31 dezembro 2007

Travessia

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar

Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver

(Milton Nascimento & Fernando Brant; canta Milton Nascimento)

Canción de las simples cosas

Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,

lo mismo que un árbol en tiempos de otoño muere por sus hojas.

Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,

esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.



Uno vuelve siempre a los viejos sitios en que amó la vida,

y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas.

Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,

que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.



Demórate aquí, en la luz mayor de este mediodía,

donde encontrarás con el pan al sol la mesa servida.

Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,

que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.




(Armando Tejada Gómez
& César Isella; canta Mercedes Sosa)

Libertango



Astor Piazzola - Libertango

Mau negócio

Gostaria de ter visto, ou ouvido, ou lido, alguns dos que apressadamente concluíram a existência de obscuros e lucrativos negócios entre o governo e as entidades privadas de saúde, na altura em que se noticiou a reorganização das urgências hospitalares, comentarem esta notícia do DN.

Afinal o negócio não é assim tão bom para os privados. Pelos vistos eles não tencionam investir nessas zonas. Até as Misericórdias vão ponderar.

Se a reorganização do serviço público está a ser ou não bem feita, é discutível. Agora os seus objectivos não me parecem assim tão tenebrosos e tão favoráveis aos interesses privados, como alguns anunciavam.

Rituais

No cuidado com que escolheu a garrafa de champanhe, a carne tenra para cortar em cubos e misturar nos molhos mais variados, os vários tipos de alface, a ideia para a sobremesa, apercebeu-se de que os rituais, por muito que não lhes ligasse importância, reclamavam a sua hora.

De um segundo para o outro iria saltar um ano. Até conseguiu antecipar um frémito de emoção quando, no primeiro dia do próximo ano, se instalasse confortavelmente no sofá para assistir a outro ritual: o concerto de ano novo.

Desejou intimamente que o ano a iniciar brilhe e que traga um novo fôlego para o dia a dia.

30 dezembro 2007

Balanços

Eu sou apologista de fazer balanços. Penso mesmo que é inevitável. Podem utilizar-se datas certas ou irregulares, fazer balanços cíclicos ou esporádicos, mas todos nós fazemos balanços dos mais diversos aspectos da vida, diariamente, pois é assim que tomamos decisões.

Para mim este ano que passou foi de grandes mudanças e emoções. Difícil mas estimulante, acabaram-se umas coisas e começaram-se outras.

Se calhar quem mudou mais até fui eu. Temos tendência a atribuir as alterações da nossa vida a estímulos exteriores, mas a verdade é que nós também mudamos a forma de olhar e valorizar os acontecimentos, as pessoas, a importância e prioridade dos primeiros, os valores e princípios das segundas.

As mudanças fazem-se após momentos de crise e revolução interior. Em nós, em termos orgânicos e comportamentais, tal como nas sociedades que construimos e conservamos.

Talvez o país vá mudar, pois está já em crise há demasiado tempo. Quem sabe se 2008 não será o ano da verdadeira, radical, estimulante e esperançada mudança?


(escultura de Ron Whitacre: balance)

29 dezembro 2007

Blogue permissivo

Aqui, pode fumar, beber, comer, conversar, enfim, o que lhe apetecer.

Será?

Será que, após o anúncio do nome de Faria de Oliveira para a presidência da CGD, Luís Filipe Menezes acha que Vítor Constâncio já não precisa ser demitido?

Agitação

Continua a manipulação política e jornalística em volta dos encerramentos dos Serviços de Atendimento Permanentes (SAPs).

Às notícias que dão conta das contas que os doentes terão que pagar aos bombeiros voluntários para ir à urgência mais próxima, não há ninguém que pergunte se os valores não serão idênticos aos que eram pagos quando os doentes que verdadeiramente necessitavam de cuidados de urgência tinham que ser enviados para o hospital. E também ninguém pergunta quantos doentes verdadeiramente urgentes eram atendidos nos SAPs e quantas situações verdadeiramente urgentes eram tratadas nos SAPs.

Porque essa é a verdadeira questão. Se as populações com os SAPs abertos toda a noite, com um médico e/ou um enfermeiro num local sem capacidade para resolver problemas urgentes de saúde estavam mais bem atendidos ou teriam melhor qualidade e maior brevidade no atendimento.

