05 março 2006

O medo


O medo está na origem da maioria das nossas acções. A dor e o medo. Porque nos defendem de ameaças à nossa integridade física e psíquica.

A reacção de contracção muscular e afastamento de um membro após uma picada de uma agulha, por exemplo, serve para impedir que essa mesma picada lesione seriamente a área afectada. A dor funciona como um aviso de perigo.

O medo actua após um primeiro ataque. Pressupõe aprendizagem e tenta evitar a lesão. Faz nascer a prudência. É preventivo.

Por isso a sociedade, como um corpo único, é também accionada pela dor e pelo medo.

Hoje em dia a maior preocupação da sociedade ocidental é a segurança. Quer evitar a doença, a fealdade, a velhice, o terrorismo. É de tal forma obsessiva esta cruzada em prol da segurança total, da eliminação do risco, que nos arriscamos a não ter capacidade de aprendizagem, porque deixamos de ter estímulos, deixamos de saber interagir com o meio envolvente que é, muitas vezes, hostil.

E assim perigamos a existência do indivíduo como tal, para construirmos Guantanamo, proibirmos o tabaco, produzirmos estudos em que se padronizam comportamentos de crianças de 3 anos, rotulando-as de comportamentos de risco para a sociedade idealizada (“A Origem das Espécies” – 5/3/2006 – Laranja mecânica).

E então, mesmo que houvesse um determinismo biológico ou social, que faríamos – prendê-las, para que ficassem impossibilitadas de fazer o “mal”; ou dar-lhes medicamentos que regulariam esses impulsos associais; ou mesmo recorrer à exterminação?

A diversidade biológica e comportamental enriquece a sociedade. Um corpo é feito de muitas células que, a todo o momento, sofrem mutações que são benéficas, outras que são letais, adaptam-se às mudanças e fortalecem-se, ou não o fazem e morrem. O corpo social é muito semelhante. Cada indivíduo comporta-se de forma diferente e é livre de escolher o seu comportamento.

Cabe à sociedade proporcionar-lhe o melhor ambiente possível, dar-lhe todas as oportunidades para que possa, de facto, escolher, e encontrar métodos que o afastem do seu meio se, e só se, o seu comportamento comprovadamente perigar o tecido social.

Uma coisa é estar infectada por um vírus, outra é desenvolver uma doença, outra ainda é transmiti-la a outros. Todos temos potencialidades de destruir mas, a maioria de nós, dedica-se a construir.

(Aguarela de Jennifer Thomson: Fear)

2 comentários:

  1. Ricardo Leite Pinto23:04

    Excelente analogia. Que só alguém da medicina ( e de uma certa medicina) poderia fazer. Apesar de concordar com a " teoria geral" - recusar o excesso de prevenção que leva ao ultrasecuritarismo - é difícil saber até onde devemos deixar o corpo social indefeso na expectativa da reacção certa "a posteriori" . Como no corpo humano, aliás...

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  2. Sofia Loureiro dos Santos12:13

    Completamente de acordo.
    Mas, quando se trata de biologia, o método científico assegura que a repetição de um acontecimento é idêntica, se reproduzidas exactamente as mesmas condições de estímulos, de meios ambientais, com um mesmo ponto de partida. Mesmo assim, é extremamente difícil atingir estas condições, que nunca o são a 100%.
    Em termos comportamentais, em que não se controlam os meios, nem os estímulos, e em que se não conhecem perfeitamente os pontos de partida, como concluir? Como prevenir?

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