Não tenho dúvidas das boas intenções de Isabel Jonet nem do seu importante papel à frente do Banco Alimentar contra a fome, nem da indispensabilidade da existência da organização. Não é isso que está em causa, como nunca estiveram as boas intenções de todos quantos cuidaram, alimentaram e ofertaram as roupas que já não vestiam e os sapatos que passavam de moda aos pobres, uma palavra ressuscitada do léxico social e político.
O que está em causa é a noção da organização social subjacente. Porque quem diz que temos que empobrecer e não ser consumista nunca se está a referir a si próprio. Por inerência, os direitos de quem receita a contenção e a modéstia estão assegurados, os espectáculos, o viver com conforto e a largura de horizontes dessas pessoas nunca estão em discussão.
A moral vigente transformou todo um país num aglomerado de gente sem noção do que deve ser uma vida organizada, gastando o que tem e o que não tem em futilidades. Este governo assumiu o papel castigador e enaltecedor do viver dentro das suas posses, pobre mas honesto. O problema é que a alimentação, o ensino e a saúde, para não falar da investigação científica e do puro lazer, a que cada vez menos têm acesso, passaram para a categoria das futilidades.
Porque só para alguns estes bens estão assegurados. E porquê? Porque são melhores, porque se esforçaram mais, porque fizeram mais pela sociedade? Ou porque tiveram a sorte de ser bem-nascidos, de terem famílias com dinheiro e/ou poder?
Muito bem. Trata-se da concepção de sociedade que cada um defende. Ou seja, do modo como a riqueza deve ser distribuida: para que fins e segundo que critérios.
ResponderEliminarInteiramente de acordo; estamos em plena recuperação do discurso salazarista,dos "pobrezinhos mas honrados".
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