30 abril 2006

Na voz de Amália

Gaivota



Se uma gaivota viesse

trazer-me o céu de Lisboa

no desenho que fizesse,

nesse céu onde o olhar

é uma asa que não voa,

esmorece e cai no mar.



Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.



Se um português marinheiro,

dos sete mares andarilho,

fosse quem sabe o primeiro

a contar-me o que inventasse,

se um olhar de novo brilho

no meu olhar se enlaçasse.



Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.



Se ao dizer adeus à vida

as aves todas do céu,

me dessem na despedida

o teu olhar derradeiro,

esse olhar que era só teu,

amor que foste o primeiro.



Que perfeito coração

morreria no meu peito morreria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde perfeito

bateu o meu coração.


 





(poema de Alexandre O'Neill; pintura de Joaquim Rodrigues: fado)

29 abril 2006

Pseudo-anarco-esquerdista disparatada

Bem sei que é irracional, imaturo, se calhar totalmente infundado, e pseudo-anarco-esquerdista disparatado, mas não deixei de sorrir escarninhamente ao ler este artigo sobre as remunerações dos administradores do BCP, saído no “The Wall Street Journal” de ontem, onde se afirma que “estão a encher os bolsos à custa dos accionistas”.

A golbalização é irreversível, o mundo mudou, temos que nos adaptar às novas ordens mundiais económica, política e social, temos que prescindir dos privilégios que adquirimos nestes últimos 50 anos. Todos já conhecemos esta retórica e, em maior ou menor grau, todos concordamos com ela, é inevitável.

Mas há um sentimento incómodo de que qualquer coisa está virada do avesso. Num país em crise há tanto tempo, em que não aparecem sinais de melhoria, mesmo com políticas de austeridade que, muitos clamam, são insuficientes, muito provavelmente com razão, não deixa de fazer eco na lógica das coisas simples a reflexão de Rui Tavares, no "Público de hoje: “Socorro: somos todos uns privilegiados - Um dos aspectos mais proeminentes do discurso político contemporâneo é que as castas dominantes, que não perfazem juntas mais do que um por cento da população, têm por hábito chamar privilegiados à maior parte dos restantes 99 por cento”.

Populismo? Pois, pois é, mas desconfortavelmente a fazer sentido.

28 abril 2006

Reflexo


Olho o vidro fixamente, como quem o limpa
do reflexo de mim, da luz baça que sobra,
da memória do que segundos antes acontecera.

Sopro no vidro ar quente e morno,
nevoeiro cúmplice do esquecimento,
impressão digital que carimba a sombra
dos olhos que não vêm esta penumbra.



(fotografia Nelson Hankock: fog)

Opinião

É muito interessante observar, ler e ouvir as análises dos jornalistas e dos comentadores políticos (que se confundem cada vez mais), a propósito da actuação dos governos, das oposições, e do que pensam ser a repercussão destes nas opiniões públicas.

Tenho cada vez mais a sensação de que um grupo fala de um grupo para um grupo, e que o grupo é sempre o mesmo, muito pequeno, muito homogéneo, sem qualquer relação com o resto da enormemente maioritária população.

É claro que a verdade é um conceito que varia de pessoa para pessoa. Filosoficamente podemos discutir se um facto existe independentemente ou se só existe se quando falado, sendo diferente para cada diferente pessoa que discorra ou reflicta sobre ele.

Mas as verdades ou factos que vemos, ouvimos e lemos são totalmente diferentes dos que nós apreendemos.

Perigoso é se os responsáveis políticos decidem tendo em conta o pequeno grupo que fala sobre ele, ou o outro grupo gigante silencioso. Desconfio que o próprio governo pertence ao primeiro grupo.

E se o governo só existe porque falamos dele?

27 abril 2006

Amigos


Mal nos conhecemos
inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo
uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
amigo vai ser, é já uma grande festa!


(poema de Alexandre O'Neill; pintura de Olexander Sadovsky: friends)


Amigos são os desconfiam da nossa dor, e que nos afagam com uma palavra, um sorriso, uma gargalhada. Amigos são os que nos mantém a alma acesa. Amigos são os que queremos inundar com a nossa alegria. Amigos são os que nos ouvem, mesmo quando estamos em silêncio.

Para os meus amigos, os meus queridos amigos.

26 abril 2006

Chernobyl


O acidente na central nuclear de Chernobyl, há 20 anos, transformou em medo tudo o que diga respeito à energia nuclear.

