20 maio 2008

Os puros

Nem sei bem que lado escolher, se o direito, se o esquerdo, nem sei bem se ainda há lados para escolher. Dizem-me repetidamente que não, que tudo se mistura, que há os que estão com a verdade e há os que estão perdidos em mentiras devassas.


 


Em tudo agora se vê o mal, em tudo o que está à vista e que não deveria estar, já não posso ter dentes amarelos do tabaco, os dedos achatados e arredondados, com aquele fumo definitivo, nem o copo de cerveja pendurado dos dedos da outra mão, assim ao de leve, de modo a escorrerem as gotas de água até à mesa.


 


Nem sequer almoçar fritos e refastelar-me de leite-creme, dormir a sesta, gostar de trabalhar e de estar com os amigos.


 


Agora tenho que gostar sempre e mais do que nunca dos filhos, de estar com eles, de brincar com eles, de não me importar de faltar 6 meses ao trabalho porque o mais importante são as crianças, tenho que lhes pedir perdão, ou pedir publicamente perdão pelas noites que quero passar fora, pelos cigarros que me apetece fumar, pelos doces que gosto de comer, pelas caminhadas que não me satisfazem, 1 hora de passadeira por dia, suando as estopinhas, a desperdiçar o tempo em que deveria estar a ler blogues, a ler jornais, a conversar, a beber cañas.


 


Não gosto da vida dos puros, dos bonitos, dos novos, dos virtuosos. Metem-me muito medo.

17 maio 2008

Olhar e ver

Ainda bem que parece que há capacidade dentro do SNS para tratar da saúde oftalmológica da nossa população, embora muito me espante este súbito e tão agudo interesse para um problema tão crónico e arrastado, como o é a existência de listas de espera à cirurgia das cataratas.


 


Espero é que se chegue também à conclusão que o SNS deveria estudar a forma de tratar da saúde oral da nossa população, e da saúde dos restantes órgãos e sistemas, sem alarmismos e sem ir a reboque das notícias, como foi o caso das vacinas contra o cancro do colo do útero.


 


Esperemos que haja decisões políticas que beneficiem os cidadãos, que estejam estruturadas e que não parecem ser apenas em reacção a uma qualquer agenda, política ou outra.


 



 

Solidariedade


 


O bom senso é importante, mesmo indispensável, e deve aplicar-se a várias áreas de comportamento. Não conheço as leis que regem a higiene, a segurança alimentar e a saúde na restauração ou noutros estabelecimentos que guardam e disponibilizam comida, com ou sem fins lucrativos, mas parece-me evidente que devem ser idênticos e rigorosamente controlados.


 


Não percebo porque é que as Instituições de Solidariedade Social podem ser autorizadas a terem piores condições para a conservação dos alimentos, ou porque não devem ter os mesmos cuidados com a proveniência e a confecção das comidas.


 


Será que quem necessita de recorrer a essas instituições tem apenas direito a comida, independentemente da forma como é conservada e confeccionada?


 


A quem estará a incomodar tanto a ASAE?

Fora do mundo

Há qualquer coisa de estranho quando se está cerca de uma semana sem saber notícias, sem ver televisão, sem ouvir rádio, sem ler jornais ou blogues.


 


Espanta-me como tudo está na mesma, como o mundo rola sem sobressaltos, para além dos abalos sísmicos e catástrofes naturais que vão matando pessoas e engolindo cidades. Mas até mesmo essas catástrofes são já consideradas fenómenos sem importância, que se propagandeiam de meia em meia hora por 1 ou 2 dias, sendo substituídos de imediato por notícias tão importantes como a imoralidade do comportamento do Primeiro-Ministro por fumar onde tal é proibido.


 


Estive mergulhada em células, num mundo que tentamos perceber e controlar, ouvindo e aprendendo como se usam infinitésimos fragmentos de nós próprios na tentativa de mudar o erro, a infecção, a mutação, a influência ambiental, como invadir menos para obter mais informação, como fazer mais e melhor, como rever práticas e mudar atitudes.


 


Será que não há nada mais interessante no país do que os cigarros de Sócrates?

14 maio 2008

Para me lembrar


(pintura de Nichola Moss: lovers)


 


Para me lembrar que estou contigo

neste vazio de cama

neste desaconchego de mãos,

para que a lembrança do teu abraço

me sossegue

enquanto me faltas.

13 maio 2008

Ciência, a quanto obrigas

Células, agulha fina, meio-líquido, rastreio, automatização, alto grau, FISH, fronteira virtual, caramelos, nuestros hermanos, Badajoz à vista...


 


Alentejo, nunca mais te vejo. Lisboa, que o tempo passa mas não voa.


 



 

11 maio 2008

Pensemos

Antes de mais devo agradecer e encaminhar este honroso prémio. Nem sempre estou para pensar, Donagata, mas ainda bem que te provoco.


 


São muitas as pessoas que me interpelam e me motivam, estranhas, felizes, mordazes ou dramáticas, mas a indicação é para uma mulher.


 


Pois bem experimentem, se é que já não conhecem, ler e sentir os textos de Ana de Amsterdam. É dos que viciam.


 



 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...