29 abril 2009

Do anticomunismo

 


Tenho seguido com estupefacção uma espécie de discussão entre dois blogues iniciada a propósito de uma avaliação de desempenho dos deputados europeus proposta por um eurodeputado italiano, publicada num site que, dois dias depois, fechou.


 


O post que desencadeou as hostilidades fez uma análise dos dados disponibilizados no dito site e concluiu que:



Após o esclarecimento do autor do post em relação ao facto de se ter levado em conta o tempo de mandato, e que o que se pretendia era uma avaliação da pessoa e não de um grupo de pessoas, Sérgio Ribeiro avança com a estratégia da vitimização, acusando A. Teixeira de ser incorrecto e de insinuar, de ser enfatuado e preconceituoso, mais adiante escrevendo O resto é ou analfabetismo, ou iliteracia, ou ignorância, ou estupidez, ou má-fé, ou um pouco de tudo.




Sérgio Ribeiro escreveu então um indignado texto remetendo-se ao post de A. Teixeira como disse coisas evidentemente erradas, e tirou conclusões "avaliadoras" eivadas de profunda má-fé e primário anti-comunismo, como acabo de concluir em definitivo., tentando explicar que a sua prestação tinha sido excelente, considerando o mandato como a soma dos mandatos dos deputados. Na caixa de comentários, para além da resposta de A. Teixeira desmontando a argumentação de Sérgio Ribeiro




Tome agora em atenção os resultados quantitativos do seu trabalho – retirados do site recomendado por si… – quando comparados com o eurodeputado Duarte Freitas (PSD) comparando-os com o seu: Perguntas: Sérgio Ribeiro – 13 Duarte Freitas – 23; Propostas de Resolução: Sérgio Ribeiro – 3 Duarte Freitas – 2; Relatórios: Sérgio Ribeiro – 1 Duarte Freitas – 7; Pareceres: Sérgio Ribeiro – 0 Duarte Freitas – 2; Intervenções: Sérgio Ribeiro – 26 Duarte Freitas – 139: A Conclusão aparente: Duarte Freitas tem uma prestação quantitativamente muito superior à de Sérgio Ribeiro, logo deverá estar muito melhor classificado… Mas a Conclusão está errada. Na realidade, na classificação do Parlorama que tanto se tem afadigado a contestar, Duarte Freitas encontra-se em 781º lugar, 63 lugares depois de si, o que prova que, ao contrário das suas justificações, o factor tempo foi levado em conta para aquela classificação que tanto o embaraça, a si e ao seu partido.(...),

 


encontram-se reacções de camaradas seus que, desde lombriga a enviar o A. Teixeira para o México, valeu de tudo.




Este episódio caricato é bem um exemplo da discussão típica de um determinado grupo de pessoas, treinadas a responder primeiro com ataques agressivos, denegrindo o carácter, a atitude e a boa-fé de quem discorda, assumindo uma pose de superioridade moral, depois atirando com dados que pretendem desviar o oponente do cerne da questão, demonstrando o seu superior conhecimento e capacidade intelectual. Neste grupo estão os comunistas e aqueles que já o foram, durante muito ou pouco tempo, simpatizantes ou filiados. Assim discutem Sérgio Ribeiro, Vital Moreira, Pacheco Pereira e Francisco Louçã, para citar alguns.


 


A vanguarda esclarecida guarda as pérolas da verdade e da iluminação mental, com um desprezo absoluto por todos os que põem em causa a sua dedicação à causa, seja ela qual for. Não há responsabilidade individual pois esta dilui-se na colectiva. Assim falava Mário Nogueira a propósito da avaliação dos professores.


 


Um eurodeputado deve prestar contas pelo seu desempenho, deve ser avaliado e essa avaliação deverá ser escrutinada pelos eleitores. Aceito perfeitamente que haja outros parâmetros que não foram considerados e que são tão ou mais importantes que aqueles. Mas, mais uma vez, o melhor sistema é aquele que não existe.


 


Sérgio Ribeiro e os controleiros de serviço, com a barragem de comentários a desqualificar o atrevido A. Teixeira, só mostraram o quanto é necessário encontrar urgentemente um sistema de avaliação dos eurodeputados.


 


E não, não sou anticomunista, nem primária nem secundária. Mas se calhar devia ser, pois também sou antifascista. Se calhar sou mesmo preconceituosa ao aceitar que há posturas antidemocráticas melhores, as de esquerda, e posturas antidemocráticas piores, as de direita.



 Nota: sublinhados meus.


 

27 abril 2009

Códigos

 



(pintura de Jared Klusner: Ghost Ship)


 


Não tenho como medir as fontes

que me rodeiam de água ou de letras

consoantes desalinhadas

num perpétuo sentir diferente.

Faltam-me as réguas que arrumo

lado a lado na memória da solidão

as balanças de precisão onde posso comparar

lenços e mãos livros e mágoas.

Nem tenho como controlar as pequenas moléculas

que se agitam a necessária oxidação de radicais

permanentemente livres.


 


Vou dedilhando pacientemente nos muros

em códigos que desconheço.

 

26 abril 2009

Suite nº 3 para orquestra em Ré Maior - "Air"

 


 



 


J. S. Bach:


Suite nº 3 para orquestra em Ré Maior (BWV 1068) - Air

Anatomopatologistas precisam-se

                


 (schistosomíase; carcinoma ductal invasivo Her-2 +++)


 


Ao contrário do que é habitual, este é um post de alerta e em defesa da corporação dos Anatomopatologistas, a que eu pertenço.


 


Os Anatomopatologistas são médicos especialistas em diagnosticar as nossas doenças, olhando para o microscópio, olhando para os tecidos e as células, tentando ver cada vez mais além, havendo até já formas de olharem para as moléculas.


 


Aos Anatomopatologistas é-lhes pedido que distingam entre uma malformação congénita, uma infecção ou um tumor, entre um tumor benigno e maligno. É-lhes pedido que, a meio de uma operação, decidam entre a malignidade e a benignidade de um tumor, se este está totalmente extirpado ou se é preciso fazer uma cirurgia mais agressiva.


 


Depois, para além do diagnóstico e da avaliação das margens cirúrgicas, têm que fazer o estadiamento do tumor, ou seja, têm que dizer até que ponto o tumor está avançado porque isso condiciona o tipo de tratamentos que serão necessários, para além da perspectiva do tempo e da qualidade de vida do doente.


 


À medida que vão sendo descobertos os mecanismos moleculares de alteração das células e se vão desenvolvendo medicamentos dirigidos a cada uma dessas moléculas, o que significa terapêuticas individualizadas, tendo em conta os diferentes comportamentos dos tumores e as diferentes formas de que eles se revestem, o trabalho dos Anatomopatologistas é também de orientação quanto ao exacto medicamento a administrar.