Claro que continua a haver armamento nuclear, claro que o poder continua a ser proporcional à possibilidade de construção de armas nucleares. Mas na realidade, há um manto diáfano e obscuro de medo e sensação de assunto intocável quando se fala em energia nuclear.

É óbvio que a ciência evoluiu muito em 20 anos e que não há verdades inamovíveis, é óbvio que as condições das centrais mais modernas são outras, é óbvio que o regime ditatorial que existia na antiga União Soviética impediu que a informação fosse mais veloz e que a ajuda exterior fosse mais eficaz (também no caso do acidente no submarino Kursk, bem mais recente, os mesmos “tiques” se notaram). Bem a propósito vem um artigo assinado por Mikhail Gorbatchov, no "Público" de ontem, em que afirma que o que verdadeiramente fez desmoronar a União Soviética foi a catástrofe de Chernobyl.

Para além de todas as consequências imediatas e de médio prazo a que se assiste, nomeadamente ao enorme aumento de incidência de neoplasias malignas da glândula tiroideia e de outras neoplasias, de patologias da gravidez com hemorragias, descolamento placentar e atraso de crescimento intra-uterino, o que mais assusta é que ainda ninguém sabe como resolver o problema do sarcófago que envolve o reactor, nem quais as consequências a longo prazo, para já não falar do enorme esforço económico sem limite temporal visível.

E parece que a substituição do petróleo pela energia nuclear não resolve minimamente a dependência crescente do petróleo a que o mundo está sujeito, porque não há alternativas para combustível para os meios de transporte.

A opção ou não pela energia nuclear deve ser discutida a sério, sem enfiar a cabeça na areia, e sem perder de vista problemas técnicos ainda irresolúveis, como o lixo nuclear e, mais importante e mais preocupante, como impedir e estancar as consequências de um acidente semelhante ao de Chernobyl, que pode voltar a acontecer.

Infelizmente, em Portugal, o assunto está a ser abordado porque um senhor chamado Patrick Monteiro de Barros quer fazer uma central nuclear! Ainda não ouvi ninguém dizer quanto é que se poupa em divisas, qual a percentagem de energia que poderia ser substituída, qual o preço a que pagaríamos a electricidade, aonde se faria, quais os riscos e quais os planos de contingência na hipótese de um acidente nuclear.

Será que o Patrick Monteiro de Barros sabe responder?

25 abril 2006

Espumas


A “espuma política” – nova expressão de politiquês. Só hoje já deparei com ela duas vezes.

Pelos vistos é cada vez mais espuma e menos política.

Cavaco Silva trocou as voltas à oposição. Em vez do estafado “recado”, “ralhete” ou “puxão de orelhas”, lembrou-se da sua social-democracia e apelou a um “pacto” (mais um) para combater a exclusão social. A verdade é que deixou os bloquistas e os comunistas à nora. Como dizer mal?

Deixa-me triste o triste espectáculo dos mesmos sindicatos com as mesmas palavras de ordem, aproveitando as mesmas desgraças, a clamar pelas mesmas reivindicações, todos os anos, desde há 32.

A contestação transformou-se em espuma contestatária, na espuma da memória da espuma dos anos.

Dedicatória

Para todos quantos, todos os dias, cumprem a revolução.

Diálogo (7)


- Já ouviste o rádio?
- Porquê?
- Já saiu!
- Quem?
- Oh pá, a tropa! Já passou por cá o Antero. Parece que agora é para valer!
- Onde está o Moço?
- Não consigo falar com ele. Estivemos toda a noite a tentar reunir o grupo.
- Vou já para aí!
- A tropa está na rua! Lisboa está na rua! Desta vez não conseguem calar-nos!

Revolucionemos!


Há 32 anos e 1 dia, éramos mais pobres, mais tristes, mais apáticos, mais desesperançados. Há 32 anos, um grupo de gente corajosa, talvez inocente, talvez jovem, talvez sonhadora, deu corpo e asas aos anseios de um país morno e sem chama.

Após estes 32 anos, a chama é pequena, minúscula, mas alumia. O país tem mais cor, vive-se melhor.

Por muitas dificuldades, défices, desempregados, injustiça, endividamento, corrupção, e outras desgraças modernas e antigas, estamos melhor. De vez em quando são necessárias roturas, para refundação de objectivos, de sonhos, de juventude.

A memória do que era deve fazer compreender que pode voltar a ser. A memória do que é deve abrir a vontade do que ainda poderá ser. Revolucionariamente, é preciso querer fazer mais e melhor, trabalhar, aprender, ensinar, partilhar.

