Poema de José Agostinho Baptista
Foto de Jack Robinson:
Two Nuns Walking on Canal Street
Quase não respira,
entre os lençóis azuis, imóveis,
que as irmãs da bondade estendem, sem
remorso nem fadiga,
para o seu corpo deitado.
Alguém fechou as cortinas.
A penumbra oculta as formas imprecisas dos
ombros nus.
O peito levanta-se e cai como se os
inesperados ventos da ira percorressem os
quatro cantos da casa.
Ouve-se, ao longe, um sino,
e os cães ladram.
Ninguém sabe que está aqui, que mal respira,
entre os lençóis azuis,
imóveis,
que as irmãs estenderam,
ao verem os clarões no deserto,
o regresso dos exércitos vencidos.
Talvez pense nos atalhos da montanha que
pela noite descia, até ao vale do assombro,
rodeado de lanternas que dançavam.
Via essas mulheres de longas vestes,
em círculo,
nomeando o inominável,
e não tinha medo.
Quando chove,
ele fecha os olhos que perderam a cor da sua
infância de melros e roseiras bravas.
Agora,
tudo é cego,
tudo é silêncio.
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