Paula Rego
Ser uma boa pessoa usada
amantíssima da existência
cumprir as tarefas da sobrevivência.
Bastar-se com a dormência
do dia a dia ocupar-se
ser uma boa pessoa.
Ser uma não pessoa.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Paula Rego
Ser uma boa pessoa usada
amantíssima da existência
cumprir as tarefas da sobrevivência.
Bastar-se com a dormência
do dia a dia ocupar-se
ser uma boa pessoa.
Ser uma não pessoa.
Cai Guo-Qiang
Até na morte procuramos o que não somos
mas quereríamos ter sido.
Incessantemente tentamos a originalidade
um sentido um qualquer desígnio que nos afaste da mole idêntica
normalizada trivialidade.
Até na morte desejamos ser únicos.
Talvez assim todos os dias que a vida nos traz
sempre iguais e sem qualquer fulgor
possam produzir um simulacro um travessão
um pequeno sobressalto na massa do tempo.
Chris Uyehara & Stan Kolonko
Tudo já foi dito como os dias que sucedem
às horas que desmontam aos minutos que desgastam
tudo foi vivido como os corpos que se despem
as penumbras que afastam os desenhos que afagam
tudo mesmo tudo mesmo a misteriosa inflexão na voz que nos chama
mesmo a súbita chama
mesmo a fugaz e inútil chama.
Charles Umlauf
Apressada cheguei-me à Senhora que tinha uma cara de quem vai esperar horas, para a fazer entrar, com as desculpas prestes a escaparem-me da boca. Ao lado da Senhora, silencioso e muito composto, um Rapazinho pequenino, cabelo revolto, costas direitas e pés bem acima do chão, segurava um guardanapo ligeiramente avermelhado que pressionava contra o nariz, emprestado pela sua companheira de espera. Quando indiquei à Senhora o caminho para o gabinete, apercebi-me que o Rapazinho estava só. A Secretária que, entretanto, me vinha dar uns papéis para assinar, disse-me que iria passando para ver dele, pois a Mãe estava a fazer um exame.
Acerquei-me do Rapazinho e perguntei-lhe o nome, com a intenção de esperar com ele que a mãe regressasse. Tentei perceber o que tinha no nariz, e fiquei mais descansada ao ver uma pequenina crosta levantada, que já não sangrava. O Rapazinho murmurou o nome dentro dos seus 5 anos, muito direito e muito sisudo, com os olhos a brilharem, até que desatou a chorar, primeiro devagarinho, depois aos soluços, deixando desabar as forças de contenção que até àquele momento o tinham mantido sereno. Envolvi-o num abraço que encontrou um corpinho tão pequenino, morno e tremente, num choro manso e tão desesperado que eu própria tive vontade de chorar.
Assim ficou até a porta da sala se abrir, saindo de lá a Médica que, olhando para aquele quadro, lhe disse que já podia entrar. Aí foi ele, a medo, agarrar-se à Mãe, abrindo ainda um pouco mais as lágrimas, finalmente mais soltas, finamente acreditando que não tinha ficado sem ela.
Neste momento multiplicam-se os programas, editoriais e comentários sobre o descalabro deste governo. Em muitas circunstâncias, exactamente com os mesmos protagonistas daqueles que o fizeram nos meses anteriores à queda de Sócrates.
Mas na verdade, por muito que se fale da agenda ideológica do governo, a legitimidade deste é inatacável, tal como a implementação da sua agenda ideológica. Foi eleito para governar com a sua agenda e o seu programa. Mentiu na campanha eleitoral, é verdade, mas todos os partidos o fazem e fizeram. E as sondagens continuam a dar-lhe maioria.
É claro que o resultado das sondagens explica-se pela abulia e anosmia da oposição toda, mas particularmente de António José Seguro, à frente do PS. Felizmente, de vez em quando, aparecem alguns textos que, certeiramente, contextualizam o que se está a passar.