Somos todos iguais: temos todos coração, intestinos e sangue, todos choramos e rimos, temos medo da dor e da solidão, da fome e da guerra, todos somos capazes de amar, nascemos, vivemos, sofremos, morremos.

Seja qual for o sexo, a raça, o credo ou a origem, o mundo pode ser melhor, connosco.

24 abril 2006

Diálogo (6)



- Então vossemecê já sabe o que por lá anda em Lisboa?
- Eu não! Então o que é?
- Parece que há uma revolução!
- Uma quê?
- Parece que querem matar o Marcelo!
- Ai credo, valha-nos Deus!
- Parece que são os comunistas!
- Jesus, Maria, José!

Diálogo (5)

- Coitadinha, lá se foi!
- É verdade. Olhe que aos ruins, Nosso Senhor não os leva. Mas esta pobre criatura, que era uma santa…
- Era o amparo da família.
- Que Deus a tenha, paz à sua alma.
- Pior é para quem cá fica!

Diálogo (4)

- Oh vizinha, olhe que é melhor chamar a parteira!
- Será para hoje?
- Parece que sim! Está atrasado, mas a barriga já está baixa e ela está a modos que cansada de mais…
- Ai, vizinha, lá vem mais um pobre para comer o pouco que há!
- Cá se há-de criar, com a graça de Deus!

Diálogo (3)


- Parece que houve mesmo uma revolução, em Lisboa!
- Então?
- Acho que vão libertar os presos! Já se fala no Cunhal! Ouvem-se canções do Zeca Afonso!
- Meu Deus, será?
- Parece que sim…
- Finalmente!

Diálogo (2)


- Houve uma revolução, em Lisboa!
- O quê?
- Estão todos reunidos, lá no comando.
- E o Marcelo?
- Parece que o Tomás está preso. Está tudo muito confuso.

Diálogo (1)

- Parece que houve grande bernarda em Lisboa…
- O quê? Outra vez os militares?
- Sim, mas parece que a coisa está feia…
- Para que lado?
- Não sei.

Desde Abril


Foi em Maio que floresceu Abril
de há tantos anos, quantas são
as pétalas da esperança.

Foi Maio que colheu Abril
de tantos cravos como cruzes
de desenganos.

Foi em Abril que prometemos
Maio, mês início e virginal
de gritos e lágrimas.

É desde Abril que esperamos Maio.

Revolução

Amanhã vou comemorar revolucionariamente a forma como alguns já não precisam de comemorar a revolução. A liberdade permite a pessoas como Alberto João Jardim ter a ousadia e o mau gosto de declarar que não precisa de comemorar o 25 de Abril na Assembleia Regional.

Pois é: só por ter havido uma revolução existe governo regional da Madeira, e Assembleia e também falta de vergonha na cara.

Mas a liberdade é também a liberdade de ser estúpido e dizer estupidezes.

A minha liberdade é saborear estes anos todos de transformação e mudança em que, para o melhor e para o pior, estamos lutando, todos os dias, por aquilo que queremos.

Falta muito, para muitos, mas o caminho faz-se caminhando.

22 abril 2006

Parto


Tudo começa com um grito.
Depois vem o sol e depois as chuvas
e depois um pântano,
onde o amor se afunda.
O tempo passa, o pólen seca, os cabelos
são brancos;
já nada floresce como outrora, clamorosamente,
nos pátios de uma ilha,
nas cidades do mar.
Tudo acaba com um grito
entre murmúrios e cânticos de maternal
solidão –
dar à luz é dar à morte.


(poema de José Agostinho Baptista; pintura de Mamta: root)

Abril como se exige


Mergulhada por três dias na ciência, emerjo com vontade de subjectividade.

A chuva regressou e faz recolher o destapar das roupas e das janelas.

Primavera a sério, Abril como se exige.

18 abril 2006

Trabalhar


Braços, terra, papel, violinos,
prolongamentos do corpo,
como dedos, sons ou raízes,
entrelaçadas de nós.


Muito se tem falado sobre o abstencionismo dos deputados da Assembleia da República.

Penso que o problema é mais generalizado, vasto e profundo.

Hoje em dia o trabalho raramente é visto como um dever, como uma contribuição individual para o bem colectivo.

Deixou de ser compensatório, em termos sociais, ser um trabalhador competente, merecedor de confiança. Dá-se importância à remuneração em si, não se dá importância ao facto de ela ser resultado de um qualquer serviço do cidadão. Quase chegamos a pensar que temos o direito de receber um salário independentemente do trabalho que desenvolvemos.