 


Os Anatomopatologistas estão na base de cerca de 80% de todos os actos médicos, cirúrgicos e terapêuticos dos sistemas de saúde. A eles se exige conhecimentos especializados da sua especialidade, adaptação a tecnologias cada vez mais específicas, permanente interacção com as outras especialidades clínicas e cirúrgicas para a abordagem multidisciplinar dos doentes, estudo e monitorização permanente do seu próprio trabalho, controlo de qualidade, investigação clínico-patológica, formação dos mais novos, documentação iconográfica do seu trabalho, coordenação e participação nas bases de dados do registo oncológico, realização de rastreios de vários tipos de neoplasia (colo do útero, mama, cólon, etc).


 


Os Anatomopatologistas respondem a todos os serviços dos hospitais (públicos e privados), não têm listas de espera e têm objectivos de rapidez e qualidade nos tempos de resposta. Como a sua actividade depende da actividade dos outros serviços os anatomopatologistas parecem invisíveis. Se houver incentivos aos cirurgiões para operarem mais, aos gastrenterologistas para fazerem mais consultas, etc, não se pensa que desse trabalho resultam mais peças cirúrgicas, mais biopsias e mais citologias para os mesmos Anatomopatologistas, que não recebem incentivos nenhuns.


 


Há cada vez menos Anatomopatologistas e os que existem estão cada vez mais envelhecidos e com cada vez maior carga de trabalho. Enquanto não houver uma revisão da forma como se remuneram estes especialistas, a especialidade, cada vez mais necessária até pelo aumento das doenças oncológicas, continuará a ser preterida por outras menos trabalhosas e melhor remuneradas.


 


A medicina de qualidade depende tanto de serviços de cirurgia altamente especializados como de oncologistas, pediatras, obstetras, gastrenterologistas, como de anatomopatologistas em número, motivação e competência suficientes para que possam cumprir um papel central na prestação de cuidados de saúde.


 


É extremamente importante que os decisores políticos e administrativos, a nível central e periférico entendam esta urgência e tudo façam para promover a melhoria das condições de trabalho destes especialistas, e para incentivar a escolha desta especialidade.

 


                      


 (linfoma de Bürkitt; lesão intraepitelial de baixo grau)


 


 


Nota: Report of the Review of NHS, Pathology Services in England, Chaired by Lord Carter of Coles, 2006


 

25 abril 2009

Começo pelo trabalho

 



(pintura de Vieira da Silva)


 


Começo pelo trabalho mas não sei

o que se passa na terra da fraternidade.

Um dia como os outros talvez mais cedo

mas não sei o que murmura a cidade.

Estico a corda até ao peito

estalo o chicote da memória

mas não sei o que se passou na sombra

das noites que já atravessámos.


 


Começo pelo calendário

mas não sei quem mais ordena em mim.

Talvez a liberdade.

 

Trinta e cinco anos antes

 



 


 



 

Trinta e cinco anos depois


 


Há hoje uma tristeza alicerçada na incerteza, na revolta pelo que não se conseguiu com a revolução de 25 de Abril de 1974.


 


Mas hoje podemos revoltar-nos ou sermos felizes, falarmos ou permanecer em silêncio, cantar, gritar, escrever, perguntar, podemos resistir, podemos até tentar ser felizes, sem que ninguém nos cale, sem que ninguém sequer se lembre de nos calar.


 


Somos poucos ou muitos, satisfeitos ou azedos, temos o direito de o ser.


 


A liberdade está no ar que respiramos. Não existia para os nossos pais. Esquecer que a música, os olhares, até as palavras de amor eram vigiadas, é um passo para o apagamento da memória do que é uma ditadura.


 


Vivemos em democracia e liberdade. Vale a pena lembrar que houve um punhado de militares a quem devemos a comemoração do dia de hoje. Independentemente das razões posteriores de desagrado, essa é uma dívida que não se apaga.


 

24 abril 2009

24 de Abril de 1974

 



 


Este é um desafio diferente.


 


Que aconteceu nas nossas vidas a 24 de Abril de 1974? Quem se apercebeu da revolução? Quem foi comprar cigarros e viu soldados? Que precisava de companhia e ouviu a "Grândola, vila morena"? Quem ouviu zunzuns do que se ia passar? Quem dormiu o sono dos justos e acordou sem qualquer suspeita? Quem quis ir toma café e deu com ele fechado?


 


A minha noite foi tranquila e inocente, como todas as outras noites anteriores. Apenas o dia seguinte me despertou para algo de diferente e muito bom.


 


Mas, parafraseando Baptista Bastos: onde estavas no 24 de Abril? 


 


 


Lanço o desafio a quem quiser, obviamente, indigitando desde já:



Nota: Esta noite a Liberdade é o título de um livro de Dominique Lapierre e Larry Collins


 

As cidades

 



 


(Rodrigo Leão & Cinema Ensemble)

A passagem da noite

 



 


Hoje temos o Portugal de Rodrigo Leão, melancólico e romântico, em tons esbatidos, aqui e ali com ruídos e gargalhadas, cruzando estradas, em áreas de lentas e mortíferas pás eólicas.


 


Há 35 anos éramos o Portugal de Carlos Paredes e das suas baladas a preto e branco, caras fechadas e malas às costas, espingardas em mãos rudes por essas terras longínquas de um império a desfazer-se.


 


Como passámos essa noite, essa longa noite de analfabetismo de joelhos e mãos postas? Como acordámos para a luz, o ruído e a festa? Como transformámos as casas, as vidas, os campos? Como marchámos em direcção aos novos descobrimentos europeus? Como mantivemos a melancolia?


 


Amanhã já passaram 35 anos, mas continua um frémito de emoção quando se ouve Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes. Ultrapassamos os verdes anos para o novo retrato musical. Mas ainda a esbater o som e as cores, continuamos de ombros curvados.


 


Mas caminhamos.


 




 

22 abril 2009

Processos e entrevistas

 


José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes vão processar José Sócrates. Não entendo o alarido. É um direito que lhes assiste, tal como ao Primeiro-ministro.


 


A entrevista de ontem foi mais uma prova da fraca capacidade jornalística na entrevista política e da vocação de rolo compressor de Sócrates.


 


Judite de Sousa não conseguiu disfarçar o azedume contra Sócrates assim como Sócrates tratou Judite de Sousa com um desprezo absoluto. Falou-se da cooperação institucional entre o Presidente da República e o governo durante metade do tempo, em que os entrevistadores, principalmente Judite de Sousa, tentaram demonstrar a Sócrates que os discursos do Presidente visavam as opções governativas. Sócrates aproveitou para enviar um recado ao Presidente e à oposição quando disse que não acreditava que o Presidente se deixava instrumentalizar pela oposição.