É o caso do artigo de Maria de Lurdes Rodrigues, no Expresso, que chama a atenção para o retrocesso civilizacional a que vamos assistindo, com a ideia que esta maioria tem do que é a educação - a perpetuação da imobilidade social, pela hereditariedade da classe e do status académico. Não há dinheiro para aceder às licenciaturas, como deixa de haver cabimento para aspirar a outra coisa senão aquilo que se nasceu para ser. O nosso fado, mais uma vez, numa espiral de mediocridade e mesquinhez, em que a vida só tem esplendor para alguns poucos sortudos que tiveram a felicidade de nascer em berço dourado - os fidalgos (filhos de algo).
A juntar ao real empobrecimento da classe média e dos pobres, transformando a classe média em pobres, que não têm dinheiro para a sua própria saúde e que deixam de ter direito a ela, pois o Estado aliena-se e esvazia-se das suas funções. A juntar ao discurso moralista desta direita retrógrada que culpa os mais pobres pela crise e pelo endividamento do país, como pude assistir atónita num dos muitos frente a frente do Mário Crespo, aquele paladino da mais completa e triste palhaçada da parcialidade e da náusea profunda do descaramento.
Eu até estou totalmente de acordo com as facturas obrigatórias. Mas não sei como é que muitos dos meus concidadãos irão (sobre)viver sem a economia paralela que existe.
Volto ao início. Este governo foi aquele que elegemos. Há uma direita e uma esquerda. Esta é a direita.
Muito se tem falado dos cortes no orçamento da saúde. Mais do que o valor dos cortes, o que está em causa, para uma saúde de qualidade, visto que todos concordamos que temos que racionalizar os custos, é onde e como se fazem os cortes.
A reforma das urgências hospitalares é, ela própria, uma urgência. Assim foi quando Correia de Campos a quis fazer, assim é agora, com o relatório hoje tornado público. Tal como com Correia de Campos, já se começaram a ouvir os seus detratores, desde autarcas a outras vozes, sempre renitententes a qualquer mudança.
Este é um assunto que precisará de ser discutido em termos técnicos e depois decidido em termos políticos. Espero que o PS não faça o mesmo que toda a oposição fez, demagogica e populistamente, com a tentativa de reforma anterior. Por sinal, terá sido feita alguma avaliação aos resultados do que foi feito?
Uma das manifestações mais vexantes do atrofio geral que molda a nossa política consiste na repetição da cassete laranja onde ouvimos dizer que o “PS está agarrado ao Memorando” porque foi um Governo socialista que o pediu, o negociou e assinou. (...) Primeiro, a necessidade do Memorando resulta de um boicote do PSD e do CDS (ajudados pelo Presidente da República, BE e PCP) a um programa alternativo defendido pelo Governo de então e por todos os responsáveis europeus. Conclusão, o Memorando interessava aos interesses da direita, a qual fez campanha por algo similar ao longo de 1 ano. Segundo, o Memorando foi negociado e assinado também pelo PSD e CDS. Tanto Catroga, que disse ter influenciado o acordo, como Passos, que disse estar em perfeita sintonia ideológica com ele, reclamaram vitória pela sua implementação. Conclusão, o Memorando consubstancia uma visão da sociedade e da economia na qual o PS não se revê, mas a qual espelha os pressupostos programáticos dos radicais da diminuição do papel do Estado. Terceiro, o Memorando foi sofrendo alterações a seguir à tomada de posse do Governo PSD-CDS. Essas alterações deixaram de contar com a participação do PS, o qual não foi mais tido nem achado e talvez nem saiba agora do que consta a mais recente versão do acordo.
Como se explica a repetição maníaca desta cassete, tanto por deputados, como por dirigentes, como por jornalistas do laranjal? Explica-se pela cumplicidade de Seguro. O apagamento do passado recente que Seguro instaurou logo a partir da sua campanha para Secretário-Geral abriu todo o flanco para o partido ser impunemente sovado até à perda de consciência. (...)
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...