Não se premeia o empenho, o saber, a assiduidade, a partilha de experiências. O trabalho existe no intervalo de todos os outros afazeres.

Penso que a noção de solidariedade ficou restrita à segurança social, às contribuições para as várias associações de apoio a diversos grupos de cidadãos, às pensões de subsistência, aos rendimentos mínimos e às esmolas.

Solidariedade rima com sociedade. Trabalhar é um acto de solidariedade com que, todos os dias, sustentamos a sociedade.

(pintura de Kristina Branch: Men at Work)

Medo

O mundo está perigoso ou, pelo menos assustador.

Será que o Irão vai ser o próximo Iraque? Será que o petróleo vai continuar a aumentar?

Será que o défice em Portugal está a aumentar?

Cada vez mais teremos que olhar para cima e para a frente, encolher os receios, enfrentar o desânimo, as más notícias, recusar o fado.

Todos nós somos responsáveis. Todos temos que nos mobilizar, sem esperar que alguém nos motive.

Todos temos que trabalhar mais, muito mais e melhor.

17 abril 2006

Sabe bem

Agradeço muito a referência feita a este blogue e o mail de encorajamento que recebi.

A semana começa bem!

Apontamentos


Não estarei cá, mas quem estiver e puder, não perca “A Europa Barroca” no Centro Cultural de Belém, a partir de 21 de Abril. Vou roer-me de inveja!

Durante o fim-de-semana li uma entrevista a Marcos Giralt Torrente (no Milfolhas), a propósito do seu novo livro “Os seres felizes”. Li “Paris” e gostei muito. É um livro denso, nocturno, triste, muito bem escrito. É um livro que trata a essência das relações familiares, dos tabus que as enformam e das marcas das mentiras. Estou com enorme curiosidade.

16 abril 2006

Merecido descanso


O Douro, rio, águias e ninhos de cegonhas pretas.

Domingo, chuva e sol. Descanso.

Bom fim-de-semana!

14 abril 2006

Untitled


A um deus desconhecido

Se soubesse por dentro
como se rasga a dor,
transformá-la em gotas
abundantes como a praia,

se soubesse por dentro
como se gasta a alma,
cachos de uvas e pedras
nas crateras do sonho,

se soubesse por dentro
como se ilude a espera,
por barcos e cinzas
nos cabelos do mundo,

remendava longas asas
de anjos caídos e tristes
que por dentro quiseram
negar saber que existes.

(anónimo, sec. XII, escola de Pisa: o beijo de Judas)

13 abril 2006

Pecados


Esta manhã ouvi rádio.

Depois do trabalho vim para casa. Fartei-me de viajar na Internet, onde li muitos blogues e muitos jornais.

Ainda trouxe trabalho para preparar em "power-point", e ainda por cima consultei artigos "on-line". Tudo isto na quinta-feira santa.

Planeio ir trabalhar um pouco amanhã (sexta-feira santa).

Meu Deus, quanto tenho pecado!!

(pintura de Anne Munz: sheep)

Férias parlamentares

A ausência de 120 dos 230 deputados (52%) da Assembleia da República, após terem assinado o ponto, antecipando a benesse da Páscoa e impedindo algumas votações que, pensam os incautos cidadãos, devem ser necessárias, é uma vergonha.

Mais vergonhosas ainda são as justificações dos líderes das bancadas parlamentares. Para Marques Guedes devem ser os deputados da maioria a assegurar quórum. Não sei é para que servem os outros deputados, e ele, pelos vistos, também não. Para Vitalino Canas, só depois de analisar uma a uma as justificações dadas por 49 deputados, pode concluir alguma coisa. É muito cauteloso, este Vitalino Canas, e muito justo, não gostando nada de juízos precipitados!

Não deixa de ser divertida toda esta indignação pelas faltas dos parlamentares, quando o país está de férias há cerca de duas semanas.

Mas “eles” (os outros, os políticos, enfim, aqueles corruptos) têm de dar o exemplo…

Férias judiciais

Afinal sempre havia um documento que apoia a redução das férias judiciais para um mês. Não sei se o estudo é mau ou bom, completo ou incompleto.

Mas engraçada é a forma como os juízes e os magistrados do Ministério Público reagiram à existência desse documento. Para eles é um estudo superficial, de natureza quase aritmética, um estudo de mercearia.