 


A outra metade foi passada a falar do Freeport, tendo mais uma vez Judite de Sousa instado José Sócrates a defender-se da acusação de corrupção, quando Sócrates não é acusado de nada.


 


José Alberto Carvalho esteve muito apagado. Suspeito que detesta este tipo de entrevistas.


 


José Sócrates abalroou os jornalistas e só disse o que lhe apeteceu. Ao seu estilo esteve bem, embora a escassa fase em que se falou da crise e em que procurou passar a imagem de que quando reduziu o IVA já a estava a antecipar, tenha estado a reescrever a história, como disse Nicolau Santos.


 


De Vital Moreira e do debate europeu é que se tem ouvido um silêncio ensurdecedor. Tal como defendi neste post, e após a primeira prestação televisiva do cabeça e lista do PS para as eleições europeias, o PS tem uma séria hipótese de se dar mal com esta escolha. Não só Vital Moreira está a ser empurrado para uma discussão de política interna e não de política europeia, mérito da estratégia do PSD, como está a criar anticorpos e antipatias.


 


Se as eleições europeias se transformarem nas primárias das legislativas, o PS pode estar em muito maus lençóis.


 

21 abril 2009

Camadas

 



(pintura de Yves Klein: Untitled Fire Painting)


 


Retiro camadas às letras que escrevo.

 


Descarnadas línguas de fogo e neve

desaparecem marcadas

como as memórias que queremos apagar.


 

Quase não respira

 



Poema de José Agostinho Baptista


Foto de Jack Robinson:


Two Nuns Walking on Canal Street



 


Quase não respira,


entre os lençóis azuis, imóveis,


que as irmãs da bondade estendem, sem


remorso nem fadiga,


para o seu corpo deitado.


 


Alguém fechou as cortinas.


A penumbra oculta as formas imprecisas dos


ombros nus.


O peito levanta-se e cai como se os


inesperados ventos da ira percorressem os


quatro cantos da casa.


 


Ouve-se, ao longe, um sino,


e os cães ladram.


Ninguém sabe que está aqui, que mal respira,


entre os lençóis azuis,


imóveis,


que as irmãs estenderam,


ao verem os clarões no deserto,


o regresso dos exércitos vencidos.


 


Talvez pense nos atalhos da montanha que


pela noite descia, até ao vale do assombro,


rodeado de lanternas que dançavam.


Via essas mulheres de longas vestes,


em círculo,


nomeando o inominável,


e não tinha medo.


 


Quando chove,


ele fecha os olhos que perderam a cor da sua


infância de melros e roseiras bravas.


Agora,


tudo é cego,


tudo é silêncio.


 

Casta Diva

 


 



 


Maria Callas - Casta Diva


Norma - Vicenzo Bellini


 

Prémios

 


Tenho estado muito desatenta a certos gestos de apreço que algumas pessoas me têm mostrado, o que é imperdoável. Não tenho qualquer desculpa.


 


Mas mesmo atrasados, e com o pedido de compreensão pelos citados bloguers, vou fazer seguir as correntes:


 


O primeiro para uma primeiríssima preferência minha, pela pessoa que vamos tendo o privilégio de ler.


 



 


O segundo pela gentileza de me ter dado este presente, a quem passei a visitar com frequência.


 



 


Sendo assim, vou já reencaminhar estes prémios a quem de direito, publicando desde já as regras para continuar a cadeia:



  • Reencaminhar este prémio a 10 blogs

  • Exibir a imagem do prémio

  • Postar o link do blog que o premiou

  • Indicar 10 blogs para fazerem parte do "este blog é tão bom que até arrepia"

  • Avisar os indicados

  • Publicar as regras

     


E o nomeados são:



  1. Anacruzes

  2. bonstempos hein?!

  3. Café del Artista

  4. Contra Capa

  5. DER TERRORIST

  6. Garfadas on line

  7. Grama a Grama

  8. Herdeiro de Aécio

  9. Ponto de Cruz

  10. MÁTRIA MINHA


Não há pragas para quem não seguir a corrente!


 

Europeias (1)

 



 


Ontem, quebrando uma promessa feita a mim própria, fiquei a ver o programa Prós & Contras.



A única coisa que consegui, aliás como das outras vezes, foi ficar com uma enervação, uma desilusão e uma revolta enormes, para além da insónia.



É verdade, estou uma exagerada. Mas este tipo de espectáculos deploráveis que os nossos candidatos nos oferecem é mais um motivo para a descredibilização da política, para o afastamento entre os políticos e os cidadãos, para a descrença no sistema democrático.




Ninguém falou da Europa nem das políticas europeias. A reboque da crise e da luta política para as legislativas, foi o vale tudo. O programa, pessimamente conduzido por uma Fátima Campos Ferreira que parecia comprazer-se com aquela algazarra, permitindo que o programa se transformasse numa espécie de governo contra oposição de baixo nível, chegando a rir-se das figuras que se faziam (na verdade davam mais vontade de chorar), foi um mostruário de demagogia, golpes baixos e incapacidade de debate de ideias, que seguramente estão ausentes de todas aquelas cabeças.



Vital Moreira foi de uma desonestidade intelectual a toda a prova, com uma pose de superioridade moral totalmente fora de contexto, conseguindo fazer corar de vergonha qualquer pessoa quando, a propósito não sei de quê, resolveu dizer a Paulo Rangel que não tinha sido nomeado para resolver um problema interno do partido. Extraordinariamente também não conseguia avaliar a actuação de Durão Barroso porque ele ainda não tinha acabado de cumprir o mandato.



Paulo Rangel, com a sua forma gongórica e redonda foi atrás de todos e a propósito do que iam dizendo lá se indignava com o depauperamento moral do seu adversário Vital Moreira, não se excluindo da desvergonha ao lembrar o passado político de Vital Moreira e a sua desvinculação do PCP.



Ilda Figueiredo disse o costume, com a entoação do costume, contra aquilo que é costume, com um tom exactamente igual ao de Mário Nogueira. Não se distinguem os dois discursos. Mas, pelo menos, não foi abjecta.



Miguel Portas foi o que mais tentou discutir matérias europeias. Mas a demagogia pura, o encostar-se a torto e a direito a Manuel Alegre totalmente a despropósito e o tom de educador da classe operária, estragaram tudo.



Nuno Melo teve muita convicção sobre nada e coisa nenhuma, atirando números sobre QREN e outras siglas sem que ninguém tivesse percebido se era ou não verdade o que dizia.



