e o encolher de ombros aumenta. Ninguém liga ao espectáculo dos (i)responsáveis e a revolta vai alastrando de uma forma larvar. À medida da cobardia, começamos a ter manifestações de vandalismo a coberto de pseudo-luta, como o que se está a passar no Algarve, com a destruição sistemática dos equipamentos para cobrança de portagens e como a pirataria informática.


 


Sem ideias e nada que as motive, vai engrossando o volume dos que, caso apareça um salvador, não quererão mais a democracia e a liberdade, mas a miragem da ordem e do respeitinho, alguma coisa que os poupe da miséria total e que lhe dê algum conforto. Infelizmente há muitos tipos de miséria e a deste governo é a cegueira ideológica.


 


Depressa e em força, para Angola, Moçambique, Brasil... Portugal não serve para os portugueses.


 

17 dezembro 2011

Cesária Évora

 



 

Que Estado?

 


Segundo o Primeiro-ministro, daqui a 20 anos as reformas serão cerca de 50% do que eram em 2007.


 


Fazendo contas, daqui a 20 anos ainda devo estar a trabalhar. Pelo menos enquanto trabalhar recebo a remuneração de quem está no ativo, mesmo que essa remuneração seja cada vez menor, tal como tem acontecido nestes últimos tempos, particularmente desde 2009.


 


Mas se, para esta coligação de direita que nos governa, aqui e na Europa comunitária, as reformas e os subsídios de desemprego se reduzem, aumentam as comparticipações para a saúde, a escola pública deixa de ser prioritária, cortam-se vias ferroviárias diminuindo a capacidade de mobilização das populações e destruindo a coesão do território, gostava que me esclarecessem para que servem os impostos que não param de crescer.


 


Se a ideologia reinante é a do utilizador-pagador, expressão chave que justifica a supressão das funções do Estado, com a hipocrisia e o engano de explicar aos incautos que quem mais ganha mais deve contribuir, esse mesmo Estado deveria abster-se de cobrar a enorme quantidade de impostos anuais para alimentar uma máquina que cada vez dá menos em troca.


 


Pode sempre apelar-se à sociedade civil que se organize para tratar da iluminação das ruas e dos bairros, contratar policiamento, utilizar a prestação de serviços de juízes e advogados quando necessário, construir escolas e hospitais.


 


Podemos até questionar, já que estamos em maré de revoluções de mentalidades, para que serve exatamente um Estado destes.


 

15 dezembro 2011

Quadras de Natal (2)

 


 


 


 


Pelo vento deste norte


entra a chuva de permeio


pelo teto da má sorte


já perdemos o sorteio.


 


Nem taluda de Natal


aquece o fim de Janeiro


nem festa de Carnaval


alumia o ano inteiro.


 


Vaticinam Entidades


em voz alta ou burburinho


tormentosas tempestades


a barrar-nos o caminho.


 


Respiramos nevoeiros


lendas velhas com bolor


sem armas nem cavaleiros


que nos respeitem a dor.


 


Faremos do astro rei


terra água fogo e ar


pelo povo e pela grei


havemos nós de clamar.


 


De Jesus não precisamos


parcos de fé e tão poucos


ao Menino nós amamos


mesmo que cegos e loucos.


 


Somos nós filhos de Deus


a pedir felicidade


possa ele fazer seus


nossos sonhos sem idade.


 

Um dia como os outros (106)

 



(...) A única razão que se pode encontrar para não haver devolução do dinheiro aos portugueses está nos objectivos de política macroeconómica. É preciso travar o consumo privado para reduzir as necessidades de financiamento externo - por muito que se apele ao "consuma português", o conteúdo importado das nossas compras é bastante elevado. E, desse ponto de vista, faz sentido que se reduza o rendimento disponível.

Mas, se o objectivo é travar o consumo privado, por que não substituir o imposto extraordinário por uma poupança forçada? O dinheiro que cada um de nós entregou ao Estado em imposto extraordinário seria aplicado em títulos de dívida pública (certificados do Tesouro, por exemplo), sendo devolvido num prazo pré-definido - por exemplo, no fim do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro.

O que ganhava o Estado e o País? Financiamento mais barato - as taxas cobradas pelos ditos mercados são superiores -; oferecia a alguns portugueses a experiência educativa de poupar; e daria uma pequena boa notícia: os sacrifícios também podem ter algum retorno, pequeno que seja, no curto prazo. No limite, até podia devolver uma parcela do imposto extraordinário a famílias com rendimentos por pessoa mais baixos. (...)

