01 agosto 2012

Abandono

 



Charles Umlauf


 


 


Apressada cheguei-me à Senhora que tinha uma cara de quem vai esperar horas, para a fazer entrar, com as desculpas prestes a escaparem-me da boca. Ao lado da Senhora, silencioso e muito composto, um Rapazinho pequenino, cabelo revolto, costas direitas e pés bem acima do chão, segurava um guardanapo ligeiramente avermelhado que pressionava contra o nariz, emprestado pela sua companheira de espera. Quando indiquei à Senhora o caminho para o gabinete, apercebi-me que o Rapazinho estava só. A Secretária que, entretanto, me vinha dar uns papéis para assinar, disse-me que iria passando para ver dele, pois a Mãe estava a fazer um exame.


 


Acerquei-me do Rapazinho e perguntei-lhe o nome, com a intenção de esperar com ele que a mãe regressasse. Tentei perceber o que tinha no nariz, e fiquei mais descansada ao ver uma pequenina crosta levantada, que já não sangrava. O Rapazinho murmurou o nome dentro dos seus 5 anos, muito direito e muito sisudo, com os olhos a brilharem, até que desatou a chorar, primeiro devagarinho, depois aos soluços, deixando desabar as forças de contenção que até àquele momento o tinham mantido sereno. Envolvi-o num abraço que encontrou um corpinho tão pequenino, morno e tremente, num choro manso e tão desesperado que eu própria tive vontade de chorar.


 


Assim ficou até a porta da sala se abrir, saindo de lá a Médica que, olhando para aquele quadro, lhe disse que já podia entrar. Aí foi ele, a medo, agarrar-se à Mãe, abrindo ainda um pouco mais as lágrimas, finalmente mais soltas, finamente acreditando que não tinha ficado sem ela.

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