Se os milhões de euros que se poupam servem para financiar a abertura de Unidades de Saúde Familiares, investindo no aumento da capacidade de atendimento das pessoas doentes, sem que elas necessitem de recorrer a um serviço de urgência, investindo em ambulâncias com suporte básico de vida, bem apetrechadas, rápidas e com pessoal formado, é o que se pede a um ministro e a um governo responsáveis.

Esta reorganização estava agendada e decidida, apoiada por relatórios que, de início, foi incontestada tecnicamente e que, agora, é contestada de uma forma demagógica e populista.

Chega-se ao ponto de se dizer que Arlindo Carvalho teria afirmado que reabriria as urgências que estão a ser encerradas quando, EU OUVI, ele apenas disse generalidades sobre reaberturas dos processos e reavaliações sobre o que se estava a fazer, não se comprometendo nunca a alterar fosse o que fosse.

Em Portugal é preciso é agitar as massas com generalidades gritantes e que movimentem muitos braços, muitas línguas e muitos corações, que alimentem ares indignados, espantados e circunspectos. A realidade é outra coisa muito mais desinteressante.

27 dezembro 2007

Aniversário

Somam-se folhas no romance que criamos
cavam-se rugas merecidas
abrem-se feridas beijam-se feras
costuram-se almas desfiguradas.

Pelo uso e desuso pelo tempo que perdemos
colamos cacos que desfizemos

e no fim dos dias descansamos.


(pintura de Eric Wakefield: birthday paintings - roger's cake)

Notícias

Há dias que ficam marcados pelas primeiras notícias, outros que ficam marcados por algumas notícias.

Ingrid Betancourt fez 46 anos a 25 de Dezembro. Há vários anos em cativeiro, esta combatente pela liberdade e pela democracia esvai-se nas caminhadas, na falta de tudo o que nós damos por garantido. Todo o dia me acompanharam as palavras húmidas da mãe, as palavras doloridas, quase resignadas dela própria, escritas na última prova de vida.

Hoje, numa pausa entre vários assuntos de trabalho, li nos jornais online que Benazir Bhutto tinha sido assassinada, ao mesmo tempo ou depois de um atentado suicida. Finalmente conseguiram calar uma voz incómoda, reduzir a nada as eleições que estavam marcadas para Janeiro e elevar outra vez ao rubro a tensão naquela parte do mundo.

Será que o regime democrático está agonizante? Há um recrudescimento dos fundamentalismos, da violência como arma política, do primado despudorado do poder económico, do dinheiro, proveniente de negócios escuros e pantanosos, do tráfico de armas, de bens, de pessoas, de drogas.

O que se está a passar, ou já se passou, com o BCP é assustador. Não porque chegamos à conclusão de que a corrupção é uma constante nas esferas onde se trocam dinheiro e influências, mas porque percebemos que só se sabem e só se comentam estes casos porque alguém resolveu dar informações a outro alguém e não porque há moralidade, ética ou, em última análise, justiça.

Os negócios políticos entre o PS e o PSD estão agora a dar os seus frutos. Os acordos de cavalheiros em que se mexe ou não em determinados assuntos, para assegurar que eles e só eles partilham o banquete de príncipes, determinam distorções da representatividade democrática e dos direitos de cidadania, ao acabarem com os partidos que têm menos de 5000 assinaturas. Ninguém percebe qual é a justificação para esta medida ou seja, todos percebem que é injustificável.

Amorfos e adormecidos pelas festas de quem não sabe festejar, vamos levando o dia a dia, cada vez mais a preto e branco, crentes ou ateus na nossa impotência.

Assim foi 2007, e assim será 2008. Ou não?

24 dezembro 2007

Romance Tradicional

Um pastor vindo de longe
À nossa porta bateu;
No seu recado nos disse:
- O Deus-Menino nasceu

Esse recado escutámos
Já meia-noite seria.
Estrelas do céu, lá vamos
Dar parabéns a Maria.
Mas que havemos de levar
A Jesus que tudo tem?
Quem tudo tem também gosta
Que alguma coisa lhe dêem.
- Eu lhe levo um cordeirinho,
O mais lindo que encontrei!
- E eu lhe levo um requeijão,
O melhor que requeijei.
- Pois também comigo levo
Fofinhos, se ele quiser,
Bons merendeiros de leite,
E mel para ele comer!
Vamos ter com os mais pastores,
Não se percam no caminho.
Vamos todos mui dapressa,
Adorar o Deus-Menino.
- Vinde todos, pastorinhos,
Vinde, correi a Belém;
Vinde visitar Maria
Que divino Filho tem.