Helena Garrido


 

Pequenos

 



Petronella van den Berg: Friends


 


 


De pequenos confortos inaparentes e solitários


criamos espaços diários


sem dias feriados afetados.


 


De pequenos gestos irreverentes e solidários


criamos espaços familiares


contratos sem termo renovados.


 

13 dezembro 2011

Uma história de Natal

 



 


Conhece-os pelos nomes, pelos pais e pelas mães, os ausentes e os presentes, os desempregos e as necessidades especiais. Conhece-os pelas letras, pelas linhas, pelos risos. Sabe-lhes das tristezas, dos defeitos, dos almoços, das violências, das doçuras.


 


Tão séria e tão risonha, tão sarcástica e ternurenta, percorre  mundo a direito, percorre a vida que curva, percorre a cinza que incendeia. De memórias se fazem livros, de vontades se fazem dias, de simplicidade se fazem aqueles que dão o tempo, os dedos, as fantasias. Livros e desenhos, ecritores e pintores, a cada um uma palavra, para cada nome o elefante, ou o sol, ou a menina. Das memórias se podem dar pequenas grandes felicidades.


 


Feliz será este Natal, pelas mãos da Professora, de uns quantos fortuitos mecenas, de Alice Vieira, Afonso Cruz, Rita Taborda Duarte e Luís Henriques.


 


Assim será.


 



 

12 dezembro 2011

Direito à saúde

 


Tenho estado espectante sobre a política de saúde deste governo. Considero indispensável, agora como antes, a necessidade de tomar medidas para sustentar financeiramente o SNS. A crise do País e da Europa agravam a situação. Mas precisamente por isso é tão importante a gestão dos serviços que o Estado deve manter e reforçar em épocas de austeridade e de grande redução de rendimentos disponíveis.


 


O aumento das taxas moderadoras eram esperadas, ou até exigidas pela troika. Mas a magnitude do aumento e a indiscriminação aparente do que aumenta faz perigar o acesso aos serviços de saúde a quem tem mais dificuldades económicas.


 


As taxas moderadoras para as urgências devem servir para incentivar os cidadãos a recorrer aos Centros de Saúde e aos médicos de família. Mas não é honesto e é perigoso aumentar para o dobro as primeiras (o custo das urgências pode ir até 50 euros por episódio) e para o triplo as segundas, pois não há médicos de família suficientes e os Centros de Saúde não têm capacidade para atender os doentes em tempo útil.


 


Estrangula-se de um lado e estrangula-se do outro. Ou seja, pela primeira vez desde a instituição do SNS os cidadãos portugueses deixarão de ir ao médico porque não têm dinheiro.


 


Se há ou não margem para o crescimento das taxas moderadoras é um debate fútil. O SNS, tal como a Escola Pública e a Segurança Social são as bases da sociedade que construimos desde o 25 de Abril. Ao contrário do que as manipulações política e jornalística tentam divulgar, são instrumentos que garantem a igualdade de oportunidades e a igualdade de direitos a todos.


 


O SNS tem por obrigação cortar os desperdícios, reorganizar-se e tornar-se mais eficiente. Os profissionais são quem mais pode contribuir para isso, pois a redundância de prescrições de meios complementares de diagnóstico e a hipermedicação são dois enormes sorvedouros de dinheiros públicos e exemplos de má prática. Mas o direito à saúde, inscrito na Constituição e no código genético da nossa democracia, está a ser posto em causa com este tipo de medidas.


 

10 dezembro 2011

Os novos apóstolos

 



Chua Mia Tee


 


Ainda não passou um ano desde as últimas eleições. E nos entanto parece que vivemos noutro país, noutro mundo. A abruta e tenaz contração económica, a depressão, o cinzentismo nacional, a subserviência, o oportunismo, o falso moralismo, o conservantismo, a destruição do laicismo, do conceito de estado social, do direito ao trabalho, da remuneração condigna, alteraram profundamente a sociedade. As lojas esvaziam, a recessão aumenta, contam-se cêntimos e, pior do que tudo isso, ninguém tem esperança no futuro e as certezas são apenas para o aumento inevitável da austeridade.


