
poema de
José Manuel Jesus Monteiro
fotografia de
Micha Gordin
Crowd
1.
De sol a sol recurvado,
Com as mãos cheias de calos,
Presto jeiras ao Senhor.
Crio o gado, limpo o mato,
Sego o trigo, depois ato,
Sinto as fúrias do calor.
Na eira malho a preceito,
Da figueira colho o fruto,
A secar o estendo a jeito
E depois meto na arca.
Doze Servos, sete Bispos,
Três Senhores e um Monarca.
Nos três dias do entrudo
Como muito e bebo mais,
Faço doestos, graçolas:
Nestes dias vale tudo.
Faço jejum, dou esmolas,
Vou à missa ouvir sermões,
Dízima dou, compro bula,
Digo amem, curvo a cerviz,
Confesso o que nunca fiz:
É o tempo quaresmal.
Doze Monges, sete Vigários,
Três Arcebispos e um Cardeal.
2.
Tomo a lança pela enxada,
Pelo arado tomo a besta,
Pelo saiote, a armadura.
Do céu aceito a ventura,
Co’a cruz no peito e na testa,
Se lutando achar a morte.
Co’ Afonso desço do norte
Tomo o Tejo até à foz,
Serpa, Moura e Badajoz,
Com Geraldo sou bandido.
Doze Gritos, Sete Ais
Três Suspiros e um Gemido.
Com o Tejo lá tão longe,
Só vejo água noite e dia.
Quando, em terra, lanço o ferro
Nas coxas de uma gentia.
Com o Mendes Pinto dou,
Na velha terra dos Chins,
Grandes gritas, fico mudo.
Com Faria sou pirata
Roubo ouro, roubo prata,
Tendo ido além de tudo:
De mim e do Bojador.
Doze Marujos, sete Batéis,
Três Tempestades, um Adamastor.
3
O sambenito me vestem,
Levo uma vela na mão,
Por culpas de judaísmo,
Cristão-novo seja ou não,
Levam-me ao auto de fé.
Rompe em folgança a ralé,
Distraem-se a Corte e o Rei
Co’espetáculo que se vê.
Em fumo me tornarei,
Que a humana carne cheira.
Doze Judeus, sete Bruxas,
Três Archotes e uma Fogueira.
O Guiça mata o Rei.
Alguns choram, outros dançam:
A política é de loucos.
Cai a Monarquia aos poucos,
Ninguém lhe pode valer.
Eu próprio, que nem sei ler,
Sei bem como é urgente
Ao povo dar instrução,
Fazendo desta Nação
A mesma, mas diferente.
Doze Escolas, sete Oficinas,
Três Sindicatos, um Presidente.
4
Sou rapaz, quase menino,
Vou à guerra sem querer.
Infeta-me o paludismo
Nas bolanhas da Guiné.
Perco um braço em Moçambique,
Em Angola deixo um pé.
A mim próprio me pergunto
A razão de tanto mal,
A mim, que mato em Mueda
E morro em Vila Cabral.
Doze Soldados, sete Furriéis,
Três Majores e um General.
Mas a sombra, mas o medo,
Censura o que digo e faço.
Conspiro mas em segredo,
Pra viver falta-me espaço,
Clandestino, estou em mim.
Suporto, tristeza vil,
Do poder a mão pesada.
Mas num mês chamado abril
Ergo a voz na madrugada,
Grito basta, digo não.
Doze Soldados, sete Marinheiros,
Três Capitães, uma Revolução.
5
Do negro, me visto agora,
Da fome que dá vergonha.
Só vejo no ar morcegos,
Corvos, vampiros, falcões:
De ganância estou cercado!
São políticos os cegos
Que só pensam em cifrões.
Da saúde, paz e pão,
Do trabalho e educação,
Aos poucos, estou privado!
Doze Investidores, sete Fundos,
Três Banqueiros e um Mercado.