De facto alarmante: se até com um estudo assim tão superficial, em que bastam algumas contas de mercearia para se demonstrar um ganho de produtividade de 9,7%, o que seria se tivesse sido efectuado um estudo mais profundo, ou científico (já que têm tanto desprezo pela matemática e pela aritmética, será que sabem o que é ciência?).

Não lhes ouvi foi contestar as tais contas – estarão mal feitas?

12 abril 2006

A crise

Para quem é cristão a época pascal é de uma importância enorme, pelo significado da paixão (quinta-feira), morte (sexta-feira) e ressurreição (domingo) de Jesus. Precisa de rezar, meditar e arrepender-se dos pecados, jejuar, glorificar o seu Senhor e rejubilar com o vencer da morte. Tudo isto é muito cansativo e, portanto, a tarde de folga de quinta-feira, a somar à sexta-feira feriado são indispensáveis para toda esta expiação e penitência.

Para quem não é cristão, a canseira do trabalho árduo, que já começou há algum tempo (desde o Carnaval), trabalho a perder de vista até às merecidas férias grandes, que ainda vêm longe, obriga, obviamente, a uma paragem para recuperar forças, utilizando os feriados e a folga e, já agora, porque não aproveitar também as férias dos miúdos, que não têm aulas.

Alegre país, que depois da paragem do Carnaval, torna a parar duas semanas na Páscoa, para depois parar na ponte do 25 de Abril, e no feriado de 1 de Maio, e assim já está praticamente no Verão.

Crise, qual crise?

11 abril 2006

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Há uma voz antiga atrás da minha
e outra mão se prende na cortina

e afasta os reposteiros dessa luz
que ao puro esplendor logo conduz.

Se a voz que aqui retenho se faz presa
da própria escuridão que viu acesa,

é que outra voz se perde sem saber
que a minha voz a busca para morrer.


(poema de Luís Filipe de Castro Mendes; pintura de Madeline Garrett: Desertscape V - Hidden)

... e nós por cá...

A Itália está cada vez mais italiana, dramática e excessiva. Berlusconi está cada vez mais igual a ele próprio, inexcedível.

Prometem-se grandes contratempos e instabilidade. Tudo está periclitante e explosivo.

Em França, Villepin perdeu para Sarkozy. Chirac aprovou a lei, mas com algumas alteraçõezitas…

Nós por cá… Parece que o documento sobre o estudo do aumento da produtividade com a redução das férias judiciais vai ser apresentado.

Eu sou como S. Tomé.

09 abril 2006

Da sombra


Da sombra que passa
em momentos de luz
a pele como a taça
do mel que seduz

Da sombra que somos
nos dias de mar
momento em que fomos
capazes de amar

Da sombra que dou
quando olhas assim
para quem te guardou
nas sobras de mim


Há (re)encontros que nos espantam e comovem. Um buraco na sombra para nos aconchegarmos das luzes asfixiantes e da vertigem.

(fotografia de Sérgio Brunetto)

A meio


meia cortina
meio aberta a mão
meia metade de pão
meia conversa

meia sesta despida
meio nua tua ausência
meio desejo dormindo
meio sono escondido

meio a medo estendo
meio sorriso devagar
meia perna encosto
meio a despertar

(pintura de Martha Hollingsworth: Ivy)

Cenas do quotidiano (1)



Já vai longa a viagem. No CD tocam os Supertramp. Lá atrás o T:
- Quem é o vocalista deste grupo?
O pai de T:
- São dois…
- (inclinando-se para a frente) - Van Dóis?
- Não, são dois!
- (as mãos em concha, atrás das orelhas) - Sam Dóis??
O irmão de T, de voz arrastada, gazadora e trovejante:
- Não, é Van Der Dóis!!!
- (cara franzida e incrédula) - O quêê?!?!
O pai, a mãe e o irmão de T, em desespero ensurdecedor:
- Nãããooo!! São DOIS!!! São DOIS vocalistas!!
- (recostando-se no assento) - Hahh, são dois!

Evangelho segundo Judas


Na continuação do estudo de antigos manuscritos sobre os primeiros anos do cristianismo, evangelhos não canónicos, hereges ou gnósticos, o Evangelho segundo Judas será um acontecimento de grande importância, não só cultural mas teológica.

O facto de Judas não ser um traidor mas o discípulo predilecto de Jesus, de tal forma que é ele a quem Jesus confia o papel confirmador da previsão messiânica (com a sua morte) e sendo a ressurreição espiritual, ao contrário da carnal, a experiência inscrita nos textos gnósticos, é uma diferença substancial à leitura canónica da ressurreição de Jesus e da morte de Judas, consumido pelo remorso.

