12 novembro 2012

Dos alvos políticos

 


A Chanceler Angela Merkel vem a Portugal. Não se sabe bem o que vem cá fazer mas, independentemente disso, é a responsável política de um país democrático da União Europeia, lugar para o qual foi eleita democraticamente, pelo que penso que, como país democrático que pertence à União Europeia, temos todo o gosto em recebê-la.


 


Precisamente por pertencermos à mesma União e por sermos países democráticos, temos também o direito e o dever de lhe dizer, das mais variadas formas democráticas, em liberdade e segurança, que não concordamos com o rumo da política europeia, de que ela é a principal responsável, que este tipo de austeridade leva ao empobrecimento sem remédio das populações, que estamos a caminhar para o eclodir de revoltas e de regimes totalitários, que estamos a renovar os nacionalismos cegos e a xenofobia, terreno fértil para destruir tudo o que foi construído desde a 2ª metade do séc. XX.


 


Não podemos, no entanto, enganar-nos a nós proprios, canalizando as frustrações e as reivindicações para um alvo externo. O combate político deve ser, em primeiro lugar, dentro de portas e contra a política deste governo que, soberanamente, tem conduzido uma política desastrada e ruinosa, sem qualquer visão de futuro ou capacidade de gestão de recursos e expectativas.


 

10 novembro 2012

Até ao Verão

 



Ana Moura


Márcia Santos 


 


Deixei


na Primavera o cheiro a cravo


rosa e quimera que me encravam


na memória que inventei


e andei


como quem espera pelo fracasso


contra mazela em corpo de aço


nas ruelas do desdém


 


e a mim que importa


se é bem ou mal


se me falha a cor da chama a vida toda


é-me igual


vi sem volta


queira eu ou não


que me calhe a vida


insane e vossa em boda


até ao verão


 


deixei


na primavera o som do encanto


riça promessa e sono santo


já não sei o que é dormir bem


e andei


pelas favelas do que eu faço


ora tropeço em erros crassos


ora esqueço onde errei


e a mim que importa


se é bem ou mal


se me falha a cor da chama a vida toda


é-me igual


vi sem volta


queira eu ou não


que me calhe a vida


insane e vossa em boda


até ao verão


 


e a mim que importa


se é bem ou mal


se me falha a cor da chama a vida toda


é-me igual


vi sem volta


queira eu ou não


que me calhe a vida


insane e vossa em boda


até ao verão


 


deixei


na primavera o som do encanto


 

Lei de Lavoisier

 



 


Cá em casa, como na natureza, observa-se a lei de conservação da massa pela metade - muito se cria mas nada se perde, tudo se transforma. Até porque assim podemos penitenciar-nos das horrorosas dívidas do povo (nós), castigar-nos de tantos espectáculos a que temos assistido, tanta música, tanta poesia, em vez da pura modéstia e mediania doméstica que deve levar à redenção do país.


 


Sendo assim o jantar de hoje foi frugal e constituído por sopa de legumes, queijo fresco, marmelada e pudim de pão (também havia uns camarõezitos cozidos, mas eram pequenitos).


 


O pudim de pão foi uma ideia sugerida por uma representante da geração anterior, habituada a gerir crises perpétuas. Pega-se no pão duro, pode até estar com consistência pétrea, e parte-se (corta-se) aos bocadinhos, enchendo uma tigela que possa ir ao forno. Aquece-se leite com açúcar (usei meio litro de leite e oito colheres de sopa de açúcar) e despeja-se para cima dos bocadinhos de pão (espreme-se bem o pão, de forma a que fique bem ensopado). Mistura-se o outro meio litro de leite com quatro ovos inteiros (pode-se juntar mais açúcar, consoante a gulodice dos comensais) e junta-se às sopas de pão. Cortam-se duas maçãs em fatias fininhas e mistura-se tudo muito bem. Polvilha-se de canela e leva-se ao forno médio por vinte e cinco minutos a meia hora.


 


Fica muito bom.


 

09 novembro 2012

Um dia como os outros (120)

 



(...) Quando a luta aquece, ainda ninguém sabe o que, neste ciclo, acontece. E seria terrível se aos malefícios deste governo sobre a economia e a sociedade se juntasse a colonização do espectro partidário da esquerda (e talvez a seguir da direita, mas falarei disso noutra altura) por correntes que, perdido o referencial revolucionário e sem projecto para Portugal como sistema democrático no quadro do capitalismo, são meramente oportunistas e populistas. Oxalá me engane, mas vejo no horizonte o espaço aberto para uma ofensiva populista sobre a esquerda que só um repensar sério dos seus papeis na sociedade portuguesa por parte das forças da esquerda democrática e dos movimentos sociais não radicalizados pode conter. A UGT pode estar a ser só e ainda, apesar de tudo ao de leve, a primeira vítima.