Esta noite é santa noite,
Quente, quente, embora fria.
Vamos todos a Belém
Visitar Jesus, Maria.

- Ai que formoso Menino!
Ai, a graça que ele tem!
Ai, que tanto se parece
Com Senhora Sua Mãe!...


[poema de José Régio (?); Oficina da Terra: presépio]

23 dezembro 2007

Flexisegurança

Muito gostam alguns partidos, nomeadamente o CDS, o PSD e o PS, de falarem da rigidez das leis laborais, principalmente no que diz respeito à dificuldade de despedimento dos trabalhadores.

Num programa de há alguns dias, na RTP-N (Pontos de Vista), o representante do PSD citava um estudo que demonstrava as diferenças abissais entre as leis laborais em Portugal e na restante Europa, nomeadamente em Espanha que, segundo ele, também as tem muito quadradas.

A moderadora (Sandra Sousa) informou-o que o mesmo estudo comparava as taxas de criação de emprego em Portugal e na restante Europa, ficando Portugal à frente da Alemanha, que tem uma legislação muito mais flexível.

Mas o representante do PSD não esmoreceu e, defendendo que a criação de emprego em Portugal era feita apenas à custa de empregos precários e de baixa formação, que Portugal tem que obrigatoriamente reduzir, segundo ele, cantou loas ao futuro e ao estado da arte do emprego na Europa, ou seja à flexisegurança.

Mas há uma coisa que eu não percebo nesta argumentação. Segundo o que tenho lido o conceito de flexisegurança é, precisamente, um aumento da capacidade de mobilização das pessoas pela facilidade de ser despedido de uma empresa e ser admitido noutra, assegurando o Estado um provento económico nos intervalos.

Isto parece-me a própria essência da precaridade do emprego. Por outro lado, como é que este sistema melhora as qualificações do trabalhador? Já não falando da mais que provável incapacidade do estado em aguentar tanta segurança flexível.

Compreendo a necessidade de alterar a legislação laboral. O emprego é um bem escasso e, portanto, quem o consegue tem obrigação de lutar por ele e de o manter, numa ou noutra empresa. O conceito de uma competência para sempre já se modificou: temos que ter a noção de que poderemos ter que nos adaptar e adquirir competências em áreas diferentes ao longo da nossa vida profissional.

Mas não inventem palavras e fórmulas novas para mascarar o que é de sempre. É claro que a flexibilização das leis laborais serve o interesse dos empregadores, mais que o dos empregados, e que isso é fruto da escassez de um bem precioso – o trabalho.

[Pintura de Fernand Léger: L'équipe au repos (Etude pour les Constructeurs)]

Boas Festas (2)

Ouvi outro dia, a propósito da situação no BCP, dizer que este deveria informar o mercado não sei de quê. Claro que comecei logo a escrever Mercado com letra maiúscula. É um ser omnipotente, omnipresente mas não omnisciente, pois tem que ser informado.

Também ouvi, ontem, durante uma acesa discussão sobre o referendo ao Tratado de Lisboa, a necessidade e/ou a legitimidade da ratificação, o significado da não ratificação, a representatividade das estruturas cimeiras da União Europeia, que essas Instituições e a Europa têm vontade própria e capacidade de elaborar tratados e de incluir ou excluir da sua vida os povos, cujo entendimento não atinge estes intrincados assuntos.

Resta-me estender a estas misteriosas e autoritárias entidades os votos de Feliz Natal, se bem que não entendo como se casam o Mercado com as cidades de lona que vão crescendo no país mais rico do mundo, que não tem protecções sociais para os deserdados da Fortuna (mais uma entidade), onde o Mercado tem plenos e alargados poderes; ou como se ligam conceitos de Mercado, desemprego e inexistência de salário mínimo nacional, assunto muito discutido entre alguns bloguistas, que até conseguem defender que haveria sempre alguém disponível para trabalhar a troco de comida, ou de cama, mesa e roupa lavada, ou de qualquer outra protecção neofeudal.

Mas claro que isto sou eu a tresler.

Boas Festas (1)

Não sou particularmente fã desta época, em que mais do que nunca se evidenciam as hipocrisias sociais e pessoais, as falsas solidariedades e a capacidade que o ser humano tem de fazer muito ruído para não ouvir o essencial, onde quem está só ou doente ainda se sente mais só ou mais doente.