Por outro lado, Judas traidor e assassino de Jesus foi utilizado como estandarte do anti-semitismo, interpretação tolerada pelos responsáveis cristãos, com implicações macabras.

Considero interessantíssimos os debates sobre a pessoa de Jesus, na sua dimensão histórica e religiosa, fora da visão limitativa e redutora do catolicismo. Ao contrário de Frei Bento Domingues ("Um partido do Papa?" - Público de hoje), penso que Jesus teve um importante papel político e que a sua intervenção cívica, integrada na religião judaica, foi vista como uma perigosa promessa de revolução social e política, como tantas houve naqueles tempos.

Violência e ignorância

Livros queimados, escolas destruídas, os templos do saber profanados.

Isto é, para mim, a verdadeira e mais perigosa guerra religiosa.

Não há causa, reivindicação ou direito que justifique a glória da ignorância e da violência, ou da violência e da ignorância, porque uma implica a outra, sem ordem definida.

08 abril 2006

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Languidez

Tardes da minha terra, doce encanto,
tardes de uma pureza de açucenas,
tardes de sonho, as tardes de novenas,
tardes de Portugal, as tardes de Anto,

como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
horas de fumo e cinza, horas serenas,
minhas horas de dor em que sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
que poisam sobre duas violetas,
asas leves cansadas de voar…

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
traçam gestos de sonho no ar…

(Florbela Espanca)

Escola em vias de extinção

Sou absolutamente a favor da reorganização das escolas, serviços administrativos, serviços de saúde, judiciais e outros, de forma a combater os desperdícios, concentrar vontades e readaptá-los à realidade, tão diferente da de há 30 ou 50 anos.

No entanto, e porque essa reorganização implica mudanças que nem sempre são positivas para a totalidade dos cidadãos, há que escolher com precisão e rigor, fundamentar opções e partilhá-las com as populações.

Isto é particularmente necessário em matérias sensíveis como a saúde e a educação.

A propósito do anunciado fecho da Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico D João de Castro e da sua fusão com a Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico Fonseca Benevides, dos quais tive conhecimento através de uma companheira de lutas antigas, também na área da educação, fiz várias pesquisas na net.

Na mesma zona, junto a Alcântara, há estas duas escolas e a ainda a Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico Rainha D Amélia (que já se fundiu com a Ferreira Borges), ao todo três escolas de ensino público, exactamente do mesmo tipo. Parece fazer sentido pensar que não são necessárias essas três escolas. Talvez duas, ou mesmo só uma.

O que convinha explicar bem é quais sãos os critérios que levam à cessação de actividades de uma em detrimento das outras. É pior em espaço e infra estruturas, tem menos alunos, tem um corpo docente mais instável, tem piores resultados nos exames?

Quais as vantagens das outras?

Não tenho razões para desconfiar da bondade da decisão ministerial. Em princípio é-me indiferente quais as escolas que fecham e quais as que se mantém, se estiverem asseguradas as melhores instalações, as melhores acessibilidades, os melhores professores, os melhores projectos educativos, as melhores hipóteses de interacção com as comunidades, etc.

Mas para isso é preciso haver razões técnicas muito bem explicadas. Porque senão é apenas uma questão de fé na Sra. Ministra e no seu Secretário de Estado.

Angola


Angola surge, mais uma vez, como a terra prometida.

Não serão exploradores a explorar explorados mas cidadãos de um estado a trabalharem para outro estado. Resolvem-se, pelo menos, dois problemas: reduzem-se os desempregados em Portugal, aumentam-se os empregos em Angola. Pelo menos, assim se espera.

Mas não deixa de ser curioso que assuntos como liberdade de expressão do pensamento, censura, presos políticos, eleições livres, corrupção e outras palavras e conceitos, tenham sido varridos para debaixo de todas as mesas, calando as consciências democráticas do nosso governo e dos nossos empresários que, subitamente, descobriram em José Eduardo dos Santos um parceiro estratégico para a economia portuguesa.

As voltas que a História dá.

Saúde a martelo

Correia de Campos não podia ter-se lembrado de um tema mais fracturante que a luta anti tabaco para fazer esquecer outros problemas, menos glamorosos, saudáveis e de tipo milénio XXI, mas talvez mais prementes, tais como a receita médica por denominação comum internacional, a liberalização do negócio das farmácias, a falta de médicos, o caos dos cuidados primários de saúde, etc.

