É claro que há muitos hábitos consumistas que podem e devem ser mudados. Não haverá necessidade de as famílias irem aos restaurantes com frequência, como também se pode andar a pé em vez de usar o carro. Sempre se pode poupar o dinheiro da gasolina.
O problema está na escolha do que é indispensável e no escalonamento das prioridades. No mundo da Helena Matos, da Isabel Jonet e de muitos outros, assistir a um concerto, comer em restaurantes ou viajar é dispensável, pois há uma classe de pessoas que apenas podem financiar a sobrevivência modesta, sem alimentar ambições. Quem não tem dinheiro não tem vícios. E tudo o que extravase a missão de conseguir alimentar-se e pagar as contas, nomeadamente a enormidade de impostos a um Estado que já não assegura nem sequer a hipótese de uma radiografia grátis a quem parte um pé, passou a ser um vício.
A excepção é sempre a mesma: aquele grupo de gente que vive em condomínios fechados, que frequenta locais suaves e sofisticados onde as paredes e as peles respiram perfume, que conhece o mundo e viaja sem preocupações, que pode descansar a alma em concertos e galerias de arte pois as agruras de uma vida de negócios fazem subir a tensão e o colesterol, enrugam as faces e encurvam ombros.
Aproveitar a crise para criar bons hábitos alimentares seria uma oportunidade se a crise deixasse margem para poder comprar carne, peixe, leite, legumes, fruta, para fazer sopas e saladas, um bolo de vez em quando. Mas os ordenados de quem trabalha já não chegam para tanto. Não chegam sequer para dar o pequeno-almoço às crianças, antes de irem para a escola. E quem não trabalha nem isso tem.
A gestão desta crise já ultrapassou todas as oportunidades de renovar atitudes. A gestão desta crise é o regresso ao mais absoluto poder dos poucos que têm muito sobre os muitos que pouco ou nada têm. É o castigo ao povo atrevido, abusador e malcriado de que fala António Lobo Antunes. É a volta da tristeza, do cinzentismo e da desesperança.
Talvez a Maria Sofia Magalhães saiba - eu esqueci-me, infelismente - do poema e do poeta que dizia: "Agora, poesia, ou tudo ou nada! Que (?) pegará a (?) espada, sem o vivo suor do nosso rosto?".
ResponderEliminarQuanto ao seu artigo "Dos castigos aos viciosos", estou muito de acordo. Como tenho já comentado, o fantasma do Movimento Nacional Feminino reaparece nos nossos televisores.
Revejo-me no seu post.
ResponderEliminarDenunciar de forma esclarecida o que encobre muitos comportamentos aparentemente informados e empenhados na democracia que trata os cidadãos com dignidade,é um contributo tão valioso como protestar, fazer greve,...