27 março 2026

Ser radical

Asa esquerda de um rolieiro azul

Albrecht Dürer

Há um enorme afã da nossa comunicação social em encontrar fissuras e desencontros no seio do PS. Não quer dizer que não os haja, mas, após as eleições presidenciais, em que todos louvaram a estabilidade prometida, muitos se apressam a tentar atiçar razões para que a instabilidade se instale.

Por outro lado, a sociedade deslocou-se tanto para a direita e para a extrema direita, que qualquer discurso que envolva a defesa de minorias, de direitos, liberdades e garantias, da dignidade no trabalho, da igualdade de géneros e, o que é ainda mais assustador, da ciência e da evidência sustentada em investigação científica comprovada e certificada, passou a ser apanágio dos radicais de esquerda.

É extraordinária a qualidade das propostas que são discutidas e aprovadas no Parlamento - desde a reversão da Lei n.º 38/2018 de 7 de agosto - "Direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa" -, à alteração das leis da nacionalidade - Lei do retorno - que agrava de 60 dias (2 meses) para 360 (1 ano) e mais 180 dias (6 meses), a possibilidade de detenção até ao efetivo retorno.

Multiplicam-se nas redes sociais os Reels de programas de entretenimento, em que os animadores/ entrevistadores perguntam a crianças muito pequenas e fofinhas o papel dos progenitores em casa - quem manda, quem faz a comida, quem ganha o dinheiro e quem o gasta, etc. Sub-repticiamente, e desde muito cedo, os papéis do pai e da mãe são impressos na cabeça das crianças - as mães dão de comer, gastam o dinheiro e mandam em casa, enquanto os pais trabalham para ganhar dinheiro, fazem em casa o que a mães lhes manda e queixam-se da comida.

Ou seja, ser radical de esquerda é defender as mais básicas noções de decência, de partilha, de respeito e igualdade de direitos, nomeadamente das mulheres, migrantes e comunidades em que as suas natureza nada influenciam os demais, mas que a fúria retrógrada e anticientífica dos reacionários de direita e extrema direita que nos governam assumem que são perigosos.

Se é a este posicionamento ideológico que a nossa comunicação social se refere, ao prever grandes fraturas no congresso do PS, pois espero que as haja, a bem da nossa higiene mental e saúde pública.

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