Há muitos anos, em pleno Processo Revolucionário Em Curso (PREC), no famoso ano de 1975, todos os dias fervilhavam informações, sussurradas meio a medo, meio a gozo, meio a sério, no núcleo mais importante de coscuvilhice lá do bairro, o mini mercado da Dona C...Por entre bocas ociosas, assustadas, mentirosas, circulavam todos os dias ameaças de golpes militares ou civis, ajustes de contas, terríveis massacres, faltas de comida, conselhos de açambarcamento, difamações, explorações politiqueiras de frases ou intenções que se adivinhavam nas entrelinhas, sempre sem rosto nem ponta de meada que se desenredasse.
Com o advento da democracia todos queriam participar e, de facto, participavam, numa corrente de boatos que os escassos responsáveis políticos moderados, ou simplesmente sensatos, queriam estancar com a frase: o boato é a arma da reacção.
Esta recente fase bloguística lembra-me um pouco essa época. Na rede tudo se transmite a grande velocidade, sem necessitar de nome ou de rosto. Aqui pode insinuar-se, insultar-se, sugerir-se, sempre com saltos e piruetas argumentativas, sem cuidar de imaginar os contornos ou as consequências resultantes e, principalmente, de responder por eles.
Portugal anónimo, servil, humilde e de chapéu na mão, dá largas à frustração usando a sua mais hábil e antiga arma vingativa: a maledicência.
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