 


Retrocedemos mais de 30 anos, para a ideologia do inho. Regressámos ao destino de quem defende ser formiga para sempre, de quem inveja a cigarra e, com os olhos gulosos no pecado, grita bem alto a sua virtude vaidosa e hipócrita. A honradez não precisa de batina e a criatividade não é desperdício. Mas os novos apóstolos económicos riscaram a busca da felicidade dos seus cadernos de contabilistas. Se é que alguma vez souberam ler.


 

Esta Europa não é para nós

 



 


A Europa fez o que o eixo franco-alemão tanto desejava – as decisões europeias não são democráticas e a democracia passou a ser uma palavra sem significado nos países europeus.


 


O novo acordo, que não é tratado para que não seja necessária a ratificação parlamentar e/ou referendo, impõe que os orçamentos de cada estado soberano sejam revistos pela Alemanha, que as constituições de cada estado soberano sejam modificadas. Ou seja, que os estados deixem de ser soberanos e passem a ser uma parte da Alemanha.


 


Para que iremos nós, cidadãos portugueses, eleger parlamentos se os instrumentos da governação vão passar a ser decididos e Berlim?


 


O governo português, liderado por Passos Coelho, não podia ser mais subserviente nem acomodatício. Tal como o líder do seu parceiro de coligação. Honra seja feita a António José Seguro que, desta vez, não se mostra disponível a abster-se na questão constitucional.


 


Esta Europa não é para nós. Convinha que nos preparássemos para sair pelo nosso próprio pé deste pseudofederalismo.


 

08 dezembro 2011

Sem dívidas

 


Há ainda um enorme grupo de pessoas que, talvez receosas de que a manipulação da informação que protagonizaram e a desinformação centradas no ódio a José Sócrates, eleito como o maior idiota, incompetente, mal intencionado e parolo do mundo, aquele que deu origem à crise em Portugal e, pelos vistos, em toda a Europa, responsável pelas cheias, pela seca e pela rapina d’Os Mercados, comecem a ser esquecidos perante a imposição da realidade. Por isso continuam a publicar artigos e opiniões sobre o ex Primeiro-ministro, citando em tom jocoso frases retiradas de uma conferência, episódios em reuniões de pais e pagamentos de jantares faustosos.


 


Esses opinadores estão saudosos de um tempo, de um país e de uma sociedade que já não existem, em que a honra se media pela humildade, pobreza, falta de ambição e a cristã resignação perante a incapacidade de se ter um lugar ao sol, neste mundo.


 


Só para esses opinadores é que os países não têm dívidas, só para esses opinadores um país se basta a si próprio esquecendo as inter-relações entre as sociedades, as economias, as culturas. Só para esses opinadores é mais importante não ter dívida pública que investir em conhecimento, ciência, escolas, hospitais, estradas, aeroportos, barragens, parques eólicos, reformas, subsídios de desemprego. Só para esses opinadores o estado deve ser destruído.


 


De facto há um conjunto de ideólogos que não se reviram no estado social que nos orientou durante a última metade do século XX. Esta é a hora deles.


 

Em perda

 


O episódio entre o Governador do Banco de Portugal e o Deputado João Galamba é mais um dos sinais da forma como, nos dias que correm, a actividade política é desconsiderada.


 


Ser Deputado tem uma cotação parecida com a avaliação que as agências de rating fazem de Portugal - lixo. Pelo contrário, ser-se economista, gestor ou equivalente, confere de imediato um estatuto, uma importância e uma competência automáticas, independentemente da valia específica do profissional. Portanto, ser-se inconveniente e desrespeitador para um deputado é o que se impõe, até porque, por definição, a tecnocracia é detentora da razão.


 


O mais triste é que o PS e José Sócrates, muito particularmente, têm grandes responsabilidades na violência e ofensiva da linguagem parlamentar. Será muito difícil, nesta onda retrógrada, conservadora, arrogante e deselegante, reverter a situação. Mais uma vez perde a democracia.


 

04 dezembro 2011

Viver mediterrânico

 


Temos tendência a admirar outros países mais ordenados, mais organizados, mais trabalhadores, com muito mais poder económico, aquilo a que chamamos a Europa civilizada, em oposto ao nosso país e à nossa sociedade, que reputamos de subdesenvolvida, gastadora, consumista e preguiçosa.


