O primeiro som devora-o a noite, mas fica para sempre- por ter sido a primeira das coisas comuns. Aquele
minuto, nunca o repetes. Vagamente o lembrarás mais tarde,
porque é frequente falar-se do mistério da vida. Já o esqueceste
muitas vezes choveu sobre ele e sobre nós, os relâmpagos
não bastam para que o mundo o mostre. Chamas-lhe revelação,
ao gesto que abre os braços, o primeiro olhar que se ama
lentamente, nele cabe o silêncio anterior, as coisas que estremecem
só de terem um nome, uma sombra, um modo de adormecer.
A partir daí, do primeiro som, tudo recomeça enquanto o dia
se não curva; repousando, agora, ela perfuma a vida. Haverá outra
maneira de descrever todas as coisas que nascem assim – mas
esta basta, é a mais simples. A mais amada das coisas cede
o seu lugar por esse minuto, esse som, o gesto que abre os braços.
(poema de Francisco José Viegas; escultura de Radu Aftenie: "Father with Child")
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