Claro que se não deixarmos as pessoas fumarem, beberem álcool, comerem doces, usarem o carro, não caírem e não … (há sempre o perigo da SIDA e/ou do HPV), elas não adoecerão. O dinheiro que se pouparia, meu Deus!

Deve ser essa a ideia.

06 abril 2006

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Segredo

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
tem lá dentro um passarinho
novo.

Mas escusam de me atentar:
nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
e guardar
este segredo comigo.
E depois ter um amigo
que faça o pino
a voar…

(poema de Miguel Torga; pintura de Hachivi Edgar)

Credibilidade

A credibilidade de um governo joga-se, por vezes, em pequenos apontamentos tristes e delirantes.

1. A redução da taxa de alcoolemia é um deles.

Das duas uma: ou beber álcool, independentemente da quantidade ou da qualidade, altera as capacidades de concentração e de resposta ao estímulo, e deve ser proibida a ingestão a quem conduz, ou há um valor acima do qual isso acontece, e deve ser esse o valor fixado como máximo. Em qualquer das situações, se não houver fiscalização e punição a quem não cumpre, podem aprovar-se as leis mais maravilhosas que não têm efeito.

Então para quê esta polémica iniciada pelo Sr. Secretário de Estado Ascenso Simões, inclusivamente ameaçando as associações de produtores de vinho? E os condutores, não devem ser responsabilizados? E pelos vistos até parece que em 2003 e 2004, o número de condutores aos quais foram feitos testes de alcoolemia foi de 57102 e 53822, respectivamente. Destes 95,44% e 95,91% (respectivamente) tinham taxas inferiores ou iguais a 0,5g/l.

Tanta demagogia e tanta tontice!

2. As férias judiciais são outro.

O Sr. Ministro Alberto Costa ventilou aos quatro ventos que a redução das férias judiciais para um mês, aumentaria a produtividade dos tribunais em cerca de 10%. Também afirmou que se baseava num estudo já efectuado antes da posse deste governo.

Parece que o juiz Paulo Jorge Ramos de Faria decidiu queixar-se pelo facto desse estudo nunca ter sido mostrado. A Comissão de Acesso Aos Documentos Administrativos decidiu que esse documento deve ser divulgado e estar acessível a quem o quiser consultar.

Aguardemos que a determinação seja cumprida. Ou será que era tudo uma inverdade?

05 abril 2006

Foi ele!!


Foi ele o culpado.

Do défice, do atraso, da seca, da chuva, da falta dos subsídios, da negatividade a matemática, de Espanha, da alcoolemia, de sermos tristes e deprimidos, da preguiça, do desemprego, da vitória do Cavaco!

Foi ele!!!

Futebol

TSF, oito e cinquenta e oito, sete e cinquenta e oito nos Açores: notícias importantíssimas e de gravidade nacional – o jogo de futebol entre o Benfica e o Barcelona. Durante 10 minutos trocam-se informações, fazem-se debates, esmiúçam-se previsões. O intelectual de serviço, António Lobo Antunes, intelectualiza.

SIC notícias, vinte e três e dez, há mesa redonda em vez de quadrada, discute-se o rectângulo, em vez da quadratura, em círculo os especialistas da bola, em substituição de Pacheco Pereira, Lobo Xavier e Jorge Coelho.

Mas que bola de país!

04 abril 2006

A trapalhada

Que grande trapalhada, aquilo da Polícia Judiciária! É claro que o director nacional Santos Cabral, depois de ter dito que ou fazem ou saio… saiu! Mas era preciso demorar tanto tempo a sair? Ou a ser demitido?

Mas afinal foi ele que se demitiu ou foi o ministro que o demitiu? Quem falou primeiro? Será que falaram em coro? Ou tiraram à sorte, para ver quem falava primeiro? Cara ou coroa ou par ou ímpar?

Mas que brincadeira de mau gosto!

E onde fica a sensação de segurança? Querem esvaziar a PJ de funções, de poderes, ou o quê?

Que grande trapalhada, Sr. Ministro Alberto Costa!!

Sem memória


Seres humanos iguais na dor, na memória, na indizível crueldade, no assombro do horror.

Impossível perceber a fria capacidade de trucidar.

Impossível aceitar o demónio que se esconde em cada um de nós, nas esquinas dos sorriso mornos e dos feitos heróicos.

Impossível olhar para as consequências dos nossos actos, afundados no escuro da alma dos povos.

