Nem sei bem que lado escolher, se o direito, se o esquerdo, nem sei bem se ainda há lados para escolher. Dizem-me repetidamente que não, que tudo se mistura, que há os que estão com a verdade e há os que estão perdidos em mentiras devassas.
Em tudo agora se vê o mal, em tudo o que está à vista e que não deveria estar, já não posso ter dentes amarelos do tabaco, os dedos achatados e arredondados, com aquele fumo definitivo, nem o copo de cerveja pendurado dos dedos da outra mão, assim ao de leve, de modo a escorrerem as gotas de água até à mesa.
Nem sequer almoçar fritos e refastelar-me de leite-creme, dormir a sesta, gostar de trabalhar e de estar com os amigos.
Agora tenho que gostar sempre e mais do que nunca dos filhos, de estar com eles, de brincar com eles, de não me importar de faltar 6 meses ao trabalho porque o mais importante são as crianças, tenho que lhes pedir perdão, ou pedir publicamente perdão pelas noites que quero passar fora, pelos cigarros que me apetece fumar, pelos doces que gosto de comer, pelas caminhadas que não me satisfazem, 1 hora de passadeira por dia, suando as estopinhas, a desperdiçar o tempo em que deveria estar a ler blogues, a ler jornais, a conversar, a beber cañas.
Não gosto da vida dos puros, dos bonitos, dos novos, dos virtuosos. Metem-me muito medo.
Pois então já somos duas... tudo o que é demasiado certinho me cheira a fundamentalismo e, de imediato, me apetece rejeitar pois detesto fundamentalismos; também me assustam.
ResponderEliminarUm velho poeta popular, que conheci há muitos anos, escreveu:
ResponderEliminar"Há quem diga, e com razão,/que o Mundo não é perfeito./É que toda a perfeição/tem sempre qualquer defeito."
Vivam eles, os defeitos, porque são eles que dão sabor à vida!
Também penso assim. Nós, desprovidos de prazer, secos de emoções. É um caminho perigoso.
ResponderEliminarUm beijo.
Acrescenta a mais sórdida hipocrisia à infinita pureza.
ResponderEliminarLS
Estou a ver que, felizmente, terei companhia lá no inferno (será que ainda existe?).
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