27 junho 2006

Sem (outras) palavras

Nu de costas

Desenho o amor como um caule
que a luz percorre numa lentidão líquida,
esquecendo o leito em que pousa, leve,
o seu corpo.
E se o brilho da tarde o colhe
do ramo a que os seus braços se agarram,
flutua, como fruto de futura colheita
que o desejo alimenta.
Ave imponderável, só os olhos
procuram a terra em que outrora
sonhou, no centro da clareira
em que o amor a deitou.

(poema de Nuno Júdice, no A a Z)

Pintura(s)

Graça Morais

Diana Marques


Pintar, conseguir reproduzir a realidade, nem que seja do sonho, com pincéis, lápis ou caneta é, para mim, um dom, uma característica formatada pelos genes, um toque de perfeição.

Talvez valha a pena visitar duas exposições de pintura.

A primeira, de Graça Morais, uma pintora que me surpreende pela simplicidade dos traço, pelo realismo da impressão estética que nos imprime. E pela sua pessoa, que nos envolve com a voz como se fosse o xaile que, com frequência, traz pelos ombros.

A segunda é colectiva, sobre a ilustração científica. Sempre me deslumbro com a capacidade de reproduzir, com o rigor e a exactidão de uma fotografia, mas com a vertigem da beleza, todos os minúsculos pormenores de um insecto, de uma célula, de uma flor, o deslumbramento da natureza.

Agradeço aos blogues Conta Natura e Graça Morais o anúncio e divulgação destes dois acontecimentos culturais.

26 junho 2006

Procriação medicamente assistida (parte III)

Os meus dois textos anteriores demonstram como a mesma pessoa pode esgrimir argumentos aparentemente contraditórios, com expressão de opiniões contrárias.

Por isso é que estes temas são difíceis e transversais. E por isso é que determinadas tomadas de posição pelos poderes legislativo e executivo são políticas, porque a ciência não dá resposta a tudo.

A integração dos dados científicos é indispensável, mas depois há que decidir tendo em conta as diversas culturas, os diferentes comportamentos das minorias e das maiorias. E o debate devia ser fomentado e acarinhado, como no caso da interrupção voluntária da gravidez ou na eutanásia, que só são debatidos quando se está para aprovar uma lei. Por coincidência (ou não) são sempre pedidos debates por organizações próximas da atitude “não mudar”, “deixar tudo na mesma”.

Gostaria de ouvir essas mesmas organizações a discutirem os preços dos preservativos, o local de distribuição dos mesmos, a existência de médicos, psicólogos e assistentes sociais nas escolas, o ensino efectivo do que são as transformações do corpo, da sexualidade, do crescimento, da gravidez e das doenças sexualmente transmitidas.

Mas neste caso, penso que é mais importante pensar, com todas as informações de que dispomos, no bem-estar das crianças. Quem deseja ser mãe ou pai deve pensar não só na concepção em si, como no que vem depois do nascimento.

Interrogava-me se o estado tem o direito de legislar sobre assuntos de natureza individual. Se penso, como é o caso, que a procriação é também um acto social, devem existir regras, portanto leis, que têm que ser o rosto da realidade.

Não invejo os legisladores. Neste assunto estou mais ou menos como Toneca Guterres: decidi não decidir!

...e continua!




Depois deste jogo, que venham ingleses, alemães e brasileiros, estamos preparados para tudo! Quem sobreviveu ao jogo, para além dos próprios jogadores, tem um coração de aço.

Não me parece bem culpar o árbitro de todas as patifarias que aconteceram. Quem deu as caneladas, foram os jogadores.

25 junho 2006

Procriação medicamente assistida (parte II)

Voltando ao tema da procriação medicamente assistida, e pegando no facto de não haver dados suficientes para saber se os filhos de casais homossexuais têm mais ou menos problemas que os filhos de casais heterossexuais, ou de pais e mães sós, talvez seja apenas porque a alteração na sociedade seja demasiado recente para que os estudos tenham significado.

Por outro lado, quando se começou a generalizar o divórcio, chegou-se à conclusão de que há formas saudáveis de conviver e formar crianças em ambientes que eram considerados muito prejudiciais.

E quem pode assegurar que o amor, o carinho, a estabilidade emocional e a orientação sexual não são conseguidos independentemente da existência de modelos sexuais de géneros diferentes?

Não será apenas o preconceito que temos em relação ao que é uma família? Família é o conjunto de pessoas que colaboram activamente no crescimento, bem-estar e felicidade de cada um de nós.