Sem vergonha.

02 abril 2006

Páscoa


A passagem, a libertação.

Para os hebreus, Deus protegeu-os das pragas que enviou aos egípcios, sendo a última a morte dos primogénitos. O povo de Deus, escravo, através de um sinal na porta feito com sangue do cordeiro sacrificial, foi poupado pelo anjo exterminador. A seguir foi libertado e rumou à Terra Prometida.

Para os cristãos, Jesus simboliza o cordeiro oferecido em sacrifício, que liberta o Homem dos seus pecados e que se liberta da morte, ressuscitando.

Para todos nós, religiosos ou não, que sempre necessitamos de nos libertar de tudo o que nos escraviza, emocional e fisicamente, celebremos as páscoas da nossa vida, como seres individuais, como povo e como comunidade de povos.

Páscoa
– passagem, do Lat. Pascha, do Gr. Páscha, do Hebr. pesakh
(Alexander Vaisman: pesakh)

Intervalo



Domingos langorosos, melancólicos,
de espera, nem luminosos
sábados de prazer, nem laboriosos
dias madrugadores.

Intervalo entre o espreguiçar e o debulhar,
indecisão permanente,
cíclica e mal vestida,
dia de casa ou de obrigatório passeio,
dia de sorriso só prazenteiro.

Ao longe o sussurro do carro,
na esplanada cafés frios, restos de bolos.

Domingos de migalhas.

(pintura: Avis Fleming)

01 abril 2006

Sábado


Lisboa é uma cidade iluminada. O sol côa os telhados e pinta os eléctricos. O Tejo refresca numa brisa tardia.

Sábado morno e primaveril, com cheiro a início.

(pintura de Raquel Martins: candeeiros de Lisboa)

A tradição

O PS ganhou as eleições com maioria absoluta. O governo, desde a tomada de posse, adoptou uma posição determinada, empreendedora e reformista.

Para tanto, umas vezes com recurso ao populismo e outras ao autoritarismo, iniciou um discurso positivista, propagandeando as medidas, mesmo antes de as tomar, enchendo os noticiários com promessas de melhores dias, se se fizessem determinados sacrifícios, afrontando corporações e privilégios, apelando ao trabalho e ao rigor.

Para além da propaganda começou, de facto, a mexer na estrutura do país. Com medidas mais ou menos consensuais, mais ou menos acertadas, mexeu na educação, na saúde, na justiça, na segurança social e, agora, prepara-se para fazer uma reforma na administração pública.

Mais ou menos cabalísticas no número, as medidas que levem à desburocratização do estado, à reorganização, concentração e redistribuição dos recursos humanos na administração central são indispensáveis para o controlo do défice, para a modernização do país e para melhor servir os cidadãos. O fecho de escolas e maternidades, como a reorganização das freguesias, concelhos e distritos, regiões administrativas, etc, é inevitável.

Como é impossível estar em desacordo com tudo isto, o combate político deixou de fazer-se relativamente ao modo como se deve actuar, às prioridades da governação ou à justeza de determinados princípios, para se passar a fazer à volta da capacidade do governo implementar todas estas reformas.

De facto, e olhando para o que se passou nos últimos trinta anos, é preciso cepticismo e não cair em optimismos irrealistas no que diz respeito às capacidades reformadoras dos governos, do PS, do PSD, do PSD/CDS, de todos.

Mas é bem o espelho da nossa sociedade e da nossa cultura do “bota-abaixismo” o coro de profetas da desgraça em que se adivinham todos os receios e cobardias do governo, pressionado pelo aparelho do partido, pelos funcionários públicos, pelos agricultores, e por todas as forças que só querem mudar quando não se muda, e o recuo do primeiro-ministro, entupindo o túnel por onde se vislumbrava uma luz.

Jornalistas, comentadores, partidos da oposição, sindicatos, todos juntos contra o que se anuncia, uns, contra o que, estão certos, o governo não conseguirá fazer, outros.

Segundo Marques Mendes, o défice de 6% em 2005 é a primeira derrota do governo, como se não fosse a derrota de todos nós. Marques Mendes deseja o incumprimento dos planos do governo, mas é incapaz de demonstrar qual a solução, tal como os seus correligionários de partido o não demonstraram, em todos os anos que foram governo.

Não só não somos capazes de fazer bem como somos incapazes de olhar com o mínimo de confiança para o futuro, assim como de elogiar quem tenta fazer melhor.

A tradição continua a ser o que era.

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