 


É notícia o aumento do desemprego entre as empregadas domésticas por causa da crise económica que atravessamos. É compreensível que assim seja, pois a classe média que mantinha uma empregada doméstica deixa de ter capacidade económica para a sustentar. Começa por lhes reduzir as horas mensais, deixa de lhes pagar subsídios e acaba por prescindir dos seus serviços. Ouvi já muitas vezes citar os exemplos de países como a Bélgica, a Holanda, a Noruega, a Dinamarca, em que praticamente não existe esta profissão. O que talvez também não exista nesses países é a quantidade de pessoas com baixas qualificações que, ao perderem este emprego, não encontram outro. É claro que se deve investir na educação e na formação de todos os cidadãos, mas a existência deste tipo de empregos, numa sociedade como a portuguesa, contribui para o equilíbrio social.


 


Tal como o hábito de comer fora, desde o pequeno-almoço ao jantar. Os pequenos cafés de bairro são locais de convívio e de aconchego para muitas pessoas, nomeadamente para os idosos. Para além dos postos de trabalho que criam, mantém uma rede de acompanhamento de proximidade, de cumplicidade de vizinhos, que permite a assistência rápida a quem dela precisa, refeições a baixo preço e o mitigar da solidão de tanta gente.


 


A substancial redução de rendimentos a que estamos forçados vem romper estas redes sociais e de trabalho, alterar uma forma de vida que não se substituiu rapidamente nem sem enormes custos. E talvez como a dieta mediterrânica, que muitos cientistas acabam por indicar como muito boa e equilibrada, o modus vivendi mediterrânico seja melhor do que, nesta altura, nos querem fazer crer.


 

Um dia como os outros (105)


(...) Só tenho pena que o proselitismo religioso tenha transformado um abnegado trabalho de militares da Força Aérea e Marinha em consequência de um qualquer ditame divino. Só faltou dizer que a qualidade superior da balsa e dos seus meios de sobrevivência tinham sido induzidos, eles também, pela senhora dos navegantes. As atitudes determinadas e correctas do mestre da embarcação uma inspiração da senhora de Fátima...Contudo ninguém fala da tempestade marítima que os pobres tiveram de suportar durante três dias. Aí não houve divindade que amainasse o temporal...devia pertencer a outro departamento. (...)


 


Miguel Gomes Coelho


 

03 dezembro 2011

Eles é que são os Presidentes das Juntas

 


A reforma da organização administrativa do país, com a alteração do número de freguesias, de concelhos e de distritos, é indispensável a um correto planeamento de gestão de recursos, às avaliações de investimentos em infraestruturas, à reocupação do interior, à alteração e correção dos círculos eleitorais, aproximando mais a realidade populacional dos seus representantes. É também aquela que está mais dependente das malhas e das cumplicidades e corrupções partidárias, a que está mais refém de caciques locais e trocas de favores.


 


 


A manifestação a que se assistiu hoje, com a vaia ao Ministro Miguel Relvas era expetável, queira ele fazer qualquer coisa que seja a esse respeito. Tal como o foram as tentativas de reforma na educação e na saúde das anteriores legislaturas. Nessa altura o PSD de Miguel Relvas vaiou, perseguiu e vilipendiou os Ministros respetivos, não se apercebendo que estava a empolar o satus quo, não só boicotando as reformas como impedindo que elas se fizessem por muito mais tempo.


 


 


Espero que o PS guarde os consensos e os apoios oposicionistas para aquilo em que, de facto, ele é indispensável, como no caso em apreço e não na aprovação do OE 2012.


 

Hello, Bang Bang, Goodbye

 


 


Hats & Chairs


 




Miguel Lima & Vasco Condessa

Mariana Lima & Afonso Cruz

Tiago Albuquerque & Gito Lima

 

O que dói às aves

 



Alice Vieira


 


Sempre amei por palavras muito mais


do que devia


 


são um perigo


as palavras


 


quando as soltamos já não há


regresso possível


ninguém pode não dizer o que já disse


apenas esquecer e o esquecimento acredita


é a mais lenta das feridas mortais


espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo


e vai cortando a pele como se um barco


nos atravessasse de madrugada


 


e de repente acordamos um dia


desprevenidos e completamente


indefesos


 


um perigo


as palavras


 


mesmo agora


aparentemente tão tranquilas


neste claro momento em que as deixo em desalinho


sacudindo o pó dos velhos dias


sobre a cama em que te espero


 

Camelos de Presépio - Natal 2011

 


Mais uma vez a Barbearia mais conhecida do bairro decidiu promover o famoso Concurso de Natal.