No entanto existem muitas pessoas que, nestes dias e nos restantes dias do ano, trabalham, estudam, dão generosamente o seu tempo e as suas capacidades na tentativa de construção de uma sociedade mais justa. São nesses que penso quando vejo os restos da orgia consumista pelas ruas, a 25 de Dezembro, quando envio mensagens a quem passa a consoada vigilante, nas ruas, nos hospitais, nos lares, a quem nos assegura uma ceia farta e saborosa.

A todos os amigos que tenho, e eles sabem bem quem são, desejo um Natal tranquilo e leve, na companhia de quem mais gostarem.

J. S. Bach - Missa em Si menor, BWV 232

Bach usa linhas melódicas que repete em vários tons e cambiantes, interligando as notas e os instrumentos com uma exactidão quase matemática que, servidas por um coro e uma orquestra excepcionais, fazem de um concerto uma experiência quase mística.

A música como redenção de um tempo materialista, individualista e competitivo, a mostrar-nos que os caminhos da arte são os que unem, são os que abrem a mente para dentro e para fora de nós, para os outros.

22 dezembro 2007

Osso buco

São 10 horas da manhã de um sábado véspera de Natal. Apesar de tudo, as compras da semana e as compras para as festanças natalícias, Consoada de 24, dia de 25 e restantes dias até ao fim-de-semana seguinte, têm de ser feitas, custe o que custar.

Pega na carrinha e, com a calma possível, ao chegar ao hipermercado, único local onde cortam a carne exactamente como deve ser, arranja um lugar de estacionamento com relativa facilidade. As caves ainda não estão interditas.

Moeda no carrinho e é vê-lo destemido e rápido, mexendo determinadamente as pernas, empurrando o carrinho com firmeza, a dirigir-se como uma flecha certeira para o balcão das carnes, que fica na outra ponta do hipermercado. Mas conhece-o como a palma das mãos e não há canto de agricultura biológica, nem área de detergentes para lãs que desconheça. Troca simpaticamente de sacos com uma senhora avantajada, pesa rapidamente limões e escolhe as batatas com a certeza de quem sabe o que faz.

Em completa subjugação, a esposa segue a energia deste dono de casa como um cordeirinho, comprando sob as suas ordens queijos, leite e ovos. Até a arrumação dos sacos, após uma hora na fila da caixa registadora, ou não fosse Natal, é organizada segundo um método de gestão de alimentícios de quem tem mestrado e doutoramento.

É deliciosamente arrasador.

Alternativa para almoço de Natal -
Osso Buco (4 pessoas):



  • 4 cenouras médias, sem pele, cortadas aos bocados



  • 4 tomates, sem pele nem sementes, cortados da mesma maneira



  • 4 aipos/alhos franceses, também cortadas



  • 4 cebolas médias, (o mesmo)



  • 1 dente de alho e azeite



  • 4 rodelas de osso buco (carne do pernil da vitela, cortado perpendicularmente)



Levam-se os legumes com o azeite e o alho ao lume brando, numa grande panela, durante 30 minutos.

Juntam-se as rodelas de carne e 1 copo (ou 2) de vinho branco (ou tinto), sal e pimenta; deixa-se cozer tudo, em lume brando, durante 1 hora. Mexe-se de vez em quando e se estiver sem molho, acrescenta-se vinho; prova-se e rectificam-se os temperos.

Acompanha-se com esparguete ou puré de batata, ou batata cozida, e um bom vinho tinto.

21 dezembro 2007

BCP em maus lençóis

Que grande confusão que vai pelo BCP.

Então e o Governador do Banco de Portugal só agora dá pelo imbróglio?

Fazer sentido

Também não sei o que é o verdadeiro espírito de Natal. De ano para ano agrava-se a vontade de me encolher a um canto e dormir, com a hora do despertar lá para meio de Janeiro.

E no entanto, o ritual das couves e do bacalhau, das rabanadas e da aletria, da mesa que se põe vagarosamente, da cozinha envolta em bruma nevoenta de vapor d’água e de cheiros, a sensação de estar a fazer o que é certo quando se abre a porta à família, dos encontros com os amigos a sério, a quem se deseja a sério que tudo lhes corra bem, nem que seja neste intervalo quase virtual, quase verdadeiro, esta sensação não passa, apenas se aprofunda de ano para ano.

