12 setembro 2021

O Monarca das Sombras

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Javier Cercas continua a escrever sobre a Guerra Civil Espanhola. Mesmo não querendo.


Porque faz parte dele e parte da família dele. Porque faz parte de cada um dos descendentes de cada um dos mortos e de cada um dos sobreviventes da Guerra Civil.


Porque há o medo de descobrir e de encarar o horror de perceber que há pessoas dos dois lados da Guerra, pessoas com sonhos e com paixão e com idealismo. Porque há a necessidade de expurgar os fantasmas. Porque somos feitos de todos os bocados do que nos une e nos desune, do que nos enobrece e do que nos envergonha.


Porque a busca de um antepassado a que queremos colar uma figura de carne e osso, fazê-la emergir do passado, do esquecimento, da lenda, do mito, se impõe.


É uma viagem por dentro de Ibahernando, da Tierra Alta, da Batalha do Ebro, da sua família, de si próprio, em busca de Manuel Mena, seu tio-avô, que morreu pelos franquistas, integrado nos Tiradores de Ifni.


Javier Cercas é magistral na procura de um passado que teme, mas que o arrasta e engole. De um passado que o ensine a aceitar o presente e as contradições que se entrelaçam na nossa memória colectiva, na nossa condição humana.



Não tentes reconciliar-me com a morte, ó glorioso Ulisses.


Eu preferiria estar na terra, como servo de outro,


Até de homem sem terra e sem grande sustento,


Do que reinar aqui sobre todos os mortos.*



*Odisseia, Homero, Livros Cotovia, 7ª edição, Outubro de 2006, tradução de Frederico Lourenço

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