21 março 2026

Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste

 


Álvaro Feijó

por Maria Barroso

I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro

do que tu - não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

 

como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo.

 

Eu, Marco Pólo,

 

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

 

nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

 

II

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.

 

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste

  Álvaro Feijó por Maria Barroso I Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro do que tu - não deixes fechar-me os olhos meu Amor. Continua ...