 


Este ano os concorrentes não se fazem esperar, e já há alguns algumas bossas alinhadas na primeira fila.


 


O Quadrado defende-se em todas as circunstância e, também este ano, apresenta a concurso um camelo bastante festivo, para alienar das amargas agruras da época que se avizinha.


 


O regulamento está bem explícito.


 



 


A vitória é certa.


 

02 dezembro 2011

Estreito

 



Oushi Zokei


 


Não percebo porque devo andar sempre em círculos


quando o caminho é demasiado estreito


para o desenho aberto do mundo.


 


 

União orçamental

 


A Chanceler alemã, do alto do seu estatuto auto investido de Timoneira da Europa, quer uma união orçamental. Ontem Sarkozy, auto investido de Adjunto da Timoneira europeia, fez um discurso em que proclamava a união com a Alemanha na defesa do euro e da Europa.


 


A expressão União Orçamental agrupa as seguintes exigências - inscrição nas constituições dos países membros de tectos de dívidas públicas e de défices orçamentais, com penalizações automáticas para os infractores, desde que, obviamente, não sejam a Alemanha e a França. Quanto aos limites e aos orçamentos não se sabe bem se necessitam apenas de ser aprovados pelo Parlamento alemão ou se também têm que ser ratificados pelo francês.


 


Estou muitíssimo interessada em saber a opinião dos dirigentes dos partidos da coligação governamental, do maior partido da oposição e do Presidente da República, sobre esta refundação europeia e sobre a implementação democrática deste novo Tratado Europeu.

01 dezembro 2011

A fantasia europeia

 


O euro já acabou mas ainda não há coragem política para o dizer e assumir perante a ainda Europa. Enquanto se continuam a anunciar intenções de fuga para a frente - novos tratados, perigos após fragmentação da Europa - a realidade já está a ser ensaiada por empresas desses mesmos países da ainda Europa.


 


Estamos a viver uma situação fictícia. A defunta união monetária mascara ainda a desunião política.


 


É difícil imaginar uma Europa com fronteiras, moedas várias, desagregação do edifício legislativo, do comércio alargado, suspensão da mobilidade e do alargamento do mercado laboral. É difícil imaginar uma Europa que já não acredita nela própria. É difícil aceitar mudanças tão contrárias ao que foi um dos pilares do nosso crescimento e desenvolvimento, uma das razões de um tão prolongado período de paz e de qualidade de vida, de valores democráticos, de solidariedade e humanidade.


 

Não pense

 



 


Não pense. Levante-se e ande. Comer pouco, muito pouco. Café faz-se em casa, no aconchego do lar. Aquece-se o corpo com cobertores ou com outro corpo. Melhor a segunda hipótese. Tomar banho aos domingos e feriados, ou só aos domingos, porque vão acabar os feriados. Talvez não acabem com os dias do Senhor ou da Nossa Senhora, nesses também se pode tomar banho. Nos outros dias usam-se os lavatórios e os bidés, aqueles equipamentos que estavam a cair em desuso mas que, no Portugal do século XXI, são do mais avançado que há.


 


Não pense. Levante-se e ande. A roupa ainda serve. A nova moda é a recuperação do velho. Reciclar é o mote das novas temporadas, que se prolongarão não se sabe bem por quanto tempo. Andar a pé e muito, faz bem e ajuda a manter o peso. Mas as horas gastas nos transportes serão sempre bem aproveitadas a ler um livro ou a ler o livro do vizinho, ele que gaste o dinheiro, a falar das férias que há muitos anos se faziam, ou da desgraça da vizinha.


 


Não pense. Levante-se e ande. Almoços vegetarianos ou frugais, nas marmitas de transporte que se compram no continente, aquecidas nos micro-ondas do trabalho. Café? Demasiado pode fazer subir a tensão. Não pense. Levante-se e ande. O serão bem ocupado com a roupa, a louça, o pó, o aspirador. Puro exercício, melhora as articulações. De vez em quando vê-se a TV, RTP, TVI e SIC, que não há dinheiro para pagar o resto. Nem internet, nem jornais, nem cinemas, nem concertos, nem museus. As noites de sono são mais profundas.


 


Não pense. Levante-se. Ande.


 


Revista-Me 04


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...