Comprei há poucos dias um livro sobre o qual já tinha lido ser de um jovem autor suíço, que tinha recebido o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa e que era um fenómeno de vendas. Estou a falar de Joël Dicker e de A verdade sobre o caso Harry Quebert.
De facto o livro lê-se bem e desperta a curiosidade do leitor, com um enredo cheio de curvas e contracurvas. Provavelmente dará um bom guião de um filme policial, cheio de dinamismo, com um desfecho inesperado. Mas é uma enorme desilusão para quem esperava alguma coisa a mais que entretenimento fútil e superficial.
O autor não consegue dar corpo às personagens, que são muito pouco credíveis. O tema é uma miscelânea dos grandes clichés da nossa sociedade contemporânea - laivos de pedofilia com obsessões sexuais, corrupção policial, esquizofrenia e fanatismo religiosos, mães dominadoras e castradoras e paixões assolapadas e doentias, escritores geniais escondidos em gente disforme, enfim, dá a sensação de que o autor foi obrigado a tocar em múltiplas histórias para que as vendas fossem rápidas e garantidas.
Quanto à escrita, é simplória, pouco imaginativa, sem qualquer rasgo. Os diálogos são escorreitos, é verdade, e o livro lê-se rapidamente, mas não deixa qualquer marca. Não consigo perceber como ganhou prémios literários, a não ser que a exigência das Academias esteja a um nível baixíssimo ou que a minha exigência esteja insuperável.
Outra medida do sucesso dos novos livros é a espessura dos mesmos. Quanto mais páginas melhor. Mastiga-se, mastiga-se, acrescentam-se pormenores e pistas, tiram-se do nada novas personagens e estica-se tudo. Parece uma competição com Stieg Larsson. Só que Stieg Larsson e a sua Triologia Millennium valem trezentas vezes mais, em todos os aspectos.
Os livros policiais são entendidos por muitos como literatura menor. Não concordo e já li grandes obras que, à volta de crimes e de mistérios, são verdadeiros tratados de literatura: Almas cinzentas, por exemplo, ou O Nome da Rosa. Talvez Joël Dicker escreva um novo romance, policial ou não, que se redima deste começo tão ruidoso, mas, suspeito, tão fátuo.
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