25 setembro 2011

O Povo, sou eu

 



poema de


José Manuel Jesus Monteiro


fotografia de


Micha Gordin


Crowd


 


1.


De sol a sol recurvado,


Com as mãos cheias de calos,


Presto jeiras ao Senhor.


Crio o gado, limpo o mato,


Sego o trigo, depois ato,


Sinto as fúrias do calor.


Na eira malho a preceito,


Da figueira colho o fruto,


A secar o estendo a jeito


E depois meto na arca.


Doze Servos, sete Bispos,


Três Senhores e um Monarca.


Nos três dias do entrudo


Como muito e bebo mais,


Faço doestos, graçolas:


Nestes dias vale tudo.


Faço jejum, dou esmolas,


Vou à missa ouvir sermões,


Dízima dou, compro bula,


Digo amem, curvo a cerviz,


Confesso o que nunca fiz:


É o tempo quaresmal.


Doze Monges, sete Vigários,


Três Arcebispos e um Cardeal.


 


2.


Tomo a lança pela enxada,


Pelo arado tomo a besta,


Pelo saiote, a armadura.


Do céu aceito a ventura,


Co’a cruz no peito e na testa,


Se lutando achar a morte.


Co’ Afonso desço do norte


Tomo o Tejo até à foz,


Serpa, Moura e Badajoz,


Com Geraldo sou bandido.


Doze Gritos, Sete Ais


Três Suspiros e um Gemido.


Com o Tejo lá tão longe,


Só vejo água noite e dia.


Quando, em terra, lanço o ferro


Nas coxas de uma gentia.


Com o Mendes Pinto dou,


Na velha terra dos Chins,


Grandes gritas, fico mudo.


Com Faria sou pirata


Roubo ouro, roubo prata,


Tendo ido além de tudo:


De mim e do Bojador.


Doze Marujos, sete Batéis,


Três Tempestades, um Adamastor.


 


3


O sambenito me vestem,


Levo uma vela na mão,


Por culpas de judaísmo,


Cristão-novo seja ou não,


Levam-me ao auto de fé.


Rompe em folgança a ralé,


Distraem-se a Corte e o Rei


Co’espetáculo que se vê.


Em fumo me tornarei,


Que a humana carne cheira.


Doze Judeus, sete Bruxas,


Três Archotes e uma Fogueira.


O Guiça mata o Rei.


Alguns choram, outros dançam:


A política é de loucos.


Cai a Monarquia aos poucos,


Ninguém lhe pode valer.


Eu próprio, que nem sei ler,


Sei bem como é urgente


Ao povo dar instrução,


Fazendo desta Nação


A mesma, mas diferente.


Doze Escolas, sete Oficinas,


Três Sindicatos, um Presidente.


 


4


Sou rapaz, quase menino,


Vou à guerra sem querer.


Infeta-me o paludismo


Nas bolanhas da Guiné.


Perco um braço em Moçambique,


Em Angola deixo um pé.


A mim próprio me pergunto


A razão de tanto mal,


A mim, que mato em Mueda


E morro em Vila Cabral.


Doze Soldados, sete Furriéis,


Três Majores e um General.


Mas a sombra, mas o medo,


Censura o que digo e faço.


Conspiro mas em segredo,


Pra viver falta-me espaço,


Clandestino, estou em mim.


Suporto, tristeza vil,


Do poder a mão pesada.


Mas num mês chamado abril


Ergo a voz na madrugada,


Grito basta, digo não.


Doze Soldados, sete Marinheiros,


Três Capitães, uma Revolução.


 


5


Do negro, me visto agora,


Da fome que dá vergonha.


Só vejo no ar morcegos,


Corvos, vampiros, falcões:


De ganância estou cercado!


São políticos os cegos


Que só pensam em cifrões.


Da saúde, paz e pão,


Do trabalho e educação,


Aos poucos, estou privado!


Doze Investidores, sete Fundos,


Três Banqueiros e um Mercado.


 

2 comentários:

  1. Agradeço a publicação do meu poema, mas lamento o facto de não ter sido mantida a estrutura original, o que lhe retira a sua beleza rítmica e formal.

    José Monteiro

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    Respostas
    1. José Monteiro, lamento o erro e peço desculpa. Devo ter copiado de alguém e replicado a alteração da estrutura, sem intenção. Agradeço que me corrija ou me diga onde posso encontrar o seu poema, que considero lindíssimo. Mais uma vez desculpe e obrigada.

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