Quando a cidade está em silêncio, à noite, e rodamos pelas avenidas ladeadas de árvores luminosas, com o barulho dos pneus nos restos da chuva, parece que a paz é possível, que há uma regra misteriosa e universal a que obedecemos, que nos torna ligeiramente melhores, por alguns instantes, aqueles maravilhosos instantes em que tudo parece fazer sentido.

20 dezembro 2007

Bastidores

Esta época de filas intermináveis de trânsito, de acotovelamentos sucessivos e desagradáveis, de toneladas de papel de embrulho a restolhar, de melopeias inaguentáveis, luzinhas a tremeluzir, musgo de plástico e Pais Natal pendurados nas janelas, oblitera totalmente qualquer resquício de boa vontade, tolerância e sentimentos de abnegação.

E no entanto, o esforço de tanta gente que trabalha o dobro ou o triplo que nos restantes dias do ano, que nos atura o enfado e as queixas, que se levanta de noite para bater massas e fritar filhós, para demolhar o pão e misturar leite e farinha, para matar leitões e perus, para nos transportar em segurança e nos proporcionar um Natal tradicional, sufocante, verde, vermelho e indispensável, que nos trata as indisposições, é esquecido e passa nos bastidores das prendas, pelas traseiras das nossas vidas.

(In)Competência?

O Tribunal Constitucional chumbou algumas normas da proposta de lei sobre o regime de vínculos, carreiras e remunerações na Função Pública, dando razão às dúvidas do Presidente da República, partidos da oposição, Juízes, etc.

Tudo normal em democracia, só demonstrando que os mecanismos de vigilância e compensação funcionam.

Mas não poderiam (o PS e o governo) ter sido evitadas estas inconstitucionalidades? O partido do governo e o próprio governo não têm juristas? Estão todos distraídos?

17 dezembro 2007

Sementes

Encosto o corpo à terra
sinto o pulsar do mundo
estou cega surda muda
na pele a vida enrugada.

Pelas veias corre o tempo
crescem árvores e dedos
sou ninho pássaro vento
noutras asas semeada.

(pintura de Christopher Reilly: Untitled Seed Branch)

16 dezembro 2007

Ave Maria

Ave Maria, gratia plena,
Dominus, tecum,
benedicta tu in mulieribus
et benedictus fructus ventris tui, Iesus.
Sancta Maria, sancta Maria,
Maria, ora pro nobis nobis peccatoribus,
nunc et in hora, in hora mortis nostrae.
Amen! Amen!

(Charles Gounod/J. S. Bach: Ave Maria; canta: José Carreras)

Ave Maria

Ave Maria
Gratia plena
Maria, gratia plena
Maria, gratia plena
Ave, ave dominus
Dominus tecum
Benedicta tu in mulieribus
Et benedictus
Et benedictus fructus ventris
Ventris tuae, Jesus.
Ave Maria

Ave Maria
Mater Dei
Ora pro nobis peccatoribus
Ora pro nobis
Ora, ora pro nobis peccatoribus
Nunc et in hora mortis
Et in hora mortis nostrae
Et in hora mortis nostrae
Et in hora mortis nostrae
Ave Maria

(Franz Schubert: Ave Maria; canta Kiri Te Kanawa)

Cabo Verde – Contos em Viagem

A viagem dos caminhos, a viagem das letras, das palavras, dos gestos, das histórias, do espaço, do mar, a viagem da vida que esperamos e da vida que temos e da vida que sonhamos, a viagem da luz, do som, dos objectos que nos compõem.

A viagem feita de fragmentos de contos, de fragmentos de poemas, de fragmentos de barcos, dos cais das partidas e das esperas, dos cais das vidas que começam e que acabam, das pessoas, das famílias, das raças, dos corpos.

A viagem dos actores e dos espectadores, a viagem de quem concebe e de quem interpreta, a viagem em comunhão, num palco quase oratório em que os fiéis participam na celebração.

O cenário despojado, minimalista, de fragmentos de madeira, de sobreposições de parca matéria; a actriz despojada e descalça, em que o vestuário é um adereço e em que o corpo se transfigura e se transforma em fragmentos das múltiplas personagens que encarna, vibrante, cheia, dengosa, choramingas, dura, crispada, esperançosa, ingénua, criança e velha, da idade dos sonhos que perseguimos; o músico despojado e descalço, que usa os materiais mais simples para acompanhar e chamar os sons, as melodias, os ritmos, as ondas do mar, as gotas da chuva, que embalam o ritmo e a cascata das palavras; a luz discreta, velada, imprescindível.