 


Paulo Pedroso


Da futilidade existencial

 



 


Não tenho dúvidas das boas intenções de Isabel Jonet nem do seu importante papel à frente do Banco Alimentar contra a fome, nem da indispensabilidade da existência da organização. Não é isso que está em causa, como nunca estiveram as boas intenções de todos quantos cuidaram, alimentaram e ofertaram as roupas que já não vestiam e os sapatos que passavam de moda aos pobres, uma palavra ressuscitada do léxico social e político.


 


O que está em causa é a noção da organização social subjacente. Porque quem diz que temos que empobrecer e não ser consumista nunca se está a referir a si próprio. Por inerência, os direitos de quem receita a contenção e a modéstia estão assegurados, os espectáculos, o viver com conforto e a largura de horizontes dessas pessoas nunca estão em discussão.


 


A moral vigente transformou todo um país num aglomerado de gente sem noção do que deve ser uma vida organizada, gastando o que tem e o que não tem em futilidades. Este governo assumiu o papel castigador e enaltecedor do viver dentro das suas posses, pobre mas honesto. O problema é que a alimentação, o ensino e a saúde, para não falar da investigação científica e do puro lazer, a que cada vez menos têm acesso, passaram para a categoria das futilidades.


 


Porque só para alguns estes bens estão assegurados. E porquê? Porque são melhores, porque se esforçaram mais, porque fizeram mais pela sociedade? Ou porque tiveram a sorte de ser bem-nascidos, de terem famílias com dinheiro e/ou poder?


08 novembro 2012

Dos castigos aos viciosos

 


É claro que há muitos hábitos consumistas que podem e devem ser mudados. Não haverá necessidade de as famílias irem aos restaurantes com frequência, como também se pode andar a pé em vez de usar o carro. Sempre se pode poupar o dinheiro da gasolina.


 


O problema está na escolha do que é indispensável e no escalonamento das prioridades. No mundo da Helena Matos, da Isabel Jonet e de muitos outros, assistir a um concerto, comer em restaurantes ou viajar é dispensável, pois há uma classe de pessoas que apenas podem financiar a sobrevivência modesta, sem alimentar ambições. Quem não tem dinheiro não tem vícios. E tudo o que extravase a missão de conseguir alimentar-se e pagar as contas, nomeadamente a enormidade de impostos a um Estado que já não assegura nem sequer a hipótese de uma radiografia grátis a quem parte um pé, passou a ser um vício.


 


A excepção é sempre a mesma: aquele grupo de gente que vive em condomínios fechados, que frequenta locais suaves e sofisticados onde as paredes e as peles respiram perfume, que conhece o mundo e viaja sem preocupações, que pode descansar a alma em concertos e galerias de arte pois as agruras de uma vida de negócios fazem subir a tensão e o colesterol, enrugam as faces e encurvam ombros.


 


Aproveitar a crise para criar bons hábitos alimentares seria uma oportunidade se a crise deixasse margem para poder comprar carne, peixe, leite, legumes, fruta, para fazer sopas e saladas, um bolo de vez em quando. Mas os ordenados de quem trabalha já não chegam para tanto. Não chegam sequer para dar o pequeno-almoço às crianças, antes de irem para a escola. E quem não trabalha nem isso tem.


 


A gestão desta crise já ultrapassou todas as oportunidades de renovar atitudes. A gestão desta crise é o regresso ao mais absoluto poder dos poucos que têm muito sobre os muitos que pouco ou nada têm. É o castigo ao povo atrevido, abusador e malcriado de que fala António Lobo Antunes. É a volta da tristeza, do cinzentismo e da desesperança.


 

Os Pobrezinhos

 


A concepção da vida em sociedade, da mobilidade entre classes sociais, de direitos e deveres das pessoas, mntém-se ainda em muita gente, que ocupa lugares de responsabilidade precisamente em organizações que se pretendem de solidariedade, que deveriam colmatar as gritantes desigualdades num país com as dificuldades crescentes que existem, ao nível das caridosas e pias senhoras que esmolavam e usavam os seus pobres.


 


O consumismo, a inversão de valores e prioridades, tudo isso é criticável e não sustentável. Mas neste momento, a moral vigente castiga a gente que se atreveu a ter as mesmas aspirações de uma escassa minoria que tinham e têm direitos e privilégios, adquiridos por nascença.


 


Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.


 


Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:


 


- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.


 


O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:


 


- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.


 


Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto


 


(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)


 


de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico


 


- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho


 


o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:


 


- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu


 


Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros


 


- O que é que o menino quer, esta gente é assim


 


e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.


 


Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse


 


- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar


 


e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.


 


Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.


 


Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.


 


António Lobo Antunes


 


Através da Rita Taborda Duarte


 


 

Horizontes

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