12 fevereiro 2006

Risus


Sobremesa

Quando a melancolia enche o sol, o esvazia do
seu brilho, faz baço o amarelo do rebordo, apaga
os fios de fogo que da sua esfera fulgem, pego
nele e ponho-o na travessa do bolo. Com a faca,
corto-o; e ofereço-te
uma fatia de sol, que levas à boca; e ele volta a brilhar,
iluminando-te os lábios, os olhos,
o rosto. Então, beijo-te; e é como se
tocasse o sol; como se a sua chama me queimasse,
sem doer, ou como se a sua luz entrasse por dentro
de mim, quando a sobremesa
chega ao fim.

(poema de Nuno Júdice; pintura de Steve Falkenberg)

Se existe, esse ser inominado e eterno, criador e destruidor, de coisas e sentimentos, de matéria e almas, se existe, nalguma molécula do seu imaterial corpo, há-de encontrar-se uma centelha, um átomo, um conjunto proteico, um gene, que codifique o riso.

2 comentários:

  1. Silvares18:13

    Isso agora... no "Nome da Rosa" (versão cinematográfica) há um interessante diálogo sobre esta matéria. Parece que o riso afasta o medo e, sem medo, não pode haver verdadeira fé! Será?

    ResponderEliminar
  2. Sofia Loureiro dos Santos20:52

    Essa era a opinião que o assassino cego defendia (não me lembro do nome). E, de facto, se se questiona e se ridiculariza o sagrado, torna-se mais difícil temê-lo. Principalmente quando o sagrado é visto com virtudes e defeitos das criaturas que o criam.
    Boa noite.

    ResponderEliminar

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...