No Teatro Meridional, neste espaço em que respiramos os valores que escondemos envergonhadamente na nossa imagem de profissionais responsáveis, de adultos cínicos e velhos, aquecido por uma espécie de salamandra gigante central, com uma luz coada e reconfortante, com uma exposição de fotografia de Patrícia Poção, Alma di Terra, com chá e café para aquecer, algumas mesas para conversar, neste espaço lúdico, simples e quase solene que nos aninha e onde regressamos ao melhor que somos.
  • Textos: António Aurélio Gonçalves, António Nunes, Baltasar Lopes da Silva/Oswaldo Alcântara, Fátima Bettencourt, Germano de Almeida, João Vário, José Lopes, Manuel Ferreira, Manuel Lopes, Orlando Pereira Ramos Rodrigues, Ovídio Martins
  • Selecção de textos, dramaturgia e assistência artística: Natália Luíza
  • Direcção cénica e desenho de luz: Miguel Seabra
  • Interpretação: Carla Galvão (texto); Fernando Mota (música)
  • Música original e espaço sonoro: Fernando Mota
  • Espaço cénico e figurinos: Marta Carreiras
  • Assistência de cenografia: Marco Fonseca
  • Fotografia de cena e Registo Vídeo: Patrícia Poção
  • Montagem: Rui Alves e Marco Fonseca
  • Operação técnica: Rui Alves
  • Assessoria de gestão: Mónica Almeida
  • Direcção de produção: Narcisa Costa

13 dezembro 2007

Medidas

Contabilizamos as horas o dinheiro as coisas
com que medimos a ideia de felicidade.

Mas desmedida é esta vontade de te amar
definitiva e absolutamente
como o querer dos sentidos
finitos

prementes.

Absurdamente presentes.


(pintura de Carol Little: wind in the maples)

Coisas fantásticas

Durante anos ouviram-se os elementos bem pensantes e comentadores deste país a perorarem contra a vergonhosa fuga aos impostos, contra a apatia da máquina fiscal, contra o estado que pactuava com os caloteiros.

Depois ouviram-se os mesmos bem pensantes e comentadores a perorarem a favor da excelência de Paulo Macedo, que o que ele ganhava não interessava porque era tão bom, e que todo o dinheiro era pouco para que os poucos desgraçados que pagavam se sentissem acompanhados pela fúria vingadora do país, encabeçado por Paulo Macedo.

Pois agora ouvem-se os ainda bem pensantes e comentadores a perorarem contra a máquina fiscal que está a esmagar e a levar à falência as pequenas e médias empresas, que é uma dos grandes causadores de instabilidade e das tensões sociais no país.

Há coisas fantásticas, não há?

E agora o referendo

Foi hoje assinado o Tratado de Lisboa, objectivo mais importante e quase único da Presidência Portuguesa da União Europeia. Portugal, pelas mãos do seu Primeiro-Ministro, cumpriu a sua promessa para com a Europa.

Esperemos que o Primeiro-Ministro também cumpra a promessa que fez aos portugueses que o elegeram e marque o referendo para ratificar, ou não, o Tratado de Lisboa.

O argumento falacioso e desonesto de que quem é a favor do referendo é contra o tratado vai fazendo caminho, de forma a poder conotar-se o reaccionarismo anti-europeu e o revivalismo nacionalista, de direita e de esquerda, com a defesa do “não” ao referendo.

O anúncio da realização do referendo é apenas a demonstração do respeito devido aos cidadãos e um exercício prático de democracia: convencer as pessoas da bondade do projecto para que elas o aprovem.

12 dezembro 2007

Monopólio (2)

Há algumas dúvidas básicas, muito básicas mesmo, que me assaltam de vez em quando. Uma delas é: para que servem os lucros obscenos dos bancos? O que é que fazem ao dinheiro? Para que serve? Para colocar numa conta do Banco a render?

Monopólio (1)

Quando leio notícias sobre fusões, compras e OPAs, em que gigantes empresariais se tornam cada vez mais gigantescos e engolem as grandes empresas, que entretanto já engoliram as pequenas, que de início tinham engolido as micro, sinto-me a viver dentro de um jogo de monopólio, estando sempre a ir de algum lado directamente para a cadeia, sem passar pela casa de partida, e a pagar o couro e o cabelo de cada vez que respiro, de cada vez que coloco um pé fora da porta, alugueres milionários de quem vai construindo hotéis, palácios, comprando continentes inteiros, que estão cada vez mais vazios.

