02 agosto 2006

Despedidas


Desde aquele dia começou a despedir-se. A morte anunciava-se, de forma mansa e vagarosa, escrita nas páginas do seu corpo. Uma proteína aqui, um gene acolá, uma troca de iões mal sucedida, e começavam a apagar-se os milhões de luzinhas que iluminam um corpo.

Lentamente preparava-se para a dor da separação, partia um a um os frágeis fios que a tornavam uma parte dele. Desligava-se poro a poro, como se a mornidão da temperatura fosse reduzindo a textura, descolorindo a pele.

A pouco e pouco a voz, o olhar, o sorriso eram já fantasmas da voz, do olhar, do sorriso, como imagens de antimatéria com a qual se habituava a conviver. Ia arquivando todos os gestos, os carinhos, a respiração, os pêlos, a língua. Olhava fixamente os movimentos para que os pudesse reviver em si.

Exalando a vida na cadência do respirar, esfumando-se para ela, embora ainda e só apenas ela o sentisse.

No momento que chegasse já o hábito da ausência se instalara, aquela névoa de lembrança permanecendo na penumbra do quarto, o cheiro das roupas quase perceptível.

No instante em que ele não fosse, já ela tinha deixado de ser, e continuaria num limbo de permanência suspensa até, como ele, se anular.


(fotografia de Pantelis Cherouvim: lonliness)

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