Das bancadas ouviam-se gritos e dichotes de Ana Gomes, de Edite Estrela e de outras figuras que não consegui identificar.



Este foi apenas o primeiro debate. Nem quero imaginar como serão os últimos.


 

18 abril 2009

Viva La vida

 



(Coldplay)


 


I used to rule the world

Seas would rise when I gave the word

Now in the morning I sweep alone

Sweep the streets I used to own


 


I used to roll the dice

Feel the fear in my enemy's eyes

Listen as the crowd would sing:

"Now the old king is dead! Long live the king!"


 


One minute I held the key

Next the walls were closed on me

And I discovered that my castles stand

Upon pillars of salt and pillars of sand


 


I hear Jerusalem bells a ringing

Roman Cavalry choirs are singing

Be my mirror my sword and shield

My missionaries in a foreign field

For some reason I can't explain

Once you go there was never, never an honest word

That was when I ruled the world

(Ohhh)


 


It was the wicked and wild wind

Blew down the doors to let me in

Shattered windows and the sound of drums

People couldn't believe what I'd become


 


Revolutionaries wait

For my head on a silver plate

Just a puppet on a lonely string

Oh who would ever want to be king?


 


I hear Jerusalem bells a ringing

Roman Cavalry choirs are singing

Be my mirror my sword and shield

My missionaries in a foreign field

For some reason I can't explain

I know Saint Peter will call my name

Never an honest word

But that was when I ruled the world

(Ohhhhh Ohhh Ohhh)


 


I hear Jerusalem bells a ringing

Roman Cavalry choirs are singing

Be my mirror my sword and shield

My missionaries in a foreign field

For some reason I can't explain

I know Saint Peter will call my name

Never an honest word

But that was when I ruled the world

Oooooh Oooooh Oooooh

 

O vídeo Freeport da TVI

Estive a ver o famoso vídeo sobre o Freeport e há várias coisas que não percebo (e quem fazia as perguntas também não…).



  1. Qual o exacto montante de dinheiro que foi usado para o suborno? Fala-se em 500.000, não se sabe se euros, libras ou contos, e posteriormente em 2 ou 3 milhões de euros.

  2. A quem foi pago o dinheiro? Segundo Charles Smith foi pago em dinheiro vivo a um homem de Sócrates que, mais tarde, é identificado como o primo, mas também se fala no Secretário de Estado do Ambiente.

  3. Como foi pago o dinheiro? Segundo Charles Smith foi pago durante 2 anos, entre 2002 e 2003 após a aprovação do projecto, altura em que o PS não estava no governo. A ser verdade e dividindo 500.000 por 24 meses, Sócrates, o primo ou o Secretário de Estado do Ambiente recebeu 20.833,33 euros, libras ou contos por mês.

  4. Qual o objectivo de pagar um suborno para aprovar um projecto se o projecto já tinha sido aprovado, estando ainda por cima o PS na oposição, não se fazendo ideia quando poderia voltar ao poder?

  5.  


Discurso presidencial

 


O discurso de Cavaco Silva é, de facto, um libelo ao capitalismo, à desresponsabilização das empresas, a este e aos outros governos, incluindo os seus, ao arrivismo, demagogia e oportunismos de todas as épocas, nomeadamente daqueles que querem regressar ao intervencionismo estatal sem regras, como o BE, é um bom discurso em que todos nos devemos olhar ao espelho, incluindo o Presidente da República. 


 


(…) na génese da crise financeira e económica que o mundo enfrenta, muito pesaram a violação de normas éticas e a adopção de comportamentos de risco cujo impacto sobre o sistema financeiro e o bem-estar das populações não foi devidamente ponderado. Para além da imprudência e, mesmo, da incompetência reveladas na avaliação e tomada de riscos, muitos foram os gestores financeiros que, simplesmente, perderam o sentido da decência (…) A assunção de riscos desproporcionados e a falta de transparência do sistema financeiro acabaram por ser estimuladas por uma regulação insuficiente, por uma supervisão deficiente e por uma visão imediatista do sucesso económico e empresarial e do desempenho individual. (…)


 


(…) Creio que faltou vontade política e económica para questionar o caminho que estava a ser seguido e que há muito suscitava reservas. É legítimo, por isso, dizer que a ausência de valores nos mercados, na política e nas instituições financeiras terá sido uma das razões de fundo explicativas desta crise. (…)


 


(…) Muitos dos agentes que beneficiaram do status quo – e que tiveram um papel activo nesta crise financeira – continuam a ser capazes de condicionar as políticas públicas, quer pela sua dimensão económica quer pela sua proximidade ao poder político. Acresce que, num cenário de dificuldades, e sob a pressão da necessidade urgente de agir, as decisões nem sempre são ponderadas devidamente, acabando por abrir espaço para o desperdício de recursos públicos ou para a concentração desses recursos nas mãos de uns poucos, precisamente aqueles que detêm já maior influência junto dos decisores. (…)


 


(…) Seria um erro, no entanto, pensar que a obrigação de acautelar os princípios de justiça, de equidade e de coesão recai apenas sobre os decisores políticos. É nas empresas e no diálogo entre elas e dentro delas que começa esta responsabilidade. Nos últimos anos, assistiu-se, em muitos países desenvolvidos, a uma crescente fragilização do tecido social, resultado de uma enorme complacência face às desigualdades de rendimentos e de direitos e aos ganhos desproporcionados auferidos por altos dirigentes de empresas. (…) Seria política e socialmente perigoso e eticamente condenável que a crise fosse aproveitada para acentuar esta fragilidade, repercutindo os custos da actual situação económica sobre os mais desprotegidos. (…)




(…) É urgente que os decisores reajustem as prioridades e corrijam as injustiças e os erros que a crise desmascarou. Devem fazê-lo com sentido de humildade. É urgente colocar no topo da agenda, ao lado da liberdade, a responsabilidade, a solidariedade e a coesão sociais, e compreender a importância que a verdade, a transparência e os princípios éticos têm no bom funcionamento de uma economia e no desenvolvimento de uma sociedade. (…)


 


(…) Este é um período em que se pede ao Estado um maior activismo. No entanto, esta não é altura para intervencionismos populistas ou voluntarismos sem sentido. Os recursos do País são escassos e é muito o que há ainda por fazer. É preciso garantir o máximo de transparência na utilização dos dinheiros públicos. Desde logo, por uma questão de respeito para com os contribuintes. (…)




(…) Este é também um tempo em que às empresas portuguesas se exige rigor económico, visão estratégica e, igualmente, clarividência social. É importante que a responsabilidade das empresas não se esgote na sua área específica de negócio e inclua a promoção da justiça, da equidade e da valorização humana. (…)

Shame on us all

Ia escrever um post sobre o preconceito e a emoção. Mas a Cristina já o escreveu. Faço minhas as suas palavras.