11 dezembro 2007

Fantasmas

Naquele lugar vazio à minha mesa
estão os amáveis fantasmas familiares
os simpáticos defuntos que nos acompanham
para lá do amor e da raiva
dos desencontros da carne e do espírito.

Naquele lugar vazio à minha mesa
estão os fantasmas que ignoramos
os ausentes presentes que não se esquecem
para lá do amor e da raiva
entre cruzamentos desabrigados da alma.

Naquele lugar vazio à minha mesa
estão os olhares escondidos
que serenamente me contemplam
para lá do amor e da raiva
entre silêncios imutáveis rios de distância.

(ilustração de Filipe Franco: romãs)

O povo só atrapalha

Do pouco que vi do debate de ontem no Prós & Contras, o tratado de Lisboa foi defendido por Sérgio Sousa Pinto como se de uma questão de fé se tratasse. Ele crê na bondade e na necessidade deste desígnio europeu, com este modelo.

E com aquela superioridade moral de que são detentores todos os homens de fé, foi patente a sua irritação pela irritante persistência de quem caminha nas trevas e não vê a luz.

Este governo dificilmente referendará este tratado, pois a derrota é muito provável e José Sócrates e a própria UE já se comprometeram demasiado com esta solução.

Além disso, estas coisas finas negoceiam-se entre elites. Em democracia, o povo só atrapalha.

10 dezembro 2007

Formação e custos

A formação de médicos, aliás como a formação de qualquer profissional, tem custos. Com o modelo de gestão em que a produtividade e o bom funcionamento das empresas se mede quase só em números de consultas e tempos operatórios, não pode haver lugar à formação, pois quem aprende é mais lento, precisa de acompanhamento, pede mais exames complementares, gasta mais dinheiro.

Só que a formação contínua, pré e pós graduada, é imprescindível em qualquer profissão, nomeadamente na profissão médica.

Os custos inerentes à formação poderiam ser suportados pelo estado, com um orçamento que retirasse aos hospitais esse encargo. Os internos não estariam ligados a um só hospital mas prestariam serviço em vários hospitais, o que também permitiria uma formação uniformizada, disponível nas unidades mais apetrechadas e vocacionadas para o ensino, o que não significa obrigatoriamente instituições ligadas às Universidades. Teriam que ser instituições acreditadas por organismos externos, que tivessem actividade assistencial e de investigação em quantidade e variedade suficientes e um número de profissionais que permitisse dedicação à formação.

Aqui está mais um assunto de discussão premente.

Equidade na saúde

Num país em que se fazem grandes encontros e cimeiras vão-se esquecendo os problemas internos, ou faz-se o possível para não falar deles.

A discussão que se não faz sobre o papel do estado, sobre a escolha daquilo que o estado português deve ou não deve assegurar aos seus cidadãos, essa decisão que ninguém quer claramente assumir, esse é verdadeiramente um assunto de divisão ideológica que este governo deveria esclarecer.

Enquanto se assiste à amálgama em que se transformam os serviços públicos, cada vez mais turva e mais mole, haver hospitais que proíbem consultas a quem não pagou as taxas moderadoras, ou que apaguem ficheiros a quem tem dívidas de taxas moderadoras, é vergonhoso e merece que nos revoltemos.

Está definitivamente demonstrado que quem não tiver dinheiro para pagar as taxas moderadoras não tem direito às consultas no serviço nacional de saúde. E isso é intolerável porque divide os cidadãos em estratos dependentes do poder económico.

E não vale a pena sermos ingénuos e falsamente moralistas invocando o estatuto de caloteiros. Quem necessitar de pagar taxas moderadoras para as análises de rotina, marcadores tumorais, ECG, TAC, e consultas de especialidade, para além dos medicamentos e dos transportes até aos hospitais ou centros de saúde, principalmente se viver com baixos ordenados, fica mesmo a dever as taxas moderadoras.

Espero que o Sr. Ministro da Saúde seja veemente na condenação a esta vergonhosa visão da prestação de serviços públicos, já que célere foi pouco.

08 dezembro 2007

Se

Apesar do meu cepticismo e da ridícula pompa e circunstância da cimeira EU-África, espero que resulte alguma coisa de positivo.

É claro que os objectivos são económicos e que a Europa precisa de se expandir para África, até porque pode estar a perder a corrida com a China, como se comentava ontem no Expresso da Meia-Noite.

