
E se, amanhã, o mundo acordar sem neblinas húmidas e refrescantes, sem a secreta e inevitável certeza do sol a nascente?
A vida arruma-se em fascículos, numa gaveta interior bem dividida, automaticamente oferecendo os dados que a qualquer segundo necessita. Sem qualquer interrogação aceitamos como verdades o que se nos oferece ao olhar, o café aberto ao fechar a porta de casa, o ruído do motor ao dar a volta à chave, o azul baço do rio, a luminosidade dos dias de verão, os sorrisos de bom-dia quando se inicia o trabalho, o espreguiçar na cadeira depois de algumas horas de concentração. No ritualismo dos gestos e dos sentidos construímos uma sensação de eternidade e segurança irreal.
E se, amanhã, os contornos do dia forem diferentes e os meus olhos desdizerem as cores e as texturas do amanhecer?
(com agradecimentos aO Franco Atirador, pintura de Naofumi Maruyama: aurora)
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