 


E, já agora, assistam.


 



 

17 abril 2009

Xutos e pontapés

 


O total disparate que se tem feito à volta de uma canção dos Xutos e Pontapés, pelo facto de ser uma crítica ao Primeiro-ministro, é completamente ridícula.


 


E qual é o problema? Porquê tamanha publicidade que deu para notícia de telejornal? Os Xutos e Pontapés não podem criticar Sócrates? Isso não é normal em democracia? Porque é que os media tratam este assunto como anormal? É porque o querem transformar num facto político? Até foram entrevistar deputados pedindo-lhes uma interpretação (difícil!) para a letra da canção. E lá estavam todos, inclusivamente Manuel Alegre.


 


Mas não há mais nada para noticiar?


 


Entretanto o Sol faz-nos o obséquio de interpretar as palavras de Cavaco Silva que, obviamente, são uma duríssima crítica ao governo.


 


Haja paciência.


 

Papéis trocados

 


Um referendo à classe médica no caso do Governo aceitar a ideia do doutor João Cordeiro de comprar, através de um concurso público, para determinadas moléculas um medicamento genérico de qualidade, se concordam em disponibilizá-lo directamente e se aceitam que nos centros de saúde e hospitais sejam entregues directamente aos doentes, de maneira que possam ficar gratuitos para todos os pensionistas???


 


Mas a que propósito é que os médicos vão dispensar medicamentos, genéricos ou outros, directamente aos doentes? Então os médicos não aceitam, e muito bem, que lhes troquem o receituário sem a sua autorização explícita e vão passar a entregar medicamentos aos doentes?


 


Os médicos devem prescrever por DCI, independentemente das marcas de medicamentos, genéricos ou outros, sempre que possam confiar na garantia de qualidade dos mesmos. Isso é que é importante. Se há um Instituto Público que garante essa qualidade, não me parece que haja razões para duvidar dele.


 


Se há médicos que utilizem a indústria farmacêutica para seu próprio proveito, que sejam investigados e, se for caso disso, que se proceda disciplinarmente contra eles.


 


Mas misturarem-se concursos de medicamentos genéricos, atribuições de médicos e de farmacêuticos dá a sensação de que o que se discute não é a saúde dos doentes nem o seu direito a serem bem tratados pelo mais baixo preço possível, mas as agendas e os negócios de várias entidades e instituições.


 

14 abril 2009

Fora de prazo

 



 


A nomeação de Paulo Rangel está ligeiramente fora de prazo. Dei conta de que o cabeça de lista do PSD para as eleições europeias tem uma voz e uma dicção muito parecidas com a voz e com a dicção de Natália Correia (atentem bem na mordaça).


 


O estilo está um pouco datado e a Natália Correia era bastante mais dramática.


 

Faz-me um post! Fazes? Eu também te faço um...


(pintura de Chidi Okoye: blue dance)


 


Tinha planeado escrever um post sobre os candidatos a múltiplos lugares eleitorais, como Ana Gomes e Elisa Ferreira, que já são perdedoras pelo simples facto de apostarem em duas eleições, desvalorizando obviamente as autárquicas.


 


Pensei que ainda não me tinha publicamente incomodado com o apoio de Sócrates à recandidatura de Durão Barroso à presidência da Comissão Europeia, lugar que não prestigiou, que não tornou importante, que não autonomizou, num mundo que mudou radicalmente nos últimos tempos, que tem como líder de um império que era do mal um homem que está a tentar provar que vem por bem, ainda não tinha mostrado a minha desilusão pela tal Europa velha e mumificada, que aprova tratados de Lisboa às escondidas dos cidadãos para fingir que olha em frente.


 


Mas antes de preparar os dedos para escrever, dei uma voltinha pelos blogues que estão do meu lado esquerdo, uma a um como sempre e corei. Primeiro de incredulidade, depois de atrapalhação.


 


Sempre defendi a teoria de que uma das formas de envelhecer era perder a capacidade de conhecer pessoas, de fazer amigos. Continuo a defendê-la. Hoje em dia tornamo-nos quase íntimos de nomes reais ou inventados, a quem vestimos, emprestamos uma imagem construída a partir das palavras, das músicas, da comoção e do humor de quem lemos.


 


Muitas vezes por acaso, nem sabemos bem explicar o porquê de voltarmos a procurar um pequeno texto, uma imagem, um poema. Neste caso foram poemas. E uma forma circular e discreta de realçar assuntos e pensamentos.


 


Mas sim, a desordem é um alfabeto, um alinhamento de respiração e dever, um hábito de construção e de dor. E a verdade é aquilo que vemos nos outros, no espelho que são da nossa alma.


 


Corei pois, levemente envaidecida e tocada por alguém que decifra e ordena esse alfabeto.

 

11 abril 2009

Arejamentos

 


Já há algum tempo que tenho um blogue, e ainda há mais tempo que leio blogues.


 


São uma fonte inesgotável de informação, divertimento e irritação. Há blogues para todos os gostos, temáticos, políticos, artísticos, poéticos, fotográficos, colectivos e solitários.


 


Os blogues têm as qualidades e os defeitos de quem os escreve. Há alguns que a única coisa que fazem é expor a maledicência, o azedume, a petulância e a arrogância de quem se pensa maior que o mundo e deve ser muito infeliz.


 


Por isso fiz uma limpezazita à minha lista de links. Precisava urgentemente de arejamento.

 

Teatro com Cruzamentos

 


 


 


 


No Teatro Nacional D. Maria II, há Teatro com Cruzamentos (Projecto Teia).


 


Personalidades conceituadas de várias áreas profissionais são convidadas a darem uma “aula aberta”, criando uma relação entre o seu campo específico de estudo ou actividade e o teatro, na pluralidade de disciplinas que o TEATRO encerra. Profissionais de áreas tão diversas como a Estratégia Militar, a Medicina, o Direito, a Biologia ou a Política, mostram qual a importância que pode ter para o teatro a vitalidade dos discursos das Ciências e da Filosofia.


 


No Salão Nobre, às 18:30h: convidado - Prof. Dr. Alexandre Quintanilha - já no dia 21 deste mês.


 


 


 

Balance

 



(Sara Tavares)


 


Como vi dançar no Zimbabué

Quero também contigo gingar

Uma dança nova

Mistura de Semba com Samba

De Mambo com Rumba

Tua mão na minha

E a minha na tua


 


Balancê ye

Balança ya

Swinga para lá

Swinga pra cá ye


Balancê ye

Balança ya

Maria José

Swing no pé

Senão chega p'ra lá ye


 


Somos livres para celebrar

Somos livres para nos libertar

Como crianças brincando

Crianças sorrindo

Crianças sendo crianças... ah!