Mas se a reboque dos interesses económicos aumentar a visibilidade dos atropelos aos Direitos Humanos, da violência, da obscenidade da riqueza dos ditadores à custa da miséria dos cidadãos (décadas após os colonialismos e os racismos europeus), se por arrastamento a opinião pública se revoltar, se a abertura das sociedades civis à informação e a influência das democracias europeias melhorar as condições de vida dos povos, aumentando a exigência perante os seus torcionários, esta cimeira já terá valido a pena.

Contos sem história

Estamos tão preocupados e em fazer e ficar na História, como se alguém soubesse de antemão os factos que a marcam e mudam, que participamos nesta história em que há maus muito maus que vêm passear o seu mal, sem pedir desculpa, e há bons pouco bons que pedem desculpa por parecerem bons, e esticam os bons sentimentos de forma a conterem os imensos barris de maus sentimentos.

E que interessa isso para a História?

07 dezembro 2007

Boas práticas

Que o estado se preocupe em sensibilizar as famílias para uma alimentação saudável, para os perigos de uma vida sedentária, não faz mais que a sua obrigação.

Mas querer um código de boas práticas para as empresas que organizam festas infantis, para evitar e prevenir a obesidade infantil é assustador.

A febre da vida saudável, do homem novo, belo, limpo e esbelto continua, em rumo a uma sociedade que tudo regula, tudo impede, tudo estipula. Não tarda muito os doentes que fumam não serão tratados de cancro do pulmão, ou pagarão taxas e multas moralizadoras, os obesos não serão tratados da diabetes, as cáries dentárias serão consideradas consequência de má higiene dentária e, portanto, passível de aparecerem por responsabilidade própria, não devendo o seu tratamento ser comparticipado.

Aonde nos levará este totalitarismo dos vigilantes da moral e dos bons costumes do século XXI?

05 dezembro 2007

Marca genética

Na Quadratura do Círculo discute-se a remodelação governamental.

Parece-me que Pacheco Pereira e Lobo Xavier remodelavam o governo inteiro.

Jorge Coelho não tem opinião sobre remodelações porque o chefe (Sócrates) é que manda e decide. E decide sempre bem, claro, nem seria e esperar outra coisa (de Jorge Coelho e de Sócrates).

Pacheco Pereira anda há meses a dizer que todas as estatísticas são más para o governo, anda há meses, se não há anos, a falar da insegurança social e da catástrofe prestes a acontecer ao país.

Ele ainda não percebeu que o país sempre viveu assim. É a sua marca genética. Por isso é que tem sobrevivido aos governantes que por cá têm passado.

04 dezembro 2007

Lisboa

Se eles quisessem não conseguiriam ser piores. António Costa ainda não deve ter fechado a boca de espanto, tal é o embaraço de ter uma oposição assim.

Facilitar sim, mas tanto...

Sobras

Sobrou-me este sorriso. Não sei onde o guarde, se o pendure atrás da porta, se o arrume na gaveta do fundo.

Se calhar deixo-o na carteira. Sempre fica mais à mão.

03 dezembro 2007

Não me apetece

Não sei se me apetece escrever
ou sobre o que me apetece escrever
sei que estes dias tão iguais
tão vermelho esbatido e verde velho
tão folhas amassadas e pisadas
que são como as nossas almas de Outono
não sei mas tudo me parece liso e etéreo
mais pesado e mais real que o andar
que o comer que o falar
pois todos falamos com ar natural
mas por dentro apetece-nos o silêncio.

Não sei o que digo nem porque o estou a dizer
mas não me apetece
não me apetece
não me apetece.


Pintura de Salvador Dali: quadros bíblicos)

Se ficássemos

Se ficássemos por aqui devagar
como a chuva de Setembro
se ficássemos pelas mãos
de folhas e seda

tal como os medos que escondemos
se ficássemos só pelo olhar
só pela distância de um sinal
se ficássemos apenas sós
sem nos culpar
por nós

se ficássemos pelo que não tivemos
tal como o mundo que movemos
se ficássemos sem o sal
que arde nas feridas que sarámos
se ficássemos apenas sós
até que pudéssemos
ser nós.

(pintura de John Mars: Immeasurable)

01 dezembro 2007

Ponte

Quando chegar à borda do rio
e a alma cansada
repousar na frescura
do silêncio,
olharei sem mágoa
as folhas caídas
que atapetaram o caminho.


(pintura de George Ames Aldrich: bridge scene)

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...