31 dezembro 2011

O banho

 



Degas


 


Não se lembra quando nem como começou o ritual. Todos os trinta e uns de Dezembro, pela tardinha, tomava um demorado banho, com tudo aquilo de que nunca se lembrava nos outros dias do ano. Sais, pétalas de rosa, espuma, horas de prazer e antecipação, pele delicadamente macia, fresca, rescendente a hidratantes e desodorizantes. Vagarosamente depilava-se, axilas, púbis, coxas e pernas, lábio superior, um retoque nas sobrancelhas. Quarto aquecido, a roupa de cerimónia a descansar no braço da poltrona, colar e brincos cintilantes em cima da cómoda, escova de crina para os seus cabelos.


 


A cerimónia de preparação demorava horas mas sempre perfeitamente cronometrada. Antes da meia-noite, com a mesa cheia de pequenas iguarias, o copo transbordante de champanhe, recebia o ano novo, como uma amante que se esmera para a consumação do ato. Mas ao contrário dos simples mortais, que de tanto ansiarem a felicidade nunca a encontram, a ela o primeiro de Janeiro nunca a desiludia. Só, entre o ambiente perfumado pela gula e pela luxúria, oferecia-se à celebração do que havia de acontecer.


 

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