Como crianças brincando

Crianças sorrindo

Crianças...


 


Balancê ye

Balança ya

Swinga para lá

Swinga pra cá ye


Balancê ye

Balança ya

Maria José

Swing no pé

Senão chega p'ra lá ye


 


Adoro quando te deixas levar assim

Fechas os olhos e danças só para mim

Uma dança tua

Mistura de não vem que não tem

Com um sorriso porém que me diz que o teu desdém

É só a manhã de alguém

Que diz que vai mas que vem

Me engana que eu gosto


 


Balancê ye

Balança ya

Swinga para lá

Swinga pra cá ye


Balancê ye

Balança ya

Maria José

Swing no pé

Senão chega p'ra lá ye


 


Balancê ye

Balança ya

Swinga para lá

Swinga pra cá ye


Balancê ye

Balança ya

Maria José

Swing no pé

Senão chega p'ra lá ye

Esperas

 



(Clara Lieu: waiting 6


 


1.

Solene palavra inominada

dentro das veias pelos veios

solene dúvida persistente

nas dobras das mãos que fervem.


 


2.

Este sábado sabe a espera

feita de ansiedades caladas e prenúncio

de alegrias ou tristezas.

Qualquer que seja o mundo

este sábado é o suspiro anterior ao fim

ou ao início.


 


3.

Nem a luz se côa pelos teus olhos

deito-me no embalo da música

em suspenso.

 

10 abril 2009

Dor


 


Tens razão, não há palavras.

Historia de un amor

 



 


(Cigala - Historia de un amor)


 


Ya no estás más a mi lado, corazón

en el alma solo tengo soledad

y si ya no puedo verte

porque Dios me hizo quererte

para hacerme sufrir más


 


Siempre fuiste la razón de mi existir

adorarte para mí fue religión

y en tus besos yo encontraba

el calor que me brindaba

el amor, y la pasión


 


Es la historia de un amor

como no hay otro igual

que me hizo comprender

todo el bien, todo el mal

que le dio luz a mi vida

apagándola después

ay que vida tan obscura

sin tu amor no viviré...


 


Ya no estás más a mi lado, corazón

en el alma solo tengo soledad

y si ya no puedo verte

porque Dios me hizo quererte

para hacerme sufrir más


 


Es la historia de un amor

como no hay otro igual

que me hizo comprender

todo el bien, todo el mal

que le dio luz a mi vida

apagándola después

ay que vida tan obscura

sin tu amor no viviré...


 


Ya no estás más a mi lado, corazón

en el alma solo tengo soledad

y si ya no puedo verte

porque Dios me hizo quererte

para hacerme sufrir más


Y si ya no puedo verte

porque Dios me hizo quererte

para hacerme sufrir más

 

O despudor da fé

 


Estamos em época de reclusão, recolhimento e expiação, a fé mover-nos-á para as montanhas da descrença, mas no entretanto apieda-se e aquieta-se nos gestos, nas vozes, nos inúmeros actos de recato religioso.


 


Assim fazemos fé no próximo Santo, na palavra dos deputados e no despudor das servidoras desperfumadas do estado.


 


É Páscoa.

 

I don't know how to love him

 



(Jesus Christ Superstar - Mary Magdalene - Yvonne Elliman)


 


I don't know how to love him.

What to do, how to move him.

I've been changed, yes really changed.

In these past few days, when I've seen myself,

I seem like someone else.

 


 


I don't know how to take this.

I don't see why he moves me.

He's a man. He's just a man.

And I've had so many men before,

In very many ways,

He's just one more.

 


Should I bring him down?

Should I scream and shout?

Should I speak of love,

Let my feelings out?

I never thought I'd come to this.

What's it all about?

 


Don't you think it's rather funny,

I should be in this position.

I'm the one who's always been

So calm, so cool, no lover's fool,

Running every show.

He scares me so.

 


I never thought I'd come to this.

What's it all about?

 


Yet, if he said he loved me,

I'd be lost. I'd be frightened.

I couldn't cope, just couldn't cope.

I'd turn my head. I'd back away.

I wouldn't want to know.

He scares me so.

I want him so.

I love him so.

 

Originalidade e cópia

 


Já vários blogues se solidarizaram com a cópia indecente e o roubo das ideias de Rosa Pomar.  Não sei se é uma corrente, mas eu vou nela.


 



 

Liberdade condicionada

 


 


 


A liberdade de expressão é um conceito muito fluido, por estas nossas bandas. Assim como a autonomia das mulheres em relação aos homens.


 


Em Portugal, as mulheres só devem ter opinião se e só se não tiverem companheiros/amigos/maridos por perto, pois nesse caso deixam de o poder fazer. Ou porque se tiverem alguma atitude contrária aquela que se pensa que o companheiro/amigo/marido sanciona, o estão a comprometer, como foi o caso da ida a uma manifestação de professores da mulher de António Costa, imediato motivo de grande especulação jornalística sobre a opinião de António Costa (não da mulher) sobre a política de educação do governo; ou porque se criticam quem critica o seu companheiro/amigo/marido estão obviamente obnubiladas, compradas, cegas e a servir os objectivos desse companheiro/amigo/marido.


 


Cabeça para pensar, opinião, empenho profissional ou outra qualquer qualidade intrínseca à sua pessoa, independente, é algo de que as mulheres são incapazes.


 


Fernanda Câncio é jornalista, e pelo que atestam os que com ela trabalham ou trabalharam, de elevada competência. É uma pessoa com capacidade de expor ideias, de formas mais ou menos felizes, mais ou menos assertivas, sobre assuntos mais ou menos polémicos, com que se concorda mais ou menos, ou mesmo nada, como já me aconteceu. Se é namorada de José Sócrates ou não, como a apelidam no Expresso e noutras capas de revistas, não tem qualquer interesse na avaliação que se faz do seu trabalho ou das suas opiniões. Não me consta que a sua relação com José Sócrates, que só a ela (e a ele) diz respeito tenha algo a ver com a sua performance profissional.


 


Como qualquer um de nós, independentemente da sua profissão, tem todo o direito de se pronunciar sobre um caso como o Freeport, que atinge a credibilidade do sistema judicial de um estado democrático, o nosso, assim como tem todo o direito de atacar o péssimo jornalismo dito de investigação que tem sido apanágio do ataque de carácter que diariamente se faz ao cidadão José Sócrates.


 


Declaração de interesses? Que tal defender o seu direito à opinião livre, sem ser atacada pelas suas relações pessoais?


 


De facto as pressões e as tentativas de censura existem, mas não aquelas que todos os dias se anunciam. A defesa do direito à honra e ao bom nome é uma obrigação de todos os que acreditam num estado de direito. Porque qualquer um de nós pode ser atingido pela lama.


 


Por amor a Sócrates


 


A namorada do primeiro-ministro tem sido um dos rostos mais visíveis das críticas ao caso Freeport

Habituada a polémicas, do aborto ao casamento homossexual, Fernanda Câncio, jornalista do “Diário de Notícias” e namorada de José Sócrates, tem-se destacado nos últimos tempos pelas críticas que faz à investigação judicial e jornalística do Freeport. 


A jornalista tem utilizado todos os meios onde escreve para atacar o processo em que o primeiro-ministro se tem visto enredado. Seja em textos de opinião no “DN”, no blogue onde escreve — o ‘jugular’ —, ou no Twitter — uma rede social que funciona como microblogue.


No entanto, foi a sua participação num programa da TVI24, que causou mais mal-estar no seu local de trabalho. No “A Torto e a Direito” (onde participa todas as semanas), Câncio criticou a investigação judicial, mas também a cobertura jornalística, que disse resumir-se a fugas de informação.


O Expresso sabe que, na sequência das declarações, Carlos Rodrigues Lima, jornalista que acompanha o caso no “DN”, enviou uma carta ao Conselho de Redacção e à direcção do jornal. No documento, Lima, que na redacção se senta a dois lugares de distância da colega, questiona se as declarações da redactora põem em causa o trabalho do jornal; e se se justifica que Fernanda Câncio continue a defender o líder do Executivo numa coluna de opinião sem que haja uma declaração de interesses.


Jornalistas contactados pelo Expresso revelam que com o caso Freeport houve uma mudança de atitude por parte da jornalista. Se até aqui Fernanda se mantinha à parte sobre tudo o que estivesse relacionado com Sócrates, agora não se coíbe de opinar sobre o tema, chegando a alertar os colegas para escreverem só após ver os documentos.

Ao Expresso, a jornalista não quis fazer comentários. No entanto, sublinhou que a investigação jornalística se reduz não só a fugas de informação, mas igualmente a “coisas parecidas com fugas de informação, já que não se sabe de onde vêm”. Filomena Martins, directora-adjunta do “DN”, não quis comentar o assunto.


Sobre a independência dos jornalistas, o ponto 10 do Código Deontológico é claro: “O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios susceptíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional. O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesses”. A polémica já se estendeu à web. No Twitter, a jornalista defendeu as suas posições. Dirigindo-se ao jornalista Carlos Vaz Marques, que comentara o assunto, disse: “Mas se me quiseres provar por A+B onde está o jornalismo de investigação no caso Freeport, feel free. E quem diz no caso Freeport, diz no caso Maddie. Assim só para começo de conversa, mas, claro, pode apenas ser que o meu conceito de jornalismo de investigação e o teu sejam muito diferentes. (...) E aguardo serenamente que me expliques por que motivo eu não tenho uma opinião independente. Tipo, a que organização pertenço, para além do jornal onde trabalho, às ordens de quem estou, para além da direcção do “DN”.” Dias depois, Câncio bloqueou a maioria de quem a seguia no Twitter. Agora quem quiser seguir o que ela escreve, só com autorização da própria.


Desde o início do ano, com o reacender do caso Freeport, já se pronunciou várias vezes sobre o assunto. Depois das primeiras buscas a casa do tio de Sócrates, escreveu: “é sempre uma festa ver gente a ser acusada sem provas nem julgamento, vende jornais, sobe audiências, etc. Gosto desta forma de ver as coisas: seríamos todos mercenários.” Seguiu-se uma crónica na sua coluna de opinião no “DN”, a 30 de Janeiro, onde recorreu a “J’accuse”, de Émile Zola, para denunciar uma “campanha mediática abominável”. “Escrita como carta aberta ao Presidente de França, é um apelo indignado em nome de um inocente injustamente condenado, libelo contra um sistema judicial corrupto e uma opinião pública contaminada pela manipulação da verdade e pelos seus preconceitos (o condenado era judeu) através de uma campanha mediática ‘abominável’.”


Câncio não se ficou por aqui. Há uma semana, escreveu outro artigo de opinião sobre o assunto no “DN”. “Se o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público denuncia a existência de pressões sobre os procuradores do caso Freeport que implicariam nem mais nem menos que a intervenção do Presidente, de duas uma: ou as pressões existem e nesse caso só se percebe que não tenham sido directamente comunicadas, como seria normal, à hierarquia da magistratura (...) ou trata-se de mais do mesmo, ou seja, uma acção tendente a adensar o clima de suspeição e alarme que rodeia o processo.”


Carolina Reis (Expresso, primeiro caderno, polémica, pág. 16) 


 


 


Declaração de interesses, de que os controleiros da moral e do politicamente correcto tanto gostam: 



  • não conheço a Fernanda Câncio, não sou sua familiar directa nem indirecta, nunca trabalhei com ela

  • não conheço José Sócrates, não sou seu familiar directo nem indirecto

  • não sou filiada em nenhum partido, nomeadamente no PS

  • não conheço nem faço parte de nenhuma estrutura partidária, como independente, simpatizante ou outras formas mais ou menos distantes, mais ou menos empenhadas

  • não exerço nem nunca exerci cargos políticos

  • trabalho a tempo inteiro na minha profissão

  • tenho cabeça para pensar e gosto de expor aquilo que penso

     



07 abril 2009

Porto sentido

 



 


Quem vem e atravessa o rio

Junto à serra do Pilar

vê um velho casario

que se estende ate ao mar


 


Quem te vê ao vir da ponte

és cascata, são-joanina

dirigida sobre um monte

no meio da neblina.


 


Por ruelas e calçadas

da Ribeira até à Foz

por pedras sujas e gastas

e lampiões tristes e sós.


 


E esse teu ar grave e sério

dum rosto e cantaria

que nos oculta o mistério

dessa luz bela e sombria


 


Ver-te assim abandonado

nesse timbre pardacento

nesse teu jeito fechado

de quem mói um sentimento


 


E é sempre a primeira vez

em cada regresso a casa

rever-te nessa altivez

de milhafre ferido na asa


 


(Carlos Tê / Rui Veloso)




 

Europa estagnada

 


Acho péssima a decisão do PS em apoiar a recandidatura de Durão Barroso para a Presidência da Comissão Europeia.


 


Enquanto há uma lufada de ar fresco nos EUA, na nossa Europa comunitária o ar continua estagnado.


 

Receitas trocadas

 


Sou totalmente a favor da prescrição de medicamentos genéricos, aliás até sou a favor da prescrição por denominação comum internacional, tal como está consagrado na legislação (Portaria n.º 1501/2002, de 12 de Dezembro de 2002):


 


A lei actual consagra a obrigatoriedade da prescrição por denominação comum internacional de determinadas substâncias activas, (...)

 


Mas é absolutamente inaceitável a hipótese da troca de medicamentos na farmácia sem a expressa autorização do médico.


 


(...) bem como a concessão ao utente do direito de opção por um medicamento genérico, quando o médico prescritor não se oponha. (...)




(...) 4 - Sempre que o médico prescritor considere haver motivos para autorizar ou não autorizar a dispensa de um medicamento genérico em vez do medicamento prescrito, deverá assinalar esta sua decisão no local próprio para o efeito.

5 - O não preenchimento ou o preenchimento simultâneo dos dois campos que constam do rodapé da receita médica equivalem à concordância do médico com a dispensa do medicamento genérico. (...)



 


O acto de prescrever segue-se ao acto de diagnosticar, que se segue ao acto de observar. Estes actos são da exclusiva responsabilidade do médico.


 


O Bastonário da Ordem do Médicos tem toda a razão naquilo que diz. Esperemos que o Ministério da Saúde actue em conformidade com a lei, que a Ordem dos Farmacêuticos não pactue com a demagogia da ANF e que haja farmacêuticos com bom senso.


 


Eleições autárquicas

 


Fátima Felgueiras foi condenada 3 anos e 3 meses de prisão com pena suspensa.


 


Domingos Névoa foi condenado a €5.000 de multa, uma pena ridícula pela demonstração de que tinha tentado subornar José Sá Fernandes, já foi nomeado Presidente da empresa intermunicipal Braval.


 


Isaltino de Morais está a ser julgado, mas já admitiu fuga ao fisco, pelo menos.


 


Será que Fátima Felgueiras e Isaltino Morais podem ser novamente candidatos às eleições autárquicas?


 

O pecado da liberdade (2)

Agradeço ao PDuarte o seu amável comentário.


 


Esclarecendo alguns pontos:



  1. João Miguel Tavares tem todo o direito de produzir os textos que bem entender e publicá-los onde lhe aprouver.

  2. José Sócrates tem o direito de se ofender com os textos que bem entender e processar quem lhe aprouver.

  3. Em democracia não há menoridades nem maioridades para os direitos, deveres e para o usufruto da liberdade de expressão, assim como para o usufruto de não se ser difamado. Não há discriminações positivas nem negativas.

  4. Outra coisa é considerar a reacção de José Sócrates um erro político, até pela importância que deu ao artigo que, não fora o processo, talvez pouco fosse lida e muito menos comentada.

  5.  


06 abril 2009

E não vemos

 



(pintura de Janet Villasmil)


Olhamos oblíquos sinais de medo

nos ombros dos pássaros de bicos curvos

silêncios de vento nos dentes cerrados

olhamos por dentro do desejo

e não vemos.


 

Hide in your shell

 



 


Supertramp


 


Hide in your shell cos the world is out to bleed you for a ride

What will you gain making your life a little longer?

Heaven or hell, was the journey cold that gave your eyes of steel?

Shelter behind painting your mind and playing joker


 


Too frightening to listen to a stranger

Too beautiful to put your pride in danger

Youre waiting for someone to understand you

But youve got demons in your closet

And youre screaming out to stop it

Saying lifes begun to cheat you

Friends are out to beat you

Grab on to what you scramble for


 


Dont let the tears linger on inside now

Cos its sure time you gained control

If I can help you, if I can help you

If I can help you, just let me know

Well, let me show you the nearest signpost

To get your heartback and on the road

If I can help you, if I can help you

If I can help you, just let me know.


 


All through the night as you like awake and hold yourself so tight

What do you need, a second-hand-movie-star to tend you?

I as a boy, I believed the saying the cure for pain was love

How would it be if you could see the world through my eyes?


 


Too frightening- the fires getting colder

Too beautiful- to think youre getting older

Youre looking for someone to give an answer.

But what you see is just an illusion

Youre surrounded by confusion

Saying lifes begun to cheat you

Friends are out to beat you

Grab on to what you can scramble for

 


Dont let teh tears...

... just let me know

I wanna know...

I wanna know you...

Well let me know you

I wanna feel you

I wanna touch you

Please let me near you

Can you hear what Im saying?

Well Im hoping, Im dreamin, Im prayin

I know what youre thinkin

See what youre seein

Never ever let yourself go


 


Hold yourself down, hold yourself down

Why dya hold yourself down?

Why dont you listen, you can

Trust me,

Theres a place I know the way to

A place there is need to feel you

Feel that youre alone

Hear me

I know exactly what youre feelin

Cos all your troubles are whithin you

Please begin to see that Im just bleeding to

Love me, love you

Loving is the way to

Help me, help you

- why must we be so cool, oh so cool,?

Oh, were such damn fools...


 

O pecado da liberdade (1)

 


Não, não desisti do blogue. Estive longe da blogosfera, primeiro por dever, depois por prazer.


 


Tenho estado a recuperar as leituras dos posts, a reunir as notícias e a indignar-me.


 


Indigno-me com os sismos e as mortes, com a possibilidade de José Manuel Durão Barroso continuar no seu posto, o que é uma premonição da desagregação da Europa, da tristeza e do sentimento de desinteresse que vão aumentando.


 


Fiquei a saber que o facto do Primeiro-ministro ter processado um jornalista pelo conteúdo de um texto publicado no DN, é um pecado contra a liberdade de expressão.


 


Independentemente de se concordar ou não com o que o jornalista diz, tem todo o direito de o dizer. Exactamente o mesmo direito que Sócrates tem de se sentir ofendido e usar os meios legais para reparar a ofensa. Não é um pecado, não é um atentado contra a liberdade de expressão, é apenas o exercício da sua própria liberdade.


 


Foi um erro politicamente? Se calhar foi. Mas a democracia existe para defender toda a gente, não é para defender os jornalistas e atacar os políticos, tal como não é para defender os políticos e atacar os jornalistas.


 


Pressões? Não há dúvida de que as há. Quem se atrever a dizer que acha, que coloca a hipótese de Sócrates ser inocente está comprado/a, é assessor/a do governo, quadro partidário, verme rastejante, estúpido ou com espírito pidesco. Quem escrever um artigo de opinião a insultar o Primeiro-ministro está a pugnar pela justiça e pela liberdade.


 


Esperemos que, se algum dia escreverem artigos de opinião a insultar João Miguel Tavares ele possa usufruir da liberdade de processar o autor dos insultos, se sentir que o deve fazer.


 


Espero bem que estes democratas nunca cheguem ao poder.


 

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...