E será que o estado tem o direito de legislar sobre o que considera ser uma família? Não será matéria de opção individual?

Decidir ter filhos, assim como decidir não tê-los, pertence à esfera da privacidade individual, mas não deixa de ser um acto social, porque cada um de nós interfere e é membro activo da sociedade. Portanto é uma decisão individual mas de que a sociedade como um todo não se pode alhear.

Mais uma vez, não sou fundamentalista. Talvez as leis devessem assegurar que as crianças, independentemente de quem são os fornecedores de gâmetas, tivessem todas as condições para serem felizes e para se sentirem pertença de quem as cria, de quem as ama, de quem as quer.

Tal como nos avanços científicos e tecnológicos, as mutações e evoluções sociais não devem ser travadas pelo medo do desconhecido. Tal como um organismo vivo que se adapta ao seu meio ambiente, também as sociedades se adaptam e reequilibram após e durante as mudanças.

Bom senso é claro, mas sem preconceitos.

Portugal vs Holanda

Estou totalmente a favor da nossa selecção. Mas se continuam a massacrar-nos quando começar o jogo já nem me apetece vê-lo!

joguem mais,
chutem mais,
corram mais,
menos ais, menos ais, menos ais…

Procriação medicamente assistida (parte I)

Tem vindo a ser discutida legislação sobre Procriação Medicamente Assistida (PMA). Para além dos aspectos técnicos e científicos da inseminação artificial, número de embriões implantados e outros, os aspectos éticos e de concepção filosófica são importantes, pois a lei parece vedar o acesso à PMA aos casais homossexuais e às mulheres sozinhas.

Não tenho uma opinião muito definida sobre este assunto. Em princípio não se percebe porque é que a PMA não deva ser para todas (os) que a quiserem, ainda por cima em tempo de decréscimo da natalidade.

Mas atentemos nas palavras da sigla: se a procriação tem que ser assistida medicamente é porque há um entrave à sua persecução. Ou seja o médico intervém porque há uma razão médica para tal, porque pelos métodos naturais não é possível conseguir a procriação.

Pelo menos enquanto não houver possibilidade de clonagem humana são necessários dois gâmetas, um masculino e outro feminino, para haver um novo ser. Em termos de fortalecimento e de sobrevivência da espécie, a variabilidade genética é uma mais valia da reprodução sexuada. Por isso talvez a clonagem, quando ela for possível, introduza problemas de sobrevivência da nossa espécie, pelo menos tal como agora pensamos nela.

Assim para que haja um filho, uma cria, o que lhe quisermos chamar, é necessária a intervenção de dois indivíduos de sexos diferentes. A PMA deve portanto corrigir o que é defeituoso para que este encontro de células seja possível e eficaz.

Será que se deve admitir que a medicina interfira num processo quando não há razões médicas para tal?

A nossa sociedade está em constante mutação. A família nuclear, pai, mãe, filhos, tem sofrido mudanças na sua composição. Há famílias com vários pais e várias mães, famílias só com um pai ou só com uma mãe e famílias com dois pais e duas mães.

Olhemos para
"A Convenção sobre os Direitos da Criança":
(…)
Artigo 7
1. A criança é registada imediatamente após o nascimento e tem desde o nascimento o direito a um nome, o direito a adquirir uma nacionalidade e, sempre que possível, o direito de conhecer os seus pais e de ser educada por eles. (…)

É verdade que as mulheres e os homens têm direito a querer ter filhos, a amá-los e a educá-los, e não é a orientação sexual de um determinado indivíduo que o impede de ter essas capacidades e esses desejos.

Mas a criança que vai nascer também tem direitos. No estado actual do conhecimento não há dados que nos permitam assegurar que o comportamento futuro de crianças filhas de casais homossexuais possa ser diferente do das crianças filhas de casais heterossexuais. No entanto, e sempre que possível, o modelo emocional, comportamental e social que se tenta providenciar a todas as crianças é aquele que tem uma figura paterna (masculina) e materna (feminina) porque se pensa, pelo menos por enquanto, que é o ambiente mais saudável para a formação de um ser humano.

É difícil ter certezas nestas matérias, e os argumentos de que é melhor ter dois pais ou duas mães do que estar num orfanato são totalmente falaciosos. Neste caso está a escolher-se um mal menor, que não me parece o mais adequado para consagrar na lei.

Dá-me a sensação que a nossa sociedade europeia de países ricos está a transformar os filhos em mais um bem de consumo. Não sou minimamente fundamentalista mas nestas situações tendo a ser conservadora e acho que a cautela legislativa é de elementar bom senso.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...