08 maio 2026

Médicos tarefeiros - a necessidade de inverter a situação

 

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O mestrado integrado de Medicina tem a duração de 6 anos. Segue-se mais um ano, o Comum. Depois a Formação Específica que, dependendo da especialidade, estende-se por um período de 4 a 6 anos.

Ou seja, fazendo as contas, um médico especialista demora 11 a 13 anos a formar-se.

A Formação Específica obedece a critérios dispostos na Lei. Não é qualquer serviço em qualquer hospital que pode oferecer essa formação. Para tal, todos os anos é avaliada a capacidade formativa dos serviços, nomeadamente daqueles que se candidatam a ter internos.

O número de vagas de formação de especialistas é determinada pelo Ministério da Saúde / ACSS, não sem antes ter o parecer da Ordem dos Médicos.

Para fazer face à escassez de profissionais nos serviços de urgência, primeiro, e nos serviços de internamento hospitalares e em consultas externas, depois, principalmente a partir de 2010 – 2015, os contratos de prestação de serviços com médicos sem especialidade foi-se tornando prevalente nas organizações hospitalares. Escassez essa que se iniciou na contração de alunos de medicina e na contração de entrada em especialidade, iniciada nos anos de Leonor Beleza.

Até hoje, médicos que terminem o Ano Comum e não tenham entrado numa vaga de especialidade (lembro que nos últimos anos há sempre vagas de especialidade sem serem preenchidas) podem ser (e são) contratados como prestadores de serviço predominantemente em serviços de urgência.

Por outro lado, médicos que terminem com aproveitamento a sua especialidade, caso não queiram ocupar uma vaga nos concursos anuais para recém especialistas, podem ser (e são) contratados em prestação de serviços, inclusivamente nos serviços onde fizeram as suas especialidades.

Acrescento que a remuneração horária paga em prestação de serviços, nomeadamente em urgência, é muito superior ao preço/hora de um especialista do quadro, mesmo no último grau da carreira. Para além disso, estes prestadores não precisam de garantir assiduidade, podem mostrar disponibilidade ou indisponibilidade permanentemente, não garantindo, por isso, previsibilidade no planeamento de escalas.

Também não têm que garantir períodos festivos, férias de outros colegas, feriados, fins-de-semana, etc. Não são responsáveis pelos doentes após as horas de prestação de serviços, ou seja, são depois os especialistas do quadro que asseguram a continuidade da atividade assistencial. Podem ou não fazer formação contínua; não são avaliados.

Qual é, portanto, o incentivo que se dá aos médicos que terminam a especialidade para fazerem parte de um serviço, quando podem ter uma remuneração muitíssimo superior, com muito menos horas de trabalho e sem as responsabilidades inerentes a um elemento do quadro hospitalar?

Qual é, portanto, o incentivo que se dá aos médicos que não entram no internato de especialidade, quando podem ter uma remuneração muitíssimo superior, com muito menos horas de trabalho, sem as responsabilidades inerentes a um elemento do quadro hospitalar?

Qual o sinal que se dá a quem, diariamente, assegura a assistência hospitalar, assegura as urgências com horas e horas extraordinárias, não pode fazer natais, páscoas, fins de ano, fins de semana alargados, etc., que investe na sua formação, que faz investigação, que assegura a formação dos internos de especialidade?

Não conheço o teor da legislação que se pretende aprovar em relação aos “tarefeiros”. Mas tenho a certeza que esta situação não pode continuar, que é preciso incentivar e premiar quem decide ter uma carreira, estudar, evoluir, formar, em vez de o fazer ao contrário: incentivar os jovens médicos indiferenciados a não investirem na sua formação contínua, e aos especialistas, mais ou menos jovens, a fazerem horas por vários hospitais, sem responsabilidades mas com ganhos muito superiores aos outros.

Por isso, espero que a legislação possa reverter esta injustíssima situação e que, quem quer trabalhar no SNS seja dignamente remunerado, sendo-lhe reconhecido o esforço e a competência. Espero que, finalmente, haja coragem política, pois é uma mudança muito difícil e que movimenta muitos interesses.

Quem defende o SNS não pode concordar com este estado de coisas. Isto é destruir o SNS, a formação médica, a melhoria contínua, a investigação, etc. É destruir a qualidade assistencial que, mesmo em tão duras condições, continua a ser a marca do SNS.

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