21 abril 2009

Quase não respira

 



Poema de José Agostinho Baptista


Foto de Jack Robinson:


Two Nuns Walking on Canal Street



 


Quase não respira,


entre os lençóis azuis, imóveis,


que as irmãs da bondade estendem, sem


remorso nem fadiga,


para o seu corpo deitado.


 


Alguém fechou as cortinas.


A penumbra oculta as formas imprecisas dos


ombros nus.


O peito levanta-se e cai como se os


inesperados ventos da ira percorressem os


quatro cantos da casa.


 


Ouve-se, ao longe, um sino,


e os cães ladram.


Ninguém sabe que está aqui, que mal respira,


entre os lençóis azuis,


imóveis,


que as irmãs estenderam,


ao verem os clarões no deserto,


o regresso dos exércitos vencidos.


 


Talvez pense nos atalhos da montanha que


pela noite descia, até ao vale do assombro,


rodeado de lanternas que dançavam.


Via essas mulheres de longas vestes,


em círculo,


nomeando o inominável,


e não tinha medo.


 


Quando chove,


ele fecha os olhos que perderam a cor da sua


infância de melros e roseiras bravas.


Agora,


tudo é cego,


